
IMAGEM NO ESPELHO

Danielle Steel

Digitalizado por Katia Oliveira.
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Segredo de uma promessa
Segredos de amor
Tudo pela vida
Uma s vez na vida
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A ventura de amar
Zoya

IMAGEM NO ESPELHO
Traduo de
MARIA CLUDIA DE OLIVEIRA
2 EDIO - EDITORA RECORD RIO DE JANEIRO/ SO PAULO - 2000

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Steel, Danielle, 1948   Imagem no Espelho Danielle Steel; traduo
2ed. de Maria Cludia de Oliveira. - ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.
Traduo de: Mirror Image

1. Romance norte-americano. Oliveira, Maria Cludia de.  Ttulo.
Ttulo original norte-americano: MIRROR IMAGE
Copyright O 1998 by Danielle Steel
Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, no todo ou em parte, 
atravs de quaisquer meios.
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que se reserva a propriedade literria desta traduo
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s pessoas que amamos,
Aos sonhos que sonhamos
E s pessoas em que nos transformamos atravs do amor, 
se tivermos coragem.
 coragem,  inteligncia,  busca dos sonhos
e queles que nos ajudam na travessia da ponte
para alm de nossos medos, da esperana ao amor.
Aos grandes amores perdidos
e aos pequenos amores de luto, 
aos bons tempos conquistados, embora com tanto esforo.
s minhas filhas:
Beatrix, Samantha, Victoria, Vanessa e Zara, 
que seus sonhos possam ser realizados rpida e facilmente, 
e que suas escolhas sejam sbias.
Aos meus filhos: 
Maxx, que voc seja abenoado, corajoso, sbio, bom e sempre amado,
E Nick, uma ddiva, que foi corajoso e to, to amado.
Que todos os seus sonhos se tornem realidade um dia, 
e com sorte, algum dia os meus tambm.
Que todos vocs sejam muito amados por aqueles que amam. 
Amo-os com todo o meu corao.

Mame.















UM



       O som dos pssaros l fora era abafado pelas pesadas cortinas de brocado de Henderson Manor, enquanto Olvia Henderson, afastando uma mecha de seus longos 
cabelos escuros, continuava a fazer um inventrio cuidadoso das porcelanas de seu pai. Era um dia quente de vero e, como sempre, sua irm havia sado para algum 
lugar. Seu pai, Edward Henderson, aguardava a visita de seus advogados. Isolados como estavam em Croton-on-Hudson, a cerca de trs horas de carro de Nova York, os 
procuradores de seu pai vinham v-lo com freqncia. Edward Henderson dirigia daqui todos os seus negcios, alm de supervisionar as usinas de ao que ainda levavam 
seu nome, mas que no comandava mais.
       Ele havia se retirado inteiramente dos negcios dois anos antes, em 1911. Mantivera todas as empresas, mas delegara os poderes a seus procuradores e aos homens 
que dirigiam as usinas em seu nome. Sem filhos, no tinha mais o mesmo interesse nos negcios. As filhas jamais dirigiriam suas usinas. Tinha apenas 65 anos, mas 
sua sade comeara a piorar nos ltimos anos e ele preferia ver o mundo de seu pacfico retiro em Croton-on-Hudson. Ali podia observar o mundo com calma e dar para 
suas duas filhas uma vida saudvel e benfica. 
       No era muito excitante, elas tinham que admitir, mas jamais ficavam entediadas e tinham amigos em todas as grandes famlias acima e abaixo do Hudson. A propriedade 
dos Van Cordandt ficava prxima, assim como os Shepard em sua velha Lyndhurst. O pai de Helen Shepard, Jay Gouldn, morrera vinte anos antes e deixara a extraordinria 
propriedade para sua filha. Ela e seu marido, Finley Shepard, administravam-na maravilhosamente e com freqncia ofereciam festas para os jovens da regio. Os Rockefeller 
haviam acabado de construir naquele ano Kykuit, em Tarrytown, com seus esplndidos jardins e magnficos campos e uma casa que rivalizava com a de Edward Henderson, 
ao norte de Croton-on-Hudson.
       Henderson Manor era uma casa bonita e as pessoas vinham de longe para espiar seus adorveis jardins atravs dos portes. De onde elas ficavam mal podiam ver 
a casa, cercada por rvores frondosas e escondida atrs das curvas no caminho que levava  estrada. A casa ficava no alto de um penhasco, com uma ampla vista para 
o rio Hudson.
       Edward gostava de sentar-se em seu estdio durante horas, observando o mundo girar e relembrando os tempos passados, os velhos amigos e os dias em que sua 
vida se transformara rapidamente em um grande negcio... quando assumira o controle das indstrias do pai, na dcada de 1870... servindo de instrumento para as grandes 
mudanas industriais do fim do sculo passado. Sua vida havia sido muito ocupada ento. Quando era mais novo, havia sido bem diferente. Edward Henderson casara-se 
quando jovem e perdera a mulher e o filho pequeno de difteria. Depois disso ficara sozinho por muitos anos, at que chegara Elizabeth. Ela fora tudo o que qualquer 
homem poderia sonhar: um raio de luz brilhante e iluminado, um cometa em cu de vero, to efmera, to deslumbrante, to bonita e to dolorosamente passageira. 
Casaram-se no mesmo ano em que se conheceram Ela tinha 19 anos e ele estava com pouco mais de quarenta. Aos 21, ela se fora. Para horror de Edward, Elizabeth morrera 
ao dar  luz.
        Aps sua morte, ele comeara a trabalhar ainda mais, at ficar entorpecido. Havia deixado as filhas aos cuidados da governanta e de babs, mas acabara chegando 
 concluso de que era responsvel por elas. Foi quando comeou a construir Henderson Manor. Queria que as duas tivessem uma vida saudvel e benfica, fora da cidade. 
Nova York no era lugar para crianas em 1903. Elas tinham dez anos quando se mudaram para l e agora estavam com vinte. Ele mantivera a casa na cidade e trabalhava 
l, mas vinha v-las sempre que podia. A princpio apenas nos fins de semana, mas depois, quando se apaixonara pela casa, comeara a passar mais tempo no Hudson, 
mais do que em Nova York, Pittsburgh ou na Europa. Seu corao estava ali em Croton com suas filhas, enquanto ele as via crescer e pouco a pouco sua vida comeou 
a ficar mais calma. Ele amava estar com elas e agora nunca as deixava. 
       Nos ltimos dois anos, no tinha ido a absolutamente lugar algum. Sua sade comeara a piorar trs ou quatro anos atrs. Seu corao era problemtico, mas 
apenas quando trabalhava muito ou deixava algo aborrec-lo ou ficava terrivelmente irritado, o que raramente acontecia agora. Ele estava feliz em Croton com as filhas.
       Fazia vinte anos que a me delas morrera na primavera de 1893, num dia quente e cheiroso que parecera a ele a traio final de Deus. Ele ficara esperando 
l fora, cheio de orgulho e excitao. Nunca poderia sonhar que aquilo aconteceria novamente com ele. Sua primeira mulher e seu filho pequeno haviam morrido numa 
epidemia de difteria mais de uma dzia de anos antes. Mas, desta vez, perder Elizabeth tambm o havia matado. Aos 45 anos, era um golpe mortal para ele, que simplesmente 
no suportaria seguir adiante sem ela. Elizabeth morrera em sua casa de Nova York e no incio ele sempre sentia sua presena l. Mas depois de um certo tempo comeara 
a detestar o vazio da casa e odiava ter de estar l. 
       Depois disso viajara durante meses, mas evitar a casa significava evitar as duas garotinhas que Elizabeth lhe deixara. E ele tambm no seria capaz de vender 
a casa que seu pai construra e na qual ele mesmo crescera. Tradicionalista na essncia ele sentia a obrigao de mant-la para suas crianas. Finalmente deixou-a, 
fechada, e j havia dois anos desde a ltima vez em que estivera l. Agora que vivia todo o tempo em Croton, nunca sentia saudades. Nem da casa, nem de Nova York, 
nem da vida social que havia deixado por l.
       E enquanto zumbiam os sons do vero, Olvia continuava seu esmerado inventrio da porcelana. Ela usava longas folhas de papel, nas quais escrevia com sua 
letra meticulosa, tomando nota do que precisavam repor e do que devia ser colocado em ordem. s vezes ela mandava um dos empregados da casa  cidade para trazer 
algo, mas na maior parte do tempo a casa da cidade ficava fechada e elas nunca iam l. Ela sabia que seu pai no gostava. A sade de seu pai era frgil e, como ele, 
Olvia estava feliz aqui, com sua vida quieta em Croton-on-Hudson. Ela passara muito pouco tempo em Nova York desde criana, exceto o breve perodo, dois anos atrs, 
em que seu pai as levara a Nova York a fim de apresent-las  sociedade e a todos os seus amigos. Ela havia achado interessante, mas muito cansativo. Sentira-se 
esmagada pelas festas, o teatro, as constantes exigncias sociais. Era como se estivesse num palco todo o tempo, e detestara aquela ateno. Fora Victoria quem florescera 
ali e ficara num estado de total depresso quando retomaram para Croton no Natal.
       Olvia ficara aliviada ao voltar para seus livros, sua casa, seus cavalos, suas pacficas caminhadas no alto das colinas, que s vezes a levavam at as fazendas 
vizinhas. Ela adorava cavalgar aqui, escutar os sons da primavera, ver o inverno derreter-se vagarosamente, observar o esplendor das folhas caindo em outubro. Amava 
tomar conta da casa de seu pai para ele e o fazia desde que era uma garotinha, com a ajuda de Alberta Peabody, a mulher que as criara. Para elas Alberta era "Bertie" 
e o mais prximo de uma me que as garotas Henderson j haviam conhecido. Seus olhos eram ruins, mas sua mente era aguada e ela seria capaz de distinguir as duas 
jovens no escuro, de olhos fechados.
       Ela aproximou-se para ajudar Olvia e perguntou at onde tinha chegado. No tinha mais a pacincia ou os olhos para fazer este tipo de trabalho minucioso 
e sempre ficava muito grata quando Olvia o fazia para ela. Olvia checava cuidadosamente os bordados, os cristais, as roupas de cama e mesa. Prestava ateno em 
tudo e amava faz-lo, ao contrrio de Victoria, que detestava tudo o que era domstico. Victoria era absolutamente diferente de sua irm.
       - Bem, eles quebraram todos os nossos pratos ou ainda seremos capazes de receber para o jantar de Natal? - Bertie sorria enquanto segurava um copo de limonada 
gelada e um prato de biscoitos de gengibre que acabara de tirar do fomo. Alberta Peabody passara vinte anos cuidando das duas garotas que ela se acostumara a sentir 
como "suas crianas". Haviam se tomado suas quando nasceram. Ela jamais as deixara, nem mesmo por um dia, desde que sua me morrera e fora a primeira pessoa a olhar 
nos olhos de Olvia e perceber o quanto a amava. Bertie era uma mulher pequena e rechonchuda, com os cabelos brancos presos num pequeno coque atrs da cabea. Tinha 
um amplo busto, onde Olvia descansara a cabea durante a maior parte de sua infncia. Ela as havia confortado sempre que precisaram e sempre que seu pai no estava 
l, o que havia sido mais freqente quando eram menores. 
       Durante anos, ele chorara silenciosamente a perda de sua me e mantivera distncia. Mas se aproximara novamente delas nos ltimos anos e suavizara-se consideravelmente 
desde que sua sade comeara a se debilitar e ele se retirara dos negcios. Ele tinha um corao frgil, o que atribua ao choque e ao desgosto por ter perdido duas 
jovens esposas, agravado pela modernizao dos negcios. Ele era bem mais feliz agora do que quando dirigia os negcios, e tudo podia ser filtrado atravs de seus 
procuradores.
       - Precisamos de pratos de sopa, Bertie - comunicou Olvia solenemente, alisando novamente os longos cabelos negros, sem ter conscincia de sua surpreendente 
beleza. Ela tinha a pele de um branco cremoso, enormes olhos azul-escuros e cabelos finos e brilhantes, negros como um corvo. - Precisamos de pratos de peixe tambm. 
Vou encomend-los  Tiffany na prxima semana. Precisamos dizer s garotas na cozinha para serem mais cuidadosas.
       Bertie aprovou com a cabea, sorrindo para ela. Olvia poderia estar casada agora, poderia ter seus prprios pratos de sopa para contar, mas mesmo assim ainda 
estava aqui, absolutamente tranqila, tomando conta de seu pai, da casa e de todas as pessoas que viviam ali. Olvia no desejava ir a lugar algum. Ela nem mesmo 
pensava sobre isso. Era feliz aqui em Henderson Manor. Ao contrrio de Victoria, que falava constantemente sobre lugares distantes ao redor do mundo ou pelo menos 
na Europa. Ela fechava a cara toda vez que pensava na casa que estavam perdendo em Nova York e na diverso que poderiam ter por l.
       Olvia sorriu como uma criana para Bertie. Ela estava usando um vestido de seda azul-claro, comprido at os tornozelos, e parecia envolvida por um pedao 
de cu azul. Ela copiara o vestido de uma revista e mandara fazer numa costureira local. O design era Poiret, e parecia adorvel nela. Era Olvia quem sempre selecionava 
e desenhava os vestidos delas. Victoria no dava muita importncia a isso. Deixava Olvia escolh-los, principalmente, como ela mesma dizia, por Olvia ser a irm 
mais velha.
       - Os biscoitos esto muito bons hoje, no esto? Papai vai ador-los. - Olvia mandara faz-los especialmente para o pai e John Watson, seu principal procurador. 
- Devo preparar uma bandeja para eles ou voc j o fez?
       As duas mulheres trocaram um sorriso, nascido de anos de diviso de responsabilidades e deveres. Vagarosamente, ao longo dos ltimos anos, Olvia se transformara 
de criana em adolescente, ento numa moa e finalmente na senhora da casa de seu pai. Olvia tinha controle sobre tudo  sua volta e Bertie sabia disso. Ela respeitava 
o fato e agora pedia a opinio de Olvia na maior parte das vezes, embora jamais pensasse diferente dela, ou ainda a repreendesse quando saa na chuva ou fazia algo 
tolo e infantil, o que ainda acontecia mesmo aos vinte anos. Mas hoje em dia Bertie achava aquilo mais um alvio que uma preocupao. Olvia era to sria e responsvel 
que fazia bem a ela s vezes esquecer tudo o que deveria estar fazendo.
       - Preparei a bandeja para voc, mas disse a Cook que voc gostaria de arrum-la antes de servir - disse Bertie.
       - Obrigada. - Olvia desceu da escada graciosamente e beijou a face da velha mulher, enquanto passava seus longos e elegantes braos em tomo dela. Deixou 
a cabea cair sobre os ombros de Bertie por um instante, como uma criana e ento, depois de beij-la mais uma vez afetuosamente, correu para a cozinha a fim de 
cuidar da bandeja para seu pai e o advogado.
       Ela pediu uma jarra de limonada, um grande prato de biscoitos e pequenos sanduches de agrio e pepino, com fatias finssimas de tomates colhidos no prprio 
pomar. Havia tambm xerez e bebidas mais fortes, se preferissem. Tendo crescido na companhia do pai, Olvia no era o tipo de garota que se chocava com a idia de 
homens bebendo usque ou fumando charutos; na verdade, ela at gostava do cheiro, bem como sua irm.
       Depois de aprovar as toalhas e a bandeja de prata que Bertie separara, saiu da cozinha e foi encontrar o pai na biblioteca. As cortinas estavam abertas para 
manter o ambiente fresco. Elas eram de brocado, de um vermelho profundo com pesadas franjas e Olvia arrumou-as instintivamente enquanto olhava para o pai por sobre 
os ombros.
       - Como est se sentindo hoje, pai? Est terrivelmente quente, no?
       - Eu gosto disso. - Ele sorriu orgulhosamente da filha, atento a seus eminentes talentos domsticos.
       Ele sempre dizia que, se no fosse por Olvia, no poderia ter administrado a casa, ou pelo menos no to facilmente. Chegava a brincar dizendo que tinha 
medo de que um dos Rockefeller pudesse tentar, e conseguir, se casar com ela, de modo que assim ela pudesse administrar Kykuit. Ele havia estado l recentemente 
para ver a propriedade, e a casa que John D. Rockefeller construra era realmente espetacular. Tinha todas as facilidades possveis da vida moderna, incluindo telefones, 
aquecimento central e um gerador na cocheira. O pai de 
Olvia caoara, dizendo que eles haviam feito com que sua casa parecesse uma cabana rude, o que no era absolutamente o caso. Mas Kykuit era certamente seu maior 
vizinho.
       - Este calor  bom para meus velhos ossos - disse ele confortavelmente acomodado, acendendo um charuto, enquanto esperava pelo advogado. - Onde est sua irm? 
- perguntou casualmente.
       Sempre era fcil encontrar Olvia em algum lugar da casa, fazendo listas, escrevendo bilhetes para os empregados, checando algo que precisava ser feito ou 
arranjando flores para a mesa de seu pai. Mas Victoria era bem mais difcil de no perder de vista.
       - Acho que foi jogar tnis nos Astor - disse Olvia vagamente, sem ter a menor idia de onde ela estava, mas apenas uma vaga suspeita.
       - Tpico dela - disse ele, com um pesaroso sorriso para sua filha mais velha. - Acho que os Astor esto passando o vero no Maine bem como grande parte dos 
vizinhos. 
       Os Henderson tambm haviam ido para o Maine nos veres anteriores e Newport e Rhode Island, mas Edward Henderson no gostava mais de deixar Croton, mesmo 
no mais quente dos veres.
       - Desculpe, pai. - Olvia corou, embaraada com a mentira que contara para proteger a irm. - Achei que talvez eles tivessem voltado de Bal Harbor.
       - Estou certo de que achou. - Ele parecia se divertir. - E s Deus sabe onde est sua irm ou que travessuras anda fazendo. 
       Mas ambos sabiam que os caprichos de Victoria eram geralmente inofensivos. Ela era uma pessoa nica, cheia de esprito e determinao. Era to independente 
quanto sua me fora e de certa maneira Edward Henderson sempre suspeitara de que sua filha mais nova era levemente excntrica. Mas, desde que ela no fosse indulgente 
demais consigo mesma, isso era algo que ele podia tolerar, e ela no poderia se machucar demais ali. O pior que poderia acontecer era cair de uma rvore, ter uma 
prostrao por caminhar quilmetros at seu amigo mais prximo, ou nadar um pouco rpido demais no rio. Os prazeres eram verdadeiramente elegantes ali. Victoria 
no tinha romances nas vizinhanas e nenhum rapaz a perseguia, embora muitos dos jovens Rockefeller e Van Cordandt certamente tivessem mostrado considervel interesse 
por ela. Mas todos eram bem-comportados e at mesmo seu pai sabia que Victoria era muito mais intelectual que romntica.
       - Vou procurar por ela depois que deix-lo aqui - disse Olvia calmamente.
       Mas nenhum dos dois estava particularmente preocupado, quando a bandeja da cozinha chegou e ela disse ao garoto da cozinha onde coloc-la.
       - Vamos precisar de outro copo, minha querida - instruiu-a o pai, enquanto reacendia seu charuto e agradecia ao garoto cujo nome ele nunca se lembrava.
       Olvia conhecia todas as pessoas que trabalhavam para eles; sabia seus nomes, suas histrias, conhecia seus parentes, suas irms, seus filhos. Sabia de suas 
fraquezas e virtudes e de qualquer erro no qual incorriam ocasionalmente. Era de fato a senhora de Henderson Manor, talvez ainda mais que sua prpria me pudesse 
ter sido se estivesse viva. De certa forma, Olvia suspeitava de que sua me havia sido mais parecida com sua irm.
       - John vai trazer algum com ele? - Olvia parecia surpresa. 
       O procurador de seu pai normalmente vinha sozinho, exceto quando havia algum problema na usina e ela no sabia nada sobre isso desta vez. Normalmente seu 
pai dividia esse tipo de informao com elas. Tudo aquilo seria delas um dia, embora, mesmo que gostassem das usinas, as garotas fossem vend-las, a menos que se 
casassem com homens capazes de geri-las. Mas Edward considerava essa idia desagradvel. Seu pai suspirou sobre seu charuto, respondendo  pergunta.
       - Infelizmente, minha querida, John est trazendo algum hoje. Estou com medo de j ter chegado longe demais neste mundo. Sobrevivi a duas mulheres, um filho, 
meu mdico no ano passado, a maior parte de meus amigos na ltima dcada e agora John Watson me diz que est pensando em se aposentar. Est trazendo um homem que 
se juntou  firma recentemente, de quem ele parece ter uma boa impresso.
       - Mas John no  to velho assim - Olvia parecia surpresa e quase to perturbada quanto seu pai - e nem voc, portanto pare de falar assim. - Ela sabia que 
ele comeara a sentir-se velho desde que ficara doente e mais ainda quando se retirara dos negcios.
       - Eu sou velho. Voc no tem idia do que acontece quando todo mundo  sua volta comea a ir embora - disse ele, franzindo as sobrancelhas e pensando no novo 
advogado que no queria encontrar naquela tarde.
       - Ningum est indo a lugar nenhum, nem John, pelo menos por enquanto, tenho certeza - disse ela, tranqilizando-o, enquanto servia um pequeno copo de xerez 
e entregava a ele com o prato de biscoitos frescos de gengibre. Ele serviu-se de um e pareceu extremamente satisfeito quando olhou para ela.
       - Talvez ele acabe no indo embora, principalmente depois de provar estes biscoitos. Devo dizer, Olvia, que voc faz os empregados realizarem milagres naquela 
cozinha.
       - Obrigada. 
       Ela inclinou-se e beijou-o, e ele olhou para ela com todo o prazer que sentia a cada vez que a via. Ela parecia bastante confortvel e fresca mesmo num dia 
quente como aquele. Pegou para si um dos biscoitos de gengibre e se sentou perto dele, enquanto esperavam por John Watson.
        - Ento, quem  o novo homem? - perguntou ela, curiosa, aps alguns minutos. Ela sabia que Watson era um ou dois anos mais moo que seu pai, mas, para ela, 
ainda parecia muito jovem para se aposentar e sempre parecera muito jovial. Mas talvez estivesse sendo sbio em trazer algum novo para cuidar dos negcios antes 
que fosse tarde. - Voc j o viu antes?
       - Ainda no. Esta ser a primeira vez. John diz que ele  muito competente, principalmente quando se trata de negcios e parece que fez um bom trabalho com 
os bens dos Astor. Ele saiu de uma firma excelente para o escritrio de John e foi muito bem recomendado.
       - E por que ele mudou de escritrio? - perguntou ela, intrigada. Gostava de ouvir sobre os negcios do pai. Victoria tambm, mas ela era mais cabea quente 
em suas opinies.
       Algumas vezes os trs entabulavam discusses acirradas a respeito de certos assuntos, como poltica ou negcios, mas, no fundo, todos eles gostavam daquilo. 
Talvez porque no tivesse filhos, Edward Henderson amava discutir temas inteligentes com suas filhas.
       - De acordo com John, o novo advogado, Dawson, sofreu um pesado golpe no ano passado. Fiquei realmente triste por ele e acho que foi por isso que deixei John 
traz-lo...  o tipo de coisa que receio compreender bem at demais. - Ele sorriu tristemente para ela. - Ele perdeu a mulher no ano passado, no Titanic. Ela era 
uma das filhas de lorde Arnsborough e acho que tinha ido visitar a irm. Infelizmente, voltou no Titanic. Ele quase perdeu o filho tambm. Parece que tiraram o menino 
num dos ltimos botes salva-vidas. J estava muito cheio e a me colocou outra criana em seu lugar, dizendo que iria no prximo. Mas no havia prximo; ela estava 
deixando de entrar no ltimo bote salva-vidas. Pelo que entendi, ele deixou a firma em que trabalhava, pegou o garoto e passou o ano inteiro na Europa. Isso aconteceu 
h apenas dezesseis meses e acho que ele s est com Watson desde maio ou junho. Pobre-diabo! John diz que ele  muito eficiente, mas um pouco deprimido. Ele sair 
disso, todos ns samos. Ter de faz-lo, para o bem de seu filho.
       Aquilo lembrava muito a ele de quando perdera Elizabeth, embora sua perda tivesse se devido a complicaes de parto e no a um desastre da magnitude do Titanic. 
Mas ainda assim fora desastroso para ele, e sabia muito bem como o homem se sentia. Edward Henderson ficou ali sentado, perdido, assim como Olvia, digerindo o que 
seu pai dissera. E ambos pareceram assustados quando levantaram os olhos e subitamente viram John Watson parado na porta.
       - Bem, como voc entrou sem ser anunciado? Ser que precisou escalar as janelas? - Edward Henderson sorriu para seu velho amigo enquanto se levantava para 
cumpriment-lo e cruzava o aposento, parecendo extremamente saudvel. Ele estava em boa forma esses dias, graas aos constantes cuidados de Olvia e apesar de suas 
preocupaes sobre estar envelhecendo mal.
       - Ningum mais presta ateno em mim. - John Watson sorriu.
       Ele era alto e tinha um emaranhado de cabelos brancos, bastante parecido com o pai de Olvia, que tambm era alto e aristocrtico e j tivera o mesmo cabelo 
preto e brilhante de suas filhas. Os olhos azuis tambm eram os mesmos e eles se acenderam enquanto conversava animadamente com John Watson. Os dois homens conheciam-se 
desde a escola. Edward fora, na verdade, o melhor amigo do irmo mais velho de John. Ele morrera h anos e desde ento Edward e John rapidamente haviam se tomado 
amigos, alm de scios em todas as questes legais dos Henderson.
       Vendo-os logo envolvidos numa conversa to animada, Olvia deu novamente uma olhada na bandeja, para ver se estava tudo em ordem e preparou-se para deixar 
o aposento. Quando se virou, levou um susto ao quase cair nos braos de Charles Dawson. Era estranho v-lo ali, logo depois de terem falado sobre ele, e embaraoso 
saber tanto sobre sua perda e seu sofrimento sem nunca t-lo conhecido. Quando olhou para ele, Charles Dawson pareceu-lhe muito bonito e um tanto austero e ela pensou 
que nunca havia visto olhos to tristes em ningum. Olhos que pareciam poas verde-escuras, quase da cor da gua do mar. Mas ele conseguiu dar um pequeno sorriso 
quando seu pai os apresentou. Havia grande bondade em seus olhos e gentileza, o que quase a fazia ter vontade de estender a mo e consol-lo.
       - Como vai? - perguntou ele polidamente, apertando sua mo e parecendo observar com interesse cada centmetro dela. Embora estivesse ciente de sua beleza, 
ele no a olhava de maneira imprpria; parecia mais estar curioso a seu respeito.
       - Posso oferecer-lhe uma limonada? - perguntou ela, sentindo-se subitamente tmida e escondendo-se atrs de suas confortveis obrigaes. - Ou preferiria 
um xerez? Receio que papai prefira xerez, mesmo num dia quente como este.
       - Limonada seria timo. - Ele sorriu novamente para ela e os dois homens mais velhos voltaram  sua conversa.
       Ela tambm deu a John Watson um copo de limonada e os trs homens aceitaram prazerosamente os biscoitos de gengibre. Depois, tendo cumprido sua responsabilidade 
para com eles, Olvia retirou-se silenciosamente, fechando as portas atrs de si. Mas assim que deixou o aposento algo sobre o que vira nos olhos de Charles Dawson 
assustou-a, ou talvez fosse apenas porque seu pai lhe contara a histria dele. Pensou que idade teria seu filho pequeno e em como Charles organizava a vida sem uma 
esposa. Talvez ele tivesse algum em sua vida agora. Ela tentou espantar aqueles pensamentos; era ridculo estar se preocupando com um dos advogados de seu pai e 
tambm pouco apropriado, censurou a si mesma, enquanto se virava rapidamente para voltar para a cozinha e quase colidia com o segundo-motorista de seu pai. 
       Era um garoto de 16 anos que havia trabalhado nos estbulos durante anos, mas que sempre soubera mais sobre carros do que sobre cavalos. E, j que seu pai 
tinha paixo pelas mquinas modernas e comprara um dos primeiros carros quando ainda vivia em Nova York, Petrie, o garoto do estbulo, fizera uma rpida e prazerosa 
transio.
       - O que , Petrie? Alguma coisa errada? - perguntou ela com naturalidade. Ele parecia totalmente desgrenhado e completamente perturbado.
       - Tenho de ver seu pai agora mesmo, senhorita - disse ele, obviamente perto das lgrimas, enquanto ela tentava mant-lo fora da biblioteca antes que perturbasse 
seu pai que estava em reunio.
       - Acho que vai ser impossvel. Ele est ocupado. Posso ajudar em alguma coisa? - disse ela, gentil mas firmemente.
       Ele hesitou, depois olhou em volta, como se com medo de que algum o ouvisse.
       -  o Ford. - Ele parecia aterrorizado ao falar. - Foi roubado. 
       Seus olhos estavam cheios de lgrimas, pois sabia o que poderia acontecer a ele quando a notcia se espalhasse. Perderia o melhor emprego que jamais poderia 
ter e no conseguia entender como aquilo acontecera.
       - Roubado? - Ela parecia to assustada quanto ele. - Como isso  possvel? Como algum poderia entrar na propriedade e simplesmente peg-lo sem ningum notar?
       - No sei, senhorita. Eu o vi ainda pela manh. Estava limpando-o. Estava brilhante e lustrado como no dia em que seu pai o comprou. Apenas deixei a porta 
da garagem aberta por um instante para arejar o local, porque l fica muito quente, a senhorita sabe, com o sol batendo diretamente sobre ele e meia hora mais tarde 
ele havia sumido. Apenas sumido.
        Seus olhos se encheram de lgrimas novamente e Olvia colocou gentilmente a mo em seu ombro. Havia algo estranho sobre aquela histria.
       - A que horas deve ter sido isso, Petrie? Voc se lembra? - Sua voz e suas maneiras eram extremamente calmas, pouco usuais para uma garota de vinte anos, 
mas ela estava acostumada a lidar diariamente com as pequenas crises da propriedade. E esta fazia soar um alarme particular.
       - Eram onze e meia, senhorita. Eu sei exatamente. 
       Olvia vira sua irm pela ltima vez s onze. E o Ford com o qual ele estava to perturbado era o carro que seu pai comprara no ano anterior para fins de 
trabalho, pequenas viagens  cidade e compromissos em que preferia usar outro carro que no o Cadillac Tourer que usava sempre que deixava Henderson Manor.
       - Olhe, Petrie - disse Olvia calmamente - acho que voc deve deixar a poeira baixar por um instante.  bem possvel que algum dos empregados possa t-lo 
tomado emprestado para algum compromisso na cidade, sem lembrar de mencion-lo a voc. Talvez o jardineiro. Pedi a ele que procurasse algumas roseiras para mim nos 
Shepard. Talvez ele tenha se esquecido de falar com voc.
       Ela estava subitamente certa de que o carro no fora roubado e precisava segurar o rapaz. Se ele contasse a seu pai, a polcia seria chamada e aquilo seria 
terrivelmente embaraoso. Ela no podia deixar que isso acontecesse.
       - Mas Kittering no pode dirigir, senhorita. Ele no pegaria o carro para procurar suas rosas. Ele pegaria um dos cavalos ou sua bicicleta, mas no o Ford, 
senhorita.
       - Bem, talvez outra pessoa esteja dirigindo-o, mas no acho que devamos contar ainda a meu pai. Alm do mais, ele est muito ocupado. Portanto, vamos esperar 
at a hora do jantar. Podemos fazer isso? E at l veremos se algum o traz de volta. Tenho certeza de que isso vai acontecer. Agora voc gostaria de beber uma limonada 
e comer uns biscoitos na cozinha? 
       Ela o conduzia delicadamente naquela direo e ele parecia um pouco mais tranqilo, apesar de ainda bastante nervoso. Estava apavorado com a possibilidade 
de perder o emprego quando o pai dela descobrisse que ele deixara o carro ser roubado dentro da garagem. Mas Olvia continuou a acalm-lo, ao mesmo tempo em que 
lhe servia um copo de limonada e lhe dava um prato com os irresistveis biscoitos, enquanto o cozinheiro os observava.
       Ela prometeu checar o assunto com Petrie mais tarde e o fez prometer no sussurrar nem uma palavra sobre aquilo com seu pai at l. Depois, com uma piscadela 
para o cozinheiro, saiu apressadamente da cozinha querendo evitar Bertie, que via  distncia vindo em sua direo. Mas Olvia era mais rpida que todos eles. Esgueirou-se 
por um par de longas portas francesas para o jardim lateral e suspirou quando sentiu o calor esmagador do vero de Nova York. Era por isso que as pessoas iam para 
Newport e Maine. O vero aqui era insuportvel, e no havia ningum que ficasse, se pudesse evit-lo. No outono ficaria adorvel novamente. E na primavera, quando 
o longo inverno finalmente terminava, era sempre idlico. Mas os invernos eram brutais, e os veres ainda mais. Muita gente ia para a cidade no inverno e para o 
litoral no vero, mas seu pai no ia mais. Agora ficava em Croton-on-Hudson o ano inteiro.
       Olvia desejou ter tido tempo para ir nadar naquela tarde, enquanto andava distrada por um de seus caminhos preferidos em direo aos fundos da propriedade, 
onde havia um belo e escondido jardim. Ela adorava vir cavalgando at aqui. Havia um porto estreito que dava para a propriedade vizinha, por onde ela freqentemente 
se esgueirava para aproveitar sua cavalgada ali tambm, mas ningum se incomodava com aquilo. Todos os vizinhos partilhavam aquelas montanhas como uma famlia feliz, 
e eram apenas os bons amigos que tinham construdo ali.
Apesar do calor, ela andou bastante naquela tarde, no mais pensando no carro perdido, mas, muito estranhamente, em Charles Dawson e na histria que seu pai lhe 
contara. Como era terrvel perder a mulher de forma to trgica e dramtica. Ele devia ter ficado doente de preocupao quando ouvira sobre o desastre, ela bem imagin-lo. 
Sentou-se enfim num tronco, ainda pensando nele e, enquanto o fazia, escutou o rudo de um carro  distncia. Permaneceu sentada e imvel por mais um minuto ouvindo 
e, ao levantar os olhos, viu o Ford perdido tentando passar pelo porto estreito de madeira nos fundos da propriedade. Ouviu um sbito rangido spero enquanto o 
motorista arrancava a borracha e a pintura das laterais ao passar por ele. Mas, apesar do bvio aperto, o carro no diminuiu a velocidade nem por um instante. 
       Olvia observava atnita enquanto o carro movia-se para dentro de seu campo de viso e sua irm sorria para ela e acenava, sentada atrs do volante. E na 
mo com que ela acenava, havia um cigarro. Ela estava fumando. Olvia no se moveu de onde estava, apenas encarou-a e acenou, enquanto Victoria parava o carro e 
continuava a sorrir para ela, soltando uma nuvem de fumaa em sua direo.
       - Voc nem imagina que Petrie queria contar a papai que o carro foi roubado e que ele teria chamado a polcia se eu tivesse deixado?
       Olvia no estava surpresa ao v-la ali, mas tambm no estava feliz. Estava acostumada s proezas de sua irm mais nova e as duas mulheres ficaram olhando 
uma para a outra, uma perfeitamente calma e obviamente insatisfeita, a outra se divertindo enormemente com sua prpria leviandade. Mas o que chamava mais a ateno 
naquilo tudo era que, com exceo da diferena de expresso e o fato de que o cabelo de Victoria parecia mais descuidado e desarrumado pelo vento que o de Olvia, 
as duas mulheres eram absolutamente idnticas. 
       Para elas, era como se olhar no espelho. Os mesmos olhos, a mesma boca, as mesmas mas do rosto, os cabelos e at mesmo os gestos. Havia diferenas mnimas 
entre elas. Victoria possua uma aura de natureza boa e indolente, sempre beirando a travessura, o que acentuava ainda mais essas diferenas. E mesmo assim ningum 
conseguia distingui-las uma da outra. Seu prprio pai s vezes errava quando se aproximava de uma delas num aposento ou em algum lugar da propriedade e os empregados 
as confundiam constantemente. Antes de terem aulas com tutores em casa, seus amigos na escola no eram capazes de diferenci-las e seu pai acabou decidindo que elas 
estudariam em casa, porque causavam muito transtorno na escola e chamavam a ateno demais. Elas trocavam de lugar quando queriam e atormentavam sem misericrdia 
as professoras, pelo menos Victoria o fazia, mas isso era o que Olvia dizia. Elas viveram bons momentos na escola, mas seu pai duvidava seriamente de que estivessem 
sendo bem educadas. No entanto, estudar em casa as deixara muito isoladas, contando apenas com a amizade uma da outra. Ambas sentiram falta de ir  escola, mas o 
pai foi irredutvel. No as queria comportando-se como fenmenos circenses e, se a escola no conseguia control-las, a Sra. Peabody e seus tutores o fariam. 
       Na realidade, a Sra. Peabody era a nica pessoa viva que infalivelmente sabia exatamente quem era quem. Poderia diferenci-las em qualquer lugar, de frente, 
de costas e at mesmo antes que falassem. E ela tambm sabia o nico segredo por meio do qual se poderia distingui-las: uma pequena sarda que Olvia tinha no alto 
da palma direita e que Victoria tinha idntica e igualmente pequena na mo esquerda. Seu pai tambm sabia sobre isso, claro, embora nenhum de seus amigos o soubesse, 
mas era muito problemtico lembrar-se de procur-las. Era mais fcil apenas perguntar a elas e esperar que estivessem dizendo a verdade sobre suas identidades, o 
que normalmente faziam agora que eram mais velhas. Elas eram absolutamente idnticas, gmeas espelhadas, e causavam furor  sua volta desde o dia de seu nascimento 
at hoje.
       Isso transformara sua apresentao  sociedade em Nova York, dois anos antes, num grande alvoroo e havia sido por causa disso que o pai insistira em traz-las 
para casa naquele ano antes mesmo do Natal. Era muito dific1 lidar com toda aquela ateno em qualquer lugar aonde fossem. Ele sentira que estavam sendo tratadas 
como uma curiosidade e aquilo era realmente exaustivo. Victoria voltara para casa obrigada, mas Olvia no se importara. Ela sempre estivera pronta para voltar para 
Croton. 
       Mas Victoria infernizava suas vidas desde ento. Tudo o que falava agora era sobre como a vida era incrivelmente aborrecida no Hudson. Ela no compreendia 
como qualquer um deles podia suportar aquilo. O nico outro assunto que realmente entusiasmava Victoria era o do direito de voto feminino. Este era o fogo com o 
qual se queimava; a paixo que a incendiava a qualquer momento. E Olvia ficava doente s de ouvir falar no assunto. Victoria falava o tempo todo sobre Alice Paul, 
que havia organizado a marcha em Washington naquele ms de abril, quando dzias de mulheres foram presas, quarenta ficaram feridas e uma tropa de cavalaria foi necessria 
para restabelecer a ordem. 
       Olvia tambm ouvira falar muito de Emily Davison, que morrera dois meses antes ao se jogar na frente dos cavalos do rei nas corridas da Inglaterra; e depois 
houvera as Pankhurst, mre et filles, que se ocupavam em se vingar destruindo tudo em nome dos direitos da mulher na Inglaterra. O simples fato de falar nelas fazia 
os olhos de Victoria danarem enquanto Olvia revirava os seus, aborrecida. Mas agora Olvia estava sentada esperando pelas desculpas e explicaes da irm.
       - Ento eles chamaram a polcia? - perguntou Victoria, parecendo divertida e nem um pouco culpada.
       - No, no chamaram a polcia - disse Olvia severamente. Eu subornei Petrie com limonada e biscoitos e disse a ele para esperar at o jantar. Mas acho que 
deveriam ter chamado a polcia. Eu devia t-los deixado fazer isso. Sabia que tinha sido voc. - Ela tentou parecer zangada, mas algo em seus olhos dizia que no 
estava e Victoria sabia disso.
       - Como voc sabia que tinha sido eu? - Victoria parecia deleitar-se, sem se arrepender nem por um minuto.
       - Eu senti, sua desastrada. Um dia desses vo chamar a polcia por sua causa e eu vou deixar que o faam.
       - No, voc no vai - disse Victoria com uma confiana e um brilho nos olhos que teria feito seu pai lembrar-se de sua me. 
       Fisicamente, Victoria era o retrato de Olvia, inclusive no vestido de seda azul que estava usando. Olvia escolhia as roupas da irm todas as manhs e Victoria 
sempre as colocava sem discutir. Ela amava ser gmea, sempre amara; ambas amavam. Aquilo as satisfazia perfeitamente e fizera com que Victoria se livrasse de muita 
confuso em sua vida. Olvia estava sempre querendo pedir desculpas por ela, ou mesmo trocando de lugar com a irm, fosse para tir-la de alguma enrascada ou, quando 
eram crianas, apenas porque era engraado faz-lo. Seu pai sempre as ensinara a serem responsveis e a no tirar vantagem daquelas circunstncias pouco usuais, 
mas s vezes era difcil no faz-lo. Tudo sobre elas parecia pouco usual. Eram mais prximas do que duas pessoas jamais poderiam ser. E s vezes, para elas, era 
quase como se fossem a mesma pessoa. Apesar disso, bem l no fundo, ambas sabiam que eram muito diferentes uma da outra. Victoria era destemida, mais travessa e 
aventureira. Era aquela que sempre se metia em confuso. Era muito mais fascinada pela amplitude do mundo do que Olvia, que ficava mais feliz em estar em casa e 
cujos limites eram aqueles estipulados pela famlia, o lar e a tradio. Victoria queria lutar pelos direitos femininos, queria manifestar-se e falar. Achava que 
casamento era algo brbaro e desnecessrio para uma mulher verdadeiramente independente. Olvia achava tudo aquilo uma maluquice, irias tambm acreditava que era 
apenas uma iluso passageira de sua irm. Houvera outras: movimentos polticos que a fascinaram, ideais religiosos, conceitos intelectuais sobre os quais havia lido. 
Olvia estava com os ps mais fincados na terra e com muito menos vontade de entrar em batalhas por causas obscuras. Seu mundo era bem menor.  Mesmo assim, para 
quem no as conhecia e at para aqueles que conviviam com elas, pareciam ser apenas uma e a mesma pessoa.
       - Ento? Quando voc aprendeu a dirigir? - perguntou Olvia, batendo o p enquanto Victoria sorria de dentro do carro.
       Ela havia acabado de atirar seu cigarro na lixeira perto da qual sua irm estava sentada. Olvia sempre fazia o papel da irm mais velha e severa. Ela era 
onze minutos mais velha que Victoria, mas eram esses onze minutos que faziam toda a diferena. E em momentos tristes, quando elas abriam seu corao, Victoria j 
havia confessado  irm que achava ter sido ela quem matara a me.
       - Voc no a matou - Olvia dissera firmemente, quando eram apenas crianas. - Foi Deus.
       - Ele no fez isso! - Victoria O defendera, ultrajada. A Sra. Peabody ficara aterrorizada quando descobrira sobre o que era a discusso e mais tarde explicara 
que o nascimento de crianas pode ser bastante difcil, e que ter gmeos era algo sobre-humano, que apenas os anjos podiam fazer. Era claro que sua me fora um anjo, 
as depositara na terra com seu pai que as amava tanto e retornara ao Paraso. 
       Aquilo amenizara a questo da culpa na poca, mas Victoria sempre sentira secretamente que ela havia realmente matado sua me e Olvia o sabia. Mas nada que 
ela dissesse naqueles vinte anos mudara aquilo. Nenhuma das duas estava pensando naquilo agora, enquanto Olvia questionava Victoria sobre o carro.
       - Aprendi sozinha, no ltimo inverno. - Victoria deu de ombros, divertida.
       - Aprendeu sozinha? Como?
       - Eu simplesmente peguei as chaves e tentei. Bati com o carro um pouco nas primeiras vezes, mas Petrie nunca notou. Ele continua pensando que algum entrou 
no carro quando ele estava na cidade e o estacionou. - Ela parecia satisfeita consigo mesma e Olvia forou-se a olh-la com uma expresso carrancuda, tentando no 
rir, mas Victoria a conhecia bem. - Pare de me olhar assim. Dirigir  uma coisa danada de boa. Agora posso levar voc at a cidade a qualquer hora que quiser.
       - Ou at a rvore mais prxima. - Olvia recusava a sentir-se tranqila. Sua irm poderia ter matado a si mesma dirigindo pelas redondezas um carro que ela 
no sabia realmente como conduzir. Era uma loucura. - E voc fumando  muito desagradvel. 
       Mas pelo menos ela soubera disso antes. Encontrara um pacote de Fatimas em seu guarda-roupa naquele inverno e ficara horrorizada. Mas quando o mencionara 
a Victoria, esta apenas sorrira e dera de ombros, recusando-se a comentar o assunto.
       - No seja to antiquada - disse Victoria amavelmente. - Se vivssemos em Londres ou Paris, voc tambm fumaria, apenas para estar na moda e voc sabe disso.
       - No sei nada sobre isso, Victoria Henderson.  um hbito revoltante para uma dama e voc sabe disso. Ento, onde  que voc estava?
       Victoria hesitou por um longo momento enquanto Olvia esperava. Ela estava aguardando uma resposta e Victoria sempre lhe dizia a verdade. As duas no tinham 
segredos e as poucas vezes que tentavam t-los, a outra instintivamente sempre sabia a verdade. Era como se cada uma sempre soubesse o que a outra estava pensando.
       - Confesse - disse Olvia severamente e Victoria subitamente parecia mais jovem do que os seus vinte anos.
       - Est bem. Fui a um encontro da Associao Nacional pelos Direitos da Mulher, em Tarrytown. Alice Paul estava l. Ela veio especialmente para organizar o 
encontro e estudar a implantao de um grupo aqui no Hudson. A prpria presidente da ANDM, Anna Howard Shaw, estava sendo esperada, mas no pde ir.
       - Pelo amor de Deus, Victoria, o que voc est fazendo? Papai vai chamar a polcia se voc se meter no meio de manifestaes de qualquer tipo. Mais do que 
provavelmente voc ser presa e papai ter de ir l solt-la - disse ela, subitamente escandalizada, mas Victoria no parecia desencorajada pela possibilidade, ao 
contrrio, parecia gostar daquilo.
       - Valeria a pena, Ollie. Ela estava absolutamente inspirada. Voc deveria vir da prxima vez.
       - Da prxima vez eu estarei amarrando voc ao p da cama. E se voc roubar o carro novamente para fazer algo absurdo como isso, vou deixar Petrie chamar a 
polcia e inclusive direi a ele para faz-lo.
       - No, voc no far isso. Vamos, entre aqui. Eu a levarei de volta para a garagem. 
       - timo. Agora voc quer colocar ns duas numa encrenca. Muito obrigada, minha querida irm.
       - No seja to dura. Assim, ningum saber qual de ns pegou o carro. - Como sempre, o fato de serem idnticas era uma excelente proteo. Ningum nunca sabia 
qual das duas fizera alguma coisa, o que servia mais aos propsitos de Victoria do que aos de sua irm, que raramente precisava de um bode expiatrio.
       - Eles sabero, se tiverem algum crebro - resmungou Olvia, enquanto entrava no carro cautelosamente. 
       Victoria rodou ao longo do sinuoso caminho dos fundos, enquanto Olvia reclamava alto sobre sua maneira de dirigir. Victoria ofereceu um cigarro a ela e quando 
Olvia estava prestes a fazer outro discurso, subitamente comeou a rir com o absurdo da situao. Era impossvel tentar controlar Victoria e Olvia o sabia. Enquanto 
isso, Victoria entrava com o carro na garagem e quase passava por cima de Petrie. Ele as encarou boquiaberto, enquanto as duas saam do carro ao mesmo tempo, agradeciam 
solenemente a ele e Victoria pedia desculpas pela pequena batida.
       - Mas eu pensei... eu... quando vocs... quero dizer... sim, senhorita... obrigado... senhorita Olvia... Senhorita Victoria...  senhorita... 
       Ele no tinha idia de quem era quem e de quem havia feito o que, nem no tinha inteno de tentar descobrir. Tudo o que tinha de fazer era repor a borracha 
na lateral e retocar a pintura. Pelo menos o carro no fora roubado. E, parecendo muito dignas, as duas jovens voltaram para a casa de braos dados e subiram os 
primeiros degraus, at comearem a rir.
       - Voc  realmente horrvel - censurou-a Olvia. - O pobre coitado pensou que papai fosse mat-lo. Voc ainda vai terminar na cadeia um dia, estou certa disso.
       - Eu tambm - disse Victoria com total indiferena, enquanto dava um abrao em sua irm. - Mas talvez voc v me substituir por um ms ou dois e eu possa 
sair, tomar algum ar e ir a alguns comcios. Que tal?
       - Desagradvel. Meus dias de substituir voc acabaram - disse Olvia, balanando o dedo para ela, mas amando-a mais que nunca. 
       Sua irm era sua melhor amiga, era como a outra parte de sua prpria alma. Elas conheciam uma  outra melhor do que quaisquer pessoas poderiam jamais se conhecer 
e os momentos mais felizes da vida de Olvia, alis, de ambas, eram quando estavam juntas. Embora Victoria certamente passasse muito tempo saindo sozinha e se metendo 
em confuso.
       As duas garotas estavam precisamente chegando ao hall principal, falando e rindo, quando a porta da biblioteca se abriu e os trs homens entraram no hall, 
ainda falando sobre seus prprios planos e decises. Quando os viram, as duas ficaram subitamente caladas. Olvia imediatamente olhou para Charles e observou-o novamente, 
enquanto ele encarava as duas, totalmente assustado e confuso com o que estava vendo. Ele olhava de uma para a outra repetidamente, enquanto tentava encontrar uma 
explicao em sua mente para duas mulheres to absolutamente idnticas e bonitas; mesmo assim era como se ele pudesse sentir a diferena entre elas. Seus olhos estavam 
fixos em Victoria, com seus cabelos ligeiramente mais desarrumados que os de Olvia e o vestido idntico ao da irm, mas que lhe caa melhor. Havia nela algo de 
irreverente e chocante. A olho nu, no se podia ver o quanto ela era escandalosamente impressionante, mas ele sentia isso.
       - Meu Deus - disse Edward Henderson, sorrindo enquanto observava a reao de Charles. - Esqueci-me de preveni-lo?
       - Receio que sim, senhor - disse Charles Dawson, corando e desviando os olhos de Victoria para Olvia, novamente confuso, e depois olhando outra vez para 
o pai delas. Eles estavam acostumados quilo e se divertiam, mas era bvio que Charles no.
       - Apenas uma iluso de tica, no se preocupe com isso - provocou-o Edward Henderson. Ele gostara de Charles. Parecia ser um bom homem. E haviam tido uma 
reunio muito boa, cheia de idias novas e brilhantes e meios de aperfeioar seus negcios e proteger seus investimentos. - Deve ter sido o xerez. 
       Ele riu para o homem mais jovem e Charles Dawson sorriu, subitamente parecendo um garoto. Ele tinha trinta e seis anos, mas no ltimo ano tinha comeado a 
ficar to srio que seus amigos diziam que ele parecia subitamente mais velho. E agora parecia um garoto novamente, enquanto fitava, descrente e confuso, as duas 
beldades  sua frente. E, confundindo-o ainda mais, elas se encaminharam para ele com movimentos sincronizados, inconscientes do quanto tais movimentos espelhavam 
os da outra. Cada uma delas apertou sua mo e Edward apresentou Olvia novamente e Victoria pela primeira vez. Ambas sorriram e disseram ao pai que ele havia se 
enganado, o que fez Charles rir ainda mais.
       - Ele faz isso sempre? - perguntou ele, sentindo-se mais relaxado com elas do que h poucos momentos, mesmo que ainda estivesse um pouco confuso. Seria impossvel 
no estar.
       - O tempo todo, mas nem sempre ns contamos a ele - respondeu Victoria, encontrando seus olhos com sinceridade. 
       Charles parecia fascinado por ela, como se pudesse sentir algo diferente nela. Sutilmente, ela era mais sensual que sua irm, ainda que as roupas, a aparncia 
e os cabelos fossem os mesmos. Mas seus ntimos no eram.
       - Quando elas eram bem pequenas - explicou Edward - ns costumvamos colocar elsticos de cores diferentes em seus cabelos, para identific-las. Funcionava 
perfeitamente at que um dia descobrimos que os pequenos monstros haviam aprendido a tirar os elsticos e coloc-los novamente, para nos confundir. Elas sempre trocavam 
de lugar dessa maneira e se passaram meses antes que descobrssemos. Elas eram terrveis quando crianas - disse ele, obviamente cheio de orgulho e afeio. 
       Apesar de no gostar da reao pblica que causavam quando as levava para passear, ele as adorava. Haviam sido o ltimo presente de uma mulher que ele amara 
com toda a sua alma. E ele nunca mais amara ningum aps ela, exceto suas filhas.
       - Esto se comportando melhor agora? - perguntou Charles, ainda se divertindo com elas e com o choque que haviam lhe causado. No fora absolutamente avisado 
de que eram gmeas, nem por Edward Henderson, nem por John Watson.
       - Esto apenas um pouco melhores agora - resmungou Edward. Todos riram e ele olhou raivoso para ambas, como se lanando um aviso. - Mas vocs deveriam se 
comportar, as duas. Estes dois cavalheiros disseram-me que ser necessrio ir a Nova York por um ms ou mais, para tomar conta de alguns de meus negcios. E se vocs 
puderem administrar a volta  cidade desta vez, eu as levarei comigo. Mas nada de tolices de nenhuma das duas - disse ele, desejando poder dizer qual delas era Victoria, 
mas no podia - seno vou mand-las de volta para Bertie.
       - Sim, senhor - disse Olvia calmamente com um sorriso, sabendo que o aviso no era para ela, mas para sua irm. 
       Suspeitando de que ele no estava bem certo a qual delas estava se dirigindo, Olvia sempre podia mostrar a ele. Mas Victoria no estava fazendo nenhuma promessa: 
seus olhos danavam com a possibilidade de um ms na cidade.
       - Est falando srio? - perguntou ela, de olhos muito abertos, deliciada.
       - Sobre mandar voc de volta? - rugiu ele. - Absolutamente.
       - No, eu quero dizer sobre Nova York. - Ela olhou de seu pai para os advogados e todos estavam sorrindo.
       - Aparentemente, sim - respondeu o pai. -Talvez sejam at mesmo dois meses, se eles no trabalharem direito e comearem a vadiar quando chegarmos l.
       - Oh, papai, por favor! - disse Victoria, batendo palmas, fazendo uma pequena pirueta sobre um dos saltos e depois agarrando sua irm pelos ombros. - Pense 
nisso! Nova York, Ollie! Nova York! 
       Ela estava fora de si de alegria e excitao e isso fez com que o pai se sentisse culpado quando pensava no quanto elas ficavam ali isoladas. Estavam numa 
idade em que deveriam pertencer  cidade, conhecendo pessoas e encontrando maridos. Mas ele odiava a idia de elas o deixarem para sempre, particularmente Olvia. 
Ela o ajudava tanto, fazia tanto por ele. O que seria dele sem ela? Mas estava se preocupando prematuramente. Elas nem mesmo haviam feito as malas e ido para a cidade, 
e ele j estava imaginando-as casadas e a si mesmo abandonado.
       - Espero que possamos v-lo mais, Charles, quando formos para a cidade - disse Edward, enquanto finalmente apertava sua mo  porta.
       Victoria ainda estava falando sobre Nova York com Olvia, sem prestar nenhuma ateno aos dois homens que haviam vindo visit-los. E Olvia estava observando 
Charles calmamente, enquanto ele se despedia de seu pai. Ele assegurou ao Sr. Henderson que fariam grandes negcios no escritrio, j que John Watson estava querendo 
deix-lo administrar seus negcios, John assegurou-lhe que sim. Edward encorajou Charles a vir v-los na casa tambm e Charles agradeceu polidamente o convite. Ao 
sair, Charles espiou por sobre os ombros do homem mais velho e olhou novamente dentro dos olhos de Victoria. Ele no estava certo de qual das duas era ela, mas sentia 
algo diferente quando olhava para ela. Ele no poderia explicar se algum perguntasse, mas era uma espcie de eletricidade que sentia vindo dela e no de sua irm. 
Era um sentimento estranho no saber qual era qual e mesmo assim ele estava fascinado por ambas. Jamais conhecera ningum como elas.
       Edward Henderson levou os homens at o carro e enquanto eles saam Olvia ficou observando-os da janela. E, apesar da selvagem excitao sobre Nova York, 
Victoria percebeu.
       - O que  isso? - Ela vira o intenso olhar de Olvia para o carro que partia vagarosamente pelo caminho.
       - O que voc quer dizer? - perguntou Olvia, voltando-se para checar a biblioteca e assegurar-se de que a bandeja fora removida aps a reunio.
       - Voc est parecendo terrivelmente sria, Ollie - acusou Victoria. Elas conheciam uma  outra muito bem. Isso s vezes era perigoso e, em outras, apenas 
inoportuno.
       - A mulher dele morreu no Titanic no ano passado. Papai disse que ele tem um filho pequeno.
       - Sinto muito pela mulher - disse Victoria, no parecendo nem um pouco abalada. - Mas ele parece terrivelmente enfadonho, no? - comentou, dispensando-o em 
favor dos incontveis e inominveis prazeres que estavam para ser descobertos em breve em Nova York, entre eles reunies polticas e encontros feministas, nenhum 
dos quais interessava  irm. - Acho que ele parece incrivelmente triste.
       Olvia concordou com a cabea e no fez comentrios enquanto entrava na biblioteca para escapar de sua irm. E quando ela saiu novamente, satisfeita com o 
fato de que a bandeja se fora, Victoria havia subido para se trocar para o jantar. Olvia havia deixado suas roupas do lado de fora mais cedo naquela tarde. Ambas 
iam usar vestidos de seda branca, cada qual com um broche de gua-marinha do par que pertencera  me. Poucos minutos depois, Olvia foi para a cozinha para encontrar 
Bertie, que soube instantaneamente que era Olvia e no sua irm.
       - Voc est bem? - perguntou ela, parecendo preocupada por um momento. Fora um dia terrivelmente quente e ela sabia que Olvia estivera fora, passeando. E 
a jovem parecia subitamente muito plida agora.
       - Estou bem. Papai acaba de me dizer que vamos para Nova York no incio de setembro. Vamos ficar um ms ou dois, enquanto ele trata de seus negcios. - As 
duas mulheres trocaram um sorriso. Ambas sabiam o que aquilo significava. Uma incrvel quantidade de trabalho e planejamento para abrir a casa de Nova York. - Pensei 
que eu e voc poderamos nos encontrar amanh cedo para comear a planejar tudo - disse ela calmamente. Era uma grande quantidade de assuntos para resolver, muitos 
dos quais seu pai nem sabia do que se tratava.
       - Voc  uma boa garota - disse Bertie ternamente, tocando a face plida, enquanto examinava os imensos olhos azuis e se perguntava se a coisa a havia aborrecido. 
       Olvia estava sentindo algo que nunca sentira antes e estava achando aquilo enervante e confuso. Ainda mais porque se preocupava com o fato de que Victoria 
iria entrar bem dentro de seus pensamentos e exp-los. 
       - Voc trabalha muito para seu pai - elogiou-a Bertie.
       Ela conhecia as duas muito bem e as amava com todas as suas semelhanas e diferenas. Eram ambas boas garotas, to diferentes quanto era possvel ser abaixo 
da superfcie.
       - Vou encontr-la amanh de manh, ento - disse Olvia calmamente e depois deixou a cozinha para subir e se trocar. 
       Subiu pela escada dos fundos, tentando clarear seus pensamentos, para que Victoria no pudesse olhar bem dentro deles como num copo de gua clara e transparente. 
Era impossvel guardar segredos dela, impossvel para ambas. Elas nunca nem haviam tentado. Mas enquanto tentava pensar em outras coisas, enquanto se aproximava 
de seu imenso quarto onde dividiam a mesma cama abobadada na qual haviam dormido a vida inteira, Olvia descobriu que no podia desviar seus pensamentos dele. Tudo 
em que conseguia pensar era naqueles olhos verdes, aquelas poas profundas e escuras que conduziam diretamente  alma do homem que havia perdido sua mulher para 
o Atlntico. Ela fechou os olhos por um momento, enquanto girava a maaneta e forou-se a pensar em coisas mais mundanas, como os novos lenis que provavelmente 
precisaria encomendar em Nova York e as fronhas que precisava trazer para o pai. Olvia preencheu a cabea com banalidades e ento entrou rapidamente no quarto para 
encontrar sua irm.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
DOIS


       Na primeira quarta-feira de setembro  tarde, Olvia e Victoria Henderson foram levadas a Nova York pelo motorista de seu pai, Donovan, no Cadillac Tourer. 
Petrie levava a Sra. Peabody no Ford, bem atrs deles. Levavam suprimentos sem fim com eles e dois outros carros haviam sido despachados na vspera, carregando bas 
de roupas e tudo o que Olvia e Bertie decidiram ser absolutamente necessrio para administrar uma casa decentemente.
       Victoria no se importava com o que estavam levando. Empacotou dois bas de livros, um caixote cheio de papis que queria ler e deixou Olvia escolher todas 
as suas roupas. Ela realmente no se importava com o que vestia. Sempre deixara isso a cargo de Olvia, cujo gosto parecia excelente para sua irm gmea. Olvia 
lia todas as revistas de Paris. Victoria preferia jornais polticos e publicaes subversivas, distribudas por membros do partido das mulheres.
       Mas Olvia estava seriamente preocupada com o estado da casa na Baixa Quinta Avenida, que estivera desabitada nos ltimos dois anos e, antes disso, raramente 
fora visitada durante muito tempo. Fora confortvel e muito amada um dia, mas isso tinha sido vinte anos antes e Olvia estava certa de que no seria fcil dar  
casa um ar aconchegante. Era, apesar de tudo, a casa onde sua me morrera, e ela sabia o quanto eram sofridas as lembranas de seu pai. E tambm era a casa onde 
ela e Victoria haviam nascido; um lugar onde, no muito antes disso, Edward Henderson e sua jovem esposa haviam sido imensamente felizes.
       Depois de checar o conforto da casa e orientar o perdido Donovan em todos os banheiros, com um alicate em cada mo para apertar e afrouxar o que fosse preciso, 
ela pediu que Petrie a levasse ao mercado de flores, na esquina da Sexta Avenida com a rua 28 e voltou duas horas mais tarde com o carro cheio de bonitas steres 
e lrios cheirosos. Ela estava determinada a encher a casa com as flores que amava para a chegada de seu pai, dois dias depois.
       As capas que protegiam os sofs foram retiradas e guardadas, os quartos foram arejados, as camas foram desfeitas, os colches foram batidos e os tapetes, 
sacudidos. Foi necessrio um exrcito para faz-lo, mas na tarde seguinte Bertie e Olvia encontraram-se na cozinha para uma xcara de ch e sorriram do que haviam 
conseguido. Os candelabros estavam brilhando, alguns mveis haviam sido rearrumados, deixando os quartos quase irreconhecveis e Olvia mandou tirar todas as pesadas 
cortinas para deixar mais luz entrar.
       - Seu pai ficar muito contente - congratulou-a Bertie, enquanto se serviam de uma segunda xcara de ch.
       Olvia lembrou a si mesma de tentar conseguir entradas para o teatro. Havia muitas novas peas entrando em cartaz e ela e Victoria haviam jurado assistir 
a todas antes de voltarem para Croton-on-Hudson. Mas pensar naquilo fez com que imaginasse onde estava sua irm. Ela no a havia visto desde cedo naquela manh, 
quando Victoria havia dito que estava indo  Low Library, em Columbia e ao Metropoltan Museu. Era um longo percurso e Olvia oferecera Petrie para lev-la, mas 
Victoria insistira em pegar o bonde. Ela preferia a aventura. E, depois daquilo, Olvia se esquecera completamente dela, at agora, quando comeou a sentir um preocupante 
n na boca do estmago.
       - Voc acha que papai vai notar todos os mveis que mudamos de lugar? - perguntou Olvia distraidamente, esperando que Bertie no detectasse sua crescente 
preocupao. 
       As costas de Olvia estavam doendo por tudo o que haviam feito nos ltimos dois dias, mas ela nada sentia agora, enquanto comeava a se preocupar com sua 
irm. Sempre tivera um sentimento instintivo sobre ela e sabia com toda a certeza quando Victoria estava em apuros. Era algo que ambas tinham e freqentemente conversavam 
sobre isso. Era um tipo especial de artifcio de advertncia que avisava a cada uma delas quando a outra estava doente ou em apuros. E Olvia no estava certa do 
que aquilo queria dizer, mas sabia que estava tendo uma espcie de sinal.
       - Seu pai vai ficar to feliz de ver a casa assim - assegurou Bertie, parecendo no ter conscincia do crescente desconforto de Olvia. - Voc deve estar 
exausta.
       - Realmente, estou - confessou Olvia, de maneira pouco usual, para que pudesse ir para seu quarto e pensar por um momento. 
       Eram quatro horas da tarde e Victoria havia sado de casa pouco depois das nove da manh. Apenas pensar sobre isso fazia Olvia entrar em pnico e repreender 
a si mesma por no ter insistido em mandar algum com ela. Ali no era Croton-on-Hudson. Sua irm era jovem, estava bem vestida e obviamente era inexperiente em 
lidar com grandes cidades. E se ela tivesse sido atacada ou assaltada? Aquilo no devia nem ser cogitado. Mas enquanto Olvia andava pelo quarto, preocupada, ouviu 
o telefone tocar e soube instintivamente que era sua irm. Ela correu para o nico telefone que tinham, no hall superior, e agarrou-o antes que qualquer outra pessoa 
o fizesse.
       - Al? - disse sem ar, certa de que seria Victoria e instantaneamente desapontada quando ouviu uma voz desconhecida de homem. Olvia estava certa de que fora 
engano.
       -  a residncia dos Henderson? - perguntou a voz num sotaque irlands, enquanto Olvia franzia as sobrancelhas. Eles no conheciam ningum em Nova York e 
Olvia no podia imaginar quem estava chamando.
       - Sim. Quem fala? - perguntou ela firmemente, sentindo sua mo tremer enquanto segurava o fone de ouvido numa das mos e o de voz na outra.
       -  a senhorita Henderson? - perguntou ele num tom ressoante, enquanto Olvia concordava com a cabea e respondia.
       - Sim. Quem fala? - insistiu.
       -  o sargento O'Shaunessy, do Quinto Distrito - disse ele firmemente. Olvia reteve a respirao e fechou os olhos, sabendo o que viria antes mesmo que ele 
o dissesse.
       - Eu... ela est bem?...
       Era quase um suspiro. E se tivesse sido ferida? Pisoteada por um cavalo... esfaqueada por um insignificante criminoso... jogada ao solo e atropelada por uma 
carruagem... ou um cavalo em fuga... ou por um carro... Olvia no podia nem imaginar.
       - Ela est bem. - Ele parecia mais exasperado que simptico. Ela est aqui com... ah... um grupo de jovens senhoritas... e ns... ah... o tenente determinou, 
por sua aparncia, que ela no podia... bem... ficar aqui. As outras... ah... jovens senhoritas... ficaro detidas esta noite. Para colocar de maneira clara, senhorita 
Henderson, elas todas foram presas por fazerem uma manifestao sem permisso. E se a senhorita for boa o bastante para vir aqui e pegar sua irm imediatamente, 
ns a mandaremos para casa sem registr-la e seremos muito discretos. Mas eu sugiro que no venha sozinha, se houver algum que possa trazer consigo.
       A mente de Olvia estava completamente em branco. Ela no queria Donovan ou Petrie sabendo que Victoria havia sido detida pela polcia e que por pouco no 
fora presa. E certamente no queria que contassem a seu pai.
       - O que ela fez exatamente? - perguntou Olvia, impressionada e agradecida por estarem querendo soltar Victoria e no prend-la.
       - Manifestao, como as outras, mas ela  muito jovem e imprudente e me disse que chegou a Nova York ontem. Sugiro que vocs duas voltem para o local de onde 
vieram o mais cedo possvel, antes que ela se meta em mais enrascadas com esta maldita e louca Associao do Direito de Voto Feminino com a qual ela se misturou. 
Ela est nos dando trabalho. No queria que ligssemos para a senhorita. Ela quer que a prendamos - disse ele num tom divertido, enquanto Olvia fechava os olhos, 
horrorizada.
       - Oh, meu Deus, por favor, no a escute. Eu estarei logo a.
       - Traga algum com a senhorita - disse ele novamente, com severidade.
       - Por favor, no a prenda - sussurrou Olvia ao telefone num suspiro, implorando, mas ele no tinha nenhuma inteno de faz-lo e causar um escndalo. 
       Era fcil perceber, por seus sapatos e suas roupas, e at pelo chapu que usava, no importa o quo "simples" ela pudesse achar que parecia, que Victoria 
no pertencia ao mesmo grupo das outras. E ele no estava disposto a ser expulso da fora policial por prender uma filha de aristocrata cheia de sonhos. Ele a queria 
longe de suas mos o mais rpido possvel, assim que Olvia pudesse chegar l.
       Mas Olvia no sabia nem mesmo por onde comear, ou com quem falar. Ao contrrio de sua irm, ela no sabia dirigir e no queria alertar os empregados. Teria 
de pegar um txi, pois levaria muito tempo se fosse de bonde, e no havia absolutamente ningum que pudesse levar consigo, nem mesmo Bertie. Ela no podia acreditar 
no que estava acontecendo. Victoria realmente queria ser presa. Ela estava completamente maluca e Olvia prometeu a si mesma ficar absolutamente furiosa assim que 
a tivesse resgatado do Quinto Distrito. Mas primeiro ela precisava ir busc-la. 
       E enquanto pensava em todas as possibilidades de como fazer para ir busc-la, como tir-la de l e como chegar at l numa cidade que ela pouco conhecia e 
na qual no tinha idia de como se locomover, chegou  concluso de que o sargento estava certo e que deveria levar algum com ela. E, tanto quanto odiava faz-lo, 
sabia que precisava daquilo. No tinha escolha. Assim, sentou-se silenciosamente na saleta que usavam para o telefone e lentamente levantou o fone. Era a ltima 
coisa que queria fazer, mas simplesmente no havia mais ningum para chamar, nem mesmo John Watson, a quem ela conhecera durante toda a sua vida. Mas ela no tinha 
dvida de que, se o chamasse agora, ele contaria a seu pai.
       A recepcionista respondeu imediatamente e disse a ela que esperasse enquanto tentava encontr-lo. Ela foi extremamente atenciosa desde o momento em que Olvia 
disse quem era, embora Olvia tivesse tido a esperana de no precisar se anunciar. Eram quatro e meia e ela estava apavorada com o fato de que ele pudesse ter sado 
mais cedo. Mas ele estava l e a voz quieta e profunda de Charles, Dawson entrou na linha um momento mais tarde.
       - Senhorita Henderson? - Ele pareceu surpreso mais do que qualquer outra coisa e Olvia teve de se forar a no sussurrar.
       - Estou terrivelmente constrangida por aborrec-lo - comeou ela, se desculpando.
       - De maneira nenhuma. Estou feliz que tenha chamado. - Mas ele podia sentir em sua voz que algo acontecera e apenas desejava que nada tivesse acontecido a 
seu pai. - H algo errado? - perguntou ele gentilmente. 
       Ele sabia bem, muito bem, o quo rapidamente uma tragdia podia se abater sobre algum e parecia incrivelmente doce enquanto perguntava, mas ela no sabia 
como responder. Teve de lutar contra as lgrimas enquanto pensava no que Victoria fizera dessa vez. Tentou no pensar na desgraa que seria para seu pai se Victoria 
tivesse realmente sido presa. E queria gritar com mortificao e medo toda vez que pensava em sua irm sendo levada para o Quinto Distrito.
       - Eu... estou com medo... preciso de sua ajuda, Sr. Dawson... e de sua absoluta discrio. - Ela parecia muito preocupada e ele no podia sequer comear a 
imaginar o que acontecera. - Receio que minha irm... eu... O senhor poderia vir at aqui me ver?
       - Agora? - Ele sara de uma reunio para falar com ela e no podia imaginar o que precisava tanto de sua ateno imediata. -  urgente?
       - Muito - disse ela, soando desesperada e ele espiou seu relgio enquanto a ouvia.
       - Devo ir imediatamente?
       Ela acenou com a cabea, enquanto as lgrimas enchiam seus olhos, momentaneamente incapacitada de responder. Quando ela falou novamente, ele pde ouvir que 
ela estava chorando.
       - Sinto terrivelmente... preciso de sua ajuda... Victoria fez algo terrivelmente irresponsvel. 
       Tudo o que ele podia pensar daquilo era que ela havia fugido com um amante. No podia estar ferida, ou sua irm estaria chamando um mdico e no um advogado. 
Era impossvel imaginar o que acontecera. Mas ele pegou um txi em frente  porta e estava l menos de quinze minutos mais tarde. Petrie deixou-o entrar e Olvia 
estava esperando por ele, andando no salo de baixo. Bertie estava ocupada em algum lugar na casa e por sorte no o escutara chegar. No momento em que ele entrou, 
ela viu aqueles olhos novamente, os olhos que a hipnotizaram da primeira vez que o vira.
       - Obrigada por vir to rapidamente - disse ela e era fcil perceber o quanto estava perturbada enquanto pegava o chapu e o colocava rapidamente, segurando 
sua bolsa. - Precisamos sair imediatamente.
       - Mas o que aconteceu? Onde est sua irm, senhorita Henderson? Ela fugiu? - Ele estava confuso pelos mistrios que os cercavam e ansioso para fazer o que 
pudesse, mas no tinha idia do que ela queria dele.
       Por um instante, Olvia se esticou e olhou para ele, seus olhos cheios de embarao e terror. Ela era uma garota capaz, mas isso era de longe a mais chocante 
experincia de toda a carreira de sua irm e no queria que absolutamente ningum mais soubesse daquilo. Certamente no iriam compreender o quo impetuosa era ela, 
ou o quo inocentes eram algumas de suas travessuras. E esse era um assunto em que as negociaes de Olvia com ela no resolveriam nada. Pela primeira vez em sua 
vida, sentia-se inteiramente sem sada.
       - Ela est no Quinto Distrito, Sr. Dawson. - disse Olvia num tom pesarosamente abatido. - Acabaram de me ligar. Esto segurando-a l e no vo prend-la, 
se chegarmos rapidamente. - A menos,  claro, que Victoria o quisesse e eles a prendessem antes que ela e Charles pudessem chegar l.
       - Valha-me Deus!
       Ele parecia realmente surpreso desta vez, enquanto a seguia at a porta da frente e degraus abaixo, correndo depois para procurar um txi. Ajudou Olvia a 
entrar, em seu simples vestido cinza de trabalho que estivera usando desde a manh. Ela pusera um chapu preto moderno e lembrou-se de que Victoria havia colocado 
um chapu idntico quando sara de manh. Mesmo quando no planejavam usar as mesmas coisas, elas quase sempre o faziam, como agora. Mas ela no estava pensando 
sobre chapus enquanto tentava explicar a Charles Dawson o que acreditava ter acontecido.
       - Ela est completamente apaixonada por esta estpida Associao Nacional dos Direitos da Mulher e pelas pessoas que a dirigem. - Olvia contou a ele todos 
os seus nomes, explicou sobre a manifestao em Washington cinco meses atrs e as prises das Pankhurst na Inglaterra. - Essas pessoas glorificam as prises como 
algum tipo de prmio,  uma espcie de medalha de honra. Suponho que Victoria tenha ido esta tarde a algum lugar em que estava acontecendo uma manifestao e acabou 
sendo detida com elas. O sargento que telefonou disse que no tinha inteno de prend-la, mas que Victoria queria que ele o fizesse.
       Charles Dawson tentou reprimir um sorriso enquanto olhava para ela e subitamente Olvia se viu sorrindo tambm. Ouvir a si mesma explicando a situao a ele 
fez com que aquilo soasse absolutamente ridculo e Victoria mais ainda.
       - E apenas uma garota, essa sua irm. Ela sempre faz coisas assim, enquanto voc cuida da casa para seu pai?
       Ela havia explicado a ele que estivera ocupada e no prestara ateno aonde Victoria fora aquele dia. Ela realmente encarava com seriedade seu papel de irm 
mais velha, embora houvesse apenas pouco mais de dez minutos de diferena entre as duas.
       - Ela roubou um dos carros de meu pai para ir a um desses encontros no dia em que voc foi nos ver em Croton. - Ela estava subitamente rindo com ele, embora 
ainda se sentisse desesperadamente preocupada.
       - Bem, ao menos ela no  tola - disse ele calmamente. - Pense nas crianas que ela ter.  de fazer qualquer um estremecer, no?
       Ele estava rindo novamente, mas ambos ficaram srios quando chegaram ao Quinto Distrito. Ficava num lugar lgubre, com pessoas pobres e em farrapos vadiando 
nos portes e muito lixo espalhado nas ruas em toda a sua volta. Enquanto Olvia saltava do txi com Charles, viu um rato correndo pela rua para dentro da sarjeta 
e instintivamente chegou mais perto dele. Quando entraram na delegacia havia bbados e dois pequenos ladres que haviam acabado de ser trazidos algemados, alm de 
trs prostitutas que gritavam de uma cela gradeada para a mesa do sargento e Charles olhou para Olvia para ver se ela estava prestes a desmaiar por causa do que 
os rodeava. Mas ela parecia bastante carrancuda e relativamente pouco incomodada pelos comentrios dos bbados e das prostitutas, pois pretendia ignor-los.
       - Voc est bem? - perguntou ele em voz baixa, enfiando a mo dela em seu brao, enquanto Olvia ficava em p bem prxima a ele. Charles tinha de admir-la 
por seu senso esportivo e pelo equilbrio com que estava encarando o abuso das prostitutas, que gritavam para ela com inveja.
       - Estou bem - sussurrou ela de volta para Charles, levantando os olhos para os dele - mas quando sairmos daqui, vou mat-la.
        Reprimindo um sorriso, ele voltou a ateno para a mesa do sargento, que os levou para uma sala fechada onde Victoria estava sentada numa cadeira simples, 
bebendo uma xcara de ch, enquanto uma inspetora tomava conta dela. Victoria parecia irritada e colocou a xcara na mesa e levantou-se quando Charles e Olvia entraram 
no aposento. Ela no parecia feliz por v-los.
       -  sua culpa, no ? - perguntou Victoria a ela sem nem mesmo reconhecer Charles Dawson.
       Para ele era estranho ver as duas, to totalmente idnticas, desde o rosto at os olhos e mesmo os chapus, embora o de Victoria estivesse levemente fora 
do lugar e ela parecesse estar usando-o de maneira extravagante. Charles observava as duas, hipnotizado e sentiu instantaneamente a eletricidade entre elas.
       - O que  minha culpa? - perguntou Olvia, claramente furiosa com a irm.
       -  sua culpa que eles no tenham me prendido. - Victoria parecia igualmente furiosa.
       - Voc est desorientada, Victoria Henderson - acusou Olvia. -Voc merece ser trancafiada, mas no aqui. Devia ir para um hospcio. Voc tem conscincia 
do escndalo que seria se fosse presa? Voc tem alguma idia do embarao que causaria a papai por causa disso? Voc alguma vez pensa em algum que no seja voc, 
Victoria? Ou isso no est em sua agenda? 
       O sargento e a inspetora trocaram um sorriso. Havia pouco que eles pudessem fazer e Charles arranjou tudo calmamente com eles para tir-la dali. No houvera 
nenhum dano real Ela apenas estivera no lugar errado na hora errada e eles estavam querendo ignorar totalmente este fato. O sargento sugeriu que ficassem de olho 
nela no futuro e perguntou a Charles se as duas jovens eram suas irms mais novas. Ele ficou surpreso com a idia e elogiou, agora que parava para pensar naquilo, 
o fato de Olvia t-lo chamado. Ela estivera prestes a vir at ali por conta prpria, e isso teria sido aterrorizante para ela, alm de perigoso. O txi ainda estava 
esperando do lado de fora e, enquanto as duas irms discutiam no pequeno aposento, ele finalmente as interrompeu e sugeriu que continuassem a conversar no carro. 
Olvia estava soltando fumaa. Por um instante, ele pensou que Victoria pudesse se recusar a sair, mas no havia nada para ela fazer ali. A polcia no a queria 
e a excitao havia acabado. Mas Olvia ainda estava repreendendo-a quando saram para voltar ao txi e Charles, muito calmamente, conduziu-as at o carro e depois 
se sentou entre elas.
       - Senhoritas, sugiro que chamemos isso de um dia e tanto, mas que concordemos em esquecer este desafortunado incidente. Nada desagradvel aconteceu aqui e 
ningum precisa ser indiscreto. 
       Ele se virou ento para Olvia e sugeriu que perdoasse a irm por suas loucuras. Depois se virou para Victoria e pediu a ela que ficasse longe de manifestaes 
pelo resto de sua estadia na cidade. Caso contrrio, eles poderiam realmente prend-la.
       - Isso teria sido um pouco mais honesto, voc no acha? Mais honesto do que nos separar por classe e ir correndo chamar papai.
       Ela ainda estava aborrecida por ter sido "salva" por sua irm e o advogado de seu pai. E achava que Charles era um completo idiota por ter vindo com Olvia. 
Gostaria de dizer a ele para cuidar de sua prpria vida no futuro.
       - Voc tem alguma idia do que isso faria a papai se ele soubesse? - perguntou Olvia asperamente. - Por que no pensa nele um pouco em vez de apenas em seus 
grupos estpidos e no voto das mulheres? Por que voc no se comporta de uma vez, em vez de estar sempre esperando que eu tire voc das suas enrascadas?
       As mos de Olvia tremiam enquanto ela colocava as luvas cuidadosamente e Charles olhou para ambas, fascinado. Uma to contida e responsvel, a outra to 
ardente e absolutamente sem remorso. De certo modo, Victoria lembrava a ele sua mulher, Susan, sempre sustentando idias pouco usuais e causas difceis. Mas ela 
tambm tivera um lado obediente, um lado dcil que ele lembrava com nostalgia nas noites calmas em que se deitava sozinho, tentando no pensar nela. Ele tinha que 
pensar em Geoffrey agora e no na me do garoto. Mas, apesar de saber que devia, nunca poderia obrigar-se a esquec-la e, no fundo de seu corao, sabia que no 
desejava realmente faz-lo. Mas esta garota selvagem e louca, com seu chapu preto de palha e seus ardentes olhos azuis, o intrigava muito mais do que sua irm obviamente 
mais obediente.
       - Gostaria de deixar claro - disse Victoria friamente, enquanto o txi parava em frente a sua casa - que no chamaria nenhum de vocs e no pedi para ser 
resgatada. 
       Ela estava sendo infantil e Charles no ajudava em nada sorrindo enquanto olhava para ela. Era como uma garota travessa, que precisava ser mandada para seu 
quarto ou censurada. Mas ela certamente no estava arrependida ou agradecida por terem ido busc-la. 
       - Talvez ento devssemos mand-la de volta - disse Charles e Victoria olhou-o furiosamente enquanto saltava do txi, entrando na casa na frente de sua irm. 
Ela deu as costas para ambos, tirou o chapu e o jogou sobre a mesa.
       - Obrigada - disse Olvia para Charles, embaraada e furiosa com a irm. - Eu no saberia o que fazer sem voc.
       - Sempre que precisar - sorriu ele e Olvia revirou os olhos.
       - Espero no precisar.
       - Tente coloc-la numa coleira at que seu pai chegue - disse Charles num sussurro. Estava claro que ela era uma rebelde sem qualquer arrependimento, e havia 
um certo charme naquilo, se a coisa fosse vista de uma distncia segura.
       - Graas a Deus papai estar aqui amanh  noite - disse Olvia e olhou para Charles com olhos preocupados. Ela acreditara nele e esperava que no a trasse. 
- Por favor, no diga nada a ele. Isso o aborreceria terrivelmente.
       - Prometo. Nem uma nica palavra. - Mas agora que tinha acabado, o que acontecera apenas o divertia. - Prometo que um dia voc vai rir disso tudo, quando 
vocs duas forem avs e se lembrarem de como ela quase foi presa.
       Olvia sorriu do que ele estava dizendo. Victoria murmurou um curto obrigada a ele e depois subiu para se trocar para o jantar. Elas iriam jantar apenas com 
a Sra. Peabody naquela noite, mas Olvia perguntou a Charles se ele gostaria de se juntar a elas. Parecia o mnimo a fazer por ele e Charles tambm parecia confortvel 
conversando com Olvia. Ela era a espcie de mulher de quem ele poderia ser amigo. Mas ainda era por Victoria que ele estava hipnotizado, e sentia-se tmido com 
ela. No poderia diferenci-las, mas mesmo assim, em alguma parte muito profunda e ntima de seu ser, ele sentia quando estava na presena de Victoria e algo nela 
o deixava confuso e meio abobalhado. Mas Olvia, com seu jeito gentil, o fazia sentir-se confortvel e descansado, como uma amiga querida ou uma carinhosa irm mais 
nova.
       Ele saiu poucos minutos depois e ela fechou a porta silenciosamente, subindo devagar as escadas para falar com a irm. Victoria estava sentada em seu quarto, 
olhando pela janela com ar infeliz, pensando naquela tarde e no quanto se sentira tola quando o sargento a separara das outras.
       - Como  que vou aparecer na frente delas novamente? - perguntou infeliz, enquanto Olvia a encarava.
       - Voc no devia ter estado com elas, em primeiro lugar. - Olvia suspirou e sentou-se na cama, olhando para a irm. - Voc no pode continuar fazendo essas 
coisas, Victoria. No pode sair perseguindo qualquer idia selvagem sem pensar nas conseqncias. As pessoas podem ficar feridas com isso, voc pode ser ferida. 
Eu no quero que isso acontea.
       Victoria olhou vagarosamente para ela e a luz que Charles vira em seus olhos acendeu-se com muito brilho.
       - E se mais pessoas forem ajudadas do que feridas? E se algum tiver de morrer por um ideal, uma causa, para que as coisas certas aconteam? Sei que para 
voc pode soar como loucura, mas voc sabe que s vezes penso que gostaria de fazer isso. 
       O pior  que Olvia sabia, no fundo de seu corao, que Victoria estava sendo sincera. Ela tinha em si aquela espcie de fogo que brilhava e queimava seu 
corao e que a faria morrer por um ideal ou seguir aquilo em que acreditava em direo ao horizonte.
       - Voc me assusta quando fala assim - disse Olvia baixinho e Victoria segurou sua mo.
       - No  a minha inteno. Apenas acho que  assim que sou. No sou voc, Olhe. Mesmo que ns nos pareamos muito, como poderamos ser mais diferentes?
       - Diferentes e a mesma - disse Olvia, confusa com o mistrio que as seguia desde que nasceram, to parecidas de tantas maneiras to absolutamente diferentes 
de outras.
       - Sinto muito sobre esta tarde. Eu no queria assust-la. - Victoria estava finalmente arrependida, mas no por causa do que tinha feito, e sim porque aborrecera 
a irm. Amava muito Olvia para machuc-la.
       - Eu sabia que havia algo errado. Senti aqui. - Ela tocou o estmago e Victoria acenou com a cabea. Ambas conheciam bem aquela sensao.
       - A que horas? - perguntou Victoria com interesse. A telepatia entre elas sempre a intrigara.
       - s duas - disse Olvia e Victoria concordou com a cabea. Estavam ambas acostumadas com o fenmeno que sempre parecia dizer a cada uma delas quando a outra 
estava com problemas.
       - Na hora certa. Acho que foi quando eles nos prenderam e nos colocaram no carro.
       - Deve ter sido fascinante - disse Olvia, novamente em tom desaprovador, mas Victoria sorriu, parecendo divertir-se muito com aquilo.
       - No fundo, eu achei que foi muito engraado. Eles estavam to determinados a colocar todo mundo l dentro e ningum queria ser deixado do lado de fora. Todas 
queriam ser presas. - Victoria riu mais e Olvia gemeu, lembrando-se do telefonema do sargento O'Shaunessy do Quinto Distrito.
       - Estou satisfeita que no a tenham prendido - disse Olvia firmemente.
       - Por que voc o chamou? - perguntou Victoria ento, piscando os olhos e procurando por respostas no ditas. Havia uma mirade de coisas que sempre ficavam 
no ditas, mas eram claramente entendidas por elas.
       - No sabia a quem chamar, E no queria levar Donovan ou Petrie. Estava com medo de ir sozinha, e eles me disseram para no ir quando me ligaram.
       - Voc podia ter pensado. No precisava dele. Ele  to insignificante. 
       Victoria espantou Charles Dawson para o lado com um movimento de mo. Para ela, ele era inteiramente sem importncia. Ela no via nele nenhum dos mritos 
que Olvia via. E no tinha por ele nenhum interesse.
       - Ele no  insignificante - defendeu-o Olvia. Era um homem vencido, qualquer um podia ver facilmente que sua chama fora apagada, mas sofrera um golpe cruel 
numa das viradas rpidas da vida e Olvia sentia-se desesperadamente triste por ele. Isso no a fazia sentir piedade, mas ela gostava dele. Ela podia ver as qualidades 
do homem, o homem que devia ter sido antes e que poderia ser novamente, com um pouco de carinho e talvez a mulher certa. - Ele est ferido - explicou Olvia.
       - Me poupe. - Victoria riu cruelmente, desprezando suas fraquezas e feridas.
       - Isso no  justo. Hoje ele chegou aqui em dez minutos para ajud-la.
       - Papai provavelmente  um de seus maiores clientes.
       - Que coisa desagradvel de se dizer! Ele poderia ter me dito que estava ocupado.
       - Talvez ele goste de voc - disse Victoria travessamente, mas sem muito interesse.
       - Ou de voc - disse Olvia com justia.
       - Talvez ele no possa perceber a diferena entre ns - disse Victoria sinceramente.
       - Isso no faz dele uma m pessoa. Papai tambm no pode perceber sempre a diferena entre ns. Bertie  a nica que sempre pde.
       - Talvez ela tenha sido a nica que realmente se preocupou com isso - disse Victoria secamente.
       - Por que voc  to cruel s vezes? - replicou Olvia, infeliz. Ela odiava quando a irm dizia coisas daquele tipo. s vezes ela conseguia ser to insensvel.
       - Talvez seja apenas o meu jeito de ser. - Victoria falava de modo prosaico, mas sem nenhum remorso. - Eu tambm sou dura comigo. Espero muito de todo mundo, 
Ollie. Espero fazer mais de minha vida do que apenas sentar aqui e ir a festas e bals e teatros. Ela parecia subitamente muito madura e Olvia estava surpresa com 
o que ela estava dizendo.
       - Pensei que voc quisesse vir para Nova York. Voc  quem sempre se queixa de estar presa na entediante e velha Croton-on-Hudson.
       - Eu sei que fao isso e adoro estar aqui, mas no  apenas a vida social que desejo. Quero que algo importante acontea em minha vida tambm. Quero mudar 
o mundo. Quero me sustentar sendo algo mais do que apenas a filha de Edward Henderson. - Ela parecia muito intensa e viva enquanto dizia aquilo.
       - Soa to nobre quando voc fala sobre isso dessa maneira! 
       Olvia sorriu para sua irm gmea. Victoria s vezes tinha idias muito grandiosas, mas ainda assim Olvia sabia que ela realmente acreditava nelas. Mas ela 
ainda era uma criana de certa forma e s vezes uma criana muito mimada. Queria tudo, gente, diverso, festas e Nova York, mas havia nela um lado srio tambm, 
que queria lutar todas as batalhas, consertar todas as injustias e mudar o mundo. Ela ainda no sabia exatamente o que queria, mas Olvia s vezes sentia que Victoria 
faria muito mais de sua vida do que simplesmente viver em Croton.
       - Que tal ser a esposa de algum? - perguntou Olvia calmamente, pois era algo em que pensava de vez em quando, ainda que no pudesse nem mesmo imaginar a 
hiptese de deixar seu pai. Ele precisava muito dela.
       - No  o que quero - respondeu Victoria firmemente. - No quero pertencer a ningum, como uma mesa ou cadeira, ou um carro. "Esta  minha mulher"  como 
dizer este  meu chapu, ou meu sobretudo, ou meu cachorro. No quero "pertencer" a ningum, como um objeto.
       - Voc tem passado muito tempo com essas sufragistas - rosnou Olvia.
       Ela no concordava com quase nada do que diziam, exceto talvez sobre o direito de voto. Mas todas as suas idias sobre liberdade e independncia pareciam 
ser menos importantes do que as que Olvia amava mais, como famlia e crianas, e ser respeitosa com o pai ou com um marido. Ela no acreditava naquela espcie de 
anarquia que estavam pregando e embora Victoria dissesse que gostava, Olvia s vezes duvidava. Victoria gostava de fumar e de roubar o carro de seu pai, de ir sozinha 
aos lugares e at mesmo de arriscar-se a ser presa por algo em que acreditava, mas ela amava seu pai to carinhosamente quanto qualquer um e Olvia sentia que, se 
o homem certo aparecesse, Victoria cairia de amores por ele como qualquer outra mulher o faria, talvez at mais intensamente ainda. Ela era feita de fogo, de crenas 
pelas quais queria morrer e de uma espcie de paixo desenfreada. Como ela podia dizer que no queria nunca "pertencer" a ningum ou ser a esposa de um homem? Ela 
simplesmente no era assim.
       - Falo srio - disse Victoria calmamente. - j tomei esta deciso h muito tempo. No quero me casar. - Ela parecia incrivelmente bela enquanto dizia aquilo 
e Olvia sorriu, pensando que no acreditava nela.
       - Quando foi "h muito tempo"? No encontro de sufragistas a que voc foi hoje ou na semana passada? No acho que voc saiba o que est dizendo.
       - Sim, eu sei. Nunca me casarei. - Ela disse isso calma e firmemente, com total convico. - Realmente, no acho que o casamento v me satisfazer.
       - Como  que voc pode saber isso? Voc est me dizendo que vai ficar em casa com papai e tomar conta dele? 
       A idia soava ainda mais ridcula naquele momento. Olvia podia ficar em casa e tomar conta dele em seus ltimos anos, mas no Victoria. Ambas sabiam que 
ela no poderia faz-lo. Ou pelo menos Olvia sabia. E imaginava se Victoria j compreendera aquilo. Ser que ela acreditava que podia ser realmente feliz em casa 
com ele em Croton? Era pouco provvel.
       - Eu no disse isso. Mas talvez eu v viver na Europa um dia, quando formos mais velhas. Na verdade, acho que gostaria de viver na Inglaterra. 
       A causa da liberdade feminina estava um pouco mais desenvolvida l, apesar de no estar sendo mais bem recebida que em Nova York ou em qualquer outro lugar 
nos Estados Unidos. Apenas nos ltimos meses, pelo menos meia dzia de lderes sufragistas haviam sido detidas e mandadas para a priso na Inglaterra.
       Mas Olvia estava surpresa pelas coisas que Victoria dissera, particularmente sobre nunca se casar e viver na Europa. Tudo aquilo parecia to estranho e to 
diferente para Olvia e isso a lembrava novamente do quanto eram diferentes. Apesar dos instintos parecidos que s vezes partilhavam e de suas aparentes semelhanas, 
havia algumas diferenas enormes entre elas.
       - Talvez voc devesse se casar com Charles Dawson - Victoria estava provocando-a, enquanto ambas comeavam a se vestir para jantar com Bertie. - j que voc 
o acha to doce. Talvez voc gostasse de se casar com ele - disse Victoria, enquanto deslizava o fecho nas costas do vestido de Olvia e depois se voltava para que 
a irm fechasse o seu. Aquela era uma nova inveno que havia acabado c entrar na moda naquele ano, algo incrivelmente fcil e bem mais evoludo do que as carreiras 
de botes que se enroscavam nos dedos das pessoas.
       - No seja estpida - disse Olvia a respeito do comentrio de sua irm sobre Charles Dawson. - Eu apenas o encontrei duas vezes na vida - completou baixinho.
       - Mas voc gosta dele. No minta para mim. Eu posso ver.
       - Tudo bem, ento eu gosto dele. E da? Ele  inteligente e agradvel para se conversar, alm de terrivelmente til quando minha irm se enfia numa cadeia. 
Talvez eu tenha de me casar com ele se voc transformar num hbito essa histria de virar um pssaro na gaiola Seria isso ou ir para a escola de Direito.
       - Isso seria bem melhor - disse Victoria firmemente.
       As duas irms haviam feito as pazes uma com a outra enquanto se vestiam e Olvia quase a perdoara pelo extico fim de tarde, mas forara Victoria a jurar 
que ficaria longe de manifestaes pelo resto de sua estadia em Nova York. Ela no queria perder seu tempo na cidade livrando Victoria de problemas. Victoria prometeu 
relutantemente e fumou um cigarro no banheiro enquanto Olvia penteava os cabelos e queixava-se de quanto era pouco atrativo para uma dama fumar cigarros, mas Victoria 
apenas sorriu para ela e falou que ela soava como Bertie.
       - Se ela soubesse que voc fumou, seria capaz de mat-la! 
       Olvia abanava a escova para sua irm gmea para enfatizar seu ponto de vista e Victoria ria, parecendo terrivelmente cheia de vida, enquanto se sentava com 
suas longas pernas cruzadas na beira da gigantesca banheira, num dos vestidos que Olvia havia acabado de comprar para elas. Era de um vermelho brilhante e um pouco 
mais curto que alguns dos vestidos que usavam. Era de fato a ltima moda e caa em arribas com perfeio.
       - Eu gosto disso, por sinal - elogiou-a Victoria, enquanto desciam as escadas para a sala de jantar com seus braos em torno uma da outra. - Gosto de todos 
os vestidos que voc escolhe para ns. Talvez eu apenas viva com voc pelo resto de minha vida e esquea a Europa.
       - Eu no consigo imagin-lo - disse Olvia delicadamente, sentindo-se triste com o pensamento de que um dia poderiam no estar mais juntas. 
       Ela nunca se deixara pensar em casamento porque no podia tolerar a idia de deixar seu pai ou sua irm gmea. Seria como deixar parte de si mesma para trs 
e s vezes ela sentia que no sobraria nada nela sem eles.
        - No posso imaginar o fato de deix-la disse Olvia, enquanto olhava para o rosto familiar que vira por toda a sua vida, to totalmente idntico ao seu 
prprio que era como olhar no espelho. Cada detalhe que uma tinha, a outra tinha no lado oposto, de modo que realmente era como olhar no espelho. 
       - Eu no poderia deix-la - disse Olvia olhando para Victoria, que sorriu e beijou-lhe o rosto gentilmente.
       - Voc no precisar faz-lo, Ollie. No acredito que pudesse suportar ir a lugar algum sem voc. Estou apenas falando - disse ela, sentindo que aborrecera 
Olvia com sua conversa sobre a Europa. - Apenas ficarei em casa com voc e serei presa sempre que precisar respirar.
       - Voc no ouse! - Olvia balanou o dedo para ela novamente, enquanto Bertie se juntava s duas na sala de jantar num vestido de seda preto que Olvia copiara 
para ela de uma revista de Paris. Parecia surpreendentemente bem nela e Bertie o usava sempre que tinha de jantar com a famlia, o que considerava uma honra.
       - E onde voc esteve toda a tarde, Victoria? - perguntou Bertie quando se sentavam e ambas as garotas desviaram os olhos enquanto abriam os guardanapos.
       - No museu. Havia uma esplndida exposio de Turner, da National Gallery de Londres.
       - Mesmo? - disse Bertie, abrindo largamente seus velhos e sbios olhos, querendo acreditar nela. - Terei de ter certeza e ver enquanto estivermos aqui.
       - Voc vai amar - disse Victoria, com um sorriso brilhante enquanto Olvia olhava para o teto da casa em que seus pais haviam vivido. Ela imaginava como teria 
sido quando sua me estava ali, como seria e quem realmente era espiritualmente mais parecida com a me, se ela ou sua irm. Era uma questo que elas sempre ponderavam; 
ambas sabiam que seu pai preferia no discutir o assunto. Mesmo aps todos esses anos ainda era muito doloroso para ele.
       - Ser bom ver seu pai amanh, no, garotas? - perguntou Bertie prazerosamente, enquanto terminavam a refeio e a copeira servia o caf.
       - Sim, ser - respondeu Olvia, pensando nele e nas flores que ia colocar em seu quarto, enquanto Victoria se perguntava se ele realmente a mataria se participasse 
de apenas mais uma manifestao.
       Ela ouvira falar sobre uma outra naquela tarde, a caminho da delegacia e prometera estar l. Mas enquanto pensava nisso, Olvia encarou-a e sacudiu a cabea, 
j que sabia o que ela estava pensando. Elas conseguiam fazer aquilo uma com a outra algumas vezes. Nunca sabiam como acontecia, mas acontecia. Era quase como se 
pudessem ouvir os pensamentos da outra antes que fossem ditos.
       - No ouse - sussurrou Olvia para ela pelas costas de Bertie quando deixavam a mesa.
       - No fao idia do que voc est falando - disse Victoria, tentando disfarar.
       - Da prxima vez eu a deixarei l, guarde bem minhas palavras e deixarei que voc mesma explique a papai.
       - Duvido - disse Victoria com um sorriso, enquanto atirava seus longos cabelos negros sobre os ombros. No havia quase nada de que ela tivesse medo. Mesmo 
ter sido detida naquela tarde no causara nenhuma impresso nela, fosse qual fosse. Achara interessante, mas no sentira medo.
       - Voc  incorrigvel - disse Olvia.
       Depois elas deram um beijo de boa-noite em Bertie e subiram para o quarto. Olvia folheou algumas revistas de moda e Victoria leu um panfleto escrito por 
Ermeline Pankhurst sobre greves de fome na priso. Ela era, de acordo com Victoria, a mais importante sufragista da Inglaterra. Victoria ousou acender um cigarro 
no quarto, sabendo que Bertie j fora para a cama, e encorajou Olvia a fumar um, mas ela no quis. Em vez disso, Olvia sentou-se olhando pela janela para a noite 
quente de setembro e, apesar de tudo em que tentou pensar, sua mente voltava sempre para Charles Dawson.
       - No faa isso - disse-lhe Victoria, enquanto se deitava na cama e observava a irm.
       - No faa o qu? - perguntou Olvia, voltando-se para olhar para Victoria, que fumava elegantemente reclinada.
       - No pense nele - disse Victoria suavemente, soprando uma longa e lenta nuvem de fumaa atravs da janela.
       - O que voc quer dizer? - Olvia pareceu assustada. Era sempre estranho quando uma delas adivinhava o que a outra estava pensando.
       - Voc sabe exatamente o que quero dizer: Charles Dawson. Voc tinha o mesmo brilho nos olhos quando falou com ele. Ele  muito entediante para voc. Haver 
muitos homens maravilhosos aqui. Posso senti-lo. - Ela parecia muito mundana ao diz-lo, mas Olvia ainda estava assustada.
       - Como  que voc sabe o que estou pensando? - Acontecia com elas to freqentemente!
       - Da mesma maneira que voc sabe. Eu s vezes ouo voc em minha cabea, como minha prpria voz pensando. s vezes eu simplesmente posso ver os seus pensamentos 
quando olho para voc.
       - Isso s vezes me amedronta - disse Olvia honestamente. Somos to unidas que no sei onde voc termina e eu comeo, ou sabemos? Ser que s vezes simplesmente 
nos fundimos uma na outra?
       - s vezes - Victoria sorriu para ela - mas nem sempre. Gosto de saber o que voc pensa... e gosto de ser capaz de surpreender as pessoas e trocar de lugar 
como costumvamos fazer. s vezes sinto falta disso. Ns poderamos faz-lo novamente em algum momento, enquanto estivermos aqui. Ningum jamais notaria a diferena. 
E seria muito divertido, no?
       - A mim me parece diferente agora que somos mais velhas. Parece enganao - disse Olvia, pensativa.
       - No seja to moralista, Ollie.  inofensivo. No machuca ningum. Tenho certeza de que todos os gmeos fazem isso. 
        Mas elas tinham conhecido gmeos apenas uma ou duas vezes na vida e nunca de idades ou sexo comparveis e nem to idnticos como elas. 
       - Vamos faz-lo em breve - espicaou-a Victoria, sempre querendo passar dos limites e ser ousada como fora em sua infncia.
       Mas desta vez, quando Olvia olhou para ela, apenas sorriu e no respondeu, Victoria soube que ela no o faria. Elas tinham crescido agora. E Olvia pensava 
que a troca era infantilidade.
       - Voc vai virar uma sombria e velha senhora encarquilhada se no tomar cuidado - advertiu Victoria e Olvia sorriu para ela genuinamente divertida.
       - Quando eu ficar assim, talvez voc tenha aprendido a se comportar. As duas irms trocaram um olhar carinhoso e Victoria deu uma risada.
       - No conte com isso, irm mais velha. No tenho certeza se um dia terei "aprendido a me comportar".
       - Nem eu - sussurrou Olvia e depois deixou o aposento para se preparar para dormir enquanto Victoria olhava melancolicamente pela janela.
       Seu pai chegou de Croton-on-Hudson na data marcada, no fim da tarde de sexta-feira. Donovan, fora busc-lo no Cadillac e Olvia estava com a casa em perfeita 
ordem. Tudo estava exatamente onde deveria estar, tudo fora limpo, polido e sacudido, e seu quarto estava exatamente do jeito que ele gostava. Olvia colocara flores 
por toda a parte, e a casa exalava um cheiro delicado. Mesmo o jardim fora limpo para que ele pudesse us-lo, embora fosse apenas uma pequena mancha verde comparado 
ao que estavam acostumados em Croton. Mas quando ele chegou, ficou extremamente satisfeito com o que viu e fez muitos elogios a Bertie e suas filhas. Ele sempre 
inclua Victoria para ser gentil com ela, embora soubesse que fora Olvia quem colocara a casa para funcionar. Ele estava feliz por v-las e parecia muito amoroso 
com ambas. Beijou Victoria e agradeceu a ela pelo trabalho pesado de Olvia, o que fez ambas sorrirem e ele entendeu imediatamente o que acontecera.
       - Vou ter de mandar Bertie faz-las usarem elsticos coloridos nos cabelos novamente, a menos que vocs faam o que faziam antes e os troquem, o que  bastante 
provvel.
       - Ns no temos mais idade para isso, papai - disse Victoria em tom de queixa e Olvia olhou sutilmente para ela.
       - Est certo e quem e que estava tentando me falar justamente sobre isso na noite passada? - disse Olvia, enquanto Victoria no se lembrava.
       - Ela no o far mais, papai. Ela no se diverte mais com isso - reclamou Victoria 
e ele sorriu com tristeza para ela.
       - Vocs duas tornam qualquer um miservel o suficiente apenas pelo fato de confundi-las, mesmo sem trocar de lugar.
       Ele ainda estremecia quando pensava em sua apresentao  sociedade dois anos antes. Ambas se destacaram tanto com seu refinamento, que ele no fora capaz 
de ir com elas a lugar algum sem parar o trnsito. Em sua opinio, fora um verdadeiro excesso. E desejava que desta vez a pessoas ficassem um pouco menos excitadas 
quando as vissem Ma logo eles veriam isso. Iriam ao teatro na noite seguinte.
       Na noite de sua chegada, Olvia planejou um de seus jantares favoritos, com carne de cervo, aspargos, arroz selvagem e alguns moluscos trazidos naquela manh 
de Long Island. Havia verduras de seu jardim em Croton, que Donovan trouxera a seu pedido e um bolo de chocolate que seu pai jurou que ia mat-lo, mas  claro que 
comeu. E aps o jantar os trs tomaram caf, enquanto ele falava sobre alguns planos que fizera para eles, incluindo o teatro na noite seguinte e em muitas outras 
nas prximas semanas. Havia pessoas que ele queria que conhecessem, dois novos restaurantes que esperava experimentar com elas e naquela noite disse a Olvia que 
queria dar uma festa. Havia anos que ele no se divertia em Nova York e achava que seria interessante para elas, particularmente agora, que todas as pessoas da Nova 
Inglaterra e de Long Island estavam ali por causa do fim do vero. Era a abertura da estao. E a idia pareceu fascinante para ambas enquanto escutavam.
       - Na verdade - disse ele, sorrindo para ambas e parecendo mais bem-disposto do que parecera durante anos - ns j fomos convidados para um baile nos Astor 
e os Whitney esto dando uma grande festa daqui a duas semanas. Receio que vocs tenham de fazer algumas compras.
       Tudo aquilo soava excitante para ambas, mas Olvia estava ainda mais excitada com sua festa. Seu pai dissera que queria convidar cerca de cinqenta pessoas. 
Grande o suficiente para ser cheia de vida e pequena o suficiente para poder conversar com quase todos durante a noite. Ele prometeu dar a Olvia a lista de convidados 
no dia seguinte. J havia escrito todos os nomes e ela e Bertie estariam bastante ocupadas. Ele sabia muito bem que Victoria no seria de muita ajuda para elas.





























TRS



       Na manh seguinte Olvia j estava em sua escrivaninha, estudando os nomes e escrevendo os convites. A festa seria dentro de quinze dias, na mesma semana 
do baile dos Astor. Elas ficariam bastante ocupadas. Olvia tambm ficou satisfeita ao constatar que reconhecia muitos nomes de dois anos atrs, embora nem sempre 
pudesse relacion-los aos rostos. Mas ela se lembrava de t-los conhecido e pensou que seria interessante v-los novamente, particularmente aqui na casa. Ela amava 
propiciar diverso para seu pai. Olvia tambm j compusera muitos menus em sua cabea e bem cedo naquela manh comeou a examinar as toalhas de mesa. Teria de mandar 
buscar mais algumas em Croton. Os cristais e a porcelana chinesa daqui eram adequados e ela sabia exatamente o que queria em termos de flores, esperando que ainda 
pudesse encontr-las neste fim de setembro.
       Olvia ficou em sua escrivaninha boa parte daquela tarde, trabalhando em seus planos e Victoria saiu para um passeio de carro com o pai. Eles passearam pela 
cidade no Cadillac e fizeram uma pequena caminhada pela Quinta Avenida, onde Edward encontrou muitas pessoas que conhecia. Estava orgulhoso de apresentar sua filha. 
Estavam ambos bem-humorados quando chegaram em casa, assim como Olvia, que j havia organizado a festa toda.
       Naquela noite, quando foram ver The Seven Keys to Baldpate, com Wallace Eddinger, no Teatro Astor, seu pai parecia conhecer todo mundo no recinto. E como 
sempre, quando elas eram apresentadas, criavam quase um tumulto. As garotas estavam usando adequados vestidos de noite de veludo negro, com pequenos agasalhos e 
colarinhos de peles, e cada uma usava um adorno de plumas longo e negro no cabelo. Juntas eram como uma viso dupla sada de uma revista de moda de Paris e, na manh 
seguinte, estavam novamente nos jornais. Mas desta vez Edward estava mais calmo sobre isso do que estivera dois anos antes e as garotas, menos excitadas. Elas estavam 
dois anos mais velhas e estavam mais ou menos acostumadas a causar sensao em pblico.
       - Foi maravilhoso - disse Victoria, falando sobre o teatro da noite anterior. Ela gostara da pea e ficara com sua ateno to voltada para o palco que quase 
no notara a ateno das pessoas em volta sendo focada nelas.
       -  bem melhor do que ser presa - sussurrou Olvia para ela com um gracejo, enquanto ia pegar outra xcara de caf para o pai. 
       Foram  igreja juntos mais tarde naquela manh, em St. Thomas e todos os cumprimentaram. Depois os trs entraram no carro atrs de Donovan e voltaram para 
a casa na Quinta Avenida, para passarem um domingo tranqilo juntos. 
       Na manh seguinte, Olvia teve trabalho a fazer, percorrendo a casa e dando ordens para a festa e seu pai saiu para encontrar seus advogados, o que era, na 
verdade, o motivo de terem vindo para c. Tanto John Watson quanto Charles Dawson voltaram para casa com ele no fim da tarde e Olvia teve um pequeno momento de 
terror quando os viu chegando. Ela estava com medo de que Charles pudesse ter escorregado e dito algo para seu pai sobre o dia em que a levara ao Quinto Distrito. 
Mas, na verdade, ele no disse absolutamente nada a ela. Charles acenou polidamente para ela quando chegaram e disse adeus quando saram. No mostrou qualquer reconhecimento 
particular, o que foi um grande alvio para ela, embora Victoria dissesse que ela no deveria ter se preocupado, quando Olvia lhe contou.
       - Papai ficaria furioso - advertiu-a Olvia, trazendo-a de volta a terra rapidamente - e voc sabe disso. Voc estaria no prximo trem para Croton.
       - Talvez voc esteja certa. - Victoria riu para ela. 
Ela estava gostando muito de Nova York para perder aquela chance. Ela queria ir aos encontros da Associao Nacional dos Direitos da Mulher, mas prometera ficar 
bem longe de todas as manifestaes. Elas foram ao teatro novamente naquela noite e jantaram com amigos de seu pai naquela semana. Victoria se divertira ao ouvi-los 
falar sobre um homem totalmente escandaloso chamado Tobias Whitticomb, que aparentemente fizera uma vasta fortuna em algum tipo de especulao bancria e a aumentara 
ainda mais se casando com uma Astor. Pelo visto ele era um jovem muito bem-apessoado e tinha uma tima reputao entre as mulheres. Todo mundo na cidade estivera 
falando nele depois de alguns recentes casos escandalosos, que ningum poderia explicar em detalhes para Victoria nem para sua irm.
       Depois seu pai chocou a todos dizendo que fizera negcios recentemente com ele e o achara no s civilizado, mas tambm agradvel. Na verdade, eles haviam 
fechado alguns negcios muito lucrativos e ele o achara muito honesto e decente.
       Depois disso todos discutiram com ele num grande clamor, trocando histrias sobre Whitticomb. Mas tiveram de admitir que, apesar de sua reputao, ele sempre 
era convidado para as melhores casas e festas. Mas aquilo, disseram, era apenas porque ele se casara com Evangeline Astor. E todos no grupo concordavam que ela era 
uma garota doce e um absoluto anjo para conseguir ficar com Tobby. E ela j estava com ele havia algum tempo, desde que se casaram, cinco anos antes, e tinham trs 
filhos.
       E foi apenas no caminho de casa naquela noite que Olvia lembrou-se de que os Whitticomb haviam sido convidados para a festa de seu pai.
       - Ele  to mau como dizem? - perguntou Olvia com curiosidade no fim da noite, enquanto rodavam para casa no confortvel Cadillac. 
       Victoria no estava prestando nenhuma ateno neles. Tivera bons momentos naquela noite conversando com algumas mulheres sobre poltica e parecera ter grandes 
coisas a dizer sobre o assunto. Mas Edward Henderson sorriu da mais velha das gmeas e deu de ombros em resposta  sua pergunta.
       -  preciso ter cuidado com homens como Tobias Whitticomb, minha querida; ele  muito bonito e jovem, e provavelmente muito atraente para a maioria das mulheres. 
Mas com toda a justia, acredito que a maior parte de suas conquistas  entre as mulheres casadas e convm a elas serem discretas o suficiente para isso. E se no 
o forem, ento misericrdia para elas. No acho que ele saia por a arrebatando jovens garotas ou eu no o teria convidado para nosso jantar.
       - Quem  esse? - perguntou Victoria vagamente, enquanto voltava sua ateno para a conversa. Eles j estavam quase em casa e ela no estava particularmente 
interessada, j que no ouvira a conversa anterior.
       - Aparentemente, papai convidou um terrvel libertino para nossa festa e nossa anfitri de hoje estava nos alertando sobre ele.
       - Ele assassina mulheres e criancinhas? - perguntou Victoria ainda sem interesse.
       - Acho que  justamente o oposto - explicou-lhe Olvia. - Ele parece ser muito charmoso e as mulheres se jogam aos seus ps, como cachorrinhos, esperando 
que ele as ame.
       - Que desagradvel - disse Victoria com indisfarvel desaprovao, enquanto Olvia e seu pai sorriam de sua reao. - Por que o estamos convidando?
       - Ele tem uma esposa muito charmosa tambm.
       - E ela tambm tem homens agarrados a seus ps? Eles poderiam criar um problema na festa, com todo mundo se jogando no cho ao redor deles a noite toda,
       Eles j estavam em casa e os trs entraram, cansados e satisfeitos com a noite. E o assunto de Tobias Whitticomb foi rapidamente esquecido. Mas apesar de 
ter convidado os duvidosos Whitticomb, que j haviam aceitado o convite, estavam todos parecendo entusiasmados com a festa. Quase todos os convidados aceitaram o 
convite. Haveria quarenta e seis convidados em quatro mesas redondas na sala de jantar, dana na sala de visitas mais tarde e at mesmo uma tenda especialmente montada 
no jardim para que as pessoas pudessem passear por ali. Olvia se metera num grande problema em beneficio de seu pai.
       Parecia que faltavam apenas alguns momentos para que o grande dia chegasse e por dois dias Olvia no fez nada a no ser checar flores, linhos e louas. Ela 
provou a comida e observou a montagem da tenda no jardim Havia esculturas de gelo instaladas na sala de jantar, a orquestra chegou e ela colocou os msicos na sala 
de visitas. 
       Os preparativos pareciam durar para sempre.
       A Sra. Peabody fez o que pde, mas at ela parecia um pouco sobrecarregada e  claro que Victoria jamais poderia ser encontrada a tempo para se tomar til. 
Nas ltimas semanas ela comeara a reunir um grupo de amigos, a maior parte deles claramente intelectual, um ou dois escritores e muitos artistas, todos vivendo 
em lugares estranhos. Ela comeara a visit-los em seus estdios e achou que compartilhavam muitos de seus pontos de vista polticos. Ela estava fazendo amigos mais 
rapidamente que Olvia, que sempre parecia estar ocupada tomando conta da casa ou do pai.
       Victoria sempre dizia a ela que precisava sair mais e Olvia prometia que faria isso assim que acabasse de organizar a festa. Depois disso, ela estaria livre 
para fazer o que quisesse. De fato, elas iriam ao baile dos Astor no dia seguinte e ela mal podia esperar para se divertir na festa de outra pessoa. Mas esta noite 
era o seu grande momento como anfitri. Esta era a primeira festa que ela dava em Nova York. 
       E estava realmente tremendo de excitao quando ela e Victoria desceram as escadas em seus vestidos de cetim verde-escuro que ela mandara as costureiras de 
Croton fazer. Os vestidos tinham anquinhas atrs e tambm pequenas caudas e os decotados espartilhos eram incrustados com contas de azeviche. As duas usavam o cabelo 
preso no alto da cabea e sandlias de saltos altos de veludo negro. Ambas usavam os longos cordes de prolas que ganharam do pai quando fizeram dezoito anos e 
idnticos brincos de diamantes. Elas eram como uma viso simtrica, um perfeito dueto e at mesmo a maneira com que se moviam parecia em completa harmonia, enquanto 
Olvia checava tudo uma ltima vez e Victoria olhava ao redor do aposento parecendo feliz e excitada. 
       A banda tinha comeado a tocar e a casa tinha uma aparncia extraordinria, quase totalmente iluminada com velas. Todos os candelabros foram acesos, havia 
flores cheirosas por toda parte, e as gmeas por si s pareciam incrveis enquanto ficavam de p  luz das velas da sala de visitas, prximas a seu belo pai. 
       Ele deu um passo atrs por um momento, olhando para elas, e era impossvel no ficar abalado com a beleza das duas, com sua graa e elegncia. Uma delas apenas 
ia seria deslumbrante, mas duas deixavam quem quer que as olhasse hipnotizado e descrente, exatamente o que acontecia com os convidados que comeavam a chegar e 
viam as gmeas em p ao lado do pai. Mesmo preparadas como as pessoas deviam estar, subitamente v-las ali tirava a respirao de qualquer um e os convidados olhavam 
para elas constantemente, incapazes de lembrar quem era quem e, de certa maneira, vendo-as mais como uma unidade. Nenhuma delas parecia completa sem a outra bem 
a seu lado.
       Elas se identificaram rapidamente para seus amigos e Edward apresentou-as a todos, mas a maior parte dos convidados no tinha idia de qual gmea era Olvia 
e qual era Victoria e Charles Dawson nem mesmo tentou sab-lo quando chegou. Ele simplesmente cumprimentou as duas com um sorriso caloroso e olhou com interesse 
de uma para a outra. E foi apenas quando comeou a conversar com elas na sala de visitas que comeou a sentir novamente qual delas era mais selvagem e, em voz mais 
baixa, at ousou provoc-la.
       - Bem longe do Quinto Distrito, no? - perguntou ele com uma centelha nos olhos e Victoria encarou-o descaradamente desafiadora, enquanto sorria para ele, 
no ficando nem mesmo embaraada com o fato de que algum pudesse ouvi-los.
       - Eu disse a Olvia que vocs deviam t-los deixado me prender. Eu esperava por isso. Fiquei realmente muito desapontada quando eles no o fizeram.
       - No acho que sua irm tenha ficado - disse Charles baixo, admirando-a. Ela era a mais bela mulher que vira em anos, assim como sua irm. -Acho que ela ficou 
bastante aliviada por termos tirado voc dali o mais rpido possvel. Eu confesso ter achado que teramos momentos difceis ali - disse ele, soando aliviado. Fora 
um momento estranho.
       - Ns sempre podemos de novo. Eu mesma o chamarei da prxima vez - disse ela com sua voz sensual sugerindo futuras travessuras. 
       Ele pensou em como Edward Henderson mantivera sua sanidade tendo duas filhas como estas para se preocupar, apesar de Charles saber que Olvia era bem mais 
comportada que sua irm supostamente "mais nova". Talvez aquilo bastasse para Edward. Ele dizia que Olvia era sua ddiva dos cus.
       - Avise-me sempre que voc precisar de alguma ajuda. Estarei aqui - disse Charles calmamente, afastando-se em seguida para falar com muitos outros convidados 
que ele conhecia e, claro, com seu associado John Watson. 
       Eles estavam sob a tenda que cobria o jardim admirando as esculturas de gelo, quando os ltimos convidados finalmente chegaram e Olvia misturou-se livremente 
com seus convidados. Era Victoria quem ainda estava de p prximo  porta quando os Whitticomb chegaram. Ela no tinha idia de quem eram e no se lembrava da conversa 
que haviam tido sobre eles. Ela apenas notou uma mulher muito bonita, num vestido com capa prateada e um turbante tambm prateado, que expunha uma ou duas mechas 
de um plido cabelo louro. Ela estava usando um extraordinrio e impressionante colar de diamantes. E o homem a seu lado era ainda mais bem apessoado. Ele quase 
tirou a respirao de Victoria quando ela olhou para ele e, um momento mais tarde, sua esposa afastou-se para cumprimentar amigos que ela vira indo para a tenda, 
inexoravelmente atrados pelo champanhe e pela msica. Era uma moa muito bonita, mas ele no parecia nem mesmo not-la enquanto encarava Victoria em seu vestido 
verde-escuro, extremamente na moda, costurado por geis dedos em Croton e delicadamente retocado por sua ainda mais talentosa irm gmea.
       - Ol, eu sou Tobias Whitticomb - disse ele, aceitando uma taa de champanhe de uma bandeja de prata que passava e sem jamais tirar seus olhos da espetacular 
figura de Victoria. Ele olhou dentro de seus olhos enquanto dizia seu nome, como se esperasse que ela soubesse tudo sobre sua reputao. - E voc ... - incitou 
ele, sem que seus olhos deixassem seu rosto, imaginando por que ele nunca a vira antes e quem ela era. Era uma beleza rara.
       - Sou Victoria Henderson - disse ela modestamente, de sbito embaraada com suas maneiras obviamente sofisticadas.
       - Oh, querida - disse ele, claramente desapontado. - Voc  casada com nosso anfitrio. Que homem sortudo! 
       Ele sorriu para ela tristemente; fora sua esposa quem respondera ao convite. Victoria ria para ele, no se lembrando de nada do que ouvira seu pai e sua irm 
falarem sobre ele. Ela no estivera prestando muita ateno a eles e seus mexericos sobre um de seus convidados pareceram-lhe absolutamente sem importncia. E agora 
tudo o que Victoria podia ver era o seu cabelo negro brilhante, os olhos escuros sorridentes e a figura bonita. Seu rosto parecia o de um ator e toda a sua aparncia 
era a de algum cheio de graa.
       - No sou casada com o anfitrio - corrigiu ela, sorrindo do seu erro e imaginando se ele esperava por aquilo. - Sou sua filha.
       - Oh, graas a Deus! A noite est salva. Eu no poderia tolerar se voc tivesse se casado com ele, por mais charmoso que seja. De fato, fizemos juntos alguns 
negcios muito bons.
       Ele lhe disse isso muito diretamente enquanto se encaminhava para a sala de visitas e, sem mesmo perguntar a ela, pegou-a em seus braos e comeou a danar. 
Era quase como se estivessem magneticamente atrados um pelo outro e no havia jeito de resistir a isso. Ele lhe disse que estudara na Europa por muitos anos, em 
Oxford, jogar, plo por l, e dois anos atrs fora  Amrica do Sul para jogar plo na Argentina. Contou-lhe uma srie de coisas sobre si mesmo e tudo era intrigante. 
       Ele era fascinante e danava maravilhosamente, girando com ela em volta do salo, fazendo-a rir e sendo irreverente sobre quase todos no salo. Quando deixaram 
o salo de dana, ele lhe contou histrias engraadas sobre todas as pessoas de que podia se lembrar; todos, exceto Evangeline e seus filhos. Ele no os mencionou 
e quando j estavam na segunda taa de champanhe, ele e Victoria eram velhos amigos. Ele divertiu-se grandemente quando acendeu um cigarro e ela tirou um longo trago 
quando ningum estava olhando.
       - Nossa, voc  muito cheia de vida. O que mais voc faz? Bebe em excesso, fuma cigarros, sempre fica fascinantemente acordada at tarde da noite? H outros 
vcios que eu deveria conhecer? Absinto, talvez? Alguns mistrios do Oriente? 
       Ele era constante e totalmente brincalho, mas, alm disso, bonito e sofisticado, e estava ficando vertiginosamente perto dela. Ela sabia que nunca conhecera 
ningum como ele. Aps sua ltima dana, ela pediu licena, dizendo que tinha de checar o jantar. Mas prometeu estar logo de volta. Ento Victoria fez algo que sabia 
que deixaria Olvia furiosa, mas ela teve de faz-lo. Na verdade, ela o fez por sua irm tambm e ficou satisfeita ao saber que tinha assegurado o resultado do resto 
da noite.
       Quando Victoria cruzava a sala para retornar para Tobby, ela o viu parecendo extremamente confuso. Olvia estava falando com ele, que estava realmente ruborizado. 
Ele havia sussurrado algo em seu ouvido sobre escapar para os jardins para um cigarro e estava segurando-a pela cintura, como fizera com Victoria enquanto estavam 
danando, mas Olvia no pareceu satisfeita e entendeu instantaneamente o que acontecera. Naquele momento Victoria apareceu e Tobby Whitticomb encontrou-se encarando 
ambas, sentindo como se tivesse uma viso dupla.
       - Oh, meu Deus! - Ele parecia quase doente enquanto olhava para elas. - Ser que bebi muito champanhe? O que est acontecendo? - Ele encarou-as sem acreditar, 
j que nunca soubera que havia gmeas Henderson e por uma vez ele ficou completamente abalado e em silncio.
       - Voc se comportou mal com minha irm mais velha? - perguntou Victoria com um sorriso malvado, enquanto Olvia encarava os dois. Ela ainda no tinha idia 
de quem ele era, ou de como sua irm o conhecera.
       - Receio que sim - respondeu ele, tentando se recuperar do embarao de ter pegado Olvia pela cintura sem nem mesmo conhec-la, apesar de tambm quase no 
conhecer Victoria, mas ela parecia bem mais aberta a avanos como este e bem mais complacente. - Ofereci um cigarro a ela no jardim; espero que ela fume tambm. 
Talvez ns pudssemos ir todos at l, mas receio que precise de outro drinque agora. - Ele agarrou satisfeito outro copo de champanhe e deu um longo gole enquanto 
encarava as duas, ainda incrdulo e espantado. - Sabe, vocs duas so absolutamente extraordinrias. Nunca vi nada parecido.
       -  um pouco chocante no incio - disse Olvia graciosamente para ele, embora no gostasse de suas maneiras ou de seu ar de familiaridade com sua irm. - 
Mas as pessoas acabam se acostumando. Ou pelo menos parecem faz-lo.
       - Sinto muitssimo se fui rude - disse ele, sentindo que ela no era to fcil quanto a irm. - Voc deve ser outra senhorita Henderson. Eu me excedi esta 
noite, achei que sua irm era a esposa de Edward - riu de si mesmo desta vez e elas tambm - e eu sou Tobby Whitticomb. - Ele estendeu a mo para ela e Olvia imediatamente 
parou de rir. Ela estava extremamente fria e delicada quando apertou sua mo e Victoria imediatamente percebeu sua tenso.
       - Ouvi grandes coisas sobre voc - disse ela, esperando amortecer seu interesse em sua irm.
       - Em meu caso, isso normalmente no  um cumprimento - disse ele, no parecendo nem um pouco perturbado com aquilo, bem na hora em que os mordomos anunciaram 
o jantar.
       Olvia reagiu aliviada, sabendo que escolhera um bom assento para sua irm, entre dois jovens atraentes e bem-nascidos, bem longe de Tobias. Seu prprio assento 
era num local um tanto mais comportado, prximo a um dos mais antigos amigos de seu pai e um jovem que era dolorosamente tmido e sofrivelmente sem atrativos. Mas 
ela resolvera fazer uma boa ao para ele e decidira sentar-se entre ele e o velho amigo de seu pai, que tinha um agudo problema de audio. Para Olvia, seria um 
longo jantar. E ela colocara ao lado de seu pai dois de seus mais honorveis convidados. Ela queria que ele tivesse uma noite perfeitamente prazerosa. Ele no se 
divertia em Nova York havia anos e era quase como um renascimento para ele, bem como para elas, de modo que ela queria que fosse tudo absolutamente perfeito.
       At ento, a noite fora muito boa, a msica era excelente, a comida estava deliciosa e o champanhe soberbo, escolhido por seu pai. E enquanto Olvia seguia 
seus convidados vagarosamente para a sala de jantar, ela observava, vendo se estavam encontrando seus assentos facilmente e se estavam confortveis onde se sentavam. 
       Eram quatro mesas grandes, amplas e delicadamente decoradas. Os cristais e pratas brilhavam  luz das velas, quase to belos quanto as jias das mulheres. 
E foi apenas quando viu Victoria sentada que Olvia entendeu o que sua irm fizera. 
       Ela arfou, temendo que Victoria tivesse destrudo todo o seu planejamento, mas ela de fato apenas trocara seu prprio assento com o de outro convidado, para 
ficar ao lado de Tobby. Olvia fez um sinal raivoso para ela, mas Victoria era esperta e no foi at ela. Olvia estava furiosa com o que Victoria fizera. Mas um 
rpido olhar em torno da sala mostrou a ela que as outras pessoas estavam se sentando exatamente onde deviam, com exceo da mulher bastante simples que fora reservada 
para o lugar em que Victoria estava sentada. Olvia o fizera de propsito. E aquela mulher estava agora se sentando entre os dois jovens atraentes que ela reservara 
para sua irm e parecia muito feliz com aquilo.
       Resignada com o escandaloso comportamento de sua irm, mas determinada a tratar com ela mais tarde sobre a irresponsabilidade de se deixar seduzir por um 
homem casado, ainda mais com aquela reputao, Olvia estava num terrvel mau humor quando se dirigiu para seu prprio assento e encontrou algum sentado nele. E 
ento ela entendeu que Victoria fizera outro truque com ela. Tambm trocara o assento de Olvia e a pusera carinhosamente ao lado de Charles Dawson. Olvia corou 
quando percebeu aquilo, mas tomou seu lugar ao lado dele em silncio.
       - Que honra - disse ele polidamente, encarando-a, obviamente incerto de qual delas era ela.
       Charles inclinou-se e sussurrou: Voc  o passarinho na gaiola ou a salvadora? Estou envergonhado de admitir que no posso perceber sempre a diferena entre 
vocs. Ela riu de seu otimismo. Ela no podia imaginar que ele pudesse "alguma vez" perceber a diferena, muito menos "sempre". E ele a fez rir o suficiente para 
livr-la do pssimo humor causado pelo pavoroso comportamento de Victoria.
       - Voc acha que alguma vez poder nos diferenciar, senhor Dawson? - perguntou ela, provocando-o. 
       Por um instante ela ficou tentada a no deix-lo saber quem era e ver se ele poderia descobrir, mas sentiu-se muito culpada por brincar com ele por muito 
tempo e realmente no era de seu feitio fazer aquilo. Ele olhou longamente para ela, com esforo, querendo saber com certeza quem era, mas incapaz de diz-lo. Parecia 
muito cruel tir-lo daquela dvida, ento Olvia deixou o jogo continuar por alguns minutos a mais.
       - At mesmo seus movimentos so incrivelmente similares. A aparncia de seus olhos s vezes  diferente, mas ainda no estou certo de quem  quem. Uma de 
vocs s vezes tem algo selvagem - disse ele cuidadosamente, tendo observado ambas em Croton e no Quinto Distrito. -  algo em seus olhos que provavelmente vai permitir 
a vocs chegarem a um ponto em que vo lamentar... mas ento, qualquer que seja a selvagem, a outra irm vai amans-la. Uma de vocs tem uma alma quieta e pacfica, 
a outra parece um pouco inquieta - disse ele, olhando para ela com interesse, j comeando a sentir qual delas era ela e aliviado por estar sentado ao lado de Olvia 
e no de sua irm. 
       Victoria alterava sua alma e era muito cheia de paixo desenfreada para ele se sentir confortvel ao lado dela. Mas Olvia estava intrigada pelo que ele dissera 
e tinha de admitir que ele as observara bem.
       - Voc nos identificou corretamente, senhor Dawson - disse ela sorrindo suavemente para ele, que agora estava quase certo de quem era ela, apesar de no diz-lo. 
       -  um homem muito observador - completou calmamente e ele concordou.
       - Tento ser.  parte de minha profisso - disse ele simplesmente.
       - E parte de quem voc  tambm - disse ela, que tambm o observara cuidadosamente.
       - E agora voc vai me dizer quem ? - perguntou ele. - Ou vai manter este mistrio a noite toda? - Ele parecia desejar jogar se ela o quisesse. Victoria o 
deixaria sofrer, mas Olvia no poderia.
       - No acho que seria justo. Sou Olvia. - Ela sorriu para ele quando o disse e, embora ainda estivesse furiosa com sua irm gmea por sua travessura com os 
assentos, e com Tobias Whitticomb por seu comportamento com ela, estava subitamente agradecida por estar sentada ao lado de Charles Dawson.
       - Voc  a salvadora, aquela de alma quieta - disse ele e ela sentiu-se um pouco inferior com aquela descrio, apesar de certamente no parecer. Olvia era 
to bonita quanto sua irm. - Vocs so verdadeiramente to diferentes?  difcil perceber a princpio, embora eu deva admitir que notei algo insatisfeito nela, 
como se estivesse em busca de alguma coisa. Voc parece mais  vontade em sua prpria pele que ela.
       - No sei por que  assim. Talvez porque ela pense que matou nossa me. - Era uma estranha confisso para fazer, mas ele parecia ser algum com quem se podia 
falar e em quem se podia confiar e ela sabia que no o havia julgado mal. Ele j havia provado que era confivel por no ter divulgado seu segredo, depois de ajud-la 
a resgatar Victoria no Quinto Distrito. - Nossa me morreu dando  luz e Victoria  a gmea mais nova. Parece que foi o seu nascimento que provocou isso, embora 
ningum possa julgar, mas apenas imaginar, que diferena onze minutos fariam. Receio que o tenhamos feito juntas. - Ela sentira a mesma culpa tambm, mas no no 
mesmo grau com que Victoria sofrera por isso.
       - No se podem ver as coisas dessa maneira. No h jeito de saber por que algo assim acontece. Vocs eram ambas um grande presente para ela,  uma pena que 
no tenha podido viver para aproveitar isso. Estou certo de que seu pai teve grandes alegrias com ambas ao longo dos anos. Acho que ser ou ter gmeos deve ser maravilhoso. 
Vocs so muito sortudas!
       Pelo que ele acabara de dizer, ela sabia que haviam tocado tambm na morte de sua mulher. Ele devia ter questionado freqentemente, durante o ltimo ano e 
meio, por que ela morrera, sem ter encontrado muitas respostas.
       - Conte-me sobre seu filho - disse ela muito gentilmente.
       - Geoffrey? - Ele sorriu. - Ele tem nove anos,  a luz da minha vida e eu o amo muito. Estamos ss - disse ele, sem saber se ela sabia daquilo.  - Perdemos 
sua me um pouco mais de um ano atrs... no Titanic.  - Ele parecia sufocar com a palavra e ela apenas tocou sua mo, inconsciente de si mesma. Ele olhou para ela 
e acenou com a cabea. - Foi muito difcil, por muito tempo. Voltei para a Europa com Geoff para ficar com a famlia dela. Foi um choque terrvel para todos ns, 
especialmente para Geoff. Ele estava com ela.
       - Que terrvel para ele - disse ela com sinceridade, profundamente tocada pelo jeito dele quando disse aquilo.
       - Ele tem algumas lembranas terrveis, compreensivelmente. Mas est melhor agora. - Ele sorriu com sofrimento, sentindo como se tivesse feito um amigo. Ela 
era surpreendentemente calorosa e fcil de se conversar. - Melhor que eu. Nunca mais fui a festas como esta, mas John e seu pai insistiram.
       - No  justo para voc, ? Voc no pode guardar isso para sempre.
       - Acho que no - disse ele gentilmente, olhando para ela e admirando-a. Fora mais fcil falar com ela do que com qualquer outra pessoa durante o ltimo ano 
e meio, e isso o surpreendia.
       - Voc ter de levar seu filho para nos visitar. Crianas amam ir para Croton. Eu tambm amava quando era criana. Eu tinha mais ou menos a idade dele quando 
mudamos para l.
       - E agora? - Ele estava curioso sobre ela, que parecia ter uma capacidade pouco usual e profunda de compreenso. - Voc ainda gosta de viver em Croton?
       - Sim. Minha irm  que no gosta. Ela preferiria estar aqui, ou em manifestaes por a, ou na Inglaterra com as sufragistas, passando fome na priso.
       -  o que eu disse - sorriu para ela - inquieta.
       - Na verdade, eu tenho com ela um inesperado dbito esta noite - disse ela, rindo. - No sou diretamente responsvel pelos nossos assentos.
       - Pensei que era voc quem organizava essas coisas para seu pai. - Edward falara empolgado sobre ela e sua inestimvel assistncia na administrao de todas 
as questes da casa, at mesmo organizando todos os detalhes daquela festa.
       - Eu o fao, mas Victoria trocou seu assento esta noite e o meu tambm. Ela no gostou de onde se sentaria.
       - Bem, estou muito agradecido a ela. - Ele sorriu para Olvia, certo de quem era ela agora. - Talvez voc devesse deix-la escolher os lugares com mais freqncia.
       Ele a chamou para danar ento e eles se moveram respeitosamente em volta da sala de visitas, com sua mo apenas colocada sobre ela. E assim que a dana terminou, 
ele a levou de volta para a mesa. Era uma experincia muito pouco sensual, mas era prazeroso estar com ele. Ele era inteligente e agradvel de se conversar e agora 
era fcil entender por que se mantinha  distncia. Ela sentia pelo que ele dissera e pela maneira como se comportava, que Charles fora muito apaixonado pela mulher 
e no tinha inteno de estar prximo a mais ningum neste momento. Olvia entendeu aquilo, mas no foi o suficiente para que ela deixasse de se sentir atrada por 
ele, ou de pensar que, se a vida tivesse sido diferente para todos eles, ele teria sido tudo o que ela queria. Mas no havia chance de pensar naquilo agora. 
       De qualquer maneira, ela no podia deixar seu pai e no achava que jamais pudesse. E Charles Dawson no tinha a inteno de abrir seu corao a ningum, nem 
mesmo para o bem de seu pequeno filho, Geoffrey.
       As senhoras se retiraram e foram para o andar de cima brevemente no fim do jantar e foi ento que Olvia falou com Victoria novamente e a advertiu para no 
continuar perseguindo Tobby.
       - No estou fazendo nada disso.
       Victoria parecia muito irritada pelas advertncias de sua irm sobre ele. Ele era charmoso, inteligente, danava brilhantemente e era ainda mais escandaloso 
do que Victoria jamais sonhara ser e ela no via dano nenhum naquele pequeno flerte. O que ela no entendia era que com Tobby no havia obstculos. E ele sempre 
conseguia o que queria.
       - Eu probo voc de passar o resto da noite com ele - disse Olvia a meia voz, assim que a mulher dele comeou a descer. Mas Victoria no estava disposta 
a ceder para sua irm.
       - Voc no tem o direito de me dizer isso, Olvia - rebateu Victoria. - Voc no  minha me e ele no  o homem que voc pensa que . Ele  agradvel, decente 
e eu gosto de conversar com ele.  s isso, Olvia.  uma festa, uma noitada, uma conversa. No estou fugindo com ele. Ele no est tendo um caso comigo.  apenas 
conversa e dana. No h perigo nisso. Acho muito triste que voc no seja capaz de entender isso.
       - Eu entendo muito mais do que voc pensa ou do que voc parece capaz de discernir por si mesma - disse ela, ainda num sussurro furioso. - Voc est fazendo 
algo muito perigoso com ele, Victoria. Voc est provocando um leo.
       Mas a frase apenas fez Victoria sorrir e ela repetiu-a para Tobby no momento em que desceram novamente, quando foi rpida em ach-lo outra vez. Ningum parecia 
perceber o que estava acontecendo entre eles e Victoria e Tobby desapareceram no jardim e foram at alm da tenda. Ele permaneceu com um brao em torno dela no ar 
quente de setembro e dividiu um cigarro com ela, enquanto lhe dizia algo que, segundo ele, nunca dissera a ningum antes, fora de seu casamento. Mas apesar de aquilo 
soar como uma loucura aps apenas uma noite com ela, ele disse que achava que a amava. Disse tambm que no tinha nada mais que um arranjo com Evangeline, que fora 
to solitrio durante anos que achava que aquilo poderia mat-lo. Suas famlias os haviam forado a isso e o casamento era vazio, insignificante e significava nada 
para ele. Era uma unio sem amor e ele estivera faminto de amor verdadeiro por tanto tempo que conhecer Victoria naquela noite mudara tudo para ele. 
       Tivesse Olvia escutado esse discurso, ela o teria matado. Victoria sentou-se enquanto o ouvia, tentando aparentar sofisticao, mas no fundo era incrivelmente 
ingnua e acreditou em cada palavra que ele disse, olhando-o com inocncia e adorao, at que ele a beijou. Ele queria saber quando poderiam se encontrar novamente. 
Duvidava que pudesse viver sem ela a partir de agora. Disse que sabia o quo fortes eram seus princpios, depois de tudo o que ela lhe dissera naquela noite, sabia 
o quo ardentemente ela acreditava na causa do feminismo e do direito de voto da mulher, mas ele era um homem que dividia esses pontos de vista com ela e jamais 
se aproveitaria dela, de maneira alguma. Ele apenas queria ficar perto dela e conhec-la melhor.
       Victoria estava ofuscada por ele e acreditava em cada palavra que lhe dizia. Ela queria acreditar nele. Nunca ouvira nada como aquilo. E no fim da noite sentia 
como se tivesse se tornado uma parte de Tobby. Eles falaram sobre a coincidncia de que iriam ambos ao baile dos Astor no dia seguinte e ele afirmou que depois daquilo 
teriam de arranjar alguma maneira de se encontrar. E por um estranho momento, com um brilho esquisito no olhar, ele perguntou se Victoria ficaria mais confortvel, 
quando se encontrassem, se fosse com sua irm. Mas Victoria pareceu horrorizada. 
       Ela j sabia o que Olvia pensava dele e que faria tudo o que pudesse para impedir seu encontro. Victoria disse que no levaria Olvia e Tobby pareceu aceitar 
aquilo. Fora apenas uma idia divertida  qual ele se apegara por alguns momentos. E depois, tendo combinado de se encontrarem de alguma maneira em algum lugar no 
dia seguinte ao baile dos Astor, ele a levou novamente para a tenda e dali  sala de visitas, reagindo consternado ao descobrir que Evangeline estava com uma terrvel 
dor de cabea e insistia para ir para casa imediatamente. Mas ento o dano j estava feito, o negcio fora tratado, a data estava marcada e Victoria j estava com 
a cabea virada por Tobby.
       Olvia estava em algum outro lugar da casa quando os Whitticomb saram e no viu nenhum deles, mas Charles viu e mais tarde ficou de p na sala, observando 
Victoria com interesse. Havia algo na maneira como movia a cabea, na maneira como olhava para os homens, na sua dissimulao e seduo, no seu ar de mistrio, que 
era inteiramente diferente de sua irm. Olvia era completamente aberta, desejando estender a mo e abrir seu corao. Ele podia sentir facilmente o quanto ela era 
generosa, o quanto se preocupava. E ainda assim era a outra, a atormentada, que o fascinava, aquela que ainda no sabia o que queria e que queria todas as coisas 
erradas daquela maneira voraz que o intrigava. Havia algo to insanamente perverso sobre esse sentimento que chegava a irrit-lo e havia uma parte dele que queria 
caminhar ao longo da sala e agarrar Victoria e sacudi-la por sua maluquice, mas  claro que ele no o fez.
       Havia ainda outra parte dele que queria esquec-la inteiramente e se concentrar em Olvia, muito mais sensvel e infinitamente mais decente, mas ela parecia 
to descomplicada, to pronta para dar e receber, que o assustava. Ele ainda estava muito torturado e machucado aps a morte de Susan para aceitar tudo o que Olvia 
oferecia. 
       Charles crescera acostumado ao sofrimento,  descrena,  frustrao e  raiva, e era-lhe muito mais fcil estar prximo de algum que no o quisesse, que 
no tivesse expectativas em relao a ele, do que estar perto de tudo o que Olvia tinha para lhe dar. Deix-la chegar perto dele, com seu corao inteiramente aberto, 
seria uma traio a Susan. J Victoria era algo inteiramente diferente. E ele a observava enquanto a noite caa, fascinado. Ela tinha algo em sua mente agora, provavelmente 
o infame Tobias Whitticomb, e ele no podia deixar de se perguntar o que ela faria sobre aquilo. Ser que ele receberia chamadas de socorro novamente? Olvia tentaria 
cont-la? Ser que ela sequer imaginava o que estava acontecendo ou Victoria era hbil o suficiente para ocultar aquilo dela? Apenas olh-la o intrigava.
       E por fim Charles foi falar com o pai delas e agradecer-lhe pela noite. Fora uma festa esplndida, a primeira a que ele fora em mais de um ano. Aquilo despertara 
nele alguns sentimentos velhos e novos, que o enervavam levemente. Tanto a ternura que Olvia despertara quanto aquela espcie de fome crua e a dolorosa solido 
que Victoria lhe causava. Nenhuma daquelas emoes era algo com que ele pudesse lidar. E Charles saiu dali naquela noite com um estranho sentimento de vazio, que 
nem o polido excesso de lcool que ele consumira pde adormecer, nem seu filho dormindo tranqilamente em casa pde preencher.
       Ele desejava algo, uma vida, uma pessoa, e ela se fora agora. E nenhuma das gmeas Henderson, por mais adorveis que ambas fossem, era substituta adequada 
para ela. Charles disse boa-noite para ambas as gmeas quando saiu e agradeceu-lhes pela festa. Victoria falou pouco com ele. Ela parecia algo irritada e distrada 
e ele percebeu que ela tambm estivera bebendo, ao contrrio de Olvia. Esta bebera poucos goles de champanhe enquanto conversavam e agradeceu-lhe por ter vindo. 
       Ele se despediu dela, tentando no parecer muito prximo de seu corao, mas ela fazia tudo parecer fcil para ele. Charles queria adverti-la de que a vida 
seria cruel com ela, que um corao como o dela era perigoso e que ela deveria fazer tudo para proteg-lo. Mas na verdade era Victoria quem estava em perigo. E Olvia 
sabia disso. Ela vira Tobby com ela e depois que o ltimo convidado saiu e elas finalmente foram para seu quarto depois das duas da manh, Olvia seguiu-a at l 
e encarou-a.
       - Voc concordou em encontr-lo, no? - confrontou-a. Para ela a festa fora praticamente arruinada por causa da preocupao com sua irm.
       - Claro que no - mentiu Victoria e Olvia sabia que ela o fazia. Ela sabia tudo. Era impossvel no sab-lo. Victoria era muito transparente. No era preciso 
nem mesmo aquele seu dom especial para entender o que estava acontecendo. - E depois no  da sua conta.
       - O homem  um patife! - gritou Olvia para ela. - Todo mundo em Nova York sabe disso.
       - Ele sabe de sua reputao tambm. Ele mesmo me contou.
       - Que esperto. Mas isso no o absolve. Victoria, voc no pode v-lo.
       - Eu posso fazer qualquer coisa que queira, e voc no pode me impedir - sibilou Victoria. 
       Nada a deteria. O encanto de Tobby era bem mais poderoso que a advertncia de sua irm. Ele era o demnio, a serpente no Jardim do den.
       - Por favor... me escute... - Havia lgrimas nos olhos de Olvia enquanto ela implorava. - Voc vai se machucar. Voc no  sofisticada o suficiente para 
lidar com um homem como este. Ningum , exceto talvez algum como ele. Victoria, me escute! Acredite em mim. As histrias sobre ele so horrveis.
       - Ele diz que so mentiras - disse Victoria, perfeitamente convencida e manipulada por ele numa nica noite. O homem era um gnio na arte de convencer as 
pessoas de qualquer coisa que quisesse, particularmente as mulheres. - Porque as pessoas tm inveja dele.
       - Por qu? - Olvia tentou raciocinar com ela para ajudar. Mas no adiantou. - Por que teriam inveja?
       - Sua aparncia, sua posio, seu dinheiro. - Ele dissera a Victoria tudo aquilo e ela acreditava nele.
       - Sua aparncia vai embora logo, sua posio  a de sua esposa e ele teve sorte com dinheiro. Portanto, do que ter inveja? - perguntou Olvia friamente.
       - Talvez voc o queira para si mesma - sugeriu Victoria maldosamente, no muito segura se acreditava ou no naquilo, mas determinada a diz-lo de qualquer 
forma. Ela estava furiosa com Olvia por tentar tir-la de Tobby. - Talvez voc o queira e no aquele terrvel advogado bobalho de papai.
       - Pare de ser to rude com ele. Ele  um homem decente, Victoria, e voc sabe disso.
       - Ele me aborrece - disse ela, o champanhe falando mais que seu corao.
       - Charles Dawson no vai machuc-la. Tobby Whitticomb vai. Ele vai us-la e depois vai jog-la fora, como papel usado. E quando tudo tiver acabado, ele vai 
voltar para a esposa e ter outro beb.
       - Voc  nojenta - disse Victoria e Olvia sentiu a dor familiar no estmago que sempre sentia quando discutiam. 
       Ela odiava brigar com a irm e raramente o fazia. Isto no era como suas inocentes disputas ou mesmo aquelas um pouco mais srias sobre as travessuras e aventuras 
infantis de Victoria. Esta era uma dana de morte e Olvia o sabia.
       - Eu no vou falar com voc sobre isso de novo, mas quero que voc saiba que estarei sempre aqui a seu lado e que amo voc. E que estou lhe implorando para 
no v-lo. Sei que voc vai fazer o que quiser, mas ele  perigoso, Victoria. E papai ficaria muito preocupado se soubesse que voc passou a noite toda com ele. 
Ele convidou-o apenas para ser polido e voc foi muito irresponsvel sentando-se ao lado dele. Voc teve sorte de papai ter ficado de costas para voc e no ter 
notado. Voc est brincando com um leo, Victoria. Voc no  grande o suficiente ou forte o suficiente para venc-lo. E talvez o leo a devore no fim das contas.
       - No estou preocupada - disse ela em tom confidencial Somos apenas amigos,  tudo. Ele  casado, no ? 
       Ela estava tentando acabar com a desconfiana de Olvia para que pudesse ter mais liberdade. E no perderia tempo contando a ela sobre o quo vazio era seu 
casamento. Ele inclusive sugerira que haviam falado sobre divrcio recentemente. Seria um escndalo terrvel, claro, mas ele disse que no poderia suportar continuar 
num casamento como este por muito tempo. Victoria sentiu-se desesperadamente triste por ele. Mas Olvia no, ela o odiava e queria mand-lo embora antes que destrusse 
sua irm.
       Quando foram para a cama naquela noite, bem depois das trs da manh, tudo em que Olvia podia pensar era no problema em que sua irm estava metida e tudo 
em que Victoria podia pensar era no baile dos Astor na noite seguinte, quando ela sabia que o veria.



QUATRO



       Olvia acordou no dia seguinte com sons abafados vindos do andar de baixo e enquanto se deixava ficar na cama ouvindo-os, instantaneamente se lembrou da torturante 
discusso com sua irm. Mas quando se virou para olh-la, viu que o outro lado da cama estava vazio. Olvia levantou-se silenciosamente, penteou os cabelos e colocou 
o vestido para ver que rudos eram aqueles e s ento ela se lembrou.
       Assim que chegou ao andar de baixo, viu homens espalhados por toda parte. Havia pessoas no jardim retirando a tenda, os mveis estavam sendo recolocados em 
seus lugares e as flores de seus convidados chegavam em braadas. Era o caos total. E a Sra. Peabody e o mordomo estavam bem no meio daquilo tudo, direcionando o 
trfego.
       - Voc dormiu bem? - Bertie sorriu para ela e Olvia assentiu, pedindo desculpas por no ter acordado cedo o suficiente para ajud-la.
       - Voc fez um trabalho encantador na noite passada, minha querida. Merecia um pequeno descanso esta manh. Estou feliz por voc ter podido dormir no meio 
de toda esta confuso. - Apesar de ser difcil imaginar como, j que eles estavam fazendo muito barulho para retirar a tenda do jardim. - Todos esto dizendo que 
a noite foi um grande sucesso. Estou certa de que toda Nova York est falando sobre a festa hoje. Devem estar, a julgar pela quantidade de flores que recebemos. 
Coloquei a maior parte delas na sala de jantar, por enquanto.
       Olvia vagou pela sala de jantar silenciosamente, imaginando onde Victoria teria ido. Praticamente o primeiro buqu que viu era um grande vaso com duas dzias 
de rosas vermelhas. Mas quando Olvia leu o carto anexado a elas, dizia apenas: "Obrigado pela noite mais importante de minha vida". Estava sem assinatura e ela 
viu que o envelope estava endereado  sua irm. Era muito fcil imaginar quem as mandara. Todos os outros arranjos de flores tinham cartes assinados e eram bem 
mais circunspectos, apesar de tambm serem menos bonitos. Ela notou que tambm havia um encantador arranjo de Charles, endereado a todos os trs, agradecendo pela 
noite deliciosa. Ela sabia que fora a primeira vez que ele sara formalmente desde que sua esposa morrera e estava feliz com o fato de ele ter tido uma noite prazerosa. 
Ela certamente o tivera, sentada perto dele, apesar de ter ficado aborrecida com Victoria por ter trocado os lugares.
       Olvia entrou na cozinha para observar a atividade e ento viu Victoria, sentada sozinha na sala de caf da manh, bebendo uma xcara de caf. Olvia ficou 
olhando para ela por um momento, novamente preocupada, e ento andou at l e sentou-se a seu lado.
       - Voc dormiu bem? - perguntou Olvia, pouco confortvel, ainda com raiva depois da discusso na noite passada. Fora bem mais sria do que qualquer outra 
que haviam tido em anos. E desta vez era bem mais letal do que suas brigas de infncia. Olvia estava convencida de que a irm estava correndo verdadeiro perigo.
       - Muito bem, obrigada - disse Victoria formalmente, sem olhar para ela. - Estou surpresa que tenha podido dormir com todo esse barulho aqui embaixo - disse 
ela, olhando de relance por sobre os ombros. 
       Olvia achou que ela estava particularmente bonita, o que era estranho. Ela nunca pensara em si mesma daquela maneira e mesmo assim sempre podia ver algo 
diferente e mais excitante em sua irm mais nova. E naquela manh havia algo nos olhos de Victoria que ela jamais vira antes.
       - Acho que estava exausta. - Olvia no mencionou a altercao da noite anterior, mas, depois que se sentou e foi servida por uma das copeiras, perguntou 
a Victoria se vira suas flores.
       - Sim, eu as vi - respondeu ela aps um momento de hesitao.
       - O que voc vai fazer hoje? - perguntou Victoria.
        - Trabalhos na casa, como sempre. 
       Aquilo fez Olvia soar incrivelmente entediante e ela sentiu-o enquanto olhava para a irm. Ningum lhe mandara duas dzias de rosas com um carto annimo. 
O homem que ela admirava mandara um carto impessoal, endereado no apenas a ela, mas tambm a seu pai e sua irm e, por uma frao de segundo, Olvia pegou-se 
perguntando a si mesma se Victoria estava certa e ela  que estava com inveja.
       - Vou ajudar Bertie a colocar a casa em ordem novamente. Nosso pobre pai vai enlouquecer se ficar no meio dessa baguna por muito tempo. Acho que podemos 
fazer tudo hoje, antes do baile dos Astor,  noite.
       - Que divertido!
       Victoria logo escapou para o andar de cima e deixou a casa uma hora mais tarde, num conjunto azul-escuro de seda com um chapu moderno, fazendo Petrie lev-la 
a seu encontro. Era num local de vizinhana bem ordinria e depois que ele a deixou l, voltou rapidamente.
       O resto do dia voou para todos eles. Victoria voltou no incio da tarde e Bertie colocou-a para trabalhar tambm, dando ordens aos homens que estavam trazendo 
de volta os mveis do local onde foram estocados, na casa de carruagens da esquina. 
       Olvia estava trabalhando freneticamente, tentando ajudar a consertar os estragos no jardim e, por volta de cinco horas, miraculosamente, parecia que ningum 
estivera na casa. Bertie congratulou ambas pelo bom trabalho e, quase como se tivesse sido avisado, o pai entrou e lhes disse como a casa parecia agradvel.
       - Ningum diria que tivemos uma grande jantar, que dir que cinqenta pessoas danaram em todos os lugares e que uma maldita tenda quase destruiu o jardim. 
Est muito ruim l fora? - perguntou ele e Olvia tranqilizou-o. - Todo mundo em Nova York est falando sobre como vocs so anfitris deliciosas - disse ele a 
ambas, mas Victoria parecia desinteressada de seu elogio e poucos minutos mais tarde subiu para se vestir para a festa dos Astor. 
       Olvia j havia separado suas roupas. Eram vestidos de gaze rosa-plido, que ela copiara como sempre, de Poiret, e eram bastante discretos. Ela tivera um 
momento de dvida quando os tirara do armrio, mas depois decidira que talvez aquilo fosse necessrio no momento, precisamente para no atiar Tobby.
       - Realmente foi uma festa adorvel, Olvia - cumprimentou-a o pai novamente e sentou-se em sua cadeira favorita em seu confortvel estdio. Tudo fora recolocado 
no lugar precisamente como era antes e Olvia serviu a ele um copo de vinho do Porto, enquanto ele olhava para ela com um sorriso caloroso. A cada dia que passava 
ele parecia gostar de sua companhia mais que nunca. -Voc me estraga terrivelmente, minha querida. No estou nem mesmo certo de que sua me seria to agradvel, 
se fosse viva. Ela era um pouco mais como sua irm, um pouco mais ardente s vezes e determinada a ser independente.
       Estar nesta casa sempre o fazia lembrar-se dela. Era sofrido para ele s vezes e, mesmo assim, ele estava gostando de estar ali com suas filhas. Estava feliz 
com os negcios que fechara e o tempo que estava passando com seus advogados fazendo planos. Eram homens interessantes, inteligentes, e aquilo o fazia lembrar-se 
dos tempos antes de ter se retirado, quando dirigia um imprio e no apenas um portfolio de investimentos. Estivera pensando em vender suas minas de ao em Pittsburgh 
recentemente e Charles achava que tinha encontrado um comprador srio e interessado. Mas no era uma deciso simples de se tomar e ele agora estava pensando que 
deveriam ficar em Nova York at o fim de outubro, se no at ainda mais tarde.
       - Voc est gostando daqui? - perguntou o pai, feliz por ter um momento a ss com ela.
       - Sim, pai, estou gostando - respondeu ela com um sorriso calmo. - No estou certa de que gostaria de viver aqui o tempo todo. Acho que sentiria falta do 
campo se vivssemos na cidade permanentemente, mas gosto dos museus, das pessoas e das festas. H sempre muita coisa acontecendo.  divertido estar aqui. 
       Ela sorriu para ele calorosamente e por um momento pareceu uma criana novamente. Mas ela j era uma mulher e havia horas em que ele se sentia culpado por 
ser to possessivo com elas. Sabia que estavam numa idade em que deveriam estar no mundo, como agora, encontrando maridos, e ainda assim ele sabia que seu corao 
ficaria partido quando elas finalmente o deixassem.
       - Suponho que deveria estar fazendo um esforo maior para apresentar voc a jovens adequados - disse ele desanimado, bebericando seu Porto, e eles trocaram 
um sorriso. - Voc e Victoria deveriam estar se casando um dia desses, apesar de eu odiar pensar nisso, admito. No sei o que faria sem voc. Voc mais que tudo, 
receio. Voc ter de parar de tomar tanto cuidado comigo, minha querida, pois assim no ser to chocante quando voc se for. Eu absolutamente morro de medo disso. 
- Seus olhos estavam cheios de amor paternal quando ela pegou suas mos nas dela e beijou-as.
       - Nunca o deixarei. Voc sabe. Eu no poderia 
       Era o que ela dissera a ele quando tinha cinco anos, depois dez, mas agora ela o dizia seriamente. Sua sade piorara consideravelmente ao longo dos anos, 
seu corao j no era forte e ela no podia nem imaginar a possibilidade de deix-lo. Quem tomaria conta dele se ela o deixasse? Quem comandaria as casas? Quem 
sustentaria tudo ou saberia quando ele estava mentindo sobre sua sade e se sentindo realmente doente, precisando do mdico? Ela sabia que jamais poderia confiar 
em outra pessoa para tomar conta dele. Certamente no Victoria, que nunca sequer percebia quando ele estava doente at que algum, normalmente Olvia, lhe contasse. 
       - No poderia deix-lo, papai - disse ela firmemente e era exatamente o que queria dizer.
       - Voc no pode ficar uma velha solteirona, no sendo to bonita quanto vocs duas so - disse ele, admirando-a e consciente de que seria errado deix-la 
agir daquela maneira. 
       Havia uma parte dele que queria deix-la seguir seu caminho, mesmo que isso significasse sacrificar a si mesmo. Ele precisava dela muito mais do que ela pensava 
e era muito fcil t-la por perto, tomando conta de toda a vida domstica. Era quase como se ela estivesse casada com sua vida; ela tomava conta dos mnimos detalhes. 
Ele ficaria perdido sem ela, mas tambm sabia que no empurr-la para fora do ninho seria incrivelmente egosta. E ento, no querendo nem mesmo pensar em perd-la, 
ele cuidadosamente mudou de assunto.
       - Victoria conheceu algum excitante aqui? Eu no prestei muita ateno em nenhum pretendente em potencial. 
       Ele notara que Charles Dawson parecia ter ficado um pouco fascinado por ela, mas ele estava provavelmente intrigado com ambas. A maior parte das pessoas ficava; 
era difcil no ficar estupefato com aquela extraordinria beleza duplicada.
       - Acho que no, papai - mentiu Olvia por ela, como sempre, mesmo estando agora preocupada com o abominvel Tobby. - Ns realmente no conhecemos ningum 
ainda. Quero dizer... no realmente... 
       Naturalmente elas tinham conhecido todos os que eram algum em Nova York, quando seu pai as levara ao teatro, aos jantares e concertos a que tinham comparecido. 
Mas, especificamente, no tinham sido apresentadas a nenhum jovem com a inteno de casar-se com elas. De certa maneira, Olvia supunha, corretamente, que algumas 
pessoas ficavam intimidadas por elas ou que as viam como um fenmeno ou pensavam que elas nunca concordariam em deixar uma  outra. 
       Muita gente no tinha noo do quanto eram diferentes, de quo divergentes eram seus gostos e interesses. Eles apenas as viam como uma garota muito bonita, 
s que em dobro.
       - Victoria est se comportando, no est? - perguntou seu pai com um ar de divertimento. 
       Ele finalmente havia ouvido contar, de maneira indireta, que sua filha aprendera a dirigir e que chegara a roubar um de seus carros para ir a algum lugar 
em Croton. Afortunadamente ele nunca ouvira falar em sua quase priso e a escapada com o Ford o surpreendera de maneira inofensiva. Sua me talvez tivesse feito 
a mesma coisa em sua idade e jogado o carro bem em cima de seus canteiros favoritos. Na verdade, uma vez ela j levara seu cavalo para dentro da sala de estar, numa 
aposta com um amigo e todos ficaram horrorizados. Mas Edward achara muito engraado. 
       Ele era surpreendentemente tolerante para um homem de sua idade e nunca ficara particularmente aborrecido com as aventuras de Victoria. Na verdade, ele era 
indulgente com ela, porque lembrava muito a me.
       - Voc ficar bem aqui embaixo? - perguntou Olvia quando o deixou para se vestir para a festa dos Astor.
       Ela serviu a ele outra taa de vinho do Porto e o deixou confortavelmente sentado prximo  lareira, lendo os jornais vespertinos. Ele disse que subiria em 
poucos minutos para se vestir e disse a que horas deveriam estar prontos para a festa.
       E enquanto ela subia as escadas, pensava nas perguntas que ele fizera sobre Victoria conhecer um homem em Nova York e ambas encontrarem maridos e se casarem. 
E pensou muito sobre o que dissera a ele. Ela realmente no podia imaginar deix-lo e casar-se. E se sua sade piorasse? Ou se ele ficasse doente? Quem tomaria conta 
dele? 
       Teria sido diferente se sua me estivesse viva; eles teriam tido o luxo de levar vidas normais ento, Mas agora Olvia sentia que ao menos uma delas deveria 
ficar e tomar conta dele, e obviamente era ela quem devia faz-lo. Mas enquanto pensava nisso, deixou sua mente dirigir-se a Charles e subitamente perguntou a si 
mesma o que aconteceria se um homem como ele a pedisse em casamento. O que ela faria ento? Aquilo fazia seu corao bater mais forte s de pensar. Ela nunca poderia 
imaginar um homem como Charles cortejando-a... mas se ele o fizesse... se... ela no podia nem mesmo permitir-se pensar naquilo. Ela tinha obrigaes aqui. E Charles 
no tinha absolutamente nenhum interesse nela. Ele apenas era gentil com ela sempre que vinha ver seu pai.
       Quando Olvia chegou ao quarto, ouviu sua irm se vestindo no banheiro ao lado. Elas tinham closets e espelhos l e, quando ela entrou para tomar banho, viu 
meia dzia de vestidos no cho, entre eles aquele cor-de-rosa que escolhera para usarem nos Astor.
       - O que voc est fazendo? - Ela olhou para Victoria surpresa e ento rapidamente entendeu o que acontecera.
       - Eu no vou usar esta coisa que voc escolheu para esta noite - disse Victoria cruelmente, arremessando outro vestido sobre uma cadeira. - Vamos parecer 
uma dupla de camponesas grosseiras, embora eu suponha que tenha sido esta a sua inteno.
       - Acho que ele  bem bonito - disse Olvia sem querer se comprometer, no admitindo nada para sua agitada irm gmea. - O que mais voc tinha em mente? 
       Era bvio que ela j estivera analisando metade do closet. E no momento estava segurando um vestido de que Olvia jamais gostara. Ela tentara copiar um vestido 
de Beer, num veludo vermelho profundo com cuidadosas contas de azeviche e um longo lao atrs. Olvia sempre pensara que ele era muito pequeno para elas e, com exceo 
de uma festa de Natal na casa de Croton-on-Hudson, elas nunca o haviam usado.
       - Eu no gosto desse vestido e voc sabe - - disse Olvia a Victoria assim que viu o que ela estava segurando. O modelo tinha uma capa de cetim preto por 
cima, costurada no veludo carmesim. -  muito apertado e chamativo... pareceremos vulgares.
       - Isto  um baile, no um ch em Croton, Olvia - disse Victoria friamente.
       - Voc est tentando se mostrar para ele, Victoria, e eu no a ajudarei a fazer isso. Neste vestido, nesta cidade, ns pareceremos prostitutas. E eu no o 
usarei.
       - timo - disse Victoria, dando uma pirueta num dos ps e Olvia no quis admitir o quanto ela parecia sensacional. O vestido era bem melhor do que ela lembrava, 
mas tambm parecia muito ousado.
       - Ento por que voc no usa o cor-de-rosa, Ollie querida, e eu uso este? - Para surpresa de Olvia, ela parecia estar falando srio.
       - No seja estpida!
       Elas nunca haviam sado em trajes diferentes. Durante toda a vida haviam combinado cada pequena coisa, inclusive a roupa de baixo e os pregadores de cabelo. 
Era simplesmente o que faziam sempre e sair vestida com algo diferente de sua irm gmea faria com que Olvia se sentisse nua.
       - Por que no? Ns somos adultas. No temos mais que usar a mesma coisa. Bertie sempre achou isso uma doura quando ramos crianas. Mas no temos mais que 
ser douras, 
Olvia. Eu me recuso a isso. Essa coisa rosa  uma doura,  to doce que me deixa enjoada s de olhar. Isso  o que eu quero usar; o que eu vou usar nos Astor hoje 
 noite e se voc no gosta dele, sinta-se livre para usar algo diferente.
       - Isso  muito rancoroso vindo de voc, Victoria, e eu sei precisamente o que voc est fazendo e voc tambm sabe. E deixe-me dizer, a noite passada no 
foi a mais importante da vida dele, mas talvez tenha sido a da sua, se voc escolher se arruinar por causa de Tobias Whitticomb. Voc  uma maldita louca se fizer 
isso! - Olvia cuspiu as palavras nela, puxando com fora para fora do armrio o vestido de veludo vermelho idntico ao dela. - Eu odeio este estpido vestido e 
sinto muito por t-lo feito, particularmente porque voc vai nos fazer de tolas, me forando a us-lo nos Astor.
       - Eu repito - disse Victoria, deixando o vestido de lado novamente enquanto penteava seus cabelos - que voc no precisa us-lo. 
       Mas desta vez Olvia no respondeu. As duas no se falaram mais, enquanto tomavam banho, se vestiam, se maquiavam e se perfumavam. E Olvia pareceu surpresa 
quando viu Victoria colocando um pouco de batom vermelho. Nenhuma delas jamais usara aquilo antes e Olvia pensou que sua irm subitamente parecia muito diferente. 
Ela parecia no apenas bonita, mas um pouco mais do que cheia de vida.
       - No vou usar isso - disse Olvia tristemente, enquanto terminava de ajeitar os cabelos e observava Victoria colocando o batom vermelho no espelho.
       - Ningum disse que voc precisa.
       - Voc est com a cabea virada, Victoria - disse Olvia sombriamente.
       - Talvez eu saiba nadar melhor do que voc.
       - Ele vai afog-la - disse Olvia tristemente, enquanto Victoria deixava o aposento, arrastando a capa de seda e veludo atrs de si.
       Quando as duas garotas desceram as escadas alguns minutos mais tarde, seu pai encarou-as em total silncio. Tudo no jeito delas esta noite disse a ele que 
no eram mais garotinhas. Pareciam verdadeiras e deslumbrantes mulheres. Victoria desceu as escadas primeiro e at mesmo o seu jeito de se mover falou de coisas 
das quais ela nada sabia e ainda assim aquilo era instintivamente parte dela. Foi Olvia quem pareceu consideravelmente menos  vontade no chamativo vestido. Suas 
formas se adaptaram ao modelo e o vestido deixava  mostra suas peles cremosas e os corpos flexveis e jovens. Ambas tinham cinturas finas e seios altos, tudo isso 
bastante  mostra no apertado veludo carmesim.
       - Valha-me Deus, onde vocs conseguiram estes vestidos? - perguntou o pai, surpreso ao v-las em algo to moderno e extico.
       - Olvia os fez para ns - disse Victoria docemente. - Acho que ela os desenhou.
       - Na verdade eu os copiei - disse Olvia, infeliz, enquanto o mordomo as ajudava a colocar suas capas - mas no ficaram do jeito que eu queria.
       - Serei invejado por todos os homens da festa - disse o pai generosamente e levou-as para o lado de fora, onde a limusine os esperava. 
       Havia uma friagem no ar e ele olhou para ambas as garotas enquanto elas entravam no carro  sua frente. Ele estava certo naquela tarde; elas certamente no 
eram mais crianas. E seria um milagre se todos os homens da festa no propusessem casamento a ambas naquela noite. Ele estava quase triste por sair com elas com 
aquela aparncia, ambas estavam muito sensuais e atraentes. Mas ele nem desconfiava da tristeza de Olvia, sentada imprensada no canto do carro, odiando o vestido 
que ela fora forada a usar e furiosa com a irm.
       Quando chegaram ao palacete dos Astor na Quinta Avenida, ele estava brilhando com as luzes e parecia mesmo um palcio, por dentro e por fora. Havia quatrocentas 
pessoas l e rostos e nomes que as garotas haviam apenas lido ou ouvido falar. Os Goelet e os Gibson estavam l, o prncipe Albert de Mnaco, um conde francs, um 
duque ingls e um sortimento de nobres menores de outros pases. Toda a aristocracia disponvel de Nova York estava l, alguns que no saam havia anos, como os 
Ellsworth, que ficaram dois anos em recluso desde a morte de sua filha mais velha. Um punhado de sobreviventes do desastre do Titanic no ano anterior estava l, 
e alguns disseram que era literalmente a primeira vez que saam, o que fez Olvia pensar imediatamente em Charles Dawson. Ela acenou para Madeleine Astor, que perdera 
seu marido John quando o navio afundara e ela estava parecendo excepcionalmente bonita. O beb que ela tivera depois que o pai morrera tinha quase um ano agora e 
entristeceu Olvia pensar que ele nunca conheceria o pai.
       - Voc est parecendo excepcionalmente bem esta noite.  - Ela ouviu uma voz familiar, voltou-se para ver quem era e ficou surpresa ao dar com Charles Dawson. 
E ento ele sorriu: - Eu sei que voc  a senhorita Henderson e poderia fingir saber qual delas voc , mas receio que no saiba, ento voc ter que me ajudar.
       - Olvia - disse ela com um pequeno sorriso, com uma sbita e travessa tentao de fingir que era sua irm, apenas para ver se ele diria algo diferente. - 
O que est fazendo aqui, senhor Dawson? - perguntou ela com um sorriso. Ele lhe dissera na noite anterior que jamais ia a festas.
       - Espero que voc esteja me dizendo a verdade - disse ele, como se soubesse o que ela estivera pensando sobre engan-lo. - S me resta acreditar em voc. 
Na verdade eu me tomei parente dos Astor por casamento. Minha falecida esposa era sobrinha de nossa anfitri e ela foi muito gentil e insistiu que eu viesse. No 
estou muito certo se deveria, no fosse pela noite passada. Voc quebrou o gelo para mim, mas receio que isso seja um pouco mais srio do que eu esperava.  um absoluto 
hospcio, no como sua elegante e pequena soire da noite anterior, com apenas cinqenta pessoas. Mas a casa dos Astor acomodava facilmente a deslumbrante multido 
e Victoria j desaparecera desde o momento em que entraram.
       Charles ficou e falou com Olvia por um momento, conversando sobre seu filho e as poucas pessoas que Olvia conhecia ali, algumas que ela reconhecera e ento 
ele disse algo sobre Madeleine Astor ter estado no navio com sua esposa quando ele afundou. Ele sempre parecia to desesperadamente triste quando falava sobre ela 
que rasgava o corao de Olvia v-lo assim. Ela no tinha idia do que lhe dizer e suspeitava de que era um sofrimento do qual ele talvez jamais se recuperasse. 
Ele parecia estar funcionando, mas havia uma parte dele que estava to claramente despedaada que dava a impresso de que jamais poderia ser remendada.
       - Suponho que sua irm esteja aqui esta noite - disse ele agradavelmente. - No a vi.
       - Nem eu. Ela desapareceu assim que chegamos. Est usando este mesmo vestido horrvel - disse Olvia com aflio, mas pelo menos nessa multido ele no se 
destacava; havia outros como ele, at mesmo mais ousados ainda. Mas Charles sorriu do que ela disse.
       - Pelo visto voc no gosta dele.  muito bonito, no entanto. Muito... - ele pareceu ligeiramente embaraado quando disse isso - "adulto"  uma palavra errada 
para usar com uma jovem da sua idade?
       - Pouco apropriado seria melhor. Eu disse a Victoria que me sentia como uma prostituta. Ela o escolheu, mas fui eu quem o fez, ento ela pode me culpar e 
foi o que fez. Pior ainda, meu pai pensa que foi minha escolha.
       - Ele se ops? - perguntou Charles, divertido, e ela olhou dentro de seus olhos enquanto conversavam. Eles eram to profundos, to verdes e to intrigantes... 
E sem que tivessem inteno, a multido empurrou-a gentilmente contra ele.
       - No, ele gostou. - Ela fez uma cara imitando seu pai gostando do vestido que ela detestava.
       - Homens sempre gostam de mulheres usando veludo vermelho - informou-a Charles. - Acho que d a eles a iluso de algo tentador. 
       Olvia assentiu, esperando que no caso de sua irm tudo no passasse de uma iluso. Charles finalmente a levou para a festa e aps um instante ele a deixou 
com um grupo de moas. Apresentou Olvia a todas elas e desejou que estivesse confortvel, quando foi em busca das primas de sua esposa. Ele j explicara que seu 
filho estava doente e que no queria ficar at tarde na festa. Ela estava triste por v-lo ir, porque a msica acabara de comear. E poucos minutos mais tarde, ela 
viu que sua irm era uma das primeiras no salo e, como era de esperar, nos braos de Tobby. Ela observou-os circular vagarosamente numa valsa lenta e fcil e pouco 
mais tarde ficou chocada ao v-los ainda l, danando o novssimo fox-trot.
       - Meu Deus,  como ver duas de voc - disse uma das garotas, encarando-a fascinada por sua semelhana com a irm gmea. Ela disse que nunca vira nada como 
aquilo. - Vocs so totalmente, mas totalmente parecidas em tudo? - perguntou ela, consumida de curiosidade enquanto Olvia sorria. Era sempre assim para elas; as 
pessoas queriam saber como era ser uma irm gmea idntica.
       - Bastante. Somos gmeas espelhadas. As coisas que tenho no lado direito, ela tem no esquerdo. Minha sobrancelha direita  um pouco levantada, assim como 
a esquerda dela. Meu p esquerdo  maior, o dela  o direito.
       - Que engraado deve ter sido crescer assim - disse outra das primas Astor. 
       Duas das garotas Rockefeller se juntaram a elas para escutar. Olvia conhecera uma delas na velha propriedade dos Gould e vira a outra num ch que os Rockefeller 
ofereceram na sala de msica de Kykuit. Tudo o que Olvia podia lembrar sobre aquele dia era o incrvel rgo. J que os Rockefeller no danavam nem bebiam, freqentemente 
davam grandes festas como os Vanderbilt e os Astor faziam, mas tambm ofereciam pequenas soires musicais ou almoos em Kykuit.
       - Vocs trocavam de lugar o tempo todo? - perguntou uma das garotas.
       - No. - Olvia sorriu. - Apenas quando queramos entrar ou sair de uma brincadeira. Minha irm odiava fazer exames na escola, ento eu sempre os fazia para 
ela. Quando ramos bem pequenas, ela me convenceu a tomar seu remdio por ela e eu acabei ficando muito doente tomando-o por ambas, at que a senhora que tomava 
conta de ns compreendeu o que estvamos fazendo. Ela normalmente sabia quem era quem, mas s vezes mandava uma das empregadas nos dar leo de castor, ou coisas 
que realmente odivamos. E nos sempre conseguamos enlouquec-las. 
       - Por que voc faria isso? - Uma das garotas fez uma cara horrvel com a idia de uma dose dupla de leo de castor. Era uma idia horrvel!
       - Porque eu a amava - disse Olvia simplesmente, como sempre sem conseguir explicar a que ponto teria chegado por sua irm gmea. O lao entre elas era muito 
forte para ser cortado, para ser negado, para ser explicado. - Fiz um monte de coisas bobas para ela e ela para mim. De vez em quando papai nos tirava da escola 
porque causvamos muitos problemas. Ns nos divertimos muito ento. 
       Olvia sorriu para elas, que se maravilharam com suas histrias. Mas conversar com elas a distrara e uma hora depois Olvia percebeu que Victoria ainda estava 
danando com Tobby. Eles no haviam deixado a pista e era como se Victoria estivesse moldada nos seus braos, enquanto circulavam lentamente pela pista, perdidos 
nos olhos um do outro e esquecidos das centenas de pessoas ao redor. Olvia pediu licena s moas e foi procurar por Charles. Ficou aliviada quando o encontrou 
prximo  porta da frente, segurando seu sobretudo.
       - Voc me faria um favor? - perguntou ela baixinho, com olhos suplicantes a que ele achou difcil resistir. Eles combinavam com o tom que ouviu em sua voz 
no dia em que ela o chamara e pedira para ir com ela ao Quinto Distrito.
       - H algo errado? - perguntou ele, preocupado e surpreso com o quanto se sentia confortvel com ela.
       De certa forma, ela era como uma irm mais nova. No era nem um pouco parecido com o que sentia quando estava na presena de sua irm gmea. E ainda assim, 
quando estavam lado a lado, ignorando seus sentimentos instintivos por elas, ele no seria capaz de determinar quem era quem. Era apenas quando ele falava com elas, 
quando ficava com elas por um instante e sentia uma estranha comoo em sua alma, que ele sabia. Gostava de pensar que poderia diferenci-las instantaneamente se 
as conhecesse melhor.
       - Nossa amiga est perto de cometer alguma travessura novamente? - perguntou ele, preocupado. Parecia que era Victoria quem sempre se metia em problemas e 
Olvia quem a resgatava. Ele j havia entendido havia muito tempo esse fato sobre a relao entre elas.
       - Receio que sim. Voc danaria comigo, senhor Dawson?
       - Charles... por favor. Acho que podemos deixar para trs o "senhor Dawson". - Ele pegou seu sobretudo e entregou-o ao mordomo novamente, sem sequer uma queixa 
sobre o fato de ter levado meia hora para conseguir peg-lo, alm de estar ansioso para voltar para casa e para Geoff. 
       Ele a seguiu obedientemente atravs das duas salas seguintes at a pista de dana e ento viu instantaneamente qual era o problema. Tobby e Victoria estavam 
danando ainda mais juntos agora e Olvia parecia extremamente infeliz quando os viu. Charles a levou para a pista de dana e danou o mais perto possvel deles, 
mas Tobby era hbil em escapar deles e Victoria parecia nem estar vendo os olhares e expresses claramente reprovadoras da irm. Finalmente ela voltou as costas 
para eles, sussurrou algo para Tobby e eles deixaram a pista de dana e desapareceram na sala mais prxima. E Olvia no podia v-los, j que a multido se fechou 
 sua volta.
       - Obrigada - disse Olvia, parecendo muito desgostosa e Charles sorriu para ela.
       - No  um trabalho fcil este que voc escolheu para si mesma. Ela  uma garota muito cabea-dura. - Ele ainda lembrava o quanto ela ficara perturbada por 
no ter sido presa e fora mal-agradecida pelo socorro da irm. - Aquele era Tobias Whitticomb, no era?
       Ele conhecia todas as histrias tambm. Toda Nova York conhecia. Mas elas tinham mais importncia agora, se ele estava planejando fazer de Victoria sua prxima 
vtima. Charles esperava que ele se cansasse dela antes que houvesse algum dano real. Ou talvez os Henderson se intrometessem antes que o caso fosse mais adiante. 
Olvia certamente parecia desejar faz-lo. Ela agradeceu novamente a Charles por ajud-la a seguir sua irm pela pista de dana.
       - Ela esteve fazendo de si mesma um espetculo durante a ltima hora - disse Olvia com os olhos cheios de uma raiva triste.
       - No se preocupe com isso. Ela  jovem e bonita, haver vrios espertalhes correndo atrs dela at que ela encontre um marido. Voc no pode se preocupar 
com todos eles. - Charles tentava acalm-la, mas tinha de admitir que a reputao de Whitticomb era digna de preocupao e no podia dizer a Olvia que ela estava 
errada em observ-los.
       - Victoria diz que jamais vai se casar. Diz que vai viver na Europa e lutar pelo direito de voto feminino.
       - Oh, querida! Ela vai crescer e desistir disso, estou certo. Quando o homem certo chegar, ela vai esquecer tudo isso. Apenas no conte a ele que ela quer 
ser presa - provocou ele - e no se preocupe muito com ela. Voc merece se divertir um pouco - disse, enquanto finalmente se despedia dela e saa poucos minutos 
mais tarde.
       Olvia foi ento para o banheiro das mulheres e olhou-se no espelho enquanto endireitava os cabelos. Ela estava com uma terrvel dor de cabea; a discusso 
com Victoria fizera com que a noite comeasse mal e v-la colada com Tobby naquela ltima hora no ajudara em nada. Mas, antes que Olvia pudesse se voltar, ela 
viu Evangeline Whitticomb no espelho, observando-a, e num instante ela j estava em p bem atrs dela, enquanto Olvia se virava vagarosamente para encar-la.
       - Posso sugerir, senhorita Henderson, que brinque com crianas da sua prpria idade e que se limite aos solteiros, em vez de homens casados com trs filhos? 
       Ela olhou Olvia bem nos olhos, sem piscar, e Olvia sentiu um rubor quente encher suas faces, ao perceber que fora confundida com sua irm. A esposa de Tobby 
estava lvida e Olvia no a censurou.
       - Sinto muitssimo - disse Olvia com suavidade, tacitamente concordando em ser Victoria e esperando acalmar aquelas guas revoltas. Era uma oportunidade 
de ouro e ela esperava convencer a esposa de Tobby de que no havia nada mais que conversa de amigos. - Seu marido andou fazendo muitos negcios com meu pai e apenas 
conversamos sobre nossas famlias. Ele no fez nada, a no ser falar da senhora e das crianas enquanto estvamos danando.
       - Duvido disso - disse a esposa de Tobby com raiva. - Estou surpresa de ouvir que ele at mesmo se lembre de que nos tem. Apenas se assegure de voc se lembrar 
disso ou eu posso lhe garantir - ela olhou explicitamente para ela e baixou a voz, mas no o veneno - que voc vai se arrepender. Voc no significa nada para ele, 
sabia? Ele vai brincar com voc como um brinquedo, por um tempo, e depois vai jog-la fora. E onde quer que voc caia, estar quebrada. No fim de tudo, ele vai voltar 
para mim... Ele tem que voltar. - Com isso, ela girou nos calcanhares e saiu, e Olvia sentiu como se o ar lhe faltasse. 
       Felizmente, no havia mais ningum no banheiro naquela hora e ela teve de se sentar depois que a outra mulher saiu, to tonta estava. E ela estava certa, 
 claro. Evangeline Whitticomb conhecia bem seu marido; ela vira seu desempenho dezenas de vezes e ele sempre voltava para ela, por causa de quem ela era, do que 
ela representava e porque ele era um pouco menos louco do que a mulher com quem ele estava brincando agora. Muitas delas eram jovens e inexperientes, muitas eram 
virgens. Elas ficavam encantadas por ele, por sua boa aparncia, por seu jeito adulador, pelas coisas que ele sussurrava para elas e tinham suas prprias iluses 
de garotas ou at mesmo aspiraes ambiciosas. Mas o que quer que elas pensassem e o que quer que ele lhes dissesse, no fim no fazia diferena, ele sempre as deixava. 
       Exatamente como Olvia tentara alertar Victoria. Ela esperava que tivesse pelo menos assegurado sua respeitabilidade  esposa, ou melhor, a de Victoria, mas 
ela duvidava, e quando Olvia saiu do banheiro novamente, viu Victoria de volta  pista de dana nos braos de Tobby e desta vez eles pareciam bem mais ntimos, 
seus corpos prximos e pressionados um ao outro, seus lbios quase se tocando. Olvia queria gritar olhando para eles, mas em vez disso ela fez a nica outra coisa 
em que conseguiu pensar. Foi dizer ao pai que estava com uma terrvel dor de cabea e ele imediatamente foi bastante solcito, mandando uma empregada encontrar seu 
casaco para ela e indo ele mesmo buscar Victoria. Ele a encontrou danando com o jovem Whitticomb e, embora no parecesse satisfeito, no pensou nada srio sobre 
isso. Ele sabia que haviam se conhecido em sua casa e no os vira juntos desde ento.
       De qualquer forma, fez um comentrio no caminho para casa dizendo que ficara surpreso, depois de tudo o que dissera, que Olvia tivesse sentado Tobby prximo 
a sua irm. Mas ele disse com sutileza especial que estava certo de que nenhum dano viera daquilo, e que Victoria era esperta o suficiente para no deixar que ele 
a cortejasse. Ele no vira Tobby observando-a enquanto saam, nem o olhar que trocaram, que apenas confirmava tudo o que disseram naquela noite. Tobby e Victoria 
haviam encontrado um pequeno quarto delicioso, num pequeno pavilho nos fundos do jardim. Foi l que ele a beijou pela primeira vez e onde eles passaram todo o seu 
tempo, nos braos um do outro, sempre que no estavam danando.
       - Sinto tanto, querida - desculpou-se o pai com Olvia por sua dor de cabea durante todo o caminho para casa. - Foi demais para voc, esse baile hoje depois 
da festa na noite passada. No sei o que eu estava pensando quando aceitei vir. Pensei que seria divertido para vocs, mas devem estar exaustas. 
       Victoria parecia tudo menos isso e lanava farpas com o olhar para Olvia sempre que o pai olhava para fora da janela. Ela conhecia muito bem a irm e achava 
difcil acreditar que ela estivesse com dor de cabea. Ela no fazia idia do quanto a aborrecera.
       - Foi muito hbil de sua parte - disse ela gelada quando subiram para seu quarto.
       - No sei do que voc est falando. Eu realmente estou com dor de cabea - insistiu Olvia, enquanto tirava o odiado vestido. Ela desejava queim-lo. E depois 
do jeito como Victoria se comportara, ela realmente se sentia como uma prostituta.
       - Voc sabe exatamente o que quero dizer. Mas a sua pequena artimanha no mudar nada. Voc no tem idia do que est fazendo.
       Ela tinha provas de que Tobby era totalmente sincero. Ele havia se apaixonado loucamente por ela e no a chocava o fato de ele querer divorciar-se da esposa. 
Ela nem mesmo ligaria se ele fizesse isso. Era totalmente moderna em suas idias. Ela no tinha que se casar com ele. Podiam ser amantes para sempre. Ele at mesmo 
falara com ela sobre eventualmente deixar o pas e viver na Europa. Tobby Whitticomb era tudo o que ela sempre quisera. Ousado, bravo, destemido, honesto, querendo 
pagar qualquer preo por aquilo em que acreditava. Ela o via como um cavaleiro numa armadura brilhante, pronto a resgat-la de sua pequena vida mundana em sua casa 
incrivelmente chata no Hudson. Ele j vivera em Paris, Londres e na Argentina. Era tudo msica para seus ouvidos e toda vez que pensava nele seu corpo inteiro tremia.
       - A mulher dele me atacou no banheiro esta noite - disse Olvia enquanto vestia seu roupo. - Ela pensou que eu fosse voc.
       - Que conveniente! Voc disse a ela o quanto sentia e que era tudo um terrvel engano?
       - Mais ou menos. - Victoria sorriu quando ouviu aquilo. Mas Olvia continuou, solenemente. - Ela me disse que Tobby tem esse hbito, como todo mundo comenta, 
e que quando tudo est acabado, ele joga fora as garotas com quem flerta como se fossem bonecas quebradas. No quero que voc seja uma delas - disse Olvia roucamente. 
       Este era o primeiro episdio que causara uma sria rixa entre elas e estava fazendo Olvia sentir-se doente enquanto aquilo continuava. E ela no conseguia 
ver como qualquer coisa pudesse mudar at que Victoria no se deixasse mais seduzir pelo que ele dizia. Aquilo fazia Olvia desejar, mais que tudo, que estivessem 
de volta a Croton-on-Hudson. 
       - Victoria, por favor, seja inteligente... no chegue perto dele... ele  perigoso. Eu quero que voc me prometa que no vai tentar v-lo.
       - Eu prometo - disse Victoria sem sinceridade ou expresso.
       - Espero que sim. - Olvia tinha lgrimas nos olhos quando falou. Ela o odiava ainda mais agora por faz-las discutir. Nada nem ningum tinha o direito de 
se colocar entre elas. At onde Olvia sabia, seu lao era sagrado.
       - Voc est com cimes - disse Victoria friamente.
       - No estou - disse Olvia, desesperada para convenc-la.
       - Est, sim. Ele me ama e isso a assusta. Voc tem medo de que ele me tire de voc - disse Victoria com a verdade, mas no exatamente da maneira que queria 
dizer.
       - Ele j est fazendo isso. Mas voc no v o risco que estar correndo em se deixar apaixonar por este homem? Quantas vezes preciso lhe dizer, Victoria, 
que ele  perigoso? Voc tem que ver isso.
       - Eu serei cuidadosa, juro - disse ela, amolecendo um pouco. 
       Odiava brigar com Olvia, ela a amava demais e aquilo a assustava. Mas subitamente ela sabia que amava Tobby tambm. Estava ficando de cabea virada por ele 
e era muito tarde para parar aquele amor. Quando ele a beijara naquela noite ela pensou que todo o seu corpo fosse se derreter e quando ele enfiou a mo dentro de 
seu espartilho e tocou seus seios, ela teria feito qualquer coisa que ele quisesse. Ningum jamais fizera aquilo com ela antes. Ningum nem mesmo a fizera querer 
algum mais que a prpria vida e como ela poderia explicar aquilo para sua irm?
       - Prometa-me que voc no o ver - implorou Olvia agora que a irm a estava escutando. - Por favor.
       - No me pea isso. Eu prometo que no farei nada imprudente.
       - V-lo  imprudente. At mesmo a esposa dele sabe disso.
       - Ela est com raiva porque ele est se divorciando dela. Voc no ficaria?
       - Pense no escndalo que isso vai causar. Especialmente para uma Astor. Por que voc pelo menos no espera que isso acontea, que o barulho acabe e ento 
ele pode v-la abertamente e voc pode explicar isso a papai. - Agora ela no podia fazer nada, a no ser encontrar-se s escondidas com ele e ser pega no fogo cruzado 
entre ele e a mulher num mundo que ainda o condenava por suas aventuras passadas.
       - Ollie, isso vai demorar muito.
       - E quando voltarmos para casa? Ento o que vai acontecer? Ele vai ver voc l? O que as pessoas vo dizer, Victoria?... E papai?...
       - No sei. Ele diz que podemos conquistar qualquer coisa se eu o amar. E eu amo, oh, Ollie, eu realmente o amo. - Ela fechou os olhos e seu corao quase 
pulou do peito enquanto pensava nele. Depois abriu novamente seus olhos e olhou para sua irm. - Como posso contar a voc como ? Eu morreria por ele se ele me pedisse.
       - Pelo menos Victoria estava sendo honesta com ela, mas aquilo no fazia Olvia sentir-se nem um pouco melhor.
       -  disso que tenho medo - disse Olvia tristemente. - No quero que ningum machuque voc, nunca.
       - Ele no vai me machucar. Eu juro. Voc tem que vir tomar um ch conosco um dia. Eu quero que voc o conhea. Eu quero que voc o ame tambm... Ollie, por 
favor... no posso fazer isso sem voc.
       Mas aquilo era demais para ela. At mesmo o silncio era demais para pedir a ela, mas pedir cumplicidade seria muito doloroso.
       - Victoria, no posso ajud-la desta vez - disse Olvia suavemente. - Acho o que voc est fazendo perigoso e errado e receio que voc se machuque. Talvez 
eu no possa impedi-la, mas no a ajudarei a fazer isso. No desta vez.
       - Ento jure que voc no dir nada... jure para mim - implorou Victoria de joelhos, os olhos cheios de lgrimas e Olvia, comeando a chorar tambm, pegou-a 
nos braos e abraou-a.
       - Como voc pode me pedir isso? Como posso deix-lo machucar voc?
       - Ele no vai me machucar... acredite em mim ele no vai me machucar... acredite em mim.
       - Voc no  a nica em quem no acredito. - Mas suspirou, respirando fundo e finalmente enxugando suas lgrimas. - No direi nada por enquanto... mas se 
ele a machucar, 
eu no sei o que farei com ele...
       - Ele no vai fazer isso. Eu o conheo melhor do que qualquer pessoa nesta vida, exceto voc. - Ela parecia uma criana enquanto rolava na cama e se deitava 
l, gargalhando de braos e pernas abertos.
       - Em dois dias, Victoria Henderson? Duvido muito. Voc  uma sonhadora. Para algum to cheia de idias radicais, voc certamente e uma boba romntica. Como 
voc pode acreditar neste homem to rapidamente?
       - Porque eu sei quem ele . Eu o entendo completamente. Ns somos duas pessoas completamente independentes, exatamente com as mesmas idias, que foram sortudas 
o suficiente para encontrar uma  outra.  um milagre, Ollie. Realmente . Ele diz que esperou por mim toda a sua vida e agora que estou aqui ele no pode acreditar.
       - E sua esposa e seus filhos? Como eles entram nisso tudo? - Olvia parecia ctica e Victoria pareceu momentaneamente confusa, sem certeza do que responder.
       - Ele diz que ela o forou a ter os filhos, que ele jamais teria tido filhos num casamento sem amor.  realmente tudo culpa dela e agora o que ela faz com 
eles  problema dela.
       - Esta  uma atitude muito boa e sensvel - disse Olvia e o sarcasmo pareceu passar pela cabea de Victoria enquanto ela continuava a falar com entusiasmo 
sobre Tobby.
       Elas apagaram a luz um pouco mais tarde e Olvia deitou-se com os braos em torno de sua gmea.
       - Seja cuidadosa, irmzinha... seja prudente... cuidadosa... - sussurrou, mas Victoria j estava meio adormecida enquanto cabeceava sonolentamente e enroscava-se 
mais em sua irm. A mente de Victoria estava girando enquanto pensava nele. Eles haviam marcado um encontro para o dia seguinte. Iriam se encontrar na biblioteca 
s dez horas da manh seguinte.















CINCO




       Olvia estava combinando os menus de almoo e jantar com o cozinheiro na manh seguinte quando Victoria escapuliu. Ela dissera a Bertie que estava indo  
biblioteca encontrar uma das moas Rockefeller e que estaria em casa no fim da tarde. Bertie mandou Donovan lev-la  biblioteca e ningum pareceu notar que ela 
estava usando o conjunto branco novo com o chapu combinando, copiado de Doeuillet, que nem mesmo Olvia usara ainda. Ela parecia bastante moderna ao subir os degraus 
da biblioteca segurando os livros para devolver, enquanto Donovan manobrava e voltava para casa para levar o Sr. Henderson ao escritrio de John Watson.
       Victoria devolveu os livros assim que chegou e quando olhou por cima dos ombros da bibliotecria, ela o viu de p, olhando-a, bem atrs da educada solteirona 
de culos que a ajudara. Victoria riu para ele quando seus olhos se encontraram e um momento mais tarde eles saram de braos dados. Ainda era cedo e ningum que 
eles conheciam jamais ia  biblioteca naquela hora, se  que iam. Ela no tinha nenhuma idia do que iriam fazer, mas realmente no se importava, desde que estivessem 
juntos.
       Tobby deixara seu carro do lado de fora, um Stoltz que ele comprara naquele ano e sorriu quando Victoria disse que adoraria dirigi-lo.
       - No me diga que voc tambm sabe dirigir - disse ele, parecendo deliciado e impressionado. - Voc realmente  a garota moderna que diz ser. Muitas garotas 
acham que so, mas na verdade no so. 
       Ele ofereceu a ela um cigarro Milo como se para provar o que dizia e ela o pegou, embora realmente fosse um pouco cedo, mesmo para ela. Por alguns instantes, 
eles rodaram em torno do East Side vagarosamente e ento, finalmente, ele parou o carro e olhou para ela, como se estivesse bebendo cada detalhe de seu rosto, seus 
olhos, sua alma. Era como se ele quisesse imprimi-la em seu corao para sempre. 
       - Eu adoro voc, Victoria - sussurrou ele em seu cabelo. Nunca conheci ningum como voc.
       Suas palavras eram como um afrodisaco para ela e quando ele a beijou, ela sentiu sua alma fundir-se com a dele. No havia nada que ela no fizesse por ele 
naquele momento e ele ficou sem ar quando a beijou. Aps um longo momento, ele encostou-se no assento do Stutz e olhou para Victoria, totalmente impressionado.
       - Voc me deixa louco, sabia? Voc me faz ter vontade de seqestrar voc e lev-la para o Canad ou o Mxico, ou ir embora para a Argentina ou Aores... Voc 
 uma mulher que merece estar em lugares exticos. Eu adoraria estar com voc numa praia quente em algum lugar, escutando msica e beijando-a - disse ele enquanto 
se inclinava para beij-la novamente e desta vez ela mal pde respirar quando ele a segurou. 
       Foi ela quem se soltou desta vez, incapaz de pensar direito enquanto olhava para dentro de seus olhos escuros e desejou que pudessem fugir para sempre. Era 
insuportvel pensar em deix-lo novamente; em estar separada dele mesmo que por um instante. Mas quando ele olhou para ela ansiosamente, subitamente sorriu, como 
se tivesse pensado em algo.
       - Tenho uma idia - disse ele, ligando o carro novamente e virando para o norte na esquina seguinte. - Eu sei exatamente aonde ns vamos hoje. No vou l 
h tempos.
       - E onde  isso? - perguntou ela, parecendo muito relaxada enquanto ele lhe oferecia um pequeno frasco e ela dava um gole cuidadoso, para no se exceder. 
       Era conhaque e queimou sua garganta quando ela bebeu, mas o calor que a aqueceu depois foi muito prazeroso.
       - Aonde vamos  um segredo - disse ele misteriosamente, olhando para ela de maneira apaixonada. 
       Era como se eles sempre tivessem sido destinados a ficar juntos e ambos o sabiam. Ela perguntou novamente a ele sobre onde iam enquanto o carro se dirigia 
para Uptown, mas ele recusou-se a responder a suas perguntas e fingiu que a estava seqestrando, mas ela no pareceu preocupada nem mesmo por um momento. Ele parou 
para beij-la muitas vezes e eles dividiram o frasco ainda outra vez, mas na terceira vez que ele o ofereceu, ela recusou.
       - Voc sempre bebe conhaque antes do almoo? - perguntou ela casualmente.
       Aquilo no a aborrecia de maneira alguma; ela sabia que vrios amigos de seu pai bebiam bastante e mesmo John Watson carregava sempre um frasco no inverno. 
Mas no estava frio hoje; aquilo parecia apenas adicionar mais emoo  sua excitao.
       - Eu estava to nervoso esta manh - confessou ele - que achei que fosse precisar disso. Meus joelhos estavam tremendo quando fui encontr-la. 
       Ele parecia um garoto quando olhou para ela, e v-lo parecer to vulnervel e apaixonado por ela fez Victoria sentir-se muito mundana. Ele tinha trinta e 
dois anos e ela sabia que o havia conquistado totalmente. Isso era muito lisonjeiro e tudo sobre ele era excitante, at mesmo o fato de ser proibido estar com ele 
e de Tobby supostamente ter uma terrvel reputao. Subitamente at isso era excitante tambm, porque ela sabia que nada daquilo era verdade. A nica coisa que ela 
no se deixou pensar foi o fato de ele ser casado. No importava para ela, depois de tudo o que ele lhe dissera sobre estar se divorciando de Evangeline, sobre ter 
cometido um terrvel erro e ter desperdiado cinco anos num casamento sem amor. A idia de que o divrcio de uma Astor seria o escndalo do sculo nem mesmo lhe 
ocorreu, embora tenha ocorrido imediatamente a sua irm gmea.
       Eles j estavam bem longe da cidade agora e as casas ao redor eram pequenas, simples e quadradas e haviam comeado a parecer quase rurais. Vinte minutos depois 
que eles deixaram a biblioteca, Tobby parou o carro em frente a uma casa branca pequena e elegante, com algumas cercas vivas bastante crescidas na frente e uma cerca 
de estacas meio pintada em toda a volta.
       - O que  isso? - perguntou Victoria, parecendo divertir-se, pensando em quem eles estariam indo visitar.
       -  a casa dos meus sonhos. 
       Ele sorriu para ela e deu a volta no carro para ajud-la a descer. Ela hesitou por um momento, enquanto ele pegava uma cesta de piquenique. Ela ainda no 
a vira antes, mas havia champanhe, caviar e um pequeno bolo, alm de algumas outras. As delcias que ele furtara de sua cozinha. Tudo fora cuidadosamente arranjado 
e enquanto ela olhava para ele, divertida, ele tirou uma chave de dentro do bolso.
       - De quem  essa casa? - perguntou Victoria, sem sentir medo, mas apenas curiosa e em dvida. 
       Era estranho no saber onde estava, ou quem eles estavam visitando, e ela o seguiu cautelosamente at a porta enquanto ele a destrancava. Ela pde ver uma 
sala pequena e elegante do outro lado. Os moveis, apesar de simples, pareciam estar em bom estado. Nada era pomposo aqui, mas parecia um lugar prazeroso para passar 
uma tarde tranqila e, antes que ela pudesse pisar do lado de dentro, Tobby a pegou em seus braos e beijou-a, afastando os cabelos longos e escuros de seu rosto 
e sentindo seu corpo prximo ao dele, to prximo que ele apenas ousava respirar com medo de perd-la. E ento ele olhou para ela sorrindo e, sem uma palavra, pegou-a 
e carregou-a at o solado da porta.
       - Voc ser minha esposa um dia, Victoria Henderson - disse ele suavemente. - Agora voc apenas me conhece, mas voc ser minha um dia e ser a prxima senhora 
Whitticomb... Se voc me quiser... 
       Ele parecia infantil, inseguro e totalmente miservel enquanto olhava para ela no pequeno aposento, seus ombros largos parecendo subitamente muito grandes 
para ela, suas palavras mais do que ela podia enfrentar. Ela era a garota que dissera que jamais se casaria com ningum, que queria ser livre e um dia viver na Europa, 
e agora ali estava ela, sozinha com aquele homem e totalmente sua escrava, para fazer o que ele quisesse. Ela sabia que no deveria ficar sozinha com ele e que, 
de certa forma, o que estavam fazendo era errado, mas mesmo assim como poderia ser errado? Como aquilo poderia ser qualquer coisa que no certo? Qualquer coisa que 
no perfeita? Ela sabia, no fundo de seu corao, o quanto o amava. Estava totalmente atrada por seu corao, seu charme e seu jeito ingnuo. Victoria acreditava 
nele tanto quanto em seu prprio pai.
       - Eu te amo tanto - sussurrou ela suavemente e ele a beijou novamente.
       Um momento mais tarde, eles estavam se deitando no sof, beijando-se apaixonadamente e ela podia sentir seu corpo pulsando junto ao dela. Ela no tinha idia 
do que fazer ou do que ele esperava dela, sabia que no faria nenhuma besteira e mesmo assim tudo em que podia pensar era em estar ali com ele, ser sua, estar com 
ele para sempre.
       Foi Tobby quem finalmente parou, brincando com seus cabelos longos com dedos gentis, enquanto sua blusa ficava aberta. Eles colocaram a cesta de piquenique 
na cozinha, ele abriu o champanhe e eles o bebericaram, enquanto ela abotoava novamente a blusa e eles saam para o jardim. No havia vizinhos por perto, no havia 
ningum em lugar algum e, enquanto andavam ao redor, ele explicou a ela que havia alugado aquele local apenas para que pudesse estar sozinho e ficar longe de Evangeline, 
para que pudesse pensar, sonhar e ter algum tempo para si mesmo. Ele disse a Victoria que fora ali que ele finalmente decidira divorciar-se dela.
       - Voc vai sentir muita falta das crianas? - perguntou ela com simpatia, enquanto andavam vagarosamente de volta para a casa, de mos dadas e falando suavemente.
       - Vou. Mas espero que ela seja razovel e me deixe v-los. Ser um choque para todo mundo,  claro, mas acho que ela tambm ficar aliviada. Ningum deveria 
ter de viver assim para sempre, Ser mais difcil para nossas famlias do que para ns, porque eles no vo entender. 
       Victoria assentiu, enquanto comeava a entender com sbita seriedade que seria um escndalo terrvel. Sem dvida, seu pai ficaria profundamente chocado, mas 
talvez com o tempo ele entendesse. Victoria no tinha necessidade de casar-se com ele imediatamente. Ela no ligava, desde que pudessem ficar juntos. E compreendeu 
que seria difcil para ambos quando ela voltasse para Croton. Mas ele poderia visit-la freqentemente e talvez, enquanto ele estivesse se divorciando, assim fosse 
melhor para eles e tivessem mais privacidade. Era impressionante como a vida de algum mudava, refletiu ela, era apenas dias ou instantes. Subitamente o curso de 
toda a sua existncia estava voltada para uma direo diferente daquilo que ela havia esperado. 
       Ele perguntou a ela sobre como era ser uma gmea e riu de algumas de suas histrias ultrajantes. E ento subitamente eles estavam na entrada e ele a estava 
beijando novamente. Ela nem mesmo sabia que horas eram, mas tambm no ligava para isso. Tudo o que sabia era que queria estar com ele. Sentaram-se na sala e falaram 
mais um pouco, e ento ele serviu mais champanhe a ela e se beijaram um pouco mais. Desta vez, sem pensar ou perguntar a ela enquanto se beijavam, ele tirou sua 
blusa lentamente. Ela comeou a objetar, a dizer algo, mas ele a silenciou com lbios hbeis e dedos geis e a fora de seu prprio desejo quase a apavorou enquanto 
ele a beijava e lentamente deixava seus lbios se movimentarem de sua boca para seu pescoo e ento para baixo, sobre seus seios e seus mamilos. Ela estava gemendo 
suavemente e ele estava ardendo de desejo por ela. 
       Subitamente ela olhou para ele e soube, ambos o souberam, que suas vidas haviam mudado para sempre. Aquele momento e a vida inteira eram deles, os riscos, 
os perigos, as tristezas, as alegrias, ela estava querendo dividir tudo aquilo com ele. E lentamente suas roupas dissolveram-se nas mos dele e ele a tomou gentilmente 
em seus braos e a levou para o quarto.
       As persianas estavam baixadas, a luz estava fraca, parecia que havia uma espcie de nvoa mstica em volta deles e, com o maior cuidado e gentileza, a mais 
infinita experincia, ele a tocou. Seu corpo murmurou e lamentou para ele, seu corao se estendeu ao dele, sua mente era um borro com tudo o que ele estava fazendo. 
Horas depois ela deitou-se era seus braos, assustada mas sem medo, meio adormecida, preenchida de amor por ele e com total confiana. Ela havia dado a ele tudo 
o que tinha para dar e sabia sem dvida que em dele para sempre.
       Eram cinco horas quando ele a acordou e a luz estava um pouco mais fraca. Ele odiava ter de acord-la, mas sabia que tinham de ir embora. A ltima coisa que 
queria para ela, ou para si mesmo, era causar qualquer problema. Era quase um sofrimento fsico ter de afast-la dele e ela se vestiu silenciosamente enquanto ele 
a observava, totalmente subjugado com os longos e graciosos membros, a beleza de seus movimentos. Era como se ele no pudesse acreditar na sorte de t-la encontrado 
e ela quase no podia acreditar no que tinha acontecido.
       - Eu nunca, nunca a farei se arrepender de me amar - disse-lhe ele antes que sassem, ambos um pouco abalados pelo enorme passo que haviam dado, mas mesmo 
assim ela no tinha arrependimentos. Ela fundira seu destino com o dele naquele dia e agora estavam amarrados um ao outro para sempre.
       Ele a deixou dirigir parte do caminho para casa e muitas vezes ela o assustou, mas ele amava aquilo. Eles riram, cantaram, eram como duas crianas que tinham 
soltado as velas de um pequeno barco num mar tempestuoso e tudo o que podiam fazer agora era acreditar no destino para proteg-los.
       - Eu te amo Tobby Whitticomb - disse ela numa voz forte e clara quando ele a deixou a trs quadras de casa, odiando ter de deix-la.
       - No tanto quanto eu a amo. Voc ver, voc ser minha um dia - disse ele orgulhosamente - apesar de eu no merec-la.
       - Eu j sou sua - sussurrou ela e ento beijou seu rosto, antes de descer para a calada, ainda um pouco confusa com o que havia feito e com a enormidade 
de seu comprometimento.
       Ela acenou quando ele partiu, seus olhos pregados nele por tanto tempo quanto pde v-lo. Haviam prometido encontrar-se novamente no dia seguinte, novamente 
na biblioteca e iriam voltar  pequena casa que era deles agora.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
SEIS
       
       
       Outubro estava repleto de atividades para todos eles. Edward Henderson estava a ponto de concluir um grande negcio e estava realmente gostando muito daquilo. 
Ele ia ao escritrio de John Watson todos os dias e passava horas em mesas de conferncias, cercado de banqueiros e advogados.
       Olvia fizera muitos amigos e era convidada para todos os lugares para lanches e chs e, embora Victoria tambm fosse convidada, raramente se juntava a ela. 
Ela disse a Olvia que estava freqentando leituras e encontros da Associao Nacional de Sufragistas Americanas, mas Olvia suspeitava de que havia mais do que 
aquilo. 
       Ela sabia instintivamente que, entre as outras coisas que fazia, Victoria estava se encontrando secretamente com Tobias Whitticomb. Olvia no dizia nada, 
mas estava constantemente observando sua irm. Ela via as mudanas nela, sabia o quanto devia estar apaixonada, mas sabia tambm que nada podia fazer para parar 
com aquilo.
       Os Henderson continuaram a ir a concertos e peas e, a pedido de seu pai, Olvia ofereceu mais dois pequenos jantares. Charles Dawson veio para um deles, 
mas passou a maior parte da noite discutindo negcios com seu pai. E Olvia estava menos falante que o usual. Estava muito preocupada com a irm. Parecia haver um 
silncio entre elas atualmente, um bloco de algo impenetrvel que Olvia sentia, mas no podia ver ou passar atravs, e sempre que tentava questionar Victoria sobre 
isso, ela insistia que Olvia estava imaginando coisas e que nada mudara entre elas.
       Olvia estava comeando a esperar ansiosamente a hora de ir para casa, quando ela poderia recuperar sua irm da paixo cega por Tobby. Mais que nunca, achava 
que a havia perdido. Mas no fim de outubro Edward Henderson disse que duvidava que voltassem a Croton antes do Dia de Ao de Graas. Ele estava concluindo a venda 
da fbrica e achava que de qualquer maneira estar em Nova York era bom para elas, pois lhes dava a chance de fazer amigos e, ele s vezes piscava para elas, talvez 
at de encontrar maridos. Em todo caso, era bvio o quanto elas gostavam dali. 
       Olvia ainda era a mesma em muitos aspectos, mas afiara seus conhecimentos sociais e se tomara uma anfitri perfeita. Mas era Victoria quem parecia ter florescido 
na condio de mulher. Subitamente parecia haver nela uma aura de algo muito mais sofisticado. Era algo sobre o que ningum falava, mas que todos aqueles que a conheciam 
bem haviam notado. Olvia havia visto tambm, mas nunca questionara abertamente, pois decidira que devia ser um estilo que Victoria adotara a fim de atrair Tobby. 
       E Victoria no dizia absolutamente nada a ningum, menos ainda a sua irm. Olvia no sabia de nada a respeito de seus encontros com ele e certamente no 
imaginava o que estava acontecendo na pequena casa fora da cidade, onde eles se encontravam todas as manhs, ainda que sentisse que a relao de Victoria com ele 
tivesse se aprofundado. Olvia sabia tambm que Victoria estava evitando-a e parecia sempre muito ocupada, o que Olvia acreditava ser muito suspeito.
       - Vocs ainda no se cansaram de nossa cidade? - perguntou Charles Dawson a Olvia uma tarde, quando veio ver seu pai. Ela viera checar a bandeja de ch e 
seu pai pedira a ela para ficar, j que haviam concludo seus negcios.
       - Talvez um pouco - sorriu ela. - Eu gosto daqui, mas sinto falta da troca das folhas em Croton.
       - Ns voltaremos logo. - O pai sorriu para ela, agradecido por toda a sua ajuda. Nos dois ltimos meses, ela dirigira a casa de Nova York com perfeio.
       - Voc deve trazer Geoffrey para nos visitar - disse ela calorosamente para Charles, sentindo que ainda no o tivesse conhecido.
       - Ele adoraria - assegurou Charles a ela.
       - Ele sabe montar? - Charles sacudiu a cabea pesarosamente em resposta. - Talvez eu possa ensinar a ele.
       - Estou certo de que ele gostaria.
       - Onde est sua irm esta tarde, a propsito? - Seu pai interrompeu-os, curioso sobre onde estaria sua outra filha.
       - Est fora com amigos. O de sempre. A biblioteca. No estou certa. Ela deve voltar a qualquer momento.
       - Ela certamente tem sado muito estes dias. - Ele sorriu para ela. 
       Estava feliz que elas tivessem gostado tanto de Nova York; todo mundo estava encantado com elas e fascinado pelas irms totalmente idnticas. Charles saiu 
pouco depois e Victoria estava justamente subindo as escadas da frente quando ele saiu. Um carro partiu rapidamente, mas ningum notou, e ele conversou com ela por 
um momento. Havia algo diferente em seus olhos desta vez, algo vago e sonhador. Uma vez mais ele ficou surpreso com o quanto ela era parecida com sua irm gmea 
e ainda assim, num sentido mais vago e mstico, o quanto eram diferentes. Ainda havia vezes, quando ele as via juntas, em que no podia diferenci-las no primeiro 
instante. Ele ainda refletia sobre isso enquanto dirigia para casa e para seu filho. O Dia de Ao de Graas e o Natal chegariam em breve, e Charles os temia. Os 
feriados haviam sido uma agonia no ano anterior, sem Susan.
       Os Henderson foram a um concerto no Carnegie Hall naquela noite e encontraram vrios conhecidos, entre eles Tobias Whitticomb, que estava dividindo um camarote 
com amigos, mas sua esposa no estava entre eles. Algum disse que ouvira dizer que ela estava doente, mas outra pessoa sorriu e disse ter ouvido que ela estava 
esperando outro beb. Victoria apenas sorriu para si mesma, sabendo que ela no poderia e que ele estaria deixando-a num futuro muito prximo. Talvez tivessem decidido 
que seria mais simples se ele sasse sozinho. Mas, qualquer que fosse a razo, ele e Victoria passaram a maior parte da noite com seus olhos voltados um para o outro. 
Seu pai tambm notou isso desta vez, mas no disse nada a ela no caminho de casa e silenciosamente desejou que o jovem Whitticomb no a tivesse escolhido como o 
prximo objeto de sua afeio.
       - Papai viu o que aconteceu hoje - advertiu-a Olvia quando elas tiravam os vestidos, mas Victoria evitou-a, como sempre fazia agora. 
       Machucava Olvia constantemente sentir a distncia entre elas. Era uma dor fsica, um sofrimento visceral do qual ela nunca parecia livrar-se.
       - Papai no sabe de nada - disse Victoria com completa segurana.
       - O que exatamente h para saber? - perguntou Olvia suavemente, de sbito terrificada com o quanto aquilo teria ido longe, mas Victoria nem mesmo se dignou 
a responder e aquela noite ambas tiveram pesadelos.
       Mas na manh seguinte os pesadelos tornaram-se verdade. John Watson ligou como sempre fazia e perguntou se poderia ver Edward Henderson em casa, no caminho 
para o trabalho. A visita no parecia pouco usual e Henderson sempre ficava feliz ao v-lo.
       Bertie serviu-lhes caf na biblioteca e houve uma longa pausa quando John sentou-se e olhou para Edward. Quando ficaram sozinhos, John ainda no tinha idia 
de como comear o que tinha a dizer. Ele pensou no corao fraco de seu velho amigo, na sade que oscilara algumas vezes nos ltimos anos, mas ainda assim ele sabia 
que no tinha escolha. Precisa contar a ele. Devia isso a Edward.
       - Receio - comeou ele lentamente - que tenha ms notcias. 
       Os dois homens trocaram um longo olhar. Era como observar uma porta aberta para revelar um abismo no qual nenhum deles gostaria de mergulhar agora.
       - A venda da fbrica no deu certo? - Edward pareceu desapontado, mas no devastado. No entanto, John sacudiu a cabea.
       - No, ainda bem, tudo est bem por l. Na verdade, esperamos ter o negcio fechado at o Natal.
       - Era o que esperava - disse Edward. Haviam trabalhado duro naquilo e no houvera sugesto de qualquer problema.
       -  pessoal, receio. Algo que me faz sofrer profundamente por ter de dizer a voc e que vai faz-lo sofrer tambm. Conversei longamente com Martha sobre isso 
a noite passada e ambos achamos que voc deveria saber.  Victoria, Edward. Receio... - Ele fazia um grande esforo para dizer as palavras, com medo de que aquilo 
matasse seu amigo, ou no mnimo o golpeasse profundamente. - Ela fez algo muito imprudente. Est envolvida com o jovem Whitticomb... seriamente... sinto muito. - 
Seus olhos se encontraram, aterrorizados e disseram milhares de coisas indizveis entre os dois homens. - Aparentemente h uma pequena casa ao norte da cidade onde 
eles se encontram... onde eles vm se encontrando. A governanta de algum os tem visto todos os dias no ltimo ms. Receio que... voc pode imaginar o resto. Oh, 
Deus, Edward, eu sinto tanto! - disse ele, observando os olhos de seu velho amigo se encherem de lgrimas, mas por um momento Edward Henderson no disse nada.
       - Voc est certo disso? Quem  essa mulher? Eu poderia falar com ela? Talvez ela esteja mentindo. Pode ser chantagem. 
       - Possivelmente. Mas dada a reputao do homem, fiquei inclinado a acreditar na histria. Eu no teria vindo a voc se no estivesse com muita certeza disso. 
- E ento: - Voc quer que eu fale com ele? Talvez ns dois possamos faz-lo.
       - Eu deveria mat-lo, se for verdade - disse Edward com dio. 
       - Apenas no posso acreditar nisso vindo de Victoria. Ela  impulsiva s vezes, mas no faz mais do que dirigir meus carros ou roubar meu cavalo favorito 
para uma boa corrida nos campos, ou at mesmo nos meus melhores jardins. Mas no isso, John... no isso... eu simplesmente no posso acreditar isso vindo dela.
       - Nem eu. Mas ela  muito jovem e ingnua. Acredito que ele seja um perito nisso. A mulher diz que ele mantm a casa apenas para este propsito.
       - Este homem merece a cadeia!
       - E se for verdade? E sua filha? Ela no pode se casar com ele. Ele j  casado, tem uma casa cheia de crianas, uma esposa aristocrata, e eu soube por Martha 
que ela est esperando outro beb. Receio que isto seja muito desgostoso.
       - Voc acha que algum sabe? - Os olhos de Edward encontraram os dele honestamente, embora ele odiasse estar fazendo esta pergunta. Para Watson, esta era 
quase a pior parte.
       - Ele comentou algo com Lionel Matheson no clube poucos dias atrs. Eu no acreditei quando ouvi ento. Algum no escritrio me contou. O homem  obviamente 
um grosseiro, se est tentando destruir a reputao de uma jovem garota. Ele disse a Matheson que estava tendo um caso com uma doce coisinha que no sabia nem que 
horas eram e que ela tinha uma irm idntica. No mencionou nomes, mas com este complemento, no precisava.
       Edward Henderson ficou plido e, se John Watson no estivesse l, teria subido direto as escadas para ver suas filhas. 
       - Voc vai ter de fazer algo sobre isso rapidamente - disse Watson o que j estava claro para ambos. - Se ele est fazendo comentrios como este, isso se 
espalhar por toda a cidade a qualquer momento. Que tal mand-la para a Europa por um tempo, numa viagem para algum lugar... qualquer lugar... apenas para tir-la 
daqui e dele? Mas depois disso voc vai ter de pensar seriamente sobre seu futuro. Voc vai ter de fazer algo. Voc no pode simplesmente deixar as coisas assim, 
isso vai arruin-la. Ela nunca encontrar um marido depois disso ou, se encontrar, no ser algum que voc queira para ela.
       - Eu sei disso - disse Edward Henderson miseravelmente, agradecido a seu velho amigo por sua honestidade, ainda sofrendo com o que acabara de ouvir. - Vou 
ter que pensar sobre isso. Vou mand-la de volta para Croton amanh. Mas depois disso, no estou certo. Europa no  a resposta... no sei o que fazer com ela. Eu 
o foraria a casar-se com ela se pudesse, mas que diabo eu tenho a fazer com um homem casado com quatro crianas?
       - Atire nele - disse John Watson, tentando injetar um pouco de humor onde no havia nenhum, mas Edward soltou um tenebroso sorriso para ele e assentiu.
       - Acredite em mim, eu gostaria de faz-lo. Acho que deveria falar com ele. Gostaria de saber o que aconteceu.
       - No acho que voc deva fazer isso, j est suficientemente bvio e voc vai se aborrecer, Eu gostaria de acreditar que ele  sincero, apesar de duvidar 
disso, mas, mesmo se ele o for, de que isso vai adiantar para Victoria? Ele no pode casar-se com ela. Ele possivelmente no pode divorciar-se de Evangeline, certamente 
no se ela estiver mesmo esperando outra criana. O escndalo seria pavoroso. A melhor coisa que Victoria pode fazer  esquec-lo.
       - Tente dizer isso a ela se estiver realmente apaixonada por ele. Eu os vi danando e at mesmo flertando uma ou duas vezes, mas nunca imaginei que isso iria 
to longe. Eu deveria ter visto tudo isso. No sei o que estava pensando. Nem questionei por que ela estava fora o tempo todo.
       Ele estava pressionando as mos e culpando a si mesmo por tudo aquilo e na hora em que John Watson saiu, Edward Henderson estava profundamente agitado. Era 
um pesadelo. Os dois homens haviam concordado finalmente que Watson iria falar com Tobby Whitticomb e que Edward ficaria fora daquilo completamente. Parecia bem 
mais discreto dessa maneira e Watson receava que o corao de Edward parasse se ele fosse confrontar Tobby.
       De fato John foi direto da casa de Henderson para o escritrio de Tobby Whitticomb, onde Tobby nunca estava, mas por sorte aconteceu de ele estar l naquela 
manh. 
       Victoria tivera uma hora marcada com o dentista e ele estava esperando encontr-la mais tarde, logo que ela se visse livre da irm. Mas a histria que John 
ouviu dele era ainda mais apavorante do que eles haviam imaginado. Ele foi quase cavalheiresco, se se pode chamar isso assim e assegurou a John que no veria a garota 
novamente agora que o caso viera  luz. Fora tudo uma boa diverso, disse ele. Afirmou que ela era um tanto selvagem e que foi ela quem disse que estava acostumada 
a seduzir homens casados. No houvera nunca, jamais, promessas feitas, certamente nenhuma esperana de futuro, j que ele e Evangeline eram muito felizes, a despeito 
do que se ouvia. E  claro que John sabia, ele supunha, que Evangeline estava esperando um beb para abril. E no houvera nunca qualquer meno de nada to escandaloso 
quanto ele deix-la. Aquilo estava obviamente fora de questo. Era simplesmente um problema com uma jovem garota selvagem, e ele fora, segundo disse, sua vtima. 
Disse que ela literalmente o seduzira. E parecia particularmente assustado quando disse isso.
       John Watson no acreditou numa palavra do que ele disse e estava certo agora de que a histria inteira que ouvira antes era verdade. Victoria tinha tido de 
fato um caso com ele e John estava igualmente certo de que ela fora a vtima, e no Tobby. Mais do que provavelmente, ele fizera promessas exorbitantes a ela, mentira 
para ela, sabe Deus o que mais fizera e a seduzira. Ela era jovem e ingnua e ele muito glamouroso,  sua prpria e desagradvel maneira. Estava tudo bastante bvio 
para John, apesar de certamente causar nojo; e a grande questo agora era o que fazer com o futuro dela.
       Ele voltou para a casa dos Henderson  tarde e disse a Edward tanto quanto ousou. Amenizou a maior parte, mas a palavra final era que ela estivera envolvida 
com Whitticomb que, por sua vez, estava mais que feliz por acabar com aquilo. Ele certamente no queria nenhum problema. Mas o que podiam fazer por Victoria agora, 
socialmente, se tornara um grande problema. Se nada fosse feito e Tobby falasse, ela estaria arruinada, ningum decente jamais chegaria perto dela.
       Edward agradeceu a John uma vez mais quando ele deixou a casa novamente e parecia cinza quando Victoria e Olvia voltaram do dentista. Fora uma manh incrivelmente 
dolorosa e ele estava cheio de desespero quando ficou de p na entrada da biblioteca com as filhas.
       - Estamos indo para casa pela manh, Olvia - rugiu ele com uma aparncia terrvel, enquanto olhava furioso para ambas. No podia evitar se perguntar se Olvia 
soubera e ocultara o sombrio segredo de sua irm e ele repreendeu-a silenciosamente pela decepo. - Por favor, embale tudo e feche a casa de uma vez. Faa o que 
puder hoje e o que voc no puder terminar, deixaremos Petrie e alguns dos outros para finalizar depois que tivermos partido. - Ele parecia to carrancudo que Olvia 
quase tremeu.
       - Estamos indo embora agora? To cedo? Mas eu pensei... voc disse... - Ela parecia totalmente abalada pela notcia.
       - Eu disse que estamos partindo - gritou ele para ela, o que era muito raro, mas ele estava devastado pelos eventos da manh.
       E ento ele se voltou para Victoria e sem uma nica palavra, chamou-a para entrar. Ela sentiu suas pernas se dissolverem sob si mesma enquanto olhava para 
ele e voltou os olhos para a irm. Era bvio para ambas que algo terrvel acontecera.
       - H algo errado? - perguntou Olvia suavemente e por um longo momento ele no respondeu. Apenas ficou ali silenciosamente esperando que Victoria se juntasse 
a ele. E assim que ela entrou na biblioteca, fechou a porta com estrondo atrs dela.
        Olvia ficou no hall, olhando para a porta com seu chapu ainda na cabea, imaginando o que estava acontecendo e subitamente com medo de que ele tivesse 
descoberto que Victoria estava escapulindo da casa para encontrar-se com Tobby. Mas ela no podia imaginar quem contara a ele. E certamente Victoria havia sido imprudente, 
mas ela no era uma criminosa, embora fosse assim que ele tivesse olhado para ela. Ela nunca vira seu pai to zangado.
       Olvia correu para a cozinha para contar a Bertie o que acontecera, saber o que ela sabia sobre aquilo e dizer que estavam partindo na manh seguinte. Ela 
ficou to surpresa quanto elas e em poucos instantes as duas mulheres estavam mexendo em toda parte, tirando caixas e malas e distribuindo ordens e instrues. Seria 
impossvel fazer tudo, mas seu pai fora bastante claro. Eles estariam partindo de manh e ela devia fazer o que pudesse agora. O resto seria feito pelos empregados. 
Enquanto as duas mulheres trabalhavam freneticamente, com seus aventais, Victoria soluava na biblioteca enquanto seu pai a olhava.
       - Voc arruinou sua vida, Victoria. Este  o comeo e o fim disso. Voc no tem absolutamente nenhum futuro. Nenhum. No h um homem decente vivo que a pudesse 
querer. 
       Apenas lhe dizer aquelas palavras o deixava doente e escutar seu choro fazia seu corao doer. Ele nem mesmo queria saber o que acontecera entre eles, ainda 
que no pudesse tolerar a crena de que ela fora insensvel ou vulgar. O homem devia ter lhe prometido a lua para tirar vantagem dela. Ela estava chorando miseravelmente, 
mas ento olhou para ele deprimida.
       - Eu nunca quis me casar mesmo - disse ela, embora aquilo fizesse diferena agora. Uma coisa era dizer estupidamente que voc nunca se casaria, outra era 
ser uma pria e saber que ningum a quereria.
       - Foi por isso que voc fez isso? Por que voc no ligava? Voc queria arruinar seu futuro... talvez at mesmo o futuro de sua irm? E a reputao de nossa 
famlia? - Tudo o que ela podia fazer era sacudir a cabea e chorar em resposta. - Ele prometeu alguma coisa a voc? Ele prometeu se casar com voc, Victoria? - 
Ela no olhava para o pai; seus olhos apenas fixavam seu colo, enquanto ela apertava as mos, chorava e assentia. - Como ele pde? O que ele estava pensando? O homem 
 um completo patife. Eu nunca deveria t-lo trazido para dentro desta casa.  tudo culpa minha. 
       Seu pai ento contou a ela que Tobby comeara a fazer comentrios sobre ela, contara a homens no clube que estava dormindo com ela. Ele se comportara como 
um grosseiro e dissera a John Watson que era tudo culpa dela, que ela o seduzira. Ele estava quase em lgrimas enquanto falava e ento finalmente ela disse a ele 
tanto quanto ousava, tanto quanto podia agora.
       - Ele me disse que nunca se apaixonara por ningum alm de mim, que nunca se sentira dessa maneira com ningum... - Victoria soluava miseravelmente, mas 
o pai no se aproximou dela. - Ele disse que eles estavam se divorciando, que era um casamento sem amor e que ele ia deix-la e casar-se comigo. 
       Ento a garota que no queria se casar o quisera, afinal de contas. Com todas as suas idias bravas e novas, ela era uma completa criana e uma romntica.
       - E voc acreditou nele? - Ele pareceu horrorizado e ela assentiu. - Em primeiro lugar, o que voc estava fazendo sozinha com ele? 
       Aquilo o apavorava muito e o fazia entender que ele tinha de ter monitorado ambas muito mais de perto, embora Olvia certamente nunca tivesse ido a lugar 
algum ou feito nada que no fosse para ser feito.
       - Pensei que apenas nos encontraramos para passar a tarde. Nunca tencionei... nunca pensei... eu no teria... oh, papai... 
       Era um horrvel lamento, no tanto pelo sofrimento que causara a ele, mas pelo horror de compreender que Tobby a trara. Ele dissera a John Watson que no 
era mais nada que um caso passageiro e que ela o seduzira... e no que ele dissera a ela que a amava mais que a vida e prometera se casar com ela. Ela quase no 
podia acreditar no quanto tinha sido estpida e no quanto ele a havia trado totalmente. Ele realmente era to mau quanto as pessoas diziam que era, e pior. Ele 
mentira para ela do comeo ao fim e ela acreditara nele.
       Com uma aparncia de total desespero, seu pai fez a ela uma ltima pergunta.
       - No suponho que voc v me contar a verdade sobre isso, mas vou perguntar de qualquer maneira. Sua irm sabia sobre isso, Victoria? Ela estava ciente do 
que voc estava fazendo?
       Victoria estava quase sem poder falar ento, mas sacudiu sua cabea e encarou-o sinceramente nos olhos.
       - No, ela no sabia - sussurrou. - Ela nos viu danando nos Astor, no baile, e ns tivemos uma terrvel discusso. Ela disse tudo o que eu deveria saber 
por mim mesma... mas eu no acreditei nela. Eu nunca contei a ela o que estava acontecendo. Acho que ela sabia que eu o havia visto uma vez ou duas, mas no... no 
o resto... 
       Ela estava to envergonhada agora que ele sabia, que dificilmente poderia encar-lo. E logo toda a cidade saberia, se Tobby fizesse dela alvo de riso. Ela 
estava subitamente agradecida que estivessem voltando para Croton. Ela nunca mais queria ver Nova York ou qualquer das pessoas daquela cidade. 
       A histria que eles contariam era que uma das gmeas ficara doente e que haviam tido de voltar para Croton de vez. Se tornaria de fato um longussimo ataque 
de gripe. De fato, como sua filha, Edward no tinha absolutamente nenhum desejo de voltar a Nova York agora. Nada de bom jamais acontecera a ele ali. Sua mulher 
morrera ali, a primeira apresentao das garotas  sociedade fora pouco mais que um ato de circo para elas e esta segunda vinda se transformara num completo desastre. 
Edward Henderson duvidava muito que ele jamais as trouxesse novamente de Croton. Mas, enquanto olhava para Victoria, ele sabia que por ela, apesar do que dissera, 
aquilo ainda no estava acabado. E ele sabia que tinha de direcion-la no assunto.
       - Eu probo voc de algum dia voltar a v-lo, Victoria, est claro? O homem no liga para voc. Ele negou-a, ele a ridicularizou, ele a traiu. Se ele tivesse 
dito a John que voc era o amor de sua vida e que no sabia o que fazer agora, seria uma histria diferente. No acho que toda a coisa fosse terminar de maneira 
diferente, mas voc poderia ir para o tmulo daqui a cinqenta anos, esperanosamente, sabendo que o homem realmente a amara. Voc poderia agarrar-se a isso em suas 
piores horas. Voc no tem nada em que se agarrar agora, exceto em sua prpria desgraa, nos retalhos da reputao que voc destruiu e que no podero nunca ser 
reparados e no fato de que voc foi usada por um homem completamente baixo, que no sente nada por voc. Quero que voc se lembre disso. Talvez haja algum meio de 
redimi-la algum dia. Quero pensar sobre isso. Mas enquanto isso, no tenha iluses sobre este homem. E lembre-se - rugiu ele para ela, que tremeu quando o ouviu 
- eu a probo de v-lo! Voc est entendendo?
       - Sim, senhor. - Victoria assentiu e limpou o nariz novamente, tentando segurar as lgrimas frescas, mas ela simplesmente no conseguia. Ele falara muito 
claramente. E no havia como esconder-se agora. Era um total pesadelo.
       - Agora v para seu quarto e fique l at que partamos de manh. 
       Ela escapou da biblioteca to rapidamente quanto pde e correu escadas acima, agradecida por no haver ningum no caminho. Bertie e Olvia estavam no sto 
ento, abrindo bas e recolhendo suas valises. Na hora em que elas desceram novamente, Victoria havia corrido rapidamente escada abaixo e sado porta da frente afora, 
usando um vestido negro e um chapu com um vu que cobria inteiramente seu rosto. Ela ouvira o que seu pai dissera, mas tinha de ouvi-lo por si mesma desta vez. 
Era impossvel acreditar. Talvez John Watson estivesse mentindo. Ela pegou um txi para seu escritrio e quase colidiu com ele nos degraus, j que ele estava saindo. 
Ele parecia mais bonito que nunca, mas assustado ao ver quem era e no particularmente feliz por v-la.
       - Preciso falar com voc - disse ela, lutando contra as lgrimas, enquanto Tobby olhava para ela com bvia irritao.
       - Por que voc simplesmente no mandou outro advogado? O que voc pensou que estava fazendo? Pressionar-me a deix-la esta semana? Por que a pressa?
       - No tive nada a ver com isso. Algum contou ao advogado de meu pai que voc fez um comentrio sobre mim, que ns estvamos tendo um caso, e ele contou a 
meu pai. E parece que algum nos viu na casa.
       - Ora, pelo amor de Deus. Voc  uma grande garota, "Senhorita Moderna Eu Nunca Quero Me Casar". Voc sabia o que estava acontecendo. Voc apenas queria ouvir 
todas as palavras bonitas, mas sabia exatamente do que se tratava, e no me diga que no sabia. 
       Ela pareceu chocada com a crueldade do que ele estava dizendo e desejou que pudessem ir a algum lugar para conversar, mas estava claro que ele no o desejava. 
No fez nenhum movimento para descer os degraus e no a convidou a voltar ao prdio, para irem a seu escritrio.
       - O que foi aquilo tudo? No sei o que pensar agora... - perguntou ela amedrontada, enquanto ficava l tremendo, o pesado vu ocultando as lgrimas que escorriam 
em silncio por suas faces.
       - Aquilo foi naquela hora, isto  agora. Foi divertido. Foi muito divertido. Eu faria tudo novamente neste minuto. Mas isso  tudo o que foi, um bom momento 
que durou pouco tempo. Todas vocs, mulheres, so as mesmas danadas, vocs tm que fingir que vo ganhar um anel de ouro no fim de tudo. No me diga o quanto voc 
 moderna, voc  to desonesta quanto o resto delas. Voc no quer ir para a cama com um homem, a menos que consiga com isso um anel de casamento. O quanto isso 
 real? Voc realmente pensa que estou pronto para deixar Evangeline e trs crianas... quatro, agora... voc realmente pensa que ela me deixaria ir? Ou que voc 
 o amor da minha vida? Como diabos eu saberia disso aps dois dias? Como voc poderia saber? Tudo o que voc sabia era o que eu sabia: o que estava entre suas pernas 
e o que voc queria com aquilo; ento no venha me contar qualquer histria bonita. Foi isso, nenm: um bom momento e ns o vivemos. E no me diga que voc pensou 
que eu estava deixando minha esposa. Os Astor me matariam e voc sabe disso. Ento ns estvamos apenas brincando. Ns dois brincamos. E se voc falar, eu tambm 
vou falar. Vou contar a todo mundo o quanto voc era boa... e voc era boa, nenm... voc era demais. - Ele tocou seu chapu para ela, inclinou-se levemente e quando 
se levantou com um sorriso afetado no rosto, ela o esbofeteou violentamente, fazendo com que uma mulher que passava perto deles olhasse espantada.
       - Voc  um bastardo, Tobby Whitticomb - disse ela, enquanto as lgrimas corriam mais fortes. 
       Ela nunca ouvira nada to repugnante como o que ele acabara de dizer. Ele apenas a usara e nem mesmo tivera a honra de admiti-lo. Tentou culp-la tambm, 
desprez-la e faz-la                             pensar que ela nunca o amara, E a coisa mais triste  que ela o amara, e muito. Ela fora incrivelmente estpida.
       - J fui chamado disso antes - ele sorriu - por pessoas que realmente sabiam o que estavam fazendo, no apenas por bebs.
       Ela fora uma completa inocente, presa fcil para ele, e ele o sabia. Ele se aproveitara dela e no dava a mnima ao que isso representava para ela agora, 
ou para o que quer que acontecesse com ela.
       - Estamos indo embora amanh - disse ela miseravelmente, como se ainda esperasse que ele a impedisse, mas  claro que ele no o fez.
       - Acho que  uma boa coisa a fazer. Devo esperar uma visita de seu pai agora tambm? - perguntou ele desagradavelmente. - Ou ele apenas manda seus empregados?
       - Voc no merece mais do que isso - disse ela, querendo odi-lo, mas ainda no o conseguindo. Ele quebrara seu corao, e mesmo assim uma parte dela ainda 
o amava.
       - Voc sabe muito bem disso - falou ele, parecendo incrivelmente sedutor novamente enquanto a levava lentamente at um txi. - Tivemos bons momentos, Victoria... 
deixe assim... no pea mais do que foi... - Era apenas um jogo para ele. Sempre fora.
       - Voc disse que me amava. - Lgrimas rolavam por sua face enquanto ela falava. - Voc disse que nunca amara ningum assim... voc disse... 
       Ele dissera que deixaria sua mulher, que queria passar o resto de sua vida com ela e ter filhos. Eles iam fugir e viver em Paris. Ela estava soluando enquanto 
o encarava.
       - Eu sei o que disse. Eu menti - disse ele, enquanto a colocava no txi. - Agora no importa mais. - Ele olhou para ela, quase culpado desta vez. Ela era 
quase uma criana. Desta vez no fora mesmo um jogo justo, mas agora era muito tarde de qualquer maneira. - V para casa e me esquea. Voc vai se casar com algum 
bom algum dia, mas eu aposto que voc vai se lembrar disso como a maior diverso que j teve. 
       Ele deu uma risada maldosa para ela e Victoria desejou esbofete-lo novamente, mas no havia mais motivo. Estava tudo acabado. Ele nem sequer comeou a entender 
o que ela sentira por ele. Era to vazio que nunca o saberia e seu corao doa enquanto olhava para ele. E ento, lenta e finalmente, comeou a odi-lo. 
       - Eu sei - sussurrou ele, enquanto olhava para ela uma ltima vez, embebido em sua aparncia. Ela era ainda mais bonita quando chorava. Era realmente muito 
ruim que ela no fosse mais velha. Mas ele tivera diverso o bastante por um tempo. Era hora de ir adiante agora. - Sou mau - sussurrou para ela - mas s vezes as 
coisas so assim... 
       Ele deu ao motorista seu endereo e saiu do txi. Ento ele se virou e andou pela calada sem nunca olhar para trs. Victoria Henderson fora apenas um momento 
em sua vida. Ela viera e se fora, e agora era hora de algo diferente.
       Victoria chorou durante todo o caminho de volta para casa. Ela deslizou pela porta dos fundos e subiu silenciosamente as escadas, rezando para que ningum 
tivesse descoberto que ela sara. Na verdade, Olvia descobrira. Ela fora levar uma xcara de ch e ver como ela estava e saber o que acontecera com seu pai. E soubera 
instintivamente o que acontecera quando viu que Victoria sara. Sabia que ela provavelmente fora encontrar Tobby. Olvia podia sentir em seu prprio corao a agonia 
em que sua irm se encontrava. E sem dizer uma palavra sobre o desaparecimento de Victoria, Olvia silenciosamente fechou a porta e voltou ao seu trabalho no sto 
com Bertie.
       As duas irms no se encontraram novamente at o fim daquela tarde, quando Olvia foi checar o quarto novamente e desta vez encontrou-a l. Victoria estava 
sentada numa poltrona, segurando um leno e olhando pela janela. Ela no se voltou quando ouviu Olvia entrar no quarto e apenas v-la ali daquele jeito quase matou 
Olvia enquanto a observava. Ela andou silenciosamente at ela e colocou uma das mos em seu ombro.
       - Voc est bem? - sussurrou. 
       Qualquer animosidade que existira entre elas desaparecera naquela manh. Era como se tivessem se encontrado novamente. E Olvia sabia o quanto sua irm estava 
mal e precisaria dela. Houve um longo silncio em resposta  sua pergunta, e ento Victoria deu de ombros, enquanto lgrimas frescas rolavam por suas faces, derramando-se 
sobre sua blusa e seus dedos.
       - Eu fui to estpida - sussurrou ela finalmente. - Como pude ser to estpida? - Ela soava trgica.
       - Voc queria acreditar nele e era muito excitante. Ele queria que voc acreditasse nele. Ele  muito bom nisso. - Mas apenas o fato de escutar sua irm fez 
com que Victoria chorasse ainda mais e finalmente Olvia apenas a abraou. - Vai ficar tudo bem de novo, ns vamos voltar para casa e voc no o ver mais... Voc 
vai esquecer e todo mundo tambm vai acabar esquecendo. Nada disso dura para sempre.
       - Como voc sabe? - Victoria soluou nos braos de sua irm enquanto fazia a pergunta, e Olvia sorriu para ela. 
       Ela a amava tanto e desejava que pudesse tirar dela o sofrimento, o desapontamento e a decepo. Estava furiosa com Tobby Whitticomb por causa de sua irm, 
aliviada porque Victoria estava livre dele e tambm muito agradecida porque ela e sua irm gmea estavam prximas uma da outra novamente. Tobby certamente se colocara 
entre elas.
       - Sou mais velha que voc. - Olvia sorriu, reassegurando o que disse. - Eu sei sobre as coisas. Isso no vai doer para sempre - disse ela, tentando soar 
esperanosa.
       - Eu nunca soube que havia pessoas como ele... to enganador.. to mau... Eu odeio os homens...
       - No - disse Olvia, beijando o topo de sua cabea com sabedoria. - Odeie apenas Tobby.
       Victoria olhou para ela e por um instante houve um olhar familiar entre elas. Elas conheciam uma  outra to bem, cada olhar, cada palavra, cada alegria, 
cada momento de dor. Era assustador compreender que nas ltimas semanas elas quase haviam perdido uma  outra. O lao entre elas era to apertado, to forte, era 
muito profundo e muito importante. Era como partilhar um osso ou um corao. Era algo que pertencia a elas como se fossem uma s e que nenhuma delas poderia tirar 
da outra.
       Elas ficaram de mos dadas no dia seguinte, no banco de trs do carro, enquanto saam da cidade. Olvia sabia tudo o que sua irm sentia: a dor, o sofrimento, 
o arrependimento, a agonia de nunca mais v-lo novamente. E enquanto Victoria chorava silenciosamente, segurando fortemente a mo da irm, seu pai ia sentado no 
banco da frente, num silncio absoluto.
















































SETE



       E de certa maneira, foi um alvio para todos voltar a Henderson Manor, em Croton-on-Hudson. Os dois meses em Nova York haviam sido frenticos e o choque de 
emoes de seu caso deixara Victoria completamente destruda. Foi bom para as gmeas estarem novamente juntas e sozinhas e conversarem como faziam antes, sobre as 
coisas que importavam a elas. Parecia que Victoria se esquecera de tudo em Nova York, exceto de Tobby. Ele obscurecera todos os seus objetivos, todos os seus sonhos, 
todas as crenas calorosas que j haviam sido to importantes para ela. Ela desistira de tudo por ele, at mesmo de sua reputao. Em cinco breves semanas de amor, 
ela destrura tudo, ou pelo menos era o que parecia a Victoria agora e a seu pai tambm. Ele falava muito pouco sobre aquilo, mas era fcil perceber o quanto estava 
profundamente aborrecido com tudo o que acontecera. Apenas Olvia permanecera tranqila e fazia todo o possvel para encoraj-los a se recuperarem.
       Ela mimava seu pai constantemente, levando a ele seus chs favoritos, mandando preparar suas comidas favoritas, planejando menus e colhendo flores que ela 
sabia que lhe agradariam. Mas ele ficara extremamente carrancudo em sua primeira semana de volta e muito silencioso com ambas as filhas. A venda da fbrica estava 
quase fechada ento, mas ele parecia ter um grande problema em sua mente na primeira semana de novembro.
       As folhas haviam cado completamente e Olvia amava aquela poca do ano no Hudson. Ela encorajava Victoria a sair para caminhar com ela e at mesmo a cavalgar 
quando possvel, embora Victoria preferisse muito mais dirigir do que cavalgar.
       - Oh, no seja to mimada - provocou-a Olvia no fim de uma tarde, no final de sua primeira semana em casa.
        As coisas haviam quase comeado a parecerem normais ento. A casa em Nova York fora completamente fechada e Bertie voltara com o resto de suas coisas e os 
empregados. 
       - Por que no cavalgamos at Kykuit? - Olvia encorajou a irm, mas Victoria no pareceu entusiasmada com a aventura.
       - Porque os Rockefeller provavelmente ouviram falar que eu sou uma vagabunda e jogaro pedras em mim se chegarmos perto deles - respondeu Victoria, enquanto 
Olvia ria de sua irm.
       - Pare de sentir pena de si mesma. Eu jogarei pedras em voc se no sair para cavalgar comigo esta tarde, Estou cansada de ficar sentada aqui, vendo voc 
e papai tentando competirem para ver quem fica mais deprimido. Quero cavalgar e vou levar voc comigo.
       Victoria finalmente concordou e elas no foram to longe quanto a Kykuit, mas fizeram uma adorvel cavalgada ao longo do rio. Estavam quase chegando em casa 
quando um esquilo correu inesperadamente de uma rvore e o cavalo de Victoria disparou. Ela no o montava havia algum tempo e nunca fora uma cavaleira entusiasta 
como sua irm e, antes que Olvia pudesse segurar as rdeas para ela, Victoria foi jogada para fora da sela. Ela bateu no solo com uma pancada e pareceu surpresa 
enquanto seu cavalo galopava facilmente de volta para o estbulo.
       - Voc v o que quero dizer? - Victoria levantou-se e espanou-se enquanto Olvia ria dela. - Isso nunca me acontece quando eu roubo os carros de papai e saio 
dirigindo. - Ela estava sorrindo.
       - Voc est perdida! Venha atrs de mim. - Olvia deu uma mo firme a Victoria, que colocou o p dentro do estribo de sua irm e num instante estava sentada 
atrs de Olvia, galopando para o estbulo.
       Era um dia frio de novembro e estavam ambas geladas na hora em que voltaram para casa. Ficaram em frente ao fogo na biblioteca, esquentando as mos e rindo, 
enquanto contavam ao pai sobre sua aventura. Ele at sorriu para elas e Victoria pensou que era a primeira vez que ele falava com ela normalmente desde que haviam 
voltado para Croton. Ela comentou isso com Olvia quando foram para o quarto, a fim de se trocarem para o jantar.
       - Pare de dizer isso! - reprovou-a Olvia - Ele parece estar perfeitamente bem agora.
       - No quando est sozinho comigo. Acho que ele jamais vai me perdoar - disse ela baixinho, esperando que Olvia escolhesse seus vestidos para o jantar.
       - Isso no faz sentido - disse Olvia rudemente, mas ela tambm notara que seu pai estava muito mais quieto do que costumava ser e at Victoria estava bem 
mais dcil.
       Ela falava muito pouco atualmente e nunca ia a lugar algum. Parecia bem menos interessada nas sufragistas e parara de ir aos encontros. De certa forma, o 
corao quebrado por Tobias Whitticomb parecia t-la amaciado. Ela no era mais to segura de si ou to aventureira. Era como se tivesse se aventurado pelo mundo 
inteiro, confiante em si mesma, e retornado dois meses mais tarde, destruda. E tudo o que Olvia queria agora era ver sua irm e seu pai se tomarem novamente as 
pessoas que eram. Ela sabia que aquilo poderia acabar acontecendo, mas era difcil estar com ambos ao mesmo tempo. A nica coisa boa que viera do caso era que ela 
nunca se sentira to prxima de sua irm gmea. Elas subitamente eram to inseparveis agora como haviam sido na infncia. Era como se, de uma maneira no dita, 
Victoria precisasse dela desesperadamente, e ela sabia disso. E Olvia estava mais feliz do que nunca por estar com ela. Agora no se separavam nem por um momento. 
E, afortunadamente, as notcias das desventuras de Victoria no pareciam ter alcanado Croton.
       Elas jantaram com o pai naquela noite e, como sempre, todos foram para a cama cedo. Olvia fora  biblioteca e pegara livros para ambas. Ela estava lendo 
O Pioneers e adormeceu  meia-noite com o livro nas mos. Victoria h muito havia se virado de costas para ela e dormira s dez e meia. E finalmente, em algum momento 
da noite, Olvia levantou-se e apagou a luz. Ainda havia fogo na lareira e o quarto estava quente. Quando ela se virou para dormir, pensou que estava sonhando ao 
ouvir um suave suspiro a seu lado. Ela deixou o som nin-la para dormir novamente, mas logo depois sentiu uma punhalada dolorosa atravessando-a no escuro, como nenhuma 
outra sensao que jamais conhecera. 
       Aquilo tirou sua respirao e Olvia levantou-se arfando e instintivamente procurando por sua irm. Imediatamente agarrou a mo de Victoria, mas assim que 
despertou compreendeu que a dor no era dela, mas de sua irm gmea. Ela a sentira como se fosse sua, mas quando acordou completamente, a dor desaparecera e o que 
ela viu foi o rosto de Victoria contorcido de dor, enquanto ela se agarrava ao balastre da cama. Seus joelhos estavam encolhidos junto ao peito e ela mal conseguiu 
falar quando Olvia se curvava sobre ela aterrorizada.
       - O que ? O que est errado?
       Elas haviam sentido dor pela outra antes, mas Olvia jamais sentira algo parecido com aquilo. Fora como uma faca a atravessando, e ela agora podia ver facilmente 
a agonia em que Victoria estava. Ela no fazia idia do que era, mas enquanto tirava as cobertas de seu lado da cama, viu que havia sangue por toda parte. 
       - Oh, meu Deus!... Victoria... fale comigo...
       Ela no fazia idia de onde o sangue estava saindo, mas estava em toda parte e parecia haver muito. Estava em toda a camisola de Olvia, mas ela estava certa 
de que no era ela que estava sangrando. O rosto de Victoria estava mortalmente plido quando ela se virou e agarrou a mo de Olvia violentamente. Ela mal podia 
falar que estava sentindo muita dor, mas forou as palavras e falou muito claramente.
       - No chame um mdico.
       - Por que no?
       - No chame. - Seus olhos pareciam arregalados enquanto Olvia a observava, paralisada com a agonia no rosto de sua irm. Ajude-me a ir ao banheiro.
       Olvia literalmente a carregou e o sangue se espalhou por toda parte num rastro atrs delas. Victoria estava tendo uma hemorragia e Olvia no sabia como 
estanc-la. Ela estava sofrendo em dobro e caiu no cho do banheiro, subitamente numa agonia to grande que, enquanto ela chorava, Olvia chorava com ela. Ela estava 
aterrorizada porque sua irm estava morrendo.
       - Me diga o que est errado - disse ela, sentindo que Victoria sabia, mas no contaria a ela. - Se voc no me disser, vou chamar Bertie e o mdico.
       - Estou grvida. - O rosto de Victoria se contorceu de dor novamente, enquanto dores aleatrias pareciam rasg-la por dentro.
       - Oh, Deus!... por que voc no me contou?
       - Eu no podia encarar isso - disse Victoria honestamente, chorando de agonia e sofrimento.
       - O que eu fao? - Olvia estava ajoelhada ao lado dela no cho do banheiro, rezando para que sua irm no sangrasse at morrer. 
       Devia ter sido por causa do tombo do cavalo naquela tarde, ou ento talvez pudesse ter algo a ver com a histria de sua prpria me. Mas aquilo era muito 
assustador at mesmo de se pensar e no havia tempo agora. Olvia estava subitamente aterrorizada porque Victoria morreria no banheiro.
       - Eu tenho de chamar algum, Victoria. Voc tem de me deixar fazer isso!
       - No... no chame... fique... comigo... no... me deixe... - Ela estava chorando horrivelmente e parecia estar sangrando mais que nunca. 
       Mas assim que Olvia comeou realmente a entrar em pnico, Victoria se contorceu com uma expresso de dor e a origem de seu sofrimento saiu lentamente de 
dentro dela. Nenhuma delas tinha qualquer idia do que estava acontecendo de incio e ento ambas entenderam. A dor parecia cort-la interminavelmente, mas enquanto 
ela recuava vagarosamente, o que deveria ter sido um beb ficou numa massa entre as pernas de Victoria, em sua camisola. Ela comeou a soluar histericamente e Olvia 
tirou-o dela e comeou a limp-la. 
       E pouco a pouco o sangramento comeou a diminuir. Olvia ento a embrulhou em cobertores e usou toalhas e panos para limpar tudo, enquanto Victoria continuava 
deitada no cho do banheiro, sacudida por soluos e, apesar do cobertor em que Olvia a enrolara, convulsionada por um tremor to terrvel que seus dentes batiam. 
Eram seis horas da manh quando Olvia finalmente acabou de limpar tudo e trocou suas camisolas. E ento, sempre muito gentilmente e com fora pouco usual, ela carregou 
sua irm de volta para a cama e colocou-a para dormir como um beb.
       - Est tudo bem, Victoria. Estou bem aqui a seu lado. Nada vai acontecer a voc agora. Voc est salva e eu a amo. Est tudo acabado.
       Nenhuma delas disse uma palavra sobre o que havia acabado de acontecer ou o horror que presenciaram, nem falaram sobre o que teria acontecido se ela no tivesse 
perdido o beb. Dar a luz uma criana ilegtima de Tobby Whitticomb teria realmente destrudo sua vida para sempre e matado seu pai. Mas no havia mais chance disso 
acontecer agora. O beb se formara, mas ainda era muito cedo.
       Olvia ps lenha no fogo, colocou outro cobertor sobre sua irm gmea e sentou-se ao lado dela enquanto a observava finalmente comear a dormir, mortalmente 
plida, imaginando tristemente se havia uma maldio sobre elas. Sabendo o que acontecera com sua me quando nasceram, ela no podia deixar de se perguntar agora 
se nenhuma delas jamais seria capaz de ter filhos. Ela no podia imaginar a si mesma se casando ou tendo uma criana sozinha, mas era intrigante imaginar se aquilo 
era mesmo uma possibilidade ou se elas morreriam ao dar  luz. Ningum jamais dissera isso a elas.
       Victoria estava dormindo profundamente agora e Olvia colocou um casaco sobre a camisola e desceu carregando a grande trouxa de roupas sujas. Ela ia queim-las. 
Mas, para seu desapontamento, a cozinha j comeara a funcionar. Eram quase oito da manh e quando ela saiu, encontrou com Bertie.
       - O que  isso tudo que voc tem ai? - perguntou ela alegremente e Olvia instintivamente afastou-se dela.
       - Nada. Eu... eu cuidarei disso - disse Olvia firmemente e a velha mulher notou um tom em sua voz que a surpreendeu.
       - O que  isso?
       - Nada, Bertie - disse ela, quando os olhos das duas mulheres se encontraram e Olvia segurou com firmeza a trouxa. - Vou queim-la. 
       Houve uma pausa sem fim, enquanto Bertie procurava seus olhos e ento, com um pequeno passo para trs, ela assentiu.
       - Vou pedir a Petrie para fazer uma fogueira do lado de fora para voc. Talvez devamos enterrar alguns deles. 
       Olvia assentiu. Ela fizera uma trouxa menor e separada com o que teria sido o beb e aquela era sua inteno. Olvia e Bertie pareciam amarguradas enquanto 
olhavam Petrie cavar um buraco e depois fazer uma fogueira. As roupas foram para dentro dela, o resto para dentro do buraco e tudo acabou rapidamente. As duas mulheres 
ficaram lado a lado, tremendo na manh de inverno. Era uma viglia silenciosa que jamais deveria ter acontecido e Bertie colocou gentilmente um brao em volta de 
seus ombros.
       - Voc  uma boa garota, Olvia - disse ela suavemente. Ela entendera tudo. - Como est ela?
       - Parece horrvel - disse Olvia honestamente. - Mas, por favor, no diga a ela que contei a voc. Ela me mataria.
       - No direi. Mas ela precisa ver o mdico hoje. Ela pode morrer de infeco. - Apenas ouvir aquelas palavras fez o corao de Olvia tremer em seu peito e 
ela concordou.
       - Ento o traga. Eu negociarei com ela - e depois, com olhos preocupados: - O que diremos a papai?
       - Gripe, acho - disse Bertie com um suspiro. Ela tivera medo daquilo. Como todos na casa, ouvira sussurros e histrias. - No  justo preocup-lo. Talvez 
voc queira dizer algo.
       - Oh, Bertie, eu no posso. - Olvia parecia horrorizada. Como ela poderia dizer a ele que Victoria estivera grvida? - Eu no saberia o que dizer a ele. 
- Mas ela tambm no queria preocup-lo com a gripe.
       - Voc vai pensar em algo, querida. - assegurou-lhe Bertie.
       Mas mais tarde naquela manh, quando Olvia examinou-a, Victoria estava tendo uma nova hemorragia e j no falava com coerncia. Naquela tarde o mdico foi 
chamado. Ele mandou vir uma ambulncia e levou Victoria para o hospital em Tarrytown para trs transfuses. No houvera jeito de deixar seu pai fora daquilo e Victoria 
soluava histericamente enquanto garrafas de sangue entravam em seu brao e Olvia, sentada ao seu lado, tentava acalm-la. Mas era sem esperana; ela estava consumida 
de culpa e sofrimento, ainda sentia dores, estava frgil e confusa e, embora Victoria jurasse que no era verdade, Olvia sabia que ela ainda amava Tobby e sentia 
saudades dele.
       Seu pai sentou-se na sala de espera durante horas e pareceu desolado quando Olvia finalmente veio dizer a ele que Victoria estava dormindo. O mdico assegurara 
que ela estaria bem logo. Eles decidiram no fazer nenhuma cirurgia, e ele garantiu a todos os interessados que ela ainda seria capaz de ter filhos. O beb que ela 
concebera aparentemente havia crescido mais do que deveria naquele estgio. Ela poderia at mesmo ter concebido gmeos e houvera uma quantidade pouco usual de sangue 
quando o perdera. Mas certamente no havia jeito de fingir para qualquer pessoa no hospital ou na famlia que Victoria havia tido uma gripe. O mdico prometera a 
Edward Henderson que tudo seria feito o mais discretamente possvel, mas Edward tambm sabia que, no importa o que fizessem, alguma palavra acabaria saindo dali. 
E toda Nova York saberia que Victoria perdera o beb de Tobby Whitticomb. Aquilo confirmaria qualquer rumor que houvessem ouvido previamente e colocaria o ltimo 
prego no caixo que continha sua reputao agora morta.
       - Seria melhor se ele tivesse atirado na cabea dela - disse Henderson infeliz, enquanto se sentava na sala de espera com Olvia antes de voltar para casa. 
Olvia j havia dito que ela dormiria numa cama porttil aos ps da cama de sua irm por tanto tempo quanto fosse necessrio.
       - Papai! No diga isso - desaprovou Olvia gentilmente. Mas ela podia ver em seus olhos o quanto ele estava devastado por tudo aquilo e o quanto ele temia 
gravemente por sua reputao.
       -  verdade. O homem a destruiu. E para colocar ao menos alguma culpa nela, Victoria destruiu a si mesma. Ela foi incrivelmente irresponsvel. Eu apenas desejaria 
que algum pudesse t-la feito parar. - Ele no disse aquilo para ningum em particular, mas Olvia sentiu como uma reprovao,  qual ela instantaneamente respondeu.
       - Eu tentei, papai - disse ela suavemente.
       - Estou certo que sim - disse ele atravs dos dentes apertados. 
       Seus lbios estavam to finos que eram quase invisveis, como sempre ficavam quando ele estava com raiva. E ele estava mais do que com raiva desta vez; estava 
preocupado com Victoria tambm e com o que fizera a si mesma e ao resto deles, com aquele breve mas estpido caso. Ento ele olhou pensativamente para sua outra 
filha. 
       - Ela realmente tem que se casar. Isso limparia tudo um pouco. As lnguas devem ficar menos inclinadas a falar se a histria tiver um final apropriado.
       - Ele no pode se casar com ela - disse Olvia suavemente. Seu pai estava to iludido quanto Victoria se pensava que Tobby faria aquilo. Ele estava casado 
com uma Astor.
       - Ele no pode se casar com ela - seu pai concordou - mas algum mais pode. Se algum estiver querendo, aps tudo isso. Seria provavelmente a melhor coisa 
para ela.
       - Ela no quer se casar com ningum - explicou Olvia, como se seu pai no estivesse entendendo. - Ela diz que no quer se casar com ningum nunca, ou mesmo 
ver outro homem novamente e desta vez acho que ela est falando srio.
       -  compreensvel, aps tudo o que ela passou. - Ele no sabia dos detalhes, mas estava certo de que o que acontecera na noite passada estivera longe de ser 
prazeroso. Talvez,  sua prpria maneira, aquilo tivesse servido como uma lio adicional para ela. - Estou certo de que ela se sentir diferente sobre isso mais 
tarde. - E ele no estava certo se ligava para o fato de ela no se sentir. Ela fizera algo que machucara a todos eles e agora tinha que pagar por aquilo. - No 
se preocupe com isso, minha querida. - Ele beijou Olvia distraidamente e estava com a testa franzida quando voltou para casa, deixando Olvia com sua irm.
       Eles deram a Victoria outra transfuso mais tarde naquela noite e por um momento pareceu que depois de tudo ela ainda teria de fazer uma cirurgia, mas pela 
manh ela parecia desesperadamente debilitada, mas levemente melhor. Passaram-se outros dois dias antes que ela se sentasse na cama e mais dois antes que ela andasse, 
mas no fim da semana ela estava em casa, em sua prpria cama, com Olvia e Bertie fazendo alvoroo em torno dela e parecendo-se mais consigo mesma enquanto elas 
a ampararam na cama e a alimentaram.
       
       
       
       
OITO
       
       
       
       
       Mas na poca em que Victoria voltou para casa, seu pai fora a Nova York para tratar de negcios. Precisava encontrar com seus advogados para tratar da fbrica 
e tudo o que pde fazer foi controlar a si mesmo ao deparar-se com Tobby Whitticomb no Clube Universitrio, quando foi l para almoar com John Watson e Charles 
Dawson. John Watson olhou para Edward atentamente e perguntou se ele estava bem, e Edward apenas assentiu. Mas afortunadamente Tobby saiu com um grupo de amigos 
poucos minutos mais tarde. Ele no dissera nada a Henderson e evitara encarar John Watson.
       Edward voltou para Croton depois de dois dias, satisfeito por ter cuidado de tudo o que queria fazer em Nova York. Ficara no Waldorf Astoria desta vez, pois 
nem mesmo queria ver a casa novamente. Muita coisa acontecera ali no passado e recentemente e, de qualquer maneira, ele no levara nenhum dos empregados. Apenas 
Donovan e seu carro e o hotel providenciava tudo o mais que ele precisasse.
       Ele voltou dez dias antes do Dia de Ao de Graas e Victoria estava andando vagarosamente em torno dos canteiros, de braos dados com a irm, quando ele 
chegou. Ela parecia bem mais saudvel do que quando ele partiu. Edward estava certo de que em um ou dois dias ela estaria bem. Esperaria at l para contar a ela.
       Contou a ambas ao mesmo tempo. No tinha segredos para Olvia e queria seu apoio. Mas quer ela concordasse com ele ou no, os arranjos j haviam sido feitos. 
E tudo fora combinado.
       No domingo  tarde ele pediu a ambas que entrassem na biblioteca com ele e Olvia sentiu imediatamente que ele tinha algo a lhes dizer. Ela tinha o estranho 
sentimento de que ele iria mand-las a algum lugar, talvez  Europa por um tempo, para tirar Tobby da cabea de Victoria, embora ela no tivesse dito nada sobre 
ele desde Nova York. Mesmo no hospital ela se recusara a falar sobre ele. Olvia sabia que ela no tinha deixado de am-lo completamente, e sim que ainda se sentia 
to trada que no tolerava falar sobre aquilo.
       - Garotas - comeou o pai sem cerimnia - tenho algo para lhes contar. 
       Ele olhou para ambas algo ferozmente, enquanto Victoria imaginava o que ele tinha a dizer e Olvia assentia. Victoria podia sentir facilmente que esta conversa 
tinha a ver com sua transgresso. E para confirmar isso, ele olhou diretamente para ela enquanto continuava.
       - As pessoas esto falando em Nova York, Victoria, H muito pouco que possamos fazer a respeito, exceto ignorar ou negar tudo. E neste exato momento acho 
que talvez o silncio seja a nica resposta. As pessoas estaro falando aqui em breve, aps sua recente internao. E, desafortunadamente, ambas as histrias, quando 
colocadas lado a lado, formam uma histria ainda mais feia. Esto comeando a dizer, abastecidos pelo senhor Whitticomb, que voc  uma garota libertina e no apenas 
mal comportada, mas tambm sem corao. Aparentemente, ele est contando alguma espcie de histria sobre sua tentativa de seduzi-lo. H aqueles que no acreditam 
nele,  claro, muitos, eu espero, mas no importa o que ele diga, ou se as pessoas acreditam ou no, o fato  que a verdade no  uma histria bonita.
       - Eu fui tola, papai - disse Victoria, admitindo sua culpa novamente e sentindo-se mais fraca do que estivera naqueles dias, tendo de ouvir o que ele estava 
dizendo. - Eu estava errada... eu fui libertina, se voc quiser..., mas eu acreditei que ele me amava.
       - Isto apenas a torna estpida, mais que sem corao - disse ele grosseiramente, o que no era de seu feitio.
       Mas Edward no ficara feliz com o comportamento da filha nas ltimas semanas e estava frustrado pela compreenso de que havia muito pouco que pudesse fazer 
para consertar aquilo. Ele podia fazer pelo menos uma coisa e era o que estava determinado a fazer agora.
       - No podemos mudar muito as histrias, receio, ou silenciar o senhor Whitticomb. Mas podemos torn-la respeitvel novamente, pelo menos, e o resto de ns 
tambm, por associao. Acho que voc nos deve isso.
       - O que eu poderia fazer, papai? Voc sabe que eu o faria. 
       Naquele ponto, ela teria feito qualquer coisa para agrad-lo. A fora de seu desapontamento com ela era um peso esmagador que ela mal podia carregar agora.
       - Fico satisfeito de ouvir isso. Voc pode se casar, Victoria, e voc o far. Isso pelo menos vai parar com os rumores. Vai dar s pessoas algo mais para 
pensar e, embora voc possa ter sido uma garota tola, talvez at a vtima de um calhorda, e isso pode ser dito algum dia, voc vai ser pelo menos uma mulher casada 
respeitvel, acima de qualquer reprovao. Finalmente as pessoas podero esquecer a outra histria. Sem esta respeitabilidade - disse ele, juntando as sobrancelhas 
e olhando furiosa e assustadoramente para ela - h apenas uma histria a se contar, e no ser uma boa histria.  a nica histria que ouviro ou contaro durante 
anos e voc vai de fato se tomar uma pria social e ser tratada como uma prostituta. - Ele no fez rodeios sobre isso e ambas as gmeas estavam olhando para ele 
confusas, mas foi Victoria quem respondeu.
       - Mas ele no vai se casar comigo, papai. Voc sabe. Ele mentiu para mim, ele prprio o disse. Ele nunca teve nenhuma inteno de se casar comigo. Foi tudo 
um jogo para ele - e ela lhes contou o que Tobby lhe dissera na ltima vez em que o vira. - E Evangeline vai ter outro beb na primavera. Ele no pode deix-la.
       - Eu espero que no. - Seu pai parecia terrvel. - No, Tobias Whitticomb no vai se casar com voc, Victoria. No h dvida sobre isso agora. Mas Charles 
Dawson vai. Ns conversamos sobre isso longamente. Ele  um homem inteligente e razovel. Acredito que seja bom e de boa moral, e ele entende a situao. Charles 
no tem iluses sobre seus sentimentos por ele e, embora no saiba os detalhes, entende que houve algum evento desafortunado durante nossa recente estada em Nova 
York.  um vivo, perdeu a mulher que amava profundamente e ele mesmo no est procurando substitu-la em seu corao, mas tem um filho pequeno e precisa de uma 
me para ele.
       Victoria o encarava enquanto ele falava e olhou para ele com total espanto.
       -  como um emprego ao qual estou me candidatando? Me de seu filho, mas no esposa de seu corao? Papai, como voc pde!?
       - Como eu pude? Como eu pude? - falou Edward Henderson num rugido terrvel para a gmea mais nova. Era uma voz que nenhuma delas jamais ouvira em toda a sua 
vida. Desta vez seu pai estava dando as ordens. - Como voc ousa me perguntar isso depois de nos desgraar andando com um homem casado na frente de toda Nova York 
e at mesmo ficando grvida de um bastardo?! Victoria, como voc ousa? E voc far exatamente o que estou dizendo agora, sem um instante de hesitao ou eu a trancarei 
num convento em algum lugar ou a deserdarei e a deixarei sem um penny.
       - Ento faa isso! - Ela levantou-se e gritou para ele, para horror de sua irm. O que sua famlia subitamente se tornara?
       - Eu no serei forada a me casar com um homem que mal conheo e no amo, que no me ama, vendida como uma escrava, como um mvel, uma coisa, um objeto! Voc 
no tem o direito de dispor de mim dessa maneira, de fazer um arranjo com seu advogado, de ordenar a ele que se case comigo. Voc vai pagar a ele por isso tambm? 
- perguntou ela, ofendida e chocada no fundo de seu corao. E alm do mais, ela nem mesmo gostava de Charles Dawson. Como eles podiam fazer isso com ela?
       - No estou pagando a ningum, Victoria. E ele entende a situao muito claramente. Talvez melhor do que voc. Voc no est em posio de esperar o Prncipe 
Encantado chegar ou at mesmo de ficar aqui em Croton comigo e sua irm. Nenhum de ns pode ousar pisar em Nova York novamente at que voc tenha colocado esta medonha 
situao no lugar. Depende de voc agora limpar a sujeira que fez e nos devolver o que nos deve.
       - Corte meu cabelo, corte minha cabea, tranque-me, faa o que voc quiser! Mas voc no pode me vender para um homem como reparao! - Para Victoria, entre 
todas as pessoas, aquilo era o derradeiro ultraje. - Estamos em 1913, papai, no em 1812. Voc no pode fazer isso!
       - Eu posso e voc vai se casar e dar fim a isso, Victoria! Ou eu realmente vou cortar relaes com voc e deserd-la de hoje em diante. No vou deix-la arruinar 
a si mesma ou a Olvia, simplesmente porque voc  teimosa e estpida. Ele  um bom homem e voc tem muita sorte por ele estar querendo fazer isso. Francamente, 
acho que se no fosse pelo garoto, ele no o faria em absoluto, de modo que voc deveria agradecer esta bno.
       - Voc est falando srio? - Ela encarou-o, incapaz de acreditar no que estava ouvindo. E em sua cadeira, prxima a ela, Olvia parecia to chocada quanto 
ela, por diferentes razes. - Voc vai realmente cortar relaes comigo se eu no me casar com ele?
       - Vou. Estou falando srio, Victoria. E voc vai se casar.  o preo que voc deve pagar por sua irresponsabilidade e  um preo justo! Voc vai viver muito 
confortavelmente em Nova York. Ele  um homem honesto, com uma boa carreira e um futuro respeitvel. E um dia voc vai dividir com Olvia o que eu deixar para vocs. 
Isso por si s dar a voc muito mais liberdade. Sem isso, voc estar limpando o cho em penses por a, e eu falo srio. Voc vai fazer isso por todos ns, por 
mim, por voc, por sua irm. Se nada mais a move para a razo, faa isso por Olvia. Ela jamais poder aparecer em Nova York novamente se voc no o fizer. Victoria, 
voc deve se casar com Charles Dawson. No precisa ser agora, esta semana. Voc pode esperar alguns meses, at mesmo at a primavera se quiser, assim ningum pensar 
que voc foi forada a isso por... ah... razes bvias. Mas ns anunciaremos seu noivado imediatamente aps o Dia de Ao de Graas. - Victoria parecia doente quando 
se levantou da cadeira e foi olhar para fora da janela. - Voc me entendeu? - perguntou ele, indicando o fim da conversa.
       Victoria no se voltou quando respondeu.
       - Sim, papai, perfeitamente - disse ela, odiando-o quase tanto quanto odiava Tobby e agora Charles. 
       Os homens eram todos iguais, todos eles eram compradores de escravos, usurios das carnes femininas. Para qualquer um deles, uma mulher no significava nada 
mais que uma cadeira enquanto estivesse interessado. E quando se voltou ela ficou surpresa ao ver que Olvia estava chorando. Ela estava certa de que era porque 
elas ficariam separadas, agora para sempre. Nova York no era longe, mas era longe o suficiente e elas mal veriam uma  outra. Ela estava certa de que seu pai jamais 
deixaria Olvia ir visit-la.
       - Sinto muito por arrast-la nisso tambm - disse ele mais gentilmente para Olvia, enquanto batia em seus ombros. Ele estava profundamente pesaroso por t-la 
aborrecido. - Mas achei que precisaria de seu toque sensvel para trazer sua irm  razo. Quero estar certo de que ela entende que no tem escolha aqui.
       - Eu entendo, papai - disse Olvia baixinho. - Voc tem toda a nossa compreenso. 
       Mas era estranho que o castigo cruel que ele dera a Victoria fosse ainda mais cruel para ela. Era ela quem estava envolvida com Charles Dawson e Victoria 
quem o achava chato e algum que nem mesmo era digno de se conversar. Parecia irnico que seu pai ferira a ambas to mortalmente com a mesma espada e sem nem saber 
disso. A deusa cega da justia...
       - Talvez vocs duas queiram ir para o quarto e falar sobre isso um pouco - sugeriu ele, sentindo que haviam ido longe o suficiente por enquanto.
       Ele deixara tudo bastante claro e embora soubesse que ela o odiava ento, estava certo de que Victoria faria o que ele queria.
       Ambas as garotas deixaram a sala sentindo-se paralisadas e confusas enquanto subiam lentamente as escadas para o quarto e foi apenas quando a porta se fechou 
que Victoria se deixou enfurecer, gritar e chorar. Ela no podia acreditar.
       - Como ele pode ter feito isso comigo? Como ele pode ter ido a Nova York e me vendido para aquele pequeno verme? Como ele ousou?
       - Ele no  um verme. - Olvia sorriu atravs de suas prprias lgrimas para ela. - Ele  decente, bom e inteligente. Voc gostar dele.
       - Oh, pare com isso! - Victoria cuspiu. - Voc soa como papai!
       - Talvez ele esteja certo, talvez voc no tenha escolha depois de tudo. Talvez a nica coisa que v torn-la respeitvel novamente seja casar-se com Charles 
Dawson.
       - No dou a mnima sobre ser respeitvel. Eu pegaria hoje um navio  noite e iria para a Inglaterra. Posso trabalhar l e me juntar s Pankhurst.
       - Elas no esto na cadeia pelos prximos trs anos? Ou uma delas pelo menos, se eu me lembro do que voc me disse a respeito no ltimo vero. E como voc 
vai pagar a passagem do navio? Acho que papai talvez esteja certo, Victoria. Voc no tem escolha.
       - Que homem iria querer uma mulher que conseguiu assim? Como ele pode fazer isso?
       - Voc ouviu o que papai disse. Ele quer uma me para seu filho. 
       Parecia estranho para Olvia tambm e ela conhecia o homem, ou pelo menos tinha conversado com ele mais que Victoria. Talvez ele no pudesse lidar com aquilo 
sozinho. Parecia uma coisa estranha a se fazer, mas talvez fosse para o bem, pelo menos para o deles. Mas aquilo deixava Olvia sem nada. 
       - Victoria, pelo menos tente gostar dele, para o seu prprio bem. 
       Ela nunca admitira para ningum, nem mesmo para sua irm gmea, o quanto gostava de Charles e pelo menos agora Victoria no tinha idia do quanto ela estava 
devastada com suas prprias emoes. Victoria ficou muito desgostosa por si mesma durante toda a tarde para at mesmo notar o quanto Olvia estava aborrecida e naquela 
noite ela recusou-se a descer para jantar com seu pai.
       - Como ela est? - perguntou ele a Olvia suavemente quando ela desceu sozinha para o jantar.
       - Aborrecida, chocada. Ela passou por maus momentos nestas ltimas semanas. Ela vai se acostumar com isso. D-lhe tempo.
       Ele assentiu em resposta e quando a refeio estava prxima do fim, pegou a mo de Olvia e olhou para ela tristemente.
       - Isso vai deixar apenas ns dois aqui. Voc se sentir muito sozinha?
       - Vou sentir terrivelmente a falta dela - disse ela, enquanto as lgrimas enchiam seus olhos novamente. O pensamento de no viver mais com sua irm gmea 
era quase mais do que podia suportar e perder Charles para sempre para a irm tambm era o golpe mortal final em seus prprios sonhos de garota. - Mas eu no o deixarei, 
papai, eu prometo.
       - Talvez voc deva algum dia. Talvez quando tudo isso baixar, depois que ela se casar com Charles, ns devamos encarar Nova York novamente e ver se voc encontra 
um belo prncipe. - Ele sorriu gentilmente para a filha e no tinha idia do sofrimento que acabara de causar a ela.
       - No quero um belo prncipe, papai. Eu tenho voc. E perteno a este lugar. No h ningum com quem eu queira me casar. 
       Ela disse aquilo com absoluta convico. Parecia triste para ele deix-la tornar-se uma velha solteirona, mas ainda havia um lado egosta nele que queria 
que ela ficasse ali com ele. Ela dirigia sua casa to bem e era um grande conforto para ele, muito mais do que Victoria jamais teria sido. Ele pensou se isso no 
era para o bem de todos, ento.
       - Eu sempre tomarei conta de voc. Eu prometo isso tambm. E um dia, tudo isso ser seu. Henderson Manor ser seu, Olvia. Voc pode passar o resto de sua 
vida aqui. Eu a tirarei de Victoria, mas ela ter a casa em Nova York para viver com Charles quando eu me for. Voc no vai precisar dela. 
       Ele j dispusera tudo para ambas. Estava tudo arranjado. Ela ficaria e tomaria conta dele pelo resto de sua vida e Victoria teria Charles. Olvia se perguntou 
que deuses ela tinha ofendido tanto para que isso tivesse acontecido com ela. Ela nunca sonhara ter Charles, mas nunca imaginou que ele fosse ser servido num prato 
para sua irm, muito menos como uma absurda "punio" por suas transgresses.
       - Voc vai me deixar ir a Nova York v-la? - perguntou Olvia, prendendo a respirao. Aquilo seria duplamente cruel, perder ambos um para o outro, um que 
ela jamais tivera, mas sonhara com ele e a outra que ela amava to intensamente e no podia imaginar ficar longe.
       - Claro, querida - concordou o pai. - No desejo separar vocs, apenas quero ajudar Victoria a limpar a terrvel sujeira que ela fez. - Ouvindo-o, Olvia 
desejou mais que nunca que ela tivesse sido capaz de manter Victoria longe de Tobby. Que baguna ele fizera em sua vida em apenas alguns instantes! - Voc pode visit-la 
sempre que quiser, contanto que no me abandone completamente. 
       Ele sorriu e ela colocou seus braos em volta dele, enquanto as lgrimas rolavam silenciosamente por suas faces e por seus ombros. Ela no tinha nada para 
desejar agora, para querer ou para sonhar. Ela seria sempre dele agora. E para Olvia, parecia que a vida tinha acabado.
























NOVE



       Charles e Geoffrey Dawson chegaram a Croton-on-Hudson num dia brilhante de outono no fim de novembro. Estava frio e enfumaado, havia fogueiras queimando 
em algum lugar e o cheiro do inverno estava no ar. Pouco antes que eles chegassem, o cozinheiro havia abatido o peru. Era a vspera do Dia de Ao de Graas.
       O pai fora a Tarrytown tratar de negcios e Victoria sara para cavalgar sozinha, como vinha fazendo havia dias. Parecia que no havia ningum em casa quando 
eles chegaram e por acaso Olvia os viu ao olhar por uma janela da cozinha. Ela enxugou suas mos no avental e correu para fora at eles, sem colocar seu sobretudo 
e sem nem mesmo pensar, queria colocar seus braos em torno de Charles e beij-lo; estava muito feliz por v-lo. Ela se perguntou se poderia fazer isso um dia, quando 
fossem cunhados. Era um sentimento muito estranho. Em vez disso, ela sorriu para ele, apertou sua mo, disse o quanto estava feliz por eles terem vindo e ento olhou 
para Geoffrey. E quando o viu, sentiu algo capturado em seu corao. Era como se ele sempre tivesse sido parte de sua vida em algum lugar e ela j o conhecesse. 
Ela sentiu como se fosse assim, enquanto se curvava levemente e apertava sua mo com grande solenidade.
       - Ol, Geoffrey, eu sou Olvia. Irm de Victoria. - Mas quando ela olhou para Charles, instantaneamente pde ver que ele ainda no havia contado ao garoto. 
Queria falar com Victoria primeiro e ver se eles realmente podiam fazer aquilo. - Victoria e eu somos gmeas - explicou ela e na mesma hora percebeu que ele ficara 
fascinado pelo que ela dissera. - Ns somos exatamente iguais, e eu aposto que voc no ser capaz de nos diferenciar quando a conhecer.
       - Aposto que serei! - disse ele bravamente, o cabelo louro e os olhos verdes cheios de graa e travessura. 
       Ele se parecia muito com Charles, mas tambm havia mais algum e Olvia podia apenas imaginar que era Susan. O estranho era que ela quase a sentia prxima 
de si, como se os observasse, como se tivesse se tornado seu anjo da guarda e fosse um esprito cheio de paz. Era uma sensao estranha, que ela no ousaria explicar 
a ningum, talvez nem mesmo a sua irm.
       - Vou contar-lhe um segredo sobre ns um dia, se ns nos tornarmos bons amigos, sobre como voc pode nos diferenciar com certeza - disse ela com ar de conspirao, 
enquanto o levava pela porta dos fundos para a cozinha, para comer alguns biscoitos recm-assados.
       - Eu poderia ter usado este segredo enquanto vocs estavam em Nova York. - Charles sortiu para ela. - Por que voc no me contou?
       - Ns nunca contamos a ningum, mas Geoffrey  especial - disse ela, olhando para o garoto e deixando uma mo gentil em seu ombro. 
       Ela nem mesmo estava certa do que a levara a fazer isso. Mas se sentia estranhamente prxima a ele, como se ele tivesse vindo a ela por alguma razo. Talvez 
ele fosse seu prmio de consolao, a criana que iluminaria sua alma, j que ela no teria nunca nenhuma. Na poca em que seu pai morresse, seria muito tarde para 
ela se casar e ter filhos. Numa nica semana ela perdera sua irm e seu futuro. Ela pensara em ficar aqui com ele antes, mas havia sido apenas conversa, agora era 
certeza.
       - Ningum mais sabe? - O garoto parecia genuinamente intrigado e um tanto honrado.
       - Bertie sabe - explicou Olvia e ento os apresentou, quando a Sra. Peabody entrou na cozinha.
       Ela estava muito satisfeita por conhecer Charles Dawson. E poucos minutos mais tarde levou-os a seus quartos e desembalou suas coisas para eles. Meia hora 
mais tarde Charles desceu novamente, sozinho. Geoffrey estava ajudando Bertie.
       - Ele  um menino maravilhoso - disse Olvia com um sorriso caloroso e Charles ficou ali por um longo momento, sem lhe dizer nada, apenas olhando-a. Ento 
ele se voltou e olhou tristemente pela janela. Era difcil saber o que estava pensando.
       - Ele  muito parecido com a me - disse Charles baixinho, voltando-se novamente para Olvia. - Como voc tem passado desde que saiu de Nova York? - Ele realmente 
parecia se importar, o que apenas machucava mais, e ela desejou que os outros chegassem logo e se juntassem a eles.
       - Bem. Temos andado ocupados aqui. - Ela no mencionou que Victoria estivera doente e se perguntou se ele sabia disso.
       - Andou tirando sua irm da cadeia esses dias? - perguntou ele e ambos sorriram enquanto Victoria entrava no aposento em suas roupas de montar, com botas 
lamacentas e os cabelos voando em torno da cabea como um halo negro.
       - No acho este comentrio engraado - disse ela, olhando para ambos.
       - Charles est aqui - disse Olvia algo nervosa, enquanto Victoria olhava para ela com desgosto.
       - Posso ver. No acho mais esta histria sobre a manifestao em Nova York engraada - informou ela a ambos. Charles e Olvia trocaram um olhar como duas 
crianas travessas que levaram uma bronca.
       - Desculpe, Victoria - disse ele gentilmente e foi apertar sua mo. - Como foi sua cavalgada? 
       Ele obviamente estava fazendo um esforo sincero para conhec-la melhor, mas a resposta dela foi fria e curta, antes que subisse as escadas para se trocar. 
       - Ela no parece muito feliz - disse Charles bruscamente depois que ela deixou o aposento. Era uma afirmao que quase fez Olvia sorrir por sua simplicidade.
       - Acho que podemos dizer isso. Ela passou por maus momentos desde que deixamos Nova York to rapidamente. - Ela no estava certa do quanto ele sabia e no 
queria ser ela a contar. - E esteve doente recentemente tambm. - Ela tentou valentemente pedir desculpas por sua irm.
       - Suponho que nada disso seja fcil para ela - disse ele abertamente, o que surpreendeu Olvia. -  um pouco chocante para mim tambm - explicou ele com candura 
- mas penso que ser bom para Geoffrey.
       -  por ele que voc est fazendo isso? - Ela queria perguntar se esta era a nica razo, mas no ousava. Ela mal o conhecia.
       - No posso educar uma criana apropriadamente sem uma me - disse ele, olhando friamente em torno do aposento enquanto falava. 
       - Meu pai o fez - disse ela suavemente e Charles sorriu.
       - Voc est me dizendo para no me casar com sua irm? 
       Ela desejou ter coragem para fazer isso.
       - No. - Olvia sorriu para ele. - Estou apenas dizendo que deveria haver outras razes.
       - Estou certo de que haver quando nos conhecermos melhor. - Os dois assentiram um para o outro e ouviram vozes nas escadas. Era Victoria descendo com Geoffrey. 
       -Voc  igual a ela!
 - dizia ele, fascinado pela garota de cabelos escuros que descia as escadas bem atrs dele.
       - Eu sei que sou. E qual  o seu nome?
       - Geoffrey - respondeu ele, sem um pingo de timidez.
       - Quantos anos voc tem? - Ela parecia no se importar realmente, e ele o sabia. Geoffrey tinha um instinto sobre essas coisas e subitamente se perguntou 
se ela e Olvia eram realmente to diferentes.
       - Nove. - Ele respondeu  pergunta quando chegaram ao p da escada, mas ela no fez qualquer movimento para apertar sua mo ou toc-lo.
       - Voc  pequeno para sua idade? - Ela estava surpresa por ele no ser mais velho.
       - No, sou grande - explicou ele pacientemente. - No sei muito sobre crianas.
       - Olvia sabe. Eu gosto dela.
       - Eu tambm. - A gmea mais nova sorriu enquanto eles entravam juntos na biblioteca.
       Ela foi para o lado de Olvia e subitamente a semelhana entre elas era ainda mais extraordinria. Elas pareciam duas cpias da mesma pessoa. Seus cabelos, 
seus olhos, a boca, a maneira como se vestiam, seus sapatos, as mos, o sorriso. Geoffrey estreitou os olhos, encarou-as por um longo tempo e ento sacudiu a cabea, 
para espanto de todos.
       - No acho que vocs sejam parecidas de jeito nenhum - disse ele seriamente e todos os adultos presentes sorriram, inclusive Charles.
       - Vou lev-lo ao oculista na segunda-feira - disse Charles, enquanto as gmeas riam.
       - Elas no se parecem, pai. Olhe para elas.
       - Eu j olhei. Muitas vezes. E nunca deixo de me sentir um tolo a cada vez. Se voc pode diferenci-las, eu o congratulo. Eu no posso.
       Mas de uma estranha maneira ele tambm podia, s vezes, e sabia disso. No sempre, mas s vezes. Elas o afetavam de maneira diferente, se ele deixasse. Mas 
se apenas olhasse para elas, sem pensar sobre isso ou "senti-las", ento ele no poderia dizer a diferena. Era a qualidade a que Geoffrey estava se referindo. Era 
algo visceral e sexual para Charles, pelo menos algumas vezes. Mas para Geoffrey era bem mais simples. Ele apenas as conhecia.
       - Esta  Olvia - disse ele, apontando para a gmea certa sem hesitar - e esta  Victoria - e acertou novamente. 
       E ento elas trocaram de lugar e ele disse novamente e acertou outra vez. E ento Olvia o provocou danando em torno dele, segurando as mos de Victoria 
e ele ficou confuso e errou. Mas na prxima vez ele adivinhou novamente e todos ficaram espantados, at mesmo Victoria, que sempre insistia que odiava crianas. 
Olvia j sugerira que ela no mencionasse isso nesta noite.
       - Por que no? Talvez ele no se case comigo - dissera ela, parecendo travessa.
       - E ento papai vai mand-la para um convento na Sibria ou cas-la com um pescador no Alasca. Por favor, Victoria - implorara ela - no os ofenda!
       - Tudo bem, tudo bem, no vou fazer isso - concordara ela. 
       E no o fizera. Ela no dissera quase nada, mesmo quando seu pai chegou e os quatro se sentaram para jantar. Foram Olvia e Charles que sustentaram a maior 
parte da conversa.
       - Por que voc no se casa com ele? - disse Victoria mais tarde naquela noite quando foram para a cama. - Voc no parece ter qualquer problema para conversar 
com ele.
       - Eu no tenho uma reputao para salvar e papai me quer para cuidar da casa - disse ela asperamente.
       Ele colocara sua posio claramente para ambas, dizendo precisamente o que esperava e Olvia casar-se com Charles no era parte da barganha, independente 
do quanto suas conversas fossem fceis. 
       - Geoffrey  adorvel, no ? - perguntou Olvia enquanto elas se deitavam lado a lado na cama, vestindo camisolas iguais.
       - No sei. No notei realmente. Crianas no me interessam, voc sabe disso.
       - Ele est fascinado por ns. - Olvia sorriu, lembrando-se do garoto tentando identific-las, o que fizera corretamente na maior parte das vezes. 
       Olvia sentia que tinha um lao sem palavras com ele, que parecia sentir o mesmo por ela, ou talvez por ambas. Ele parecia gostar de Victoria tambm, embora 
ela no tivesse prestado muita ateno nele. Geoffrey comera na sala de caf da manh com Bertie naquela noite e ela estava encantada por ter uma criana na casa 
novamente, assim como seu pai. Ele levou-o para uma longa caminhada no dia seguinte, antes do almoo e Olvia acabou se juntando a eles. Ela vira Victoria sair com 
Charles e no queria interromp-los. Eles tinham muito a dizer um ao outro agora, e ela esperava que sua irm ficasse em paz com ele e no o ofendesse. Se ela o 
ofendesse e ele se recusasse a se casar com ela, seu pai ficaria ainda mais aborrecido do que estava no momento.
       -  pouco usual tudo isso, no? - perguntou Charles, enquanto andavam vagarosamente atravs dos jardins simtricos. - Eu nem mesmo sei como dizer a voc. 
Fiquei um pouco assustado quando seu pai falou comigo. Mas eu realmente gosto da idia. Faz muito sentido para mim, com Geoffrey.
       - Esta  a nica razo pela qual voc est fazendo isso? - perguntou-lhe Victoria asperamente. Ela no podia imaginar por que um homem iria querer uma esposa 
que no o amava.
       - Em grande parte - disse ele honestamente. - No  justo para ele que eu fique sozinho deste jeito. Sua prpria irm me disse isso quando vocs estavam em 
Nova York e ela nem mesmo nos conhecia. Eu amava muito a me dele - disse Charles, obviamente sofrendo. - Jamais haver ningum como ela. Ns nos conhecemos quando 
ainda ramos muito jovens. 
Ela era um pouco selvagem e muito estranha. Ria o tempo todo e era muito voluntariosa. - E ento ele sorriu para Victoria. - Como voc, de certa maneira - e ento 
seus olhos se nublaram novamente. - No fim, foi isso que a matou. Ela era muito teimosa e tinha uma paixo por crianas.
- Papai disse que ela morreu no Titanic - disse Victoria de maneira trivial.
       Ela estava interessada, mas no era nem de perto to simptica quanto sua irm. Mas estranhamente, novamente aquilo tornava mais fcil para ele contar a ela. 
Falar com Olvia trazia lgrimas a seus olhos s vezes. Havia algo to sensvel e cuidadoso nela...
       - Ela morreu. Aparentemente estava prestes a entrar no bote salva-vidas com Geoff, mas havia vrias crianas em volta. Ela deu seu lugar para uma delas. De 
certa forma, no consigo acreditar que no havia lugar para ela tambm, que ela no tenha entrado com eles. Mas ela ficou para ajudar a colocar um monte de crianas 
no ltimo bote e em uma ou duas balsas. Ela at mesmo deu a uma delas seu colete salva-vidas. A ltima pessoa que a viu disse que ela tinha uma criana nos braos. 
Graas a Deus no era Geoffrey. - Houve um longo silncio e ento: - Ela era uma mulher extraordinria.
       - Sinto muito - disse Victoria suavemente e desta vez falava srio.
       - Posso imaginar voc fazendo algo assim - disse ele generosamente, enquanto olhava para ela, mas ela balanou a cabea. Ela se conhecia bem.
       - Talvez Olvia. Mas no acho que eu o faria. Sou muito egosta. E no sou muito boa com crianas.
       - Voc vai aprender - disse ele gentilmente. - E voc? E este relacionamento partido? Creio que ainda no era oficial.
       - Pode-se dizer isso. - Ela estivera dormindo com um homem casado e essa era certamente uma maneira simptica de descrever a situao. - Foi o que papai contou?
       - No realmente. - Ele sorriu para ela, sem querer ferir seus sentimentos. Seu pai fora to honesto com ele quanto sentira que podia ser. - Eu sei que foi 
um pouco mais duro que isso. Mas no tenho nenhuma iluso sobre isto ser um romance entre ns dois. Acho que podemos ser bons amigos. Eu preciso de uma me para 
Geoff. Voc precisa de um porto seguro na tempestade em que est agora. - Ele ouvira alguns rumores sobre ela e Tobby em Nova York, embora ainda no soubesse exatamente 
o que havia acontecido. Ele sabia que houvera um flerte com um homem casado, promessas que no foram cumpridas e um corao partido. Mas no sabia de nenhum detalhe 
sobre sua indiscrio ou o aborto que quase a havia matado. - Ns realmente comeamos com mais sorte do que alguns, porque no temos nenhuma iluso. No temos sonhos 
desfeitos ou coraes partidos. Nem promessas que no sero cumpridas. Podemos ser muito bons amigos;  realmente tudo o que quero agora. - Ele no podia imaginar 
voltar a amar algum dia e at mesmo a vaga emoo que sentia por ela no era bem-vinda.
       - Por que voc simplesmente no contrata uma governanta para ele? - perguntou ela honestamente. - Algum como Bertie. - Ele sorriu da simplicidade da sugesto 
e olhou para ela com aberto divertimento.
       - Voc deve pensar que sou muito estranho, casando com uma mulher que no me ama. Mas eu no quero amar novamente. Eu no quero perder mais ningum que amo, 
nunca mais. Eu no suportaria.
       - E se nos apaixonarmos um pelo outro no final das contas? - perguntou ela, mais para ser do contra do que por achar a idia agradvel.
       - Voc se sente inclinada a isso? - perguntou ele, totalmente ciente de sua indiferena por ele. - Voc me acha irresistvel? Voc acha que vai se apaixonar 
por mim rapidamente?
       - Claro que no! - disse Victoria, sorrindo para ele. Ela estava surpresa ao descobrir que gostava dele. Ele no a atraa, mas era muito agradvel. - Voc 
no corre perigo.
       - Excelente! E se eu contratar uma governanta, voc no ter um marido. Ou pelo menos no a mim; ento teria de procurar por outra pessoa e isso seria muito 
problemtico. Assim ser mais simples. Apenas uma coisa... - disse ele cautelosamente.
       - O qu? - perguntou ela com bvia suspeita, mas ele tinha um brilho nos olhos quando se dirigiu a ela.
       - Eu preferiria que voc tentasse no ser presa, ou pelo menos no com tanta freqncia. Como advogado, isso seria complicado. 
       - Farei o melhor que puder - disse ela com um leve sorriso, imaginando o que seria viver em Nova York novamente e ir para perto de Tobby. 
       Neste momento ela o odiava e gostaria de arrancar seus olhos ou talvez cortar sua garganta na prxima vez que o visse. Ele teria feito melhor se a tivesse 
matado. E ento ela olhou para Charles seriamente e falou diretamente:
       - No vou parar de ir a manifestaes. Sou uma feminista e uma sufragista. E se isso o embaraa, sinto muito.
       - De jeito nenhum. Acho que  muito interessante. No vejo razo para obstruir seus pontos de vista polticos. Voc cuida de suas opinies.
       - No sei por que voc est fazendo isso - disse ela, olhando para ele, inconsciente do quanto ele a achava encantadora. 
       E ele era imprudente tambm. Sabia precisamente o quanto ela era selvagem e havia uma parte dele que gostaria de dom-la. De certa forma, ela era uma espcie 
de desafio, ainda mais porque no o amava. Aquela seria uma unio interessante.
       - No sei por que estou fazendo isso tambm - disse ele honestamente. - Provavelmente por uma srie de razes estranhas, nenhuma delas perigosa, apenas estpidas. 
       E ento, enquanto andavam vagarosamente de volta para a casa, ele fez a pergunta final. Era como um negcio que haviam fechado. Nenhum deles estava encantado 
com isso, mas ambos pensavam que valia a pena tentar.
       - Quando voc quer se casar?
       O mais tarde possvel, ela quis dizer a ele, mas no disse.
       - No por enquanto. No h pressa. - E daquele jeito, ningum pensaria que ela estava fazendo aquilo porque estava grvida. - Que tal junho?
       - Parece razovel. Geoff estar fora da escola ento. Seria uma boa poca para vir conhecer voc melhor. Que tal uma lua-de-mel? - perguntou ele casualmente. 
- Era a conversa mais estranha de suas vidas, quase a ponto de ser maluca. - Voc gostaria de uma viagem?
       - Sim, eu realmente gostaria - disse ela relaxadamente.
       - Que tal a Califrnia? - props ele. Era o negcio novamente, mas ela declinou sua oferta e reagiu.
       - Europa.
       - No quero pegar um navio - disse ele por razes bvias, mas ela era mais teimosa que ele.
       - No quero ir para a Califrnia.
       - Teremos que falar sobre isso mais tarde.
       - timo! - disse ela e olharam um para o outro.
       No havia emoo ali, nem romance, nem sentimento, nem amor da parte dela, e apenas um vago mal-estar sensual nele. Estas eram as razes mais estranhas possveis 
para duas pessoas se casarem. Eles estavam construindo uma vida em cima de nada. Mas ele precisava de uma me para sua criana, e ela precisava de um marido para 
restaurar sua reputao. E de fato era tudo o que tinham para oferecer um ao outro. E voltaram para a casa em silncio.





























DEZ


       Apesar do estranho comeo, o fim de semana do Dia de Ao de Graas transcorreu de maneira surpreendentemente fcil. Victoria parecia estar condescendente 
e at mesmo Edward pareceu surpreso por ter sido to fcil e por Victoria estar to determinada. Victoria falou muito pouco com Charles e no conversou com Geoff, 
mas ele estava apaixonado por Olvia e Charles ficara conhecendo melhor seu futuro sogro e se divertira com suas histrias sobre seus negcios.
       E embora fosse sofrido para Olvia passar seu tempo com Charles, ela estava completamente encantada com Geoffrey. Ela o levou para cavalgar no sbado e ele 
adorou. Ela lhe deu seu cavalo favorito, Sunny. E no domingo de manh, enquanto se sentavam numa pedra no campo e o cachorro do caseiro brincava por perto, ela mostrou 
a ele a sarda. Estava em sua palma direita, entre seus dedos, e era to discreta que quase era preciso entortar os olhos para v-la. Ela fez com que ele prometesse 
no contar a ningum, nem mesmo a seu pai. Ela o fez segurar sua mo no alto e jurar com um velho canto ndio que ela e Victoria haviam aprendido quando eram crianas.
       - Quando ns tnhamos a sua idade, costumvamos pregar peas nas pessoas e trocar de lugar. Eu fingia ser Victoria e ela fingia ser eu.  Era engraado a maior 
parte do tempo e ningum sabia que o fazamos, exceto Bertie.
       - Vocs vo fazer isso com meu pai? - perguntou ele interessado e Olvia sorriu da idia.
       - Claro que no! Seria uma coisa malvada de se fazer. Ns fazamos isso quando ramos crianas.
       - E vocs nunca mais fizeram desde ento? - Ele parecia surpreso, como se no acreditasse. 
       Era muito esperto para sua idade e estava louco por sua nova tia. Eles haviam lhe contado no dia anterior que seu pai e Victoria iam se casar. Ele pareceu 
surpreso, mas no muito preocupado com aquilo.
       - Na verdade, ns trocamos apenas algumas poucas vezes desde que crescemos - confessou Olvia - normalmente com pessoas de que no gostamos, ou quando uma 
de ns tem algo a fazer que realmente deteste.
       - Como o dentista? - perguntou Geoffrey interessado.
       - No, ns no trocamos de lugar para ir ao dentista. Mas podemos faz-lo para um jantar muito chato que uma de ns tenha aceitado e no queira ir. Mas usualmente 
vamos a essas coisas assim juntas.
       - Voc vai sentir muita falta de Victoria quando ela for morar com a gente?
       - Sim, eu vou - disse Olvia tristemente, sem conseguir nem mesmo pensar naquilo naquele momento. - Vou sentir uma falta terrvel dela. Vocs vo ter de vir 
todos aqui para me ver, especialmente voc. - Ela sorriu para ele. - Estou feliz que tenha vindo para o Dia de Ao de Graas.
       - Eu tambm - disse ele, enquanto escorregava sua mo para dentro das dela. Ele realmente gostava dela. - E no vou contar a ningum sobre a sarda.
       -  melhor mesmo que no conte - disse ela e o abraou mais apertado. Era estranho pensar sobre como seria ser sua me. Ela pensou que Victoria era duplamente 
sortuda.
       Eles voltaram lentamente para casa e no fim da tarde Charles o levou de volta para Nova York. Mas prometeram voltar para o Natal. Geoffrey estava excitado 
apenas de falar naquilo e Olvia prometera fazer um jantar para eles. Seria seu primeiro jantar depois do anncio do noivado na prxima semana e Olvia ia convidar 
todo mundo que conheciam acima e abaixo do Hudson. 
       Quando Charles partiu, Edward parecia satisfeito e Victoria, exausta. Fora uma presso para ela, mas no to ruim quanto ela esperava. Ela foi para a cama 
cedo naquela noite. E Olvia sentou-se horas diante do fogo, pensando em Geoffrey e seu pai. Era estranho pensar em Victoria, Charles e Geoffrey. Eles tinham uns 
aos outros agora. Eram subitamente uma famlia. E do dia para a noite, ela se tornara uma solteirona.
       O noivado de Victoria Elizabeth Henderson e Charles Westerbrook Dawson foi anunciado no New York Times na quarta-feira seguinte ao Dia de Ao de Graas. 
Dizia que o casamento seria em junho, mas ainda no fora marcada uma data. E Edward Henderson parecia satisfeito consigo mesmo quando dobrou o jornal e colocou-o 
em sua escrivaninha. Estava feito.
       Aps a notcia, como de costume, houve um pequeno furor. Alguns telefonemas de Nova York e muitas cartas chegaram para ela. Na cidade, houve pequenas ondas 
de mexericos, mas nenhum deles to danoso quanto poderia ter sido. No fosse por Charles, as conseqncias da leviandade de Victoria teriam sido desastrosas. Agora 
as pessoas estavam dizendo apenas que ela tivera um srio flerte com Tobby Whitticomb e fora vista com ele em locais bastante indiscretos. Mas pouco mais poderia 
ser dito com certeza absoluta. O nico que sabia a verdade era Tobby e, para ele, diz-la agora o faria parecer pior do que desejava. Ela estava salva. Quase. Ou 
estaria, aos olhos de seu pai, assim que se tornasse a Sra. Charles Westerbrook Dawson.
       Mas quando Victoria sentou-se para ler o anncio mais tarde, olhou para ele com um espanto sombrio. Como eles podiam ter feito aquilo? E por qu? Tudo porque 
ela se apaixonara to desesperadamente por Tobby, porque ela acreditara nele. Agora ela tivera que ser vendida como uma escrava a um homem para quem ela no ligava, 
a fim de ser punida. E ela teria de fazer com ele as mesmas coisas que fizera com Tobby. Mas, em vez de sentir-se excitada, desta vez ela se sentia paralisada e 
desgostosa. Achava que jamais poderia faz-lo. Charles dissera que eles seriam bons amigos e que no esperava amor dela. Ele no esperava nada, exceto companheirismo 
e uma me para Geoffrey. At mesmo pensar na criana a revoltava. Ela no queria ser a me de ningum e sabia que nunca o seria novamente. Pensar nele a fazia lembrar-se 
do beb que perdera e aquilo fora traumtico o suficiente. Ela tinha toda a inteno, uma vez que estivesse casada com Charles, de fazer tudo o que as mulheres faziam 
para evitar filhos. Ela no sabia o que faziam, mas estava certa de que havia algo. E talvez, pensou esperanosa, ele no estivesse esperando aquilo dela de qualquer 
modo. Aquilo no fazia parte de ser "amigos" como ele disse que eram. Talvez ele no esperasse nada dela, fisicamente. Ela desejava ardentemente que no. O pensamento 
de Charles tocando nela, de qualquer das maneiras que Tobby o fizera, a esfriava profundamente.
       - O que voc est olhando to seriamente? - perguntou Olvia quando entrou no aposento, carregando uma braada de toalhas limpas. Uma das empregadas as estava 
levando para cima e Olvia se oferecera para ajud-la. Mas ela via agora que Victoria estava parecendo profundamente sentida enquanto olhava para o jornal de Nova 
York e ento ela entendeu o que era e sorriu para ela gentilmente. - Voc vai ser feliz com ele, Victoria... ele  um bom homem... e voc poder fazer o que quiser 
em Nova York... pense nisso... 
       Isso era alguma coisa. Victoria olhou para ela desoladamente e assentiu, to envolvida em seu prprio desespero que nem mesmo percebeu o sofrimento de Olvia. 
Depois disso, Victoria passou a sair para longas caminhadas  tarde e Olvia nunca mais disse nada quando sua irm desaparecia para Croton ou Dobbs Ferry, ou at 
mesmo Ossining. Sabia que ela ia a encontros com outras mulheres sempre que podia e era fcil de se notar que havia algo mais cortante em Victoria agora, uma raiva 
real contra os homens que beirava o dio. Ela mantinha sua lngua sob controle a maior parte do tempo, mas quando surgia a oportunidade, ou algum dizia algo, Victoria 
era rpida em soltar suas opinies como um chicote. Muitas delas mascaradas como polticas, como haviam sido um dia, mas Olvia sabia muito bem que agora seus sentimentos 
contra os homens e sua campanha a favor das mulheres como vtimas de governos em geral e dos homens em particular haviam sido semeados por Tobby Whitticomb e at 
mesmo por Charles Dawson. Ela via Charles como uma espcie de seqestrador, que estava aliado a seu pai para puni-la por ter amado Tobby.
       Infelizmente, a festa que Olvia planejava para ela no interessou a Victoria, que mal ouviu quando Olvia leu a lista de convidados. Disse que no se importava 
com quem viesse e o fato de os Rockefeller e os Clark terem aceitado o convite no era uma vitria para ela. Ela sentia muito que qualquer um deles viesse. No havia 
nada a celebrar. Era simplesmente um arranjo.
       - No chame assim, Victoria! - disse Olvia infeliz, quando Victoria lhe contou sobre isso no dia anterior  volta dos Dawson a Croton para o Natal. - A inteno 
 boa. Vocs dois esto oferecendo um ao outro algo importante. Charles a salvou das coisas horrveis que as pessoas teriam falado se fosse de outra forma. E pense 
no pequeno Geoffrey e no quanto ele ficar feliz por ter voc como me.
       - No quero ser a me dele - disse Victoria com raiva. Desde o Dia de Ao de Graas ela no fizera nada, a no ser pensar no quanto era miservel. - No 
tenho idia de como ser me dele. Ele nem mesmo gosta de mim!
       -  claro que ele gosta, no seja estpida.
       - Ele gosta de voc - disse Victoria firmemente. - E est certo. Ele sabe a diferena entre ns e acho que ele sente que no gosto de crianas.
        Ela estava certa sobre uma coisa, embora Olvia no admitisse para ela. Geoffrey Dawson tinha um misterioso talento para diferenci-las, mesmo sem ver a 
famosa sarda que Olvia mostrara a ele.
       - Ele gosta de ns duas. E estou certa de que num curto espao de tempo voc vai comear a am-lo.
       Mas Victoria se sentia forada quilo e ainda se ressentia pela obrigao. Tudo o que queria agora era um arranjo civilizado com Charles e a oportunidade 
de ver alguns amigos em Nova York e ir a reunies e comcios polticos. Ela at mesmo sonhava ser poltica um dia. Estava certa de que aquilo era um chamado para 
ela, assim como a vida religiosa era para outras. Ela via a si mesma como uma espcie de Joana D'Arc, uma purista que daria a vida por seus ideais. Sempre que Olvia 
a escutava ficava assustada pelos extremos aos quais sua irm gmea estava chegando.
       - Voc precisa pensar um pouco mais sobre coisas comuns, Victoria. Como seu marido, sua casa e seu casamento.
       Mas chamar Charles de "marido" de sua irm cortava sua alma e ela quase recuou com o choque que sentiu quando o disse. Era pecaminoso reagir desta maneira, 
ela sabia; perigoso desejar o marido de sua irm apenas porque ele era to bom e ela adorava conversar com ele. Ela no tinha o direito de pensar nele daquela forma 
agora. Nunca tivera, mas enquanto estavam em Nova York fora to fcil se deixar levar por seus sonhos de menina com ele. Mas para ambas seus dias de meninas haviam 
acabado. Elas teriam em breve vinte e um anos e, de maneiras diferentes, por diferentes propsitos, ambas haviam se tornado mulheres. Victoria conhecera o amor carnal, 
embora ilegitimamente, e se casaria em breve. E Olvia agora pertencia inteiramente a seu pai e passaria a prxima dcada, ou at mesmo duas ou trs, se ele vivesse 
o bastante, a seu servio. A vida de Victoria seria de compromisso. Sua vida seria de sacrifcio e negao. E ambas tinham de ir de encontro a seus futuros, ou pelo 
menos ela pensava assim.
       Olvia falou novamente com Victoria sobre a festa e desta vez forou-a a escutar. Ela encomendara vestidos novos para elas, de um pesado veludo negro, com 
pequenas caudas. Eram bem modernos, estavam na ltima moda e foram copiados de desenhos das irms Callot em Paris.
       - Quando eu for a Paris - Victoria sorriu para ela com amor; ela apreciava tudo o que Olvia fizera por ela nos ltimos tempos, embora nem sempre o dissesse 
- vou comprar algo "real" para voc, de um dos desenhistas que voc gosta tanto. O que ser? Um Beer? Um Worth? Um Poret? Voc vai ter de me dar uma lista e eu 
vou fazer compras para voc.
       Era agonizante para ambas pensar agora num tempo em que elas no estariam juntas e havia horas em que Olvia se recusava a faz-lo. Uma coisa era pensar nela 
se casando e indo embora, mas outra bem diferente era se permitir sentir a dor real de no ter mais sua irm com ela, noite e dia, onde quer que fossem. No houvera 
um dia sequer em toda a sua vida em que estiveram separadas por mais de poucas horas. Seria como perder um membro, Olvia temia, ou todos eles. Ela podia sentir 
o ar fugir com uma dor entorpecente sempre que se permitia pensar naquilo. Ento ela abraava Victoria e dizia a ela que sentiria terrivelmente sua falta quando 
ela se fosse. Era quase insuportvel.
       - Voc ter de vir morar conosco - disse Victoria de maneira trivial. Ela j pensara naquilo e queria que Olvia o fizesse.
       - Estou certa de que Charles estremeceria com isso. - Olvia deu um sorriso falso. Seria uma agonia para ela viver sob o mesmo teto que ele e nunca ter o 
que sonhara.
       - Ele vai ter duas pelo preo de uma - disse Victoria alegremente. - E voc pode tomar conta de Geoff. - Victoria riu e acendeu um cigarro no quarto, enquanto 
Olvia fazia uma careta e abria a janela. -  perfeito.
       - Bertie vai mat-la se peg-la fumando - advertiu-a Olvia e ento trancou a porta do quarto para que ela no entrasse. - E se eu for com voc? E papai? 
Ele ter de ir tambm? - Ela sorriu tristemente para Victoria. Elas podiam fingir tudo o que quisessem agora, mas ambas sabiam que teriam de enfrent-lo. Comeando 
pela lua-de-mel, suas vidas estariam para sempre separadas. - Papai diz que me deixar ir a Nova York sempre que quiser.
       - No  a mesma coisa, Ollie, e voc sabe.
       - No. - Ela suspirou. - Mas  o melhor que posso fazer por enquanto. - E ento ela teve outra idia, que seria pelo menos uma pequena consolao. - E Geoff? 
Vocs vo lev-lo na lua-de-mel?
       - Deus, espero que no! -Victoria fez uma careta enquanto tirava outro trago de seu cigarro e Olvia espantou a fumaa em outra direo. 
       - Isso  uma coisa to desagradvel de se fazer. Eu gostaria que voc no fumasse.
       - Fumar  a ltima moda entre as mulheres na Europa - disse Victoria, sorrindo para sua irm.
       - Assim como ordenhar vacas. Eu tambm no gostaria de faz-lo, mas pelo menos no cheira to mal. De qualquer maneira, e sobre Geoff? Vocs vo lev-lo?
       - Charles e eu no falamos sobre isso, mas eu no acho que ele iria querer. Eu quero ir  Europa. - Olvia sentiu seu corao doer novamente  meno daquilo. 
Ela em breve no seria mais parte da vida de Victoria.
       - Talvez Geoff pudesse ficar aqui comigo. Seria bom para ele e eu adoraria.
       - Que grande idia! - Victoria sorriu para ela.
       Ela no achava nada melhor do que a idia de deixar o garoto em Croton. A ltima coisa que queria fazer era persegui-lo por todo o navio, ou pior ainda, por 
toda a Europa. Charles ainda no concordara realmente em ir  Europa na lua-de-mel. Ele ainda estava falando sobre a Califrnia, mas Victoria era teimosa e estava 
certa de que poderia convenc-lo. Ela no iria  Califrnia. De tudo o que ouvira, a Califrnia soava pouco civilizada, desconfortvel e terrvel.
       - Eu vou sugerir isto a Charles enquanto eles estiverem aqui. Ou voc quer falar com ele? - perguntou Olvia enquanto fechava a janela. 
       Estava gelado l fora e j nevara duas vezes desde o Dia de Ao de Graas.
       - Voc fala com ele. Eu trabalharei sobre a Europa. - Ela sorriu e pouco mais tarde as irms desceram de braos dados, sentindo-se um pouco melhor. 
       Victoria estava pensando em sua lua-de-mel e nas mulheres que queria ver em Londres. Ela j escrevera a elas. Na verdade, sem que Olvia soubesse, ela mandara 
uma carta a Emmeline Pankhurst na priso. E Olvia estava feliz, pensando em ter Geoffrey com eles no vero. Seria uma pequena consolao por no estar com sua irm. 
Os Dawson chegaram de Nova York no dia seguinte, no novo Packard de Charles e Geoffrey quase correu para fora do carro. Ele estava muito excitado. Correu at Victoria, 
que estava do lado de fora esperando por eles e gritou para ela.
       - Onde est Ollie?
       - Na cozinha - respondeu ela, enquanto ele corria para a porta dos fundos e seu pai olhava para ela cautelosamente com um sorriso tmido, sentindo-se um pouco 
envergonhado. Ele desejava ter o olhar certeiro de seu filho, mas no tinha.
       - Ele est certo? Voc  Victoria? 
       Era ridculo no saber qual delas era sua noiva, mas na verdade ele no sabia. A princpio ele pensara que podia sentir quem ela era, mas aps sua ltima 
visita ele no estava mais to certo. Havia vezes em que Victoria era to tmida quanto Olvia e outras vezes em que Olvia relaxava, sentindo que ele era da famlia 
agora e era to ousada quanto Victoria fora com ele desde o incio. Estava se tornando mais confuso, em vez de menos,  medida que ele comeava a conhec-las melhor 
e as diferenas entre elas pareciam menos distintas agora. Mas quando elas ficavam mais relaxadas com ele, Charles achava que tinham um senso de humor parecido e 
riam das mesmas coisas. Elas tinham o mesmo sorriso, a mesma alegria, as mesmas maneiras. Elas tinham at o mesmo espirro. De qualquer maneira, ele estava ainda 
mais confuso agora do que estivera no comeo.
       Victoria estava sorrindo abertamente para ele, enquanto assentia e confirmava que era mesmo sua futura esposa e Charles pareceu mais aliviado quando deu nela 
um beijo casto no rosto e lhe disse o quanto estava feliz por v-la.
       - Acho que vou ter de comprar um par de belos broches de diamantes com suas iniciais para cada uma de vocs, ou acabarei virando um tolo a cada vez que viermos 
aqui. 
       Ambos sorriram enquanto ela enfiava uma das mos em seu brao e o levava at o hall de Henderson Manor.
       - Esta  uma idia muito boa -disse ela e ento olhou para ele, louca para brincar um pouco. Era muito difcil resistir  tentao. Apesar de ter assegurado 
a ele quem era, ela subitamente pensou que seria engraado virar a mesa e ver como ele reagiria. - Como voc sabe realmente que eu no sou Ollie? - perguntou ela 
inocentemente, confundindo-o de sbito e gostando daquilo mais do que deveria.
       - Voc ? - E afastou-se dela rapidamente, parecendo mortificado por ter agido de forma to familiar com ela. 
       E Victoria assentiu, fingindo ser sua irm. Mas assim que ela o fez, Geoffrey chegou pulando, com as faces rosadas e o cabelo desarrumado, segurando a mo 
de Olvia enquanto saam da cozinha.
       - Ol, Victoria - disse Geoff relaxadamente e seu pai pareceu algo exasperado com a pea que Victoria pregara nele. Ou teria o garoto se enganado tambm? 
       Charles olhou para ambas as gmeas, incapaz de dizer agora quem era quem, mas Olvia comeou a sacudir o dedo para sua irm. Ela instantaneamente sentira 
o que Victoria estivera fazendo.
       - Voc andou torturando Charles? - perguntou acusadoramente. Ela conhecia sua irm muito bem. Sempre fora Victoria quem amava genuinamente trocar de lugar.
       - Andou - disse ele, corando fortemente e lanando um olhar agradecido para sua futura cunhada por terminar com a charada to depressa. - Ela estava tentando 
me fazer pensar que era voc - explicou ele, enquanto Geoffrey ria dele. - E por um instante ela me confundiu completamente.
       Geoffrey pensou que seu pai era muito bobo por no saber a diferena entre as duas mulheres.
       - Agora, como voc soube com tanta certeza? - perguntou Charles a ele, frustrado. Espantava-o o fato de uma criana to pequena poder dizer a diferena entre 
as duas e ele no. Talvez tivesse ficado confuso com suas prprias emoes, pensou.
       - No sei. - Geoffrey deu de ombros. - Elas apenas parecem diferentes para mim.
       - Ele  a nica pessoa que j conheci, alm de Bertie, que sabe a diferena. - Olvia sorriu para o garoto e estendeu a mo para Charles, que a apertou. 
       Ele se voltou ento para sua noiva, que ainda estava se divertindo com o que fizera. Ela gostava de faz-lo sentir-se inseguro e desequilibr-lo e ele sabia 
disso.
       - Jamais acreditarei em voc novamente, Victoria Henderson - disse ele, desta vez para a gmea certa e Olvia riu para ele.
       - Isso  muito sbio de sua parte, Charles. Sugiro que voc se lembre disso!
       - O que est acontecendo aqui? - Edward Henderson entrou no hall e ficou satisfeito ao v-los.
       Eles tiveram um jantar animado naquela noite, falando sobre Nova York e os negcios de Edward. A fbrica de ao fora finalmente vendida e Edward estava extremamente 
satisfeito com os resultados e a maneira como Charles lidara com tudo. Ele era um homem quieto, mas era um mestre nos negcios.
       Por fim, aps o jantar, Edward e Olvia os deixaram a ss. Olvia subiu para ver Geoff e Edward disse que estava cansado e queria se retirar mais cedo. Olvia 
e seu pai subiram as escadas lentamente de braos dados e sussurraram sobre como as coisas estavam evoluindo facilmente. Ele estava muito aliviado com tudo aquilo 
e Olvia assentiu concordando, mas ela tinha emoes contraditrias. Mas esqueceu todas elas quando viu Geoff l em cima. Bertie o colocara na cama, mas ele no 
estava dormindo, estava deitado em uma de suas enormes camas de visitas, com os braos em torno de um macaco pudo e rasgado.
       - Quem  este? - perguntou Olvia interessada, enquanto se sentava perto dele.
       -  Henry. Ele  muito velho. To velho quanto eu. Eu o levo para todos os lugares, menos para a escola - disse ele com simplicidade, segurando-o pela curva 
de um dos braos enquanto sorria para Olvia. O garoto parecia muito pequeno naquela cama enorme e ela quis se abaixar e beij-lo, mas no o conhecia bem o suficiente 
para faz-lo.
       - Ele  muito bonito - disse Olvia, sria. - Ele morde? Macacos mordem s vezes, voc sabe.
       - Claro que no! - disse ele, rindo para ela. Ele a achava bonita e engraada. - Eu queria ter um irmo gmeo. Poderia pregar peas nas pessoas o tempo todo, 
como Victoria fez com papai hoje. Ele realmente pensou que ela fosse voc. E ficou todo sem graa. - Ele achava aquilo particularmente divertido.
       - Como voc pode saber a diferena entre ns? - perguntou ela, curiosa, imaginando o que ele via que os outros no viam. Ele tinha a inocncia de uma criana 
e como resultado, talvez, uma viso mais clara.
       - Vocs pensam diferente - disse ele com simplicidade. - Eu posso ver isso.
       - Voc pode ver como pensamos? - Olvia parecia assustada. Ele era muito esperto para sua idade e ela imaginou se sempre o fora ou se se tornara assim quando 
perdera a me.
       - s vezes - respondeu ele e ento a assustou ainda mais. - Victoria no gosta de mim.
       - Claro que gosta! - Olvia foi rpida na resposta. - Ela apenas no est acostumada com crianas.
       - Ela est acostumada com todas as coisas a que voc est. Ela apenas no gosta delas. Ela no fala comigo como voc fala. Ela realmente gosta de meu pai? 
- Era uma pergunta direta e dolorosa para uma criana de sua idade e por um instante Olvia no teve certeza do que responder.
       - Acho que ela gosta muito de seu pai, Geoff. No acho que eles se conheam muito bem ainda, mas eles tero tempo para isso.
       - Ento por que eles esto se casando se no se conhecem bem? Isso  muito estpido. - Ele no estava inteiramente errado, mas a vida era muito mais complicada 
que aquilo, embora ela no pudesse explicar isso a ele.
       - s vezes as pessoas se casam porque sabem que  uma boa coisa a se fazer e que com o tempo elas vo crescer e amar uma  outra. s vezes esses so os melhores 
casamentos, aqueles em que se comea como amigos e acaba se tornando uma grande coisa por toda a vida. - Soava sensato para ela, mas Geoffrey parecia em dvida.
       - Mame costumava dizer que ela nos amava mais que tudo no mundo e mais um pouco. Ela disse que amava papai mais do que qualquer pessoa no mundo quando se 
casou com ele, mais ainda do que sua me e seu pai. Ento ela me teve e ela me amou ainda mais que a ele. - Ele baixou sua voz em tom de conspirao. - Realmente 
ela disse que me amava mais, mas disse para no contar a ele, porque feriria seus sentimentos.
       - Acredito nisso - disse Olvia, enquanto seu corao quase saa do peito por ele, pela me que perdera e pela infncia que quase fora danificada para sempre. 
- Ela deve ter amado voc muito, muito.
       - Ela me amou - disse ele tristemente e ento se sentiu calmo enquanto pensava nela. Ele sempre pensava nela e sonhava com ela freqentemente. Ela estava 
sempre usando um vestido branco e sorrindo para ele enquanto andava a seu lado. Mas ele sempre acordava antes que ela o alcanasse. - Eu tambm a amava - disse ele, 
segurando a mo de Olvia apertada. - Ela era muito bonita e ria muito... mais ou menos como voc... - e ento, sem dizer nada, ela se abaixou, beijou-o no rosto 
e segurou-o junto de si por um minuto. Ele era a criana que ela nunca teria agora, o presente que fora dado a ela inesperadamente, a criana que viera para ela 
no lugar de sua irm.
       - Eu te amo, Geoffy - disse ela suavemente e queria dizer cada palavra daquelas enquanto acariciava seu cabelo e sorria para ele, e ele sorria em paz para 
ela.
       - Minha me costumava me chamar assim... mas tudo bem... voc pode me chamar assim tambm. Acho que ela ia gostar.
       - Obrigada.
       Ento ela contou a ele uma histria sobre quando ela e Victoria eram jovens e deram um ch para todos os seus amigos da escola e provocaram todo mundo trocando 
de lugar e como aquilo se tornou confuso porque todo mundo esperava que elas soubessem coisas que no sabiam. E ele adorou ouvir sobre aquilo e riu muito. Ela se 
sentou com ele por cerca de uma hora e ele acabou dormindo segurando sua mo, o macaco no travesseiro perto dele. Ela o beijou novamente e silenciosamente deixou 
o quarto, pensando nele e em sua me. Olvia sentia uma estranha afinidade com ela; era quase como se a conhecesse. Victoria j estava no quarto. Fumava um cigarro 
e nem mesmo se importara em abrir a janela.
       - Mal posso esperar que voc se v. - Olvia revirou os olhos e fingiu se estrangular na fumaa no quarto, enquanto Victoria ria para ela. Elas eram amigas 
to boas e to felizes juntas. Olvia odiava a idia de sua partida.
       - Onde voc estava?
       - Com Geoff. Pobre menino! Acho que ele realmente sente falta da me. - Victoria assentiu, mas no fez nenhum comentrio.
       - Charles concordou em ir para a Europa em nossa lua-de-mel. - Ela parecia satisfeita consigo mesma e Olvia sorriu e sacudiu a cabea.
       - Pobre homem! Voc  um monstro! Ele sabe que voc fuma? - Victoria sacudiu a cabea e ambas riram. - Talvez voc deva contar a ele, ou deixar de fumar. 
Esta  uma idia melhor.
       - Talvez ele possa comear a fumar.
       - Que charmoso! - disse Olvia, tirando a roupa lentamente e tentando no pensar em Charles de qualquer outra maneira que no como um irmo.
       - Eu disse a ele que voc gostaria que Geoffrey ficasse aqui. Ele gostou da idia. Ele no quer lev-lo  Europa. Est com medo de que o navio o desestruture.
       - Acho que isso aconteceria mesmo - disse Olvia, lembrando o que ele acabara de dizer sobre sua me. Obviamente tudo ainda estava muito fresco em sua mente. 
No havam se passado nem mesmo dois anos, mesmo que tal perodo j tivesse se passado quando eles se casassem. -         J marcaram a data?
Victoria assentiu, mas no pareceu satisfeita. Eles apenas discutiram aquilo naquela noite.
       - Vinte de junho. O Aquatania sai de Nova York no dia 21. Ser a viagem de estria. 
       Victoria sorriu com prazer com aquilo, mas no com o casamento e Olvia pareceu preocupada quando soube.
       - Voc no acha que ser traumtico para ele? - perguntou Olvia e Victoria hesitou, mas depois deu de ombros.
       - Ele no estava no navio com ela. Ela estava voltando da Europa com Geoff. Ele nunca esteve no navio.
       -Mas deve t-lo preocupado terrivelmente. Voc ter de ser muito gentil com ele durante a viagem - disse ela pensativa e Victoria pareceu irritada.
       - Talvez voc deva ir com ele ento. Ele nunca saberia a diferena.
         - Talvez no - respondeu Olvia baixinho, mas Geoff saberia.
       E no dia seguinte Charles solucionou ele mesmo a situao quando foi caminhar com Victoria antes do almoo e eles se sentaram silenciosamente por poucos minutos 
num banco, olhando para o Hudson. 
       -  to bonito aqui, no sei como voc pode sair daqui - Charles disse e Victoria forou-se a no lembrar a ele que seu pai a estava forando a faz-lo. Mas 
ela era sbia o suficiente para no diz-lo. 
       - Realmente eu prefiro Nova York, de qualquer maneira. Aqui  incrivelmente montono.  Olvia que ama viver aqui. Eu gosto de um pouco mais de excitao.
       -  mesmo? - perguntou ele, provocando-a. Ele a conhecia melhor do que ela pensava, mesmo que nem sempre pudesse saber a diferena entre elas. - Eu nunca 
teria pensado isso! Ela sorriu para ele ento. Ele era inteligente e tinha senso de humor. Ela gostava daquilo. E de qualquer maneira ele no tinha iluses sobre 
sua unio, ou pelo menos no parecia ter. - Realmente eu tive uma idia muito boa enquanto estava em Nova York.  uma maneira de diferenci-la de Olvia. Espero 
que voc goste. 
        Ela imaginou alguma espcie de elstico ridculo, como aqueles que elas usavam quando eram garotas e estava prestes a objetar, quando ele pegou sua mo na 
dele, tirou sua outra mo do bolso e, sem dizer uma palavra, colocou um belssimo anel de diamantes em seu dedo. Era muito delicado, a pedra no era grande, mas 
era bela e fora de sua me. Ela morrera muitos anos antes e ele ainda tinha todas as suas jias. Algumas delas foram de Susan antes dela morrer, mas ele nunca dera 
este anel a ela. Sua me ainda estava viva e o usava quando ele se casou pela primeira vez.
       Victoria olhou para baixo em total surpresa, assustada e em silncio. Ele lhe servia perfeitamente e sua mo estava tremendo. E Charles apenas ficou ali de 
p, olhando para ela de sua considervel altura, com algo doce, quente e esperanoso em seus olhos. Mas, ao contrrio de Tobby, ele no a pegou em seus braos ou 
disse o quanto a amava.
       - Era de minha me - foi tudo o que ele disse, desejando ter a coragem de beij-la. 
       -  adorvel... obrigada... - Ela se virou para ele ento, desejando apenas por um momento que as coisas tivessem sido diferentes.
       - Espero que sejamos felizes um dia - disse ele, pegando sua mo. - Casamento pode ser uma grande coisa entre bons amigos.
       - No deveria ser mais do que isso? - perguntou ela tristemente, lembrando-se dos breves mas excelentes momentos que partilhara com Tobby, o amor genuno 
que sentira por ele, assim como a paixo.
       - s vezes, se voc  muito sortudo - respondeu Charles, lembrando-se de seu prprio passado e desejando no se lembrar. Isto seria inteiramente diferente. 
Mas talvez, se ele a conquistasse, se ela pudesse ser domada, Victoria viesse a ser uma boa esposa tambm. Ele estava desejando tentar, para o bem de Geoff. - O 
amor  uma coisa estranha, no ? - disse ele, colocando um brao em torno dela. - s vezes voc o encontra onde menos espera. Eu no vou machuc-la, Victoria - 
disse ele muito gentilmente. - Eu serei seu amigo... e voc poder contar comigo, se voc deixar. 
       Mas ambos sabiam que ela ainda o estava mantendo  distncia. Ele no estava certo de por quanto tempo ela o faria, mas por enquanto ela era como uma gua 
selvagem e ele sabia que no poderia chegar mais perto. 
       - No vou assust-la - disse ele e ela assentiu.
       - Sinto muito, Charles. - A tristeza em seus olhos era real, por todos eles. Ela se perguntou quanto tempo levaria para esquecer a dor que Tobby lhe causara, 
se  que um dia esqueceria.
       - No sinta - disse Charles suavemente. Ambos sabiam as condies sob as quais seu noivado fora feito e nenhum deles tinha nenhuma iluso. - Voc no me deve 
nada ainda. 
       Mas e mais tarde? ela se perguntou. Seria diferente ento? Ser que ela subitamente o desejaria como desejara Tobby, apenas porque havia usado um vestido 
branco e um padre havia dito uma confuso de palavras para eles? Que diferena aquilo faria?
       - Suponho que  oficial ento - disse ela cautelosamente, olhando para o anel em seu dedo. - Estamos noivos. - Disse isso como se ainda no entendesse bem 
e ele sorriu suavemente para ela.
       - Sim, estamos. E em junho voc ser a senhora Charles Dawson. Isso d a voc seis meses para se acostumar - disse ele e ento se encaminhou cuidadosamente 
em direo a ela e, muito gentilmente, colocou as mos em seus ombros. - Posso beijar a noiva um pouco antes do programado? - perguntou ele e, sem saber o que mais 
fazer, ela assentiu.
       Ele a pegou em seus braos ento e muito cautelosamente a beijou. E apenas senti-la prxima a ele trouxe uma exploso de memrias a sua mente e seu corpo. 
Ele sentiu uma pressa feita de saudade e desejo por ela, enquanto pensava em Susan e nela, e teve de lutar para no se deixar levar por suas prprias emoes. Ela 
era a primeira mulher que ele tocava em quase dois anos e estava quase subjugado pela tristeza e pela ternura enquanto a segurava, mas ela no entendeu nada. Sentiu 
apenas os lbios de um homem que ela no amava, com quem estava sendo forada a casar. Ele segurou-a por um longo tempo, sabendo que ela ainda no sentia nada por 
ele e convencido de que isso viria com o tempo. Seria bom passar o vero na Europa.
       - Devemos voltar? - perguntou ele alegremente, pegando sua mo na dele e sentindo o diamante que colocara em seu dedo.
       Ela no disse nada sobre aquilo quando eles voltaram e foi no almoo que Olvia viu o anel pela primeira vez. A viso do dedo de Victoria assustou-a. Subitamente 
era tudo real para ela: o noivado, o casamento, o fato de que Victoria em breve iria embora e ela seria deixada sozinha com seu pai. Os olhos de Olvia encheram-se 
de lgrimas e ela olhou para longe, profundamente embaraada. Victoria sentiu instantaneamente que algo estava errado e ento olhou para sua prpria mo, sentindo-se 
cheia de remorsos e culpa, e assim que o almoo terminou, ela colocou os braos em torno da irm. Charles no entendeu o que estava acontecendo, enquanto olhava 
as duas abraadas uma  outra num silncio doloroso.
       - Vou sentir sua falta terrivelmente - sussurrou Olvia quando elas finalmente deixaram a sala de jantar.
       - Voc tem que vir comigo - respondeu Victoria com raiva. 
       - Voc sabe que no posso - disse Olvia, enquanto as lgrimas enchiam seus olhos novamente. Charles ficou no hall, olhando-as  distncia, imaginando o que 
elas diziam.
       - Nunca amarei ningum, a no ser voc - disse Victoria e falava srio cada palavra, mas Olvia sacudiu a cabea em resposta.
       - Voc deve. Voc deve isso a ele. Voc deve aprender a am-los - sussurrou Olvia e ento foi dizer a Charles o quanto achara o anel bonito. Ele pareceu 
satisfeito e os trs saram de braos dados para o sol do inverno.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
ONZE
       
       
       
       O Natal foi mais divertido do que o normal com os Dawson l, apesar da hesitao de Victoria. Olvia adorou ver o rosto de Geoff enquanto abria os presentes 
e todos eles saram para um passeio de tren na manh de Natal. Nevara fortemente na vspera e, depois que foram  igreja, as montanhas altas, acima do Hudson, ficaram 
brancas, cobertas com um fino manto de veludo branco.
       Olvia deixou Geoff dirigir o tren e juntos eles fizeram bolas de neve e jogaram em Victoria e Charles at que eles fossem para dentro e ento Olvia ajudou-o 
a fazer um boneco de neve. Eles nem mesmo voltaram para a casa at o cair da noite. Foi um dia perfeito para todos, estragado apenas pelo fato de Edward ter apanhado 
um resfriado que o deixou de cama quase at o Ano Novo. Mas ele conseguiu levantar-se para a festa que Olvia preparara para Victoria e Charles na vspera do Ano 
Novo. 
       Foi uma noite adorvel. Todos comeram bem, beberam dzias de champanhe e estavam muito elegantes na festa. Olvia arranjou at msicos. Houve dana no hall 
da frente e todos estavam de bom humor.
       Eles deixaram Geoff descer antes do jantar e todos os convidados pareceram felizes em conhec-lo. Eles congratularam Victoria generosamente e no houve o 
mnimo sussurro de escndalo. Sua reputao fora salva. Seu futuro estava assegurado. Tudo estava bem em Croton-on-Hudson. 
       E no dia de Ano Novo, Victoria e Charles pareciam estar completamente confortveis um com o outro. Eles conversavam amigavelmente de tempos em tempos e, se 
no estavam profundamente apaixonados, pelo menos pareciam muito amigos. A nica coisa que parecia preocupar Victoria verdadeiramente era Geoffrey. Olvia estava 
ciente disso e o levava com ela sempre que possvel, para que Charles no notasse. Mas ela encorajava Victoria constantemente a conhec-lo melhor.
       - Ele  apenas uma criana, pelo amor de Deus! Um garoto de nove anos. Que dano ele pode lhe causar? No seja to estpida!
       - Ele me odeia - disse Victoria com simplicidade.
       - Ele no odeia voc. Ele gosta de voc. - Era uma mentira, mas Olvia estava desesperada para que sua irm gostasse dele. - Ele est apenas mais acostumado 
comigo. Provavelmente ns podemos trocar de lugar, se realmente o quisermos, e ele nunca saber. 
       Mas ambas sabiam que era mentira e no dia de Ano Novo, como sempre, Olvia levou-o para fora com ela, para mant-lo longe de sua irm. E apesar de algum gelo 
e da neve que ainda havia no solo, ela decidiu lev-lo para cavalgar.
       - Tenha cuidado, senhorita - advertiu o cocheiro. - O tempo est traioeiro l fora. 
       Olvia podia ver que havia outra tempestade se armando.
       - Ns no vamos longe, Robert. Obrigada. 
       Ela deu o cavalo mais obediente para Geoff, um doce e velho pnei que ela mesma cavalgara quando criana e usou seu prprio animal para ir ao lado dele. Sua 
gua estava cheia de alegria naquela tarde e tambm um pouco voluntariosa. Ela fizera muito pouco exerccio ao longo dos feriados e o tempo estivera ruim. Mas Olvia 
gostava de uma cavalgada vigorosa e levou Geoffrey para as montanhas, mostrando a ele todos os lugares que ela amara quando criana, at mesmo a casa da rvore e 
a clareira secreta onde ela muitas vezes se escondera de Bertie com sua irm.
       Ela contou a ele sobre a vez em que haviam ficado fora a noite toda, quando tinham doze anos, porque tinham feito muitas travessuras na escola e ficaram com 
medo de que seu pai brigasse com elas. O xerife fora chamado, com seus cachorros e as encontrara,  claro; elas choraram, mas nada srio acontecera com elas. Seu 
pai sempre fora muito bom e at mesmo um pouco indulgente. At a ltima aventura de Victoria em Nova York. No houvera indulgncia possvel ali, eles estavam  merc 
das prprias aes de Victoria e das fofocas de Nova York. A nica soluo possvel para ela era se casar com Charles Dawson, mas Olvia no explicou aquilo a Geoffrey.
       - Vocs j levaram uma surra? - perguntou Geoffrey com interesse, enquanto Olvia sacudia a cabea. Seu pai jamais as tocara. - Nem eu - confirmou ele, para 
satisfao dela.
       Eles brincaram de caubis e ndios a cavalo por um tempo e era difcil acreditar que ela tinha vinte anos e no dez, enquanto eles caavam um ao outro sobre 
as montanhas e atravs de valas e dos rios gelados. Olvia pulava um tronco aqui e ali, mas era cuidadosa para no fazer nada que colocasse Geoff em perigo. E enquanto 
a noite caa, eles cavalgavam vagarosamente para casa, em direo ao estbulo. 
       Olvia seguiu alguns coelhos atravs da neve, enquanto Geoff ria dela e eles j estavam quase em casa quando houve o estrondo de um trovo. Houve um raio 
de luz no cu e outro rudo de trovo, que parecia estar logo acima deles e antes que Olvia pudesse dizer qualquer coisa, o cavalo de Geoff disparou. Tudo o que 
ela pde ver foram os olhos aterrorizados de Geoff enquanto o cavalo corria atravs do solo gelado, pulando todos os obstculos entre ele e os estbulos.
       - Geoff, segure! - gritou ela ao vento, rezando para que ele pudesse ouvi-la - Segure firme! No o deixe ir! Estou chegando! 
       O velho pnei, que mal se movera nos ltimos anos, corria facilmente ao longo do campo, enquanto ela o perseguia e o pegava rapidamente. Ela inclinou-se e 
esticou os braos graciosos o mais que pde, segurando sua prpria sela com uma das mos e agarrando a rdea do pnei com a outra. Foi um movimento perfeito e, com 
mo firme, ela diminuiu a velocidade do outro cavalo para um trote apenas a tempo de outro estrondo de trovo. Ela segurou com fora desta vez, pegou uma das rdeas 
de Geoff e a segurou firme, enquanto seu prprio cavalo pulava e mordia o freio. Ela teve de deixar as rdeas de Geoff para no lev-lo com ela e sua gua ficou 
de p nas pernas traseiras, pulando sob os relmpagos, enquanto Olvia lutava para control-la. Ela podia ver que o cavalo de Geoff estava aterrorizado, mas desta 
vez ele no se moveu, pois estava exausto. Foi Olvia quem teve de lutar desta vez, mas outro estrondo de trovo levou sua nervosa gua  loucura e ela pulou primeiro 
de lado e depois diretamente para a frente, bem alto no ar, nesperadamente, por cima de uma cerca viva. O animal desapareceu no outro lado, mas deixou para trs 
o corpo machucado de Olvia, que caiu no cho perto de Geoffrey. E ele pde ver num simples relance que ela estava inconsciente.
       - Olvia! Ollie!... 
       Ele comeou a chorar, mas estava com medo de desmontar por achar que no saberia subir novamente e, em vez disso, soluando histericamente enquanto comeava 
a chover, ele foi em direo aos estbulos. Seu pai e o cocheiro o viram chegando, chorando incoerentemente e acenando, e antes mesmo que ele pudesse explicar, a 
gua de Olvia chegou galopando atrs dele. Ela entrou direto em sua cocheira e foi fcil ver que sua amazona no estava mais na sela. Geoff estava tentando explicar 
a eles freneticamente... o trovo... o relmpago... o cavalo... o tombo... as cercas. Robert j estava montado em seu prprio cavalo enquanto ouvia.
       - Voc cavalga? - perguntou ele a Charles, que assentiu. Ele ajudou o filho a desmontar e pegou o cansado cavalo dele. Foi difcil faz-lo deixar o estbulo 
novamente, mas eles no tinham tempo para pegar outro cavalo e selar.
       Robert entendera instantaneamente onde eles haviam estado e Charles pde sentir seu corao golpear suas orelhas enquanto cavalgavam sob a chuva forte at 
que a encontrassem. Eles quase no a viram a princpio. Ela era uma massa de roupa de montar marrom, com seu longo cabelo negro espalhado no cho em torno dela. 
O cocheiro foi o primeiro a desmontar e Charles vinha bem atrs dele. Ela estava mortalmente plida e para ambos ela parecia sem vida. Charles sentiu-se cambalear 
ao pensar naquilo e no terror do que diria a Geoff, seu pai e sua irm se o tombo a tivesse matado.
       - Ela est...? - sussurrou ele, mas no vento feroz Robert no o ouviu. Ele apenas se virou para ele, sacudiu sua cabea e disse que tinha de voltar para pegar 
a carruagem.
       - Fique com ela. Estarei de volta em dez minutos. Vou chamar o mdico.
       Charles pde ver ento, quando se ajoelhou a seu lado, que ela estava respirando, mas totalmente inconsciente. Ele tirou seu prprio casaco e tentou fazer 
uma pequena tenda para ela, protegendo-a da chuva. Ficou surpreso ao perceber, ajoelhado a seu lado no solo e olhando para ela, que estava chorando. Ela era uma 
louca por ter sado com gelo no solo e poderia ter sido Geoff a cair ali, mas ele tambm sabia que ela jamais deixaria isso acontecer. Sabia, apenas por t-lo cavalgado, 
que o pnei que a criana havia usado estava praticamente morto de to velho e no o teria machucado. E enquanto Charles olhava para ela, sentiu algo emocion-lo, 
algo agonizante e quente que o fazia lembrar-se de Susan. Era o que ele sentira por ela sempre que conversavam, aquela doura em sua alma, aquele cuidado, o sorriso 
em seus olhos, era aquilo que machucava muito, que era como uma estaca atravessando seu corao e o fazia lembrar-se do que ele perdera quase dois anos antes. 
       Olhando para ela agora, no pde suportar aquilo. O garoto estava certo, as gmeas no eram iguais. Elas eram inteiramente diferentes. Victoria, to selvagem, 
to livre, to indiferente a ele, to naturalmente sensual e, ainda assim, desamparada. Ele queria dom-la, ser seu dono, modific-la, ainda que soubesse em seu 
corao que jamais a amaria. Mas esta mulher era inteiramente diferente. E o que ele sentiu enquanto olhava para ela o fez querer fugir para a segurana. Nunca mais 
ele perderia o que amava, nunca mais daria seu corao e depois deixaria o destino roub-la dele. Para ele, Victoria era infinitamente mais segura... Olvia, dolorosamente 
querida... e se ela morresse agora... se ela morresse... se ela se fosse... ele sabia que no poderia suportar. No novamente, no agora. No era justo... no era 
certo o que ele sentia por ela. E mesmo assim, sabia, acontecesse o que acontecesse, ele ia se casar com sua irm.
       - Olvia... - Ele se curvou prximo a ela, chamando seu nome e gentilmente acariciando seu cabelo, rezando para que seu pescoo no estivesse quebrado. Ele 
podia ver que ela ainda estava respirando. - Olvia... fale comigo... Ollie, Por favor... - disse ele, chorando como uma criana, sentindo uma onda de amor por ela 
e odiando-se por isso. - Olvia... 
       Ela se movimentou e abriu os olhos, e ele teve de lutar para recuperar seu autocontrole. Ela estava olhando para ele, confusa, como se no o conhecesse. 
       - No se mexa, voc levou um tombo feio - disse ele no vento furioso que soprava em torno dele. O corpo dela j estava totalmente molhado, mas seu rosto estava 
protegido pela jaqueta que ele segurava sobre ela. Seu prprio rosto estava pingando, o cabelo castanho-escuro colado  cabea, as lgrimas misturadas coma chuva. 
E ela no podia ver nada do que ele estivera pensando. E ento ela se lembrou.
       - Geoff est bem?
       Ela mal podia falar, estava muito sufocada e sua viso estava embaada, o que tornava mais difcil v-lo. Ela no estava certa a princpio de quem ele era 
e ento compreendeu que era Charles. Ela tentou sorrir, mas era muito doloroso.
       - Ele est bem. Ele foi nos buscar. 
       Ela tentou assentir, mas desistiu e ento fechou os olhos e deitou-se enquanto ele a observava. O que ele acabara de sentir por ela o aterrorizava, mas mesmo 
assim ele sabia que estava fazendo a coisa certa se casando com Victoria. Seria muito perigoso amar uma mulher como aquela. Seu corao inteiro e sua alma eram como 
um quebra-mar no caminho de uma onda grande. Ele nunca sentira por ningum o que sentia por ela, exceto por Susan. Victoria era muito mais segura... perigosa a seu 
jeito, mas no para ele. Ela era apenas intrigante. Era esta mulher, com suas maneiras gentis, que poderia destru-lo. 
       - Como est se sentindo? - perguntou ele novamente um minuto mais tarde, ainda protegendo-a do vento e da chuva e morrendo de vontade de toc-la.
       - Terrvel! - Ela sorriu para ele de maneira ofuscante, e ele gentilmente tocou seu rosto e manteve sua mo l, lutando contra tudo o que sentia, lembrando 
a si mesmo que isso era apenas um erro, um simples e breve momento de indulgncia. - Voc vai me ajudar a levantar? - perguntou ela, insegura se poderia faz-lo.
       - No acho que voc deva. Robert est trazendo a carruagem. Ele estar aqui em um minuto.
       - No quero preocupar papai.
       - Voc teria preocupado a todos ns se tivesse matado a si mesma, Olvia. Eu agradeceria se voc fosse mais cuidadosa no futuro. 
       Geoffrey no precisava de outra tragdia em sua vida, nem ele. Ajoelhado perto dela, ele no sabia se brigava com ela ou a beijava.
       - Estou bem.
       - Voc parece mesmo. 
       Ele sorriu e os dois trocaram um olhar que falava intensamente. Ela esquecera tudo menos ele, seu passado, seu futuro, tudo isso, havia apenas este momento, 
com a chuva batendo neles e ela no cho, a mo dele gentilmente tocando seu rosto e seus olhos, acariciando-a. Por um momento, ela se perguntou se havia ficado louca.
       - Minha gua est bem?
       - Suas prioridades me repugnam - disse ele, enquanto ela tentava se sentar. - Sua gua est bem. Bem melhor do que voc. 
       Ela se deitou novamente, a cabea seriamente machucada, mas quando ela se moveu, Robert chegou pela montanha com a carruagem e, por um instante louco, Charles 
quis escond-la dele. Quis mant-la consigo para sempre. Ambos sabiam que aquele momento jamais voltaria, que nunca seria comentado ou citado. Tinha de ser esquecido. 
Seus olhos procuraram famintos um ao outro dentro de suas almas e ento as portas se fecharam. Para sempre.
       - Como ela est? - perguntou Robert enquanto descia da carruagem.
       - Melhor, eu acho. 
       Charles assentiu e ento se voltou para olhar para ela novamente. E ento, com um simples e cuidadoso gesto, ele a pegou facilmente em seus braos, como uma 
boneca, e colocou-a dentro da carruagem. Ele a colocou no assento e ela deixou cair a cabea com um gemido, parecendo muito mal. Nada parecia estar quebrado, mas 
era bvio que ela tinha uma severa concusso. Charles entrou com ela e sentou-se ao seu lado, enquanto Robert amarrava o cavalo que Charles cavalgara atrs da carruagem 
e os levava para casa. Charles a olhou em silncio. Havia tanto que ele queria dizer a ela e sabia que no podia. No havia propsito em 
Dizer nada daquilo. Era muito perigoso. Ele encontrara a bifurcao no caminho e passara por ela. Ele escolhera seu caminho quando Susan morrera e seu casamento 
com Victoria no era ameaa ao que sentira por Susan. Era precisamente o que devia ser: um arranjo. Isto era diferente. Isto era fogo que poderia incendiar seu corao 
e queimar seus dedos. Victoria era toda fascas e sensualidade. Olvia era algo que ele desejara e sabia que nunca teria novamente, pois no ousava. Ele tivera uma 
vez e sabia o quanto era devastador perder. Ele nunca pegaria o penny dourado novamente, nem o gastaria. Ela olhou para ele como se pudesse ouvir seus pensamentos 
e assentiu. Estendeu uma mo para ele, que pegou seus dedos gelados nos seus e segurou-os.
       - Sinto muito - disse ele suavemente, como se ela tivesse entendido tudo o que ele estava pensando e no dissera. 
       E ela apenas sorriu e deitou-se novamente de olhos fechados. Tudo parecia um sonho para ela. Charles prximo a ela, a tempestade, a chuva, o garoto... sua 
mo nas dela. Era tudo to complicado e to difcil de entender. Parecia haver razes para coisas que ela no entendera e ento subitamente Victoria estava ali com 
ele, como deveria... e Bertie, seu pai e o mdico. Sua cabea estava rodando. 
       Eles a colocaram na cama e Victoria sentou-se com ela. Olvia insistiu em ver Geoff, pois no queria que ele ficasse assustado. Ela disse a ele que fora boba 
de lev-lo para passear com aquele mau tempo e ele entendeu. Prometeu voltar e visit-la em breve e ento a beijou e a fez pensar em algum mais, mas ela no podia 
se lembrar de quem, ou quando. Parecia apenas momentos atrs, ou anos. Ela no estava certa. Haviam dado a ela algo para dormir, embora ela no o quisesse realmente. 
E Victoria ficou com ela at que pegasse no sono. Bertie quisera ficar tambm, mas Victoria no a deixaria. E Olvia tinha algo a dizer para ela. Era terrivelmente 
importante, ela sabia, e tinha de diz-lo.
       - Voc tem de am-lo, Victoria, voc tem... ele precisa de voc. 
       E ento ela adormeceu, pensando em ambos. Ela viu todos eles de p, num navio. Victoria em seu vestido de casamento e Charles prximo a ela, tentando dizer 
algo, mas Olvia no podia ouvi-lo. Geoff estava perto dele e segurava a mo da me. Susan estava olhando-os e Victoria no compreendia... ela no entendia nada 
daquilo... nenhum deles entendia. E ento o navio afundou em total silncio.
       Olvia acordou na noite do dia seguinte com uma dor de cabea explosiva. Ela sentia como se tivesse ficado acordada toda a noite, sendo espancada por demnios, 
mas sabia que no ficara. Victoria disse a ela que os Dawson haviam partido. Geoffrey deixara um buqu de flores para ela e Charles deixara um breve bilhete, dizendo 
o quanto sentia por ela ter cado e desejando que ela se sentisse melhor. Ela se deitou na cama e leu novamente o bilhete, imaginando se o que ela vira fora real 
ou um sonho. Ela havia visto algo em seu rosto que jamais vira antes, ou vira? Era impossvel agora distinguir a verdade do delrio.
       - Voc levou uma pancada daquelas na cabea, minha velha - disse Victoria, servindo a ela uma xcara de ch que ela pegou com uma expresso de sofrimento.
       - Devo ter levado mesmo. Tive os sonhos mais malucos a noite toda. - Ela ainda estava assombrada com tudo, real e imaginrio. - No estou surpresa. O mdico 
disse que voc estar melhor em poucos dias. Apenas feche seus olhos e durma - disse ela.
       A pessoa com que Victoria mais se importava no mundo era sua irm gmea. Ela ficou ao seu lado durante horas naquele dia, olhando para ela, alisando seus 
cabelos, falando com ela quando acordava. E quando Olvia se levantou, ainda sem estabilidade, no fim daquela semana, ela soube que todos os fantasmas que a visitaram 
durante dias em seus sonhos haviam sido apenas aquilo... fbulas de sua imaginao... e vises. Algumas delas eram quase embaraosas. Ela realmente achava que vira 
Charles em alguns de seus sonhos... ele estivera olhando para ela e acariciando seu rosto... eles haviam cavalgado numa carruagem para algum lugar e ele estava chorando...
       - Sentindo-se melhor? - perguntou Victoria enquanto a ajudava a descer as escadas pela primeira vez para se juntarem ao pai no jantar.
       - Muito - disse Olvia sem convico, mas estava determinada a voltar a ser ela mesma completamente. No tinha tempo para esta tolice. - Agora vamos nos ocupar 
de pensar no seu casamento.
       Victoria no respondeu, e Olvia resolutamente expulsou tudo de sua mente, exceto o que ela devia fazer agora. O leve tremor que sentia em seu corao era 
inteiramente sem importncia.
       - Voc est parecendo muito bem - disse seu pai, feliz por v-la. 
       E ela estava igualmente feliz por estar com ele e longe dos sonhos que ficaram em seu quarto. Ela fora pega por eles durante dias e no podia mais suportar 
aquilo.
       - Obrigada, papai -disse Olvia suavemente e ambas as irms tomaram seus lugares silenciosamente, uma de cada lado do pai, e sentaram-se para jantar.
       Durante os meses de janeiro e fevereiro, Charles esteve muito ocupado para ir a Croton novamente, j que tinha um julgamento importante para preparar e negcios 
de seu futuro sogro a tratar. Mas Olvia planejou uma viagem para Nova York no fim de fevereiro, a fim de procurar um vestido de noiva para sua irm. Victoria concordara, 
mas estava muito mais interessada nas notcias de Londres. Emmeline Pankhurst aparentemente fora solta depois de um ano na priso e organizara um ataque ao escritrio 
da Home Secretary de Londres, onde quebraram todas as janelas, aps o que haviam ateado fogo ao Lawn Tennis Club, tudo em nome da liberdade das mulheres.
       - Bem feito! - disse Victoria fervorosamente quando ouviu as notcias. Ela se tornara mais feminista que nunca desde o noivado. 
       - Victoria! - disse Olvia, chocada com a violncia daquilo. - Acho que  totalmente desagradvel. Como voc pode apoiar atos como este? - A ltima priso 
de Pankhurst fora por causa de explosivos.
       - So por uma boa causa, Olvia.  como a guerra, no  bonita, mas s vezes  necessria. As mulheres tm direito  liberdade. 
       - No seja ridcula. - Olvia ficou seriamente irritada com ela por isso. - Do jeito que voc fala, parecemos animais de circo em jaulas, pelo amor de Deus!
       - Nunca ocorreu a voc que  precisamente o que somos? Animais, animais de estimao, para homens que dispem de ns como querem. Isso  o que  desagradvel.
       - No deixe, pelo amor de Deus, ningum ouvir voc dizer coisas como essa em pblico! 
       Ela lanou um olhar repressor para sua irm e deixou o assunto de lado. No havia esperana em discutir com ela, sabia. Victoria era radical sobre os direitos 
da mulher e o sufragismo. Era mais fcil lhe mostrar desenhos de vestidos de noiva, que no lhe causavam qualquer emoo. Ela j dissera a Olvia para escolher qualquer 
coisa de que gostasse e que achasse que ficaria bem nela. At mesmo sugerira que Olvia o comprasse sozinha, j que no precisava dela realmente.
       - Isso traz m sorte, no  nada engraado e no o farei.
       Olvia s vezes queria estrangul-la quando ela tentava falar sobre o casamento. Como sempre, Olvia estava planejando tudo. Ela colocara um monte de nomes 
na lista de Victoria, e Charles fora solicito em mandar os seus. Eles trocaram uma breve, superficial e polida correspondncia e havia cerca de cem pessoas que ele 
gostaria de convidar, se fosse agradvel para elas. Ele no tinha famlia, mas vrios amigos e algumas relaes de trabalho. Edward tinha duzentos convidados ou 
mais e as garotas, outros cinqenta. Ao todo havia quatrocentas pessoas na lista e Olvia tinha certeza de que trezentas viriam, pois algumas eram muito velhas ou 
moravam muito longe ou foram convidadas por pura cortesia. O casamento em si seria em Croton-on-Hudson. A recepo, em Henderson Manor. Olvia seria sua dama de 
honra, claro, e Geoffrey carregaria as alianas, mas Victoria se recusara teimosamente a ter outras damas de honra. 
       - No h ningum de que eu goste tanto quanto de voc - disse ela em meio a um nevoeiro de fumaa de cigarro, tarde da noite, quando falavam sobre aquilo 
pela nona vez. Mas Victoria no cederia nem um centmetro sobre aquele assunto.
       - Eu gostaria que voc fumasse em outro lugar - rosnou Olvia para ela. Ela parecia fumar constantemente agora; estava muito nervosa. - E, alm disso, h 
muitas garotas boas com quem fomos  escola. Elas adorariam ser suas damas de honra.
       - Bem, eu no gostaria de t-las. Alm do mais, ns no vamos  escola h oito anos. E eu no posso imaginar nenhuma de nossas tutoras como damas de honra. 
       Ambas riram com aquilo. Elas haviam tido como tutoras uma srie de damas solteironas, velhas, s vezes quase carecas e com caras de cavalo.
       - Tudo bem, eu desisto. Ento seu vestido ter de ser muito mais bonito.
       - Assim como o seu - disse Victoria com razo, mas ainda sem muito interesse no casamento. 
       A nica maneira pela qual ela realmente podia tolerar aquele pensamento era olhando para a frente, para sua lua-de-mel, para a Europa, para as coisas que 
ela queria fazer e as pessoas que queria ver l, e depois voltar a Nova York para viver com uma certa dose de independncia. Mas o casamento em si no interessava 
a ela. 
       - Por que no usamos o mesmo vestido de casamento ns duas? - sugeriu maldosamente, com um sorriso. - E confundimos todo mundo? O que voc acha disso?
       - Acho que voc esteve bebendo tanto quanto est fumando. 
       - Esta  uma idia. Voc acha que papai iria notar?
       - No, mas Bertie iria. Portanto nem mesmo considere isso e eu no vou deixar voc transformar isso aqui num bar nem numa sala de fumar. 
       Olvia sacudiu o dedo para ela e ento sentiu uma facada de pnico com a possibilidade de no t-la mais ali, fumando em seu quarto e reclamando. O pensamento 
de Victoria indo embora era insuportvel e agora faltavam apenas quatro meses.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
DOZE

       
       
       Elas foram a Nova York, como planejado, no fim de fevereiro, e ficaram no Plaza para que Olvia no tivesse de abrir a casa e elas no tivessem de levar uma 
frota de empregados com elas. Seu pai sugerira que levassem a Sra. Peabody, apenas pelas aparncias, mas Victoria insistira que no precisavam. E ela arremessou 
seu chapu para o alto quando entraram em seu quarto no hotel. Estavam completamente sozinhas em Nova York e poderiam fazer qualquer coisa que quisessem. A primeira 
coisa que ela fez foi pedir um drinque no restaurante e acender um cigarro na frente de sua irm.
       - No ligo para o que voc fizer neste quarto - disse Olvia severamente enquanto olhava para ela - mas se voc no se comportar neste hotel, ou em qualquer 
outro lugar de Nova York, vou lev-la direto para casa, depois que chamar papai. No vou querer que as pessoas pensem que eu sou uma bbada ou que fumo o dia todo 
s porque voc o faz. Portanto, comporte-se.
       - Sim, Ollie - disse Victoria com um sorriso travesso. 
       Ela estava amando estar ali com ela, principalmente sem acompanhantes. Ela iria jantar com Charles aquela noite. Mas naquela tarde elas iam a Bonwit Teller 
para procurar vestidos. Ela no apenas precisava de um traje de noiva e de um vestido de casamento para Olvia, mas tambm de vestidos para a lua-de-mel, tanto para 
o navio quanto para a Europa. Olvia j copiara alguns desenhos e tinha algumas coisas feitas para ela, mas apenas coisas simples para que ela usasse na viagem. 
Os vestidos sofisticados e elegantes, aqueles realmente na moda, seriam comprados em Nova York. E Olvia j dissera a ela onde ir em Paris. Mas o mais estranho de 
tudo era estarem comprando coisas separadamente agora. Pela primeira vez em suas vidas, no estavam comprando em dobro. Olvia no tinha necessidade de vestidos 
elegantes e elas no estariam juntas para us-los. O primeiro pedido que ela fez de apenas um vestido quase quebrou o corao de Olvia, mas ela sabia que tinha 
de faz-lo. Era quase hora de Victoria se mudar agora.
       Elas fizeram um almoo rpido no hotel e depois pegaram um txi para a Saks, mas em todo lugar a que iam, no restaurante, no lobby, saltando do txi, as pessoas 
olhavam para elas. Eram duplamente bonitas, incrivelmente impressionantes e as pessoas no podiam impedir a si mesmas de encar-las. Elas causaram um imediato tumulto 
no minuto em que colocaram o p na B. Altman, e um exrcito de vendedoras e um gerente correram para ajud-las. Olvia trouxera esboos com ela, fotografias de revistas 
e alguns poucos rascunhos que ela mesma fizera. Pelo menos para o vestido de noiva, ela sabia exatamente o que queria. Fileiras de cetim branco, de preferncia num 
corte inclinado, cobertas de milhares de laos brancos e uma cauda do tamanho de toda a igreja. E na cabea Victoria usaria a antiga tiara de 
diamantes de sua me. Ela seria coberta com renda tambm. E Olvia sabia que ela pareceria uma rainha se pudessem encontrar algum para faz-lo. E na Bonwit Teller 
o gerente disse que no haveria absolutamente nenhum problema. Eles se sentaram e conversaram sobre aquilo por uma hora, procurando por tecidos de fbrica e discutindo 
o tipo de renda que Olvia tinha em mente, enquanto Victoria os ignorava e experimentava chapus e sapatos.
       - Eles precisam de suas medidas - disse Olvia finalmente, feliz com tudo o que tinha conseguido.
       - Deixe-os tirar as suas, so exatamente iguais s minhas - disse Victoria simplesmente e Olvia ralhou com ela.
       - No, no so, e voc sabe disso. - O busto de Victoria era ligeiramente maior e sua cintura apenas uma frao menor, mas o suficiente para fazer diferena. 
- Ande, tire as roupas.
       - Tudo bem, tudo bem - concordou Victoria e ento o gerente e Olvia desceram para tratar de seu prprio vestido.
       Olvia havia imaginado cetim azul-gelo, num desenho similar ao vestido de noiva de sua irm, mas no to longo, sem a cauda e sem a renda sobre ele. Apenas 
cetim azul-gelo em tiras, corte inclinado e perfeitamente simples. Mas enquanto eles faziam o rascunho o gerente insistiu que o vestido era muito simples em contraste 
com o traje de noiva de Victoria, que ficaria espetacular. 
       Eles acrescentaram enfim uma pequena cauda e a pice de rsistance era uma longa capa de renda azul-clara sobre o traje, com um chapu combinando. Agora estava 
em perfeita harmonia com o que sua irm estaria usando. Olvia sorria enquanto olhava os rascunhos e os mostrava para sua irm, que sorriu amavelmente e sussurrou 
irreverente para ela.
       - Por que no trocamos de lugar no dia do casamento? Ningum jamais notaria a diferena.
       - Comporte-se! - disse Olvia severamente.
       E elas foram olhar desenhos de outros trajes e os incontveis vestidos de que Victoria precisava. Seria um longo vero na Europa. Olvia compreendeu que elas 
teriam de voltar  loja para procurar mais coisas e tambm para provar as roupas. Ela havia acabado de concordar em voltar no dia seguinte sem Victoria e ficou de 
p para agradecer ao gerente por sua ajuda, quando notou sua irm olhando para alguns novos clientes que chegavam. Havia um homem alto de cabelos escuros falando 
com algum, ela pde ouvi-lo rindo, e todas as vendedoras pareciam estar aglomeradas em torno dele e da mulher que o acompanhava. Ela era alta e loura e estava envolvida 
numa pele de chinchila. Quando eles se voltaram, Olvia pde ver facilmente que eram Tobby Whitticomb e Evangeline, enormemente grvida. Ela no podia imaginar o 
que ela estava fazendo em pblico com aquela aparncia, mas Evangeline no parecia se incomodar enquanto tirava o casaco de chinchila e expunha uma vasta extenso 
redonda de um cetim cinza. Ela parecia estar com no mnimo sete meses de gravidez. E enquanto Olvia olhava de volta para ela, lanou um olhar rpido para a irm. 
Victoria parecia ter sido golpeada por um raio. Olvia despediu-se do gerente o mais rpido que pde e empurrou sua irm em direo  entrada.
       - Vamos, Victoria, j acabamos - disse ela gentilmente, mas era como se ela no pudesse se mover. 
       Victoria estava pregada ao cho, olhando para Tobby. E assim que ele sentiu seus olhos nele, subitamente olhou de volta para ela e ento para sua irm e era 
bvio que no sabia qual delas era ela, mas ele parecia mais do que nervoso com a dupla viso. Ele desviou os olhos delas o mais rpido que pde e levou Evangeline 
para um canto longnquo da loja, mas ela tambm as vira e comeou a discutir com ele. 
       - Victoria, por favor... - disse Olvia numa voz firme e baixa, embaraada pela cena em torno deles. 
       As vendedoras estavam olhando para eles, Tobby havia acabado de dizer algo grosseiro para sua esposa e Evangeline comeara a chorar e a lanar olhares para 
as gmeas. Com aquilo, Olvia agarrou o brao de sua irm e quase a arrastou  fora da loja, de volta para a rua onde ela procurou um txi. E misericordiosamente 
havia um esperando. Mas enquanto Olvia empurrava a irm para dentro e quase desmoronava no assento prximo a ela, pde ver que Victoria estava chorando. Ela deu 
ao motorista o nome do hotel e sentou-se em silncio, enquanto Victoria soluava incontrolavelmente. Era a primeira vez que ela o via desde aquela cena medonha nos 
degraus de seu escritrio.
         - Eu estaria grvida de cinco meses agora - gemeu ela, dando pela primeira vez sinais de luto pelo beb que perdera em novembro em Croton.
       - Com sua vida esmagada em pedaos  sua volta. Pelo amor de Deus, Victoria, olhe para o que ele fez a voc! Ele a arruinou e depois a rejeitou. Por favor, 
no me diga que voc ainda o ama - sussurrou ela com horror no banco de trs do carro, mas Victoria apenas sacudiu a cabea e chorou mais forte.
       - Eu o odeio! Odeio tudo o que ele significa, tudo o que ele fez comigo!
       E mesmo assim quando ela pensava naquelas tardes no chal seu corao ainda doa. Ela acreditara em tudo o que ele lhe dissera sobre deixar a mulher e am-la, 
e agora Evangeline estava se mostrando por a, apontando para ela como uma prostituta e carregando o beb dele. Aquilo lhe trouxe a amarga compreenso de que seu 
pai estava tentando proteg-la quando a forou a ficar noiva de Charles Dawson. E aquilo a fez sentir-se agradecida a Charles pela primeira vez, por sua proteo, 
mas isso no a faria am-lo nunca.
       Ela ainda estava chorando quando chegaram ao hotel e quando voltaram para o quarto ela deitou-se na cama e soluou at que Olvia achou que seu corao se 
quebraria e nada que ela dissesse ou fizesse poderia interromper aquilo. Fora uma lio amarga sobre a crueldade dos homens e Olvia sabia que sua irm jamais esqueceria. 
Victoria finalmente parou de chorar s seis horas e sentou-se parecendo abatida e derrotada enquanto olhava para sua irm.
       - Voc vai esquec-lo um dia. Voc vai - prometeu Olvia suavemente.
       - Nunca mais acreditarei em ningum! Voc no pode imaginar as coisas que ele disse, Ollie... Eu nunca o teria feito de outra maneira... 
       Ou teria? Ela nem mesmo estava certa de que se conhecia agora. Ele a fizera fazer coisas que ela nunca sonhara. E como ela poderia explicar aquilo a Charles 
um dia? Era difcil agora, vendo Tobby novamente, acreditar que Charles se casaria realmente com ela e ela estava ainda mais agradecida. 
       - Eu fui muito estpida - confessou ela  sua irm novamente e Olvia sentou-se com seus braos em torno dela at que Charles chegou e encontrou ambas extraordinariamente 
abatidas, especialmente sua noiva. 
       - H algo errado? - perguntou ele preocupado. - Voc est doente? 
       Ele olhou de uma para a outra e Olvia sorriu enquanto Victoria sacudia a cabea silenciosamente.
       - Foi apenas um dia muito longo e um pouco emocionante. Comprar um vestido de noiva  um dos momentos mais importantes na vida de uma mulher - explicou Olvia, 
mas no o convenceu inteiramente. 
       Ele se perguntou se ambas estavam comeando a sentir a dor de deixar uma  outra, sentiu muito por elas quando pensou nisso e poucos minutos mais tarde convidou 
Olvia a se juntar a eles para o jantar. Estavam indo ao Ritz-Carlton e depois a um concerto. Mas ela insistiu que fossem sozinhos, no queria se intrometer entre 
eles. Eles no viam um ao outro havia dois meses e achava melhor se eles ficassem algum tempo juntos. Ela ia jantar sozinha no hotel, em seu quarto, e olhar mais 
alguns desenhos de trajes para sua irm.
       - Voc tem certeza? - perguntou Charles suavemente, enquanto estavam esperando que Victoria terminasse de se vestir.
       - Toda - respondeu ela suavemente, lembrando-se de algo vago e evasivo sobre a noite em que cara do cavalo em Croton, mas no conseguia saber o que era agora. 
-  difcil para ela s vezes - tentou explicar, querendo que ele amasse sua irm. 
       Ela amava tanto sua irm que no podia nem imagin-la com um homem que no a compreendesse. Mas ela sabia que Charles era decente e cuidadoso e que seria 
bom para ela, no importa o que acontecesse entre eles. 
       - Vamos sentir terrivelmente a falta uma da outra - disse Olvia com um sorriso melanclico. - Estou feliz que Geoff v ficar comigo no vero.
       - Ele est empolgado com isso.
       E ento seus olhos procuraram os dela, mas no puderam encontrar respostas. Ele se perguntava quem ela era s vezes, e por que desejara tanto desistir de 
tudo por seu pai. Ela era to bonita quanto sua irm gmea, por que concordaria em desistir de tudo por ele? Qual era seu segredo solitrio? Ela no se mostrara 
to recatada quando se conheceram, em setembro. 
       - Estamos pensando em ir v-los na Pscoa - disse Charles cautelosamente para mudar de assunto. - Se no for muito problemtico. Seu pai mencionou isso quando 
o vi.
         - Ns adoraramos receber vocs para a Pscoa! - disse Olvia com uma aparncia de prazer quando Victoria se juntou a eles. 
Ela estava usando um vestido de cetim azul-escuro que Olvia escolhera para ela e parecia a rainha da noite. Safiras e diamantes que seu pai lhes dera brilhavam 
em suas orelhas e ela usava o longo cordo de prolas que fora de sua me e que elas dividiam em ocasies importantes.
       - Voc est adorvel! - disse ele, enquanto olhava para ela com orgulho. 
       Ela era uma mulher jovem e espetacular. E era ainda mais extraordinrio pensar que havia duas delas. Ele sentiu novamente que Olvia no fosse sair com eles. 
Ele teria gostado. Mas no houve o que a convencesse e Charles e Victoria saram poucos minutos mais tarde. O restaurante era muito elegante e Victoria subitamente 
ficou nervosa depois que chegaram. E se Tobby chegasse com a esposa? Ela sentia-se completamente despreparada para v-lo outra vez e extremamente ansiosa.
       -Voc est muito quieta esta noite - disse Charles enquanto pegava sua mo depois que fizeram o pedido. - H algo errado?
       Ela sacudiu a cabea, mas ele viu lgrimas em seus olhos e no quis pression-la mais. Eles falaram de outras coisas ento, poltica, a viagem, o casamento 
e os problemas na Europa. Ele gostava do fato de ela estar interessada em acontecimentos mundiais e ser bem-informada. Embora suas idias fossem extremamente liberais, 
quase ao ponto de serem escandalosas, s vezes aquilo o agradava.
       Ele apresentou-a a vrios de seus conhecidos naquela noite. Eles se sentaram num camarote com amigos no concerto e Victoria parecia mais relaxada quando ele 
a levou de volta para o hotel. Ela at mesmo acendeu um cigarro enquanto dividia um drinque com ele no restaurante prximo ao saguo. 
       - Oh, meu Deus! - disse ele e ento riu de sua prpria reao, enquanto ela sorria divertida.
       - Chocado, Charles? - Ela gostava daquilo. Ela parecia mais consigo mesma agora do que parecera toda a noite.
       - Voc quer que eu fique?
       Ele bebeu seu usque e olhou-a com admirao. Ela tinha muito esprito e inteligncia, alm de sua boa aparncia. Pela segunda vez na vida, ele tivera sorte, 
embora isso no pudesse ser mais diferente do que seu namoro com Susan.
       - Talvez. Talvez eu goste quando voc fica chocado. - Ela sorriu e soprou fumaa em sua direo.
       - Suspeito que seja verdade - disse ele filosoficamente. - Em todo caso, ns deveremos ter uma vida muito interessante, eu e voc, no? - E ento, com o usque 
soltando sua lngua, ele ousou perguntar a ela algo que tinha imaginado. - Voc o amou muito? O homem que quebrou seu compromisso. 
       Ele observou-a de perto e esperou. Ela hesitou, lembrando o Tobby que ela conhecera, aquele que ela amara to ferozmente e aquele que ela vira apenas naquela 
manh... aquele nos degraus de seu escritrio, que a rejeitara... aquele que contara a seu pai que ela o seduzira...
       - Amei. Um dia. Mas no amo mais. Na verdade, h vezes em que acho que o odeio. 
       -  apenas o outro lado do amor, no ?
       - Suponho que sim. - Quase a matara v-lo naquela manh. - Ns no estvamos noivos...
       Ela encontrou seus olhos honestamente, sem querer engan-lo. J era suficiente que ele a estivesse salvando. Ela no tinha que mentir para ele, mas ele assentiu.
       - Eu sabia disso. Apenas pareceu mais fcil colocar desta maneira. Seu pai me deu uma vaga idia do que aconteceu. Voc era muito jovem. Ainda . - Ele sorriu 
gentilmente para ela, desejando que houvesse algo mais entre eles e ao mesmo tempo aliviado por no haver. Ela o estimulava incrivelmente, mas aquilo era inteiramente 
outro assunto. - Foi desleal da parte dele tirar vantagem de voc. Seu pai disse que ele mentiu para voc e prometeu casamento. 
       Ela concordou, sem desejar adicionar nada quilo que ele j sabia. Parecia ser suficiente. E ainda assim ele estava desejando t-la. Era difcil entender 
por qu. Talvez fosse apenas o destino.
       -  difcil entender as coisas que as pessoas fazem s outras - disse ela tristemente. - No vai acontecer novamente - acrescentou, encarando-o, como um aviso.
       - Devo esperar que no - ele sorriu. 
       Mas ele entendera o que ela queria dizer. Ela estava dizendo que nunca acreditaria nele. Mas no importava. Ele nunca a machucaria. 
       -Eu no vou engan-la, Victoria. No vou mentir para voc, se  disso que voc tem medo. Nunca enganei ningum, no que eu saiba. Sou um homem honesto. Tedioso, 
talvez... mas verdadeiro. Isso tem sua utilidade.
       - Eu... eu... - O fato de ter visto Tobby naquele dia a fazia entender bem melhor o que devia a ele. - Obrigada por fazer isso por mim - disse ela, levantando 
os olhos cheios de lgrimas para ele. - Voc no precisava.
       - No, mas voc tambm no - disse ele suavemente. - H sempre outras solues. Talvez ns dois queiramos faz-lo e no saibamos de que outro modo poderamos 
fazer. - Ele queria acreditar naquilo. E sorriu para ela, enquanto acabava seu drinque e ela apagava seu cigarro. Ento ele a beijou gentilmente. - No fique com 
medo de mim, Victoria. Eu juro que no vou machuc-la. 
       Ela o deixou beij-la, mas seu corao doa ao compreender que no sentia nada e Victoria se perguntou se ele sabia disso. Ele a levou para cima pouco depois 
e Olvia, que estava esperando por ela, viu que Victoria ainda estava triste, mas estava mais em paz do que estivera por muito tempo. Sob certos aspectos, devia 
ter feito bem a ela ver Tobby e sua esposa naquela tarde. Olvia esperava que aquilo a tivesse trazido para mais perto de Charles. Ela parecia mais em paz agora 
sobre seu futuro.
       Ele sara rapidamente naquela noite e levou ambas para almoar no dia seguinte no Della Robbia, no meio de suas compras, e Olvia o divertiu com histrias 
sobre suas aquisies. Victoria falou muito pouco, mas estava confortvel com ele quando saram e ele as deixou na Bonwit's para continuarem. E naquela noite, sem 
v-lo novamente, elas voltaram para Croton. Donovan pegou-as no hotel, como programado, e levou-as de volta para o Hudson de carro. Olvia sentiu por no ter visto 
Geoff, mas elas no tiveram tempo e ela prometeu v-lo em maro, quando voltassem  cidade para acabar as compras.
       Mas todos os seus planos mudaram quando seu pai caiu doente no fim de fevereiro e ficou um ms inteiro de cama com gripe. Olvia estava com um medo mortal 
de que ele pegasse pneumonia, mas no pegou. Ele ficou muito doente e ela raramente o deixava por mais de poucas horas, mas no incio de abril ele finalmente saiu 
do quarto. E duas semanas mais tarde os Dawson chegaram para sua prometida visita de Pscoa. E Olvia tinha uma maravilhosa surpresa para Geoffrey. Ela tinha dois 
pintinhos que haviam nascido recentemente e um pequeno coelhinho.
       - Uau! Uau! Pai, voc viu? - perguntou ele quando Olvia o presenteou com os bichinhos.
       Ela tentara fazer com que Victoria os desse a ele, mas ela insistira que no gostava de animais mais do que de crianas. Olvia constantemente se sentia como 
se estivesse treinando uma relutante estudante para fazer seus deveres. Mas as coisas estavam melhorando um pouco. Desta vez ela pareceu satisfeita ao ver Charles, 
o que j era alguma coisa.
       Houve muitas festas nas vizinhanas para eles e um adorvel concerto nos Rockefeller, ao qual todos foram. E era a oportunidade perfeita para apresentar Charles 
queles que ainda no o haviam conhecido. Ele era sempre muito polido com todos e extremamente amvel e Olvia continuou lembrando a sua irm que no era um funeral 
o que estavam planejando, mas um casamento.
       - Voc, por favor, entre no esprito da coisa! - ralhou, checando novamente a lista de convidados com ela.
       Levara trs meses para conseguir que ela falasse sobre o menu. E agora que os presentes haviam comeado a chegar, Olvia tinha de abrir todos para ela e catalog-los. 
Victoria nem mesmo os viu. E, em desespero, Olvia escreveu as notas de agradecimento para ela, por medo de que ela nunca o fizesse.
       - Acho tudo isso estpido - disse Victoria, soando mais como uma criana mimada do que como uma sufragista, de acordo com sua irm. -  frvolo, desnecessrio 
e esbanjador. Eles deveriam mandar o dinheiro que gastam em presentes para as mulheres na priso.
       - Oh, que encantador -disse Olvia, revirando os olhos. - Estou certa de que eles adorariam isso. Ns podemos enviar pequenos avisos impressos explicando 
s pessoas como faz-lo.
       - Est bem, est bem. 
       Victoria riu para a irm, mas tudo em que ela podia pensar era na falta que ia sentir dela. Aquilo a fazia odiar a idia do casamento mais que nunca. Ela 
no se importava mais em se casar com Charles. Podia ver a sensatez daquilo, sabia que fora uma conseqncia necessria de sua prpria leviandade e gostava da liberdade 
que estar casada e viver em Nova York lhe dariam. Mas ainda odiava o pensamento de estar to longe de Ollie e estava desesperada para encontrar uma soluo para 
aquilo.
       - Voc  muito melhor com Geoff do que eu - disse ela ansiosamente, pensando que era uma razo convincente para ela ir viver com eles em Nova York.
       -  por isso que ele est se casando com voc, pelo menos supostamente. - Olvia estava bem certa de que havia mais razes de interesse do que aquela. - Ele 
no me quer por perto tomando conta de seu filho se est se casando com voc. E depois, voc sabe que no posso deixar papai. Olhe para o ms passado. Quem tomaria 
conta dele se eu no estivesse aqui para faz-lo?
       - Bertie - disse Victoria alegremente.
       -No  a mesma coisa e voc sabe - disse Olvia friamente. 
       - E se voc se casar? - disse Victoria com praticidade. - Ento ele vai ter de se virar sem voc.
       - Eu no me casaria - disse Olvia baixinho - e ele sabe. - Ento  isso. Agora o que voc quer para a sobremesa em seu casamento? 
       Victoria fingiu gritar e Charles a resgatou para uma caminhada ao longo do rio poucos minutos mais tarde.
       - Minha irm vai me levar  loucura com nosso casamento - disse Victoria, olhando para Charles com um sorriso fcil antes que sassem para sua caminhada. 
       Eles haviam conseguido convencer a si mesmos nos ltimos meses que aquela era a soluo perfeita para suas vidas e ambos pareciam mais felizes com aquilo.
       - Ela nunca quer me dar respostas - reclamou Olvia. - Voc vai ter de bater nela com uma vara para conseguir que ela faa qualquer coisa - advertiu-o Olvia.
       - Vou providenciar uma bem grande, ou talvez um chicote? 
       Ele sorriu para sua futura esposa e para a cunhada e ento levou Victoria e deixou Geoff com Ollie. Ele j comeara a cham-la de "tia Ollie". E quando a 
Pscoa terminou, ele levou os coelhos e pintinhos para Nova York, mas poucas semanas mais tarde Olvia deu outro presente a ele, quando foi a Nova York para tratar 
das ltimas providncias. Restavam algumas coisas para comprar, embora todos os trajes j tivessem sido enviados. O vestido de noiva j estava num quarto especial, 
esperando pelo grande dia, em Croton-on-Hudson.
       Charles ficou surpreso quando Olvia ligou de Nova York e ficou feliz ao v-la quando ela chegou com um presente de aniversrio para Geoffrey. Seus aniversrios 
eram quase no mesmo dia. Ela e Victoria haviam acabado de fazer 21 anos. Charles dera a sua futura esposa um belo bracelete de ouro e a Olvia um vidro de perfume. 
       Mas Olvia trouxera para Geoff algo bem mais excitante. Ela pedira permisso a Charles algum tempo antes e ele relutantemente concordara, embora no nterim 
tivesse esquecido completamente daquilo. Ela trouxera para ele um filhote de cocker spaniel manchado. E Geoffrey ficou fora de si com ele. Seus olhos ficaram do 
tamanho de pratos de jantar quando Olvia tirou o filhote da caixa e entregou-o a ele gentilmente. Ele o agarrou junto a si e houve gritos de excitao tanto do 
cachorro quanto de seu dono e quando Olvia olhou para Charles, viu lgrimas de ternura em seus olhos, enquanto ele lhe agradecia.
       - Voc  to boa para ele. Ele precisa disso. Ele teve dois anos difceis sem a me. - Havia exatamente dois anos desde que o Titanic afundara, em abril.
       - Ele  um garoto maravilhoso. Ns vamos ter um grande vero - disse ela otimista, tentando no pensar na perda de sua irm. Estavam ambas entrando em pnico.
       - Ns escreveremos para voc da Europa - disse ele, como se sentisse o que ela estava pensando. 
       Mas no seria a mesma coisa e todos eles sabiam disso. Talvez Victoria estivesse certa e ela devesse ir morar com eles em Nova York, disse a si mesma e depois 
riu de seu prprio terror.
       - Ns ficaremos bem - disse a Charles quando Geoff entrou correndo no quarto novamente com o cachorrinho. - Como voc vai cham-lo?
       - No sei ainda - disse Geoff sem ar, todo cabelos louros, os olhos verdes e excitao. - Talvez Jack... George... Harry... no sei, ele parece com chips 
de chocolate, no parece?
         - Que tal Chip? - perguntou Olvia, enquanto ela e Charles sorriam de sua excitao.
       - Chip! - Ele gritou com alegria. - Eu gosto! 
       E o cachorrinho tambm. Ele balanou o rabo, ou o que havia dele, deitou-se, rolou e latiu o latido mais fino que Olvia jamais ouvira, enquanto todos riam 
e Geoffrey saiu levando-o para mostr-lo ao cozinheiro e  empregada. Eles tinham uma casa modesta, mas atraente, no East Side, com uma vista para o rio. Certamente 
no era glamourosa, mas era respeitvel e Victoria no dissera nada sobre mudar-se ou fazer mudanas na casa. Seus interesses eram bem menos domsticos do que os 
de sua irm. Olvia teria tumultuado tudo, comprando plantas, tecidos novos e escabelos, almofadas novas e um piano. De certa forma, era mais fcil assim. Victoria 
no tinha grande interesse em sua vida domstica ou em trocar qualquer coisa. Ela queria sua prpria vida, principalmente em crculos polticos.
       Olvia ficou apenas um pouco, j que tinha milhares de providncias a tomar, mas Charles tentou convenc-la a voltar para jantar, o que ela fez, e os trs 
se divertiram muito entre si, fazendo charadas, rindo, conversando e brincando com o cachorrinho.
       - Victoria est certa - disse Charles, sorrindo, enquanto a cozinheira levava Geoff para a cama com o novo cachorrinho. - Talvez voc devesse vir morar aqui.
       - Ela andou incomodando voc com esta tolice? - Olvia pareceu alegre e olhou atravs da janela para um rebocador no rio. - Vocs ficaro cansados o suficiente 
de mim quando eu vier visit-los. Mas no posso deixar papai agora e ela sabe disso.
       - Esta no  bem uma vida para voc, Olvia - disse ele tristemente, sentindo-se culpado por levar sua irm para longe dela. O que ela teria em sua vida quando 
Victoria se fosse? A vida de uma mulher de sessenta anos. O que eles estavam fazendo?
       -  a maneira como as coisas s vezes acontecem. Ns no as planejamos da maneira que queremos. Elas apenas acontecem. Como voc, nos ltimos dois anos. No 
deve ter sido fcil para voc tambm - disse ela gentilmente.
       - No foi - confirmou ele, seus olhos procurando os dela e depois recuando instantaneamente com a tristeza que viu l.
        Ir a qualquer lugar perto dela era como entrar num fogo quente e queimar os dedos. As emoes fluam altas e quentes, e seu corao era to caloroso que 
ele quase no podia imaginar o que ela estava sentindo. 
       - Me preocupo em tirar Victoria de voc. 
       Ela assentiu diante daquilo, havia muito pouco que pudesse dizer em resposta. Ele comeara a vislumbrar o quanto seria doloroso para ambas. Ela apenas esperava 
que ele confortasse Victoria adequadamente naquele vero em sua lua-de-mel na Europa.
       Olvia beijou Geoffrey em sua cama naquela noite, com Henry num brao e Chip aconchegado perto dele. O garoto estava sorrindo de orelha a orelha e ela sorriu 
quando o viu.
       - No se esquea de lev-lo quando voc for me ver - advertiu Olvia e ele jurou que jamais deixaria Chip por um instante para ir a qualquer lugar, exceto 
 escola e talvez seu professor at o deixasse levar o cachorrinho. 
       - Duvido - disse ela, prometendo v-lo novamente em breve e ento voltou a descer as escadas para encontrar seu pai.
       Charles insistiu em lev-la de volta ao hotel e conduziu-a vagarosamente atravs do saguo.
       - Suponho que no a verei novamente at o casamento - disse ele com uma expresso estranha. 
       Era to estranho pensar em casar novamente e de certa maneira parecia uma terrvel traio a Susan, mas ele sabia que devia faz-lo, pelo bem de Geoff. Aquela 
vida sem uma mulher no era para o garoto. At as breves visitas de Olvia provavam aquilo. O garoto florescia como uma pequena flor quando a via. Victoria ainda 
no causava o mesmo efeito sobre ele, mas Charles estava certo de que seria uma questo de tempo. Afinal, elas eram gmeas idnticas.
       - Serei aquela de vestido azul - lembrou Olvia - no caso de voc ficar confuso. - Ela estava sorrindo.
       - Provavelmente ser a nica vez que saberei quem  quem sem procurar pelo anel de noivado de minha me - disse ele, rindo de si mesmo e de sua constante 
confuso.
       -Apenas pergunte a Geoff - provocou ela. - Ele dir a voc. - E ento ela olhou para ele sabendo que seria diferente da prxima vez. Eles eram apenas amigos, 
mas ele seria um homem casado em breve e mais, o marido de sua irm. - Eu o verei no casamento - sussurrou ela e ele assentiu com um olhar de sofrimento.
       Ele beijou seu rosto ento, voltou-se e andou rapidamente ao longo do saguo.






TREZE


       A ltima noite de Victoria no quarto familiar foi estranha para as duas. Ambas sabiam que ela jamais dormiria ali novamente. Quando voltasse novamente para 
a casa de seu pai, dormiria em outro quarto com o marido. As irms jamais ficariam juntas da mesma maneira novamente. E deixar uma  outra era como arrancar pele 
de pele, corao de alma, um membro do corpo. Nenhuma das duas achava que seria capaz de suportar aquilo. Victoria finalmente dormiu, enroscada em seu canto como 
sempre fazia e Olvia ficou deitada perto dela e observou-a. Tocou os longos cabelos negros e sedosos, idnticos aos seus prprios, e tocou o rosto de sua irm. 
Segurou sua mo e deitou-se abraada a ela, rezando para que a manh no chegasse. Mas quando chegou, o dia era glorioso e ensolarado.
       Olvia no dormira nada, apenas ficara deitada l, observando a irm. Quando por fim Victoria movimentou-se e voltou-se para sorrir para ela, ento se lembrou. 
Seria um dia de glria amarga. Um preo a ser pago, uma promessa a ser feita, uma vida na qual embarcar, um porto a ser deixado. Fazia seu corao doer apenas pensar 
em tudo o que aconteceria a elas naquela manh.
       - Hoje  o dia de seu casamento - disse Olvia solenemente, enquanto ambas saam da cama, em total harmonia de movimentos. 
       Elas sempre se moviam da mesma maneira ao mesmo tempo, mas raramente o percebiam. E parecia to estranho dizer aquelas palavras, pensar em uma delas se casando. 
E Olvia no conseguia evitar pensar, com certa raiva, que se Victoria no tivesse sido to irresponsvel em Nova York nove meses atrs, talvez nada disso tivesse 
acontecido.
       Elas tomaram banho e vestiram-se vagarosamente, falando muito pouco. No tinham necessidade de dizer as palavras. Elas as sentiam, as escutavam em suas cabeas, 
assim como faziam quando eram crianas. Elas tinham sua prpria linguagem quando eram muito novas e s vezes simplesmente no falavam; suas mensagens uma  outra 
eram mais sentidas do que faladas.
       Por fim seus cabelos estavam feitos; ambas os usavam puxados para trs em coque. Elas usavam meias de seda e roupas de baixo de cetim e cada uma delas pusera 
a menor quantidade possvel de maquiagem nos olhos e batom. Tudo nelas era exatamente o mesmo, idntico, e absolutamente ningum poderia dizer a diferena entre 
elas naquela manh. At mesmo o anel da me de Charles estava na penteadeira.
       - Ainda no  tarde demais - sorriu Victoria para ela. - Este poderia ser o seu casamento. - Olvia riu e apenas por um momento elas sentiram aquela ligao 
particular, o mundo em que ningum jamais havia entrado, a no ser elas. - Ns podamos desafi-los a dizer qual  a noiva. Eu duvido que mesmo Charles soubesse 
a diferena.
       - Ele saberia. Voc saberia... - disse Olvia calmamente. - Este  o seu dia e dele... e de Geoffrey... Minha querida Victoria, como eu a amo. - Seus olhos 
se encheram de lgrimas enquanto dizia as palavras. - Espero que voc seja muito feliz.  
       Elas se abraaram fortemente e os olhos de Victoria tambm se encheram de lgrimas. Ento ela se desprendeu e olhou para a irm.
       - E se eu no for? - Era um sussurro de absoluto terror.
       -Voc vai. Eu sei que vai... d-lhe uma chance justa. Ele a ama. - Ou pelo menos ela esperava que sim.
       - E se eu no for feliz, Ollie - disse Victoria, enquanto se sentava e olhava para sua irm gmea - eu me divorciarei dele. Tobby pode no ter tido entranhas 
para faz-lo, mas eu teria... No vou ficar com ele se no for feliz.
       Olvia franziu as sobrancelhas enquanto escutava.
       - Esta no  uma boa maneira de se comear um casamento. D a ele todo o seu corao. Eu sei que ele no vai desapont-la.
       - E se eu desapont-lo? Ns dois estamos fazendo isso de uma maneira to estranha! Ele, com o fantasma de sua esposa se arrastando atrs dele e eu com meu 
terrvel pecado -disse ela com certo tom sarcstico -...Tobby.
       - Ele j se foi, acabou - lembrou Olvia. - Esta  a sua vida. E a de Charles. J se passaram dois anos desde que ele perdeu a mulher.  hora. Eu sei que 
 certo para vocs dois. Eu sinto.
       - Sente? - sussurrou Victoria infeliz. - Ento por que eu no sinto? Ollie, quando eu estou com ele, no sinto nada. 
       A tragdia daquilo era que quando Olvia estava com ele, sentia muitas coisas e estava sempre com medo de que Charles visse aquilo.
       - Voc ainda no deu uma chance a ele. Espere at que vocs estejam sozinhos por um tempo, sem mais ningum por perto. - Olvia olhou para ela tristemente. 
- Ser muito romntico.
       - Mas eu no sou - disse Victoria e olhou com cansao para sua irm. - s vezes penso que simplesmente no posso fazer isso. E o pior  que nem mesmo comeamos.
       - D uma chance... por favor... por causa dele... por sua causa... por causa de Geoff.
       - Voc est tentando se ver livre de mim, no? - Victoria sorriu para ela com melancolia. - Voc quer meu closet!
        - O que eu realmente quero  seu chapu amarelo com a pluma verde. - Era um horror que elas haviam comprado no campo muitos anos antes e havia apenas um 
deles, ento Victoria o comprara.
       - Eu o darei a voc. Voc pode us-lo hoje! Vai ficar bonito com seu vestido no casamento. - Elas estavam encurraladas e ambas sabiam. Poucos minutos mais 
tarde Bertie veio v-las e censurou-as por ainda no estarem vestidas.
       - S faltam os vestidos, Bertie - explicou Olvia. - Tudo o mais est feito. Ns at j calamos os sapatos.
       - Bem, vocs no podem ir para a igreja assim. Andem logo... vistam seus vestidos...
         Olvia vestiu o dela primeiro e era espetacular, azul-gelo, moldando suas formas. Ela colocou o colar de guas-marinhas que fora de sua me e depois o bracelete 
e os brincos; subitamente parecia muito adulta enquanto colocava o casaco de renda e o chapu. Victoria sorriu para ela, de p em seus sapatos brancos de cetim e 
em suas roupas de baixo de seda branca.
       - Queria que voc estivesse se casando, Ollie - disse ela suavemente e sua irm assentiu.
       - Eu tambm. Mas este  o seu dia, nenm. 
       Ela no a chamava assim desde que eram muito pequenas e ento foram para o outro quarto de mos dadas e colocaram o vestido de casamento de Victoria, ajustaram 
a cauda sem fim, fixaram a tiara e assentaram o vu sobre ela.
       Olvia pensou que nunca, jamais vira nada como aquilo e quando Bertie entrou, se debulhou em lgrimas. As garotas pareciam rplicas exatas de sua me.
       - Oh, minhas queridas - foi tudo o que ela pde dizer, ajustando seus vestidos, apertando o vu de Victoria pela dcima vez e apenas olhando para elas. 
       Eram belezas verdadeiramente lendrias. Ela correu para pegar as flores ento. Cada uma carregava braadas de orqudeas brancas entremeadas com lrios do 
vale. A fragrncia era paradisaca e enquanto Ollie seguia Victoria pelo corredor, elas viram seu pai. Ele parou onde estava e por um momento ambas tiveram medo 
de que ele desmaiasse ao v-las. Mas ele no desmaiou, apenas ficou ali e chorou de prazer. Bertie sabia exatamente o que ele estava pensando ento. Elas pareciam 
to exatamente com ela, e ela tinha exatamente aquela idade quando morreu. Era como ter uma dupla viso, enquanto ele andava vagarosamente em direo a elas.
       - Bem, pelo menos hoje eu sei quem  quem - disse ele com a voz rouca e ento secou os olhos com o leno e sorriu para elas, tentando no pensar em sua me. 
- Ou vocs esto brincando novamente? O pobre Charles est levando a noiva certa para a igreja hoje?
       - Quem pode dizer, papai? - respondeu Victoria por elas e todos os trs sorriram enquanto desciam vagarosamente as escadas e Olvia carregava sua cauda para 
ela. 
       Todos concordaram que nunca haviam visto um vestido to bonito quanto aquele. Levou dez minutos apenas para colocar a cauda, o vestido e o vu dentro do carro, 
mas Donovan foi extremamente paciente enquanto Bertie os ajudava. E por fim eles partiram para a igreja. Bertie foi no Ford com Petrie. Olvia se oferecera para 
levar Geoff com eles, mas Charles quisera ter o garoto no hotel com ele na noite anterior e estavam indo juntos para a igreja.
       No caminho para a igreja, as pessoas por quem passavam paravam e admiravam; os carros buzinavam e as crianas acenavam; era sinal de boa sorte ver uma noiva 
to bonita quanto aquela. Mas Victoria apenas passava os olhos por eles. Ela estava perdida em pensamentos, pensando em Charles e em toda a irresponsabilidade e 
m sorte que os levaram quele momento. No parecia de maneira nenhuma providencial para ela, parecia um erro gigantesco e tudo em que ela podia pensar era nas coisas 
que dissera para sua irm naquela manh. Ela estava prestes a se virar para seu pai, enquanto eles chegavam  igreja, e dizer a ele que no podia faz-lo, que ele 
deveria t-la mandado para um convento na Frana ou na Sibria, ou algo pior. Mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Olvia a estava ajudando a sair do 
carro e arrumando seu vu novamente, e ela perdera o momento.
       Eles foram rapidamente escoltados at os fundos da igreja e Victoria tentou desesperadamente ter um momento sozinha com a irm. Passaram-se ainda mais dez 
minutos antes que as coisas se assentassem novamente e Victoria ainda pde ouvir a msica enquanto mergulhava no pnico.
       - No posso!... - sussurrou ela, agarrando o brao de Olvia bem no momento em que estavam para entrar no corredor da igreja com seu pai. - No posso, Ollie! 
Tire-me disso!
       - Voc tem que poder! - sussurrou Ollie com raiva. Ela podia ver que Victoria estava mortalmente plida e dominada pelo terror. - Voc tem que fazer isso! 
No pode parar agora. V em frente, voc jamais vai se arrepender.
       - E se eu me arrepender? No h sada. E se ele no quiser se divorciar de mim?
       - Voc no pode pensar nisso agora, Victoria. Voc tem que fazer funcionar, pelo bem dele... pelo bem de Geoff... por voc... por favor, por favor, nenm... 
v!
       Os olhos de Victoria estavam cheios de lgrimas e ela estava muda de tristeza e terror quando uma porta se abriu, o rgo tocou e Olvia deslizou suavemente 
pela nave da igreja  frente deles, e antes que pudesse parar, Victoria estava agarrando o brao do pai e eles estavam andando solenemente atrs dela. Ela queria 
parar, se virar e sair correndo, ir embora antes que fosse tarde demais, mas j era, e ela o sabia. Ela se sentia como se estivesse marchando para a morte enquanto 
andava vagarosamente em direo ao altar atrs de sua irm e na frente de quatrocentas pessoas. 
       E quando chegaram l, seu pai apertou sua mo e deixou-a, as lgrimas escorrendo por seu rosto. Ento ela olhou para cima e o viu. Era Charles, to alto, 
to orgulhoso, to decente; ele estava fazendo um esforo to grande, preocupava-se tanto e queria tanto fazer a coisa certa, enquanto ficava l em seu casaco matutino 
e suas calas listradas. Ele parecia to bonito e seus olhos eram to gentis quando olhava para ela que Victoria quase acreditou que tudo ficaria bem entre eles. 
Ela queria que ficasse. Ambos queriam. E quando ele se colocou a seu lado e pegou sua mo, sentiu-a tremer violentamente e tentou acalm-la. Ficou bem prximo a 
ela e segurou seu brao. Ele queria que ela soubesse que sempre teria sua proteo. 
       Era menos do que ele gostaria de dar a ela, menos do que ele j partilhara uma vez, mas era tudo o que tinha para oferecer agora. Ela olhou para ele silenciosamente 
e compreendeu. Sua unio no era a que nenhum deles teria desejado anos antes, mas era certa para eles agora. Era um acordo, um juramento solene, uma troca de honra 
entre duas pessoas que entendiam uma  outra e estavam desejando aceitar menos do que ambos haviam sonhado.
       Eles trocaram anis, votos e promessas, e Victoria parou de tremer. E sorriu enquanto andava solenemente de volta pela nave ao lado de Charles. Bem atrs 
deles vinha Olvia, de braos dados com seu pai e apertando a mo de Geoff. Olvia se sentiu fracassada, triste, alegre e amorosa, tudo ao mesmo tempo e, junto com 
seu pai, este pequeno garoto, esta criana que perdera tanto, era tudo o que ela tinha agora.
       O casamento foi um enorme sucesso, uma vitria total. Como sempre, Olvia cuidara de todos os detalhes. Os vrios meses de planejamento cuidadoso valeram 
a pena. A comida estava excelente, a decorao, sublime; as flores eram as mais elaboradas que qualquer pessoa jamais vira, as esculturas de gelo pareciam reais 
e realmente ficaram intactas na maior parte da festa. A orquestra era de Nova York e tocou msicas que todos adoravam danar. Os convidados estavam lindamente vestidos 
e todos concordavam que ningum jamais vira uma noiva to encantadora quanto Victoria. 
       Houvera rumores, era verdade, mas era difcil acreditar naquilo tudo agora, quando a viam parecendo to respeitvel, to recatada, to apaixonada por seu 
belo marido. Quatrocentas pessoas aplaudiram a primeira valsa, o Danbio Azul, que Charles danou com sua noiva. Seu vestido ondulava em torno dela como um mar de 
renda, a cada movimento gracioso. E Olvia, claro, embora menos em evidncia hoje, estava to bonita quanto ela. Ela danou primeiro com seu pai, depois com Charles, 
depois com Geoff. E todos concordaram que ela estava adorvel.
       O dia j estava quase no fim quando Olvia danou novamente com Charles. Ela sabia que Victoria tiraria em breve seu vestido de noiva, colocaria seu traje 
de lua-de-mel e partiria para a cidade. Eles passariam a noite no Waldorf-Astoria e ento embarcariam no Aquatania pela manh. Eles haviam cogitado a idia de ela, 
seu pai e Geoff irem a Nova York v-los embarcar, mas a criana estava terrivelmente nervosa com o fato de seu pai viajar num navio e Olvia fora a primeira a concordar 
que ele no deveria ver isso. Ento eles diriam adeus aos recm casados aqui mesmo em Croton.
       - Voc fez um trabalho incrvel, Olvia - disse Charles alegremente. Fora um casamento verdadeiramente perfeito. - Voc  muito boa nisso.
       - Eu venho administrando a casa de papai h anos - ela sorriu com facilidade. - Mas estou feliz por ter ido tudo to bem. - Ela tambm estava satisfeita. 
E ento se inclinou para trs e fingiu examin-lo atravs de olhos estreitos que mal escondiam tudo o que ela estava sentindo. - Ento, voc se sente diferente agora 
que  novamente um homem casado?
       - Totalmente! Voc no pode perceber pela maneira que estou danando? Esta bola e esta corrente em minha perna realmente fazem diferena.
       - Voc  horrvel!  - disse ela, rindo para ele, mas era bom v-lo parecer to feliz.
       E Victoria parecia aliviada tambm. Estava feito, estava acabado. Ela o fizera. Ela quase sara correndo gritando, no momento em que estavam prestes a entrar 
na nave da igreja, mas agora tudo aquilo parecia ter acabado. Ela parecia imensamente satisfeita consigo mesma e totalmente relaxada enquanto agradecia aos convidados 
e danava com velhos amigos de seu pai e novos amigos de seu marido. E enquanto Olvia danava com Charles, Victoria acenou para ela. Era hora de Victoria trocar 
o vestido de noiva pela roupa com a qual partiria, Olvia explicou a ele e deixou-o conversando com alguns amigos, com Geoffrey prximo a ele. O garoto estava preocupado 
com o fato de o pai ficar longe tanto tempo, mas Olvia prometera tomar conta dele muito bem e mant-lo feliz. Victoria estava esperando por ela ao p das escadas, 
sorridente, e Olvia no podia acreditar na mudana que se operara nela desde aquela manh.
       - O que aconteceu? - sussurrou ela, enquanto subiam as escadas de mos dadas, parecendo mais idnticas que nunca, com exceo dos vestidos. Mas seus rostos, 
mos e cabelos pareciam particularmente idnticos naquele dia, bem como todos os seus gestos. - Voc parece estar gostando disso tudo de repente. - Olvia estivera 
observando-a em sua fascinao.
       - Eu no sei - disse Victoria honestamente. - No estou certa. Apenas decidi ir em frente, fazer o que devia ser feito e parar de me preocupar. Suponho que 
vamos concluir o resto mais tarde - disse ela de maneira filosfica e Olvia pde ver que ela estivera bebendo.
No muito, mas o suficiente para tir-la do srio.
       - Boa garota! Voc vai ficar bem - disse ela para acalm-la, enquanto Victoria tirava o maravilhoso vestido.
       Elas o colocaram cuidadosamente sobre a cama e Olvia foi pegar o conjunto de seda branca que fora feito em Nova York apenas para aquela ocasio. Havia um 
chapu-coco de seda branca para combinar e os olhos de Victoria pareceram imensos quando ela o colocou em sua cabea e olhou para a irm.
       - O que vou fazer sem voc? - perguntou Victoria num sussurro e Olvia se sentiu exatamente da mesma maneira que sua gmea se sentira naquela manh, cheia 
de pnico.
       - No pense nisso - sussurrou ela, sufocando as lgrimas. - Estarei aqui, esperando por voc, com Geoffrey.
       - Oh, Deus, Ollie! - foi tudo o que Victoria disse e elas caram nos braos uma da outra e se abraaram apertadamente. - No posso deix-la.
       - Eu sei... eu sei... - Ollie estava tentando ser forte por ela, mas por uma vez no pde faz-lo. - Mas eu acho que voc tem que me deixar. Charles pode 
ficar chateado se voc mandar Geoffrey em seu lugar na lua-de-mel e ficar comigo aqui em Croton.
       - Vamos tentar, talvez ele no note. - Ambas riram atravs das lgrimas, mas era o pior momento de suas vidas e passou-se meia hora antes que elas descessem 
as escadas novamente, com um cor-de-rosa suspeito em torno dos olhos e o nariz cuidadosamente cheio de p.
       - Onde estavam vocs? - perguntou seu pai ao lado de Charles, mas as garotas apenas deram a ele desculpas vagas. 
       Era hora de Victoria jogar o buqu, o que ela fez do alto das escadas de pedra do lado de fora da casa, para um grupo de mulheres solteiras que esperavam 
ansiosamente por ele no jardim. E sem se preocupar, mais por afeio, Olvia estava entre elas. Victoria mirou-o cuidadosamente em sua gmea e jogou-o na direo 
dela. E ela teve de peg-lo, ou ele a teria machucado. Houve gritos sorridentes de "no vale", "injusto", "foi combinado", mas ningum realmente se importava e ento 
subitamente Charles e Victoria estavam perto do carro e Olvia estava sozinha ao lado de seu pai. Um soluo travou sua garganta e ela e Victoria caram nos braos 
uma da outra e ficaram l, agarradas uma  outra em silncio. Os olhos de Charles se encheram de lgrimas, ele desviou o olhar e ento olhou para Edward. Ele parecia 
to infeliz quanto elas.
       - Eu te amo... se cuide... - sussurrou Olvia para ela, chorando sem vergonha enquanto os outros olhavam e depois se viravam.
        Era muito sofrimento para ser visto. Victoria mal podia falar e apenas assentiu enquanto beijava o pai e entrava no carro. Ela no disse absolutamente nada 
a Geoffrey. Charles abraou o garoto apertado por um longo momento, com lgrimas em seus prprios olhos, depois apertou a mo do sogro, agradeceu a ele e ento, 
por um nico momento, ele abraou a cunhada.
       - Tome conta dela - sussurrou Olvia para ele, ainda chorando. E ele se afastou para olhar para ela com todos os sentimentos que haviam sido por tanto tempo 
enterrados.
       - Vou tomar... Deus te abenoe, Olvia... Tome conta de meu garoto se qualquer coisa acontecer conosco.
       - No vai acontecer nada - disse ela, sorrindo para ele atravs das lgrimas e vendo-o entrar no carro com sua irm.
       Eles acenaram quando partiam, e os outros ficaram l, imprestveis, solitrios, abandonados, como marinheiros naufragados numa ilha deserta depois que os 
passageiros foram resgatados. Sem dizer uma palavra, Olvia apertou Geoffrey junto a si e ento, de mos dadas, eles voltaram para os outros. No havia mais nada 
a fazer agora, a no ser esperar que eles voltassem para casa. Seria um longo e lento vero.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
CATORZE

       
       E enquanto faziam a primeira curva na estrada, Charles deu seu leno  sua esposa sem uma palavra. Ele podia ver o quanto ela estava sofrendo. E sabia que 
havia muito pouco que pudesse fazer para aliviar aquilo. Ele sabia pelo que haviam conversado antes, que elas nunca haviam ficado separadas por mais do que poucas 
horas durante toda a vida. E nos ltimos meses ele comeara a entender o quanto aquela ligao era rara e poderosa.
       - Voc est bem? - perguntou solicitamente, enquanto ela assoava o nariz pela terceira vez e continuava a chorar.
       - Acho que sim. 
       Ela olhou para ele e tentou sorrir, mas aquilo apenas a fez chorar mais forte. Ela nunca se sentira to miservel, nem mesmo quando perdera Tobby.
       - Ser difcil para vocs duas no incio - disse ele honestamente; nunca mentiria sobre algo doloroso ou desagradvel. - Mas vocs vo se acostumar. Outras 
gmeas devem ter se casado e mudado. Vocs j perguntaram a algum sobre isso? 
       Ela sacudiu a cabea e se chegou um pouco mais para perto dele para ficar mais confortvel. Aquilo o tocou mais do que qualquer outra coisa. Sem Olvia, ela 
parecia mais vulnervel, menor e menos segura de si mesma. Todo o seu delicado lado ultrajante parecia ter ido embora agora. 
       - Voc vai se divertir no navio - disse ele, por falta de algo mais a dizer. - Voc j esteve em um navio? 
       Ela sacudiu a cabea e suspirou. Ele estava tentando tanto e ela estava to incrivelmente sozinha sem Ollie. No era culpa dele.
       - Sinto muito - disse ela, olhando para ele e notando novamente como ele era bonito. E ainda assim ele no era nada parecido com Tobby, nem seus sentimentos 
por ele. - Nunca pensei que seria assim. - Ela nem mesmo poderia imaginar que deixar Olvia seria to doloroso.
       - Est tudo bem - disse ele gentilmente. - Est tudo bem, Victoria - repetiu, passando um brao em torno dela.
       Eles falaram muito pouco durante o resto do caminho at Nova York e quando foram para a cama naquela noite no hotel, ela estava to agitada e exausta com 
as emoes daquela tarde, que j estava dormindo antes que ele sasse do banheiro.
       Ele havia pedido champanhe para eles, e a garrafa estava no outro quarto, num balde de gelo, mas ele pde apenas sorrir para si mesmo quando a viu.
       - Boa noite, garotinha - sussurrou e cobriu-a. Ela estava roncando suavemente. - Ser uma longa vida. Haver muito champanhe outras vezes... 
       Ele entrou no outro quarto e serviu-se de uma taa, pensando em seu filho e na irm dela e imaginando como estariam passando.
       Olvia tambm estava acordada quela hora, assim como Geoff, abraados um ao outro na cama de Olvia, com Henry, o macaco empalhado, na cama com eles e Chip, 
o filhote, adormecido. Teria aquecido o corao de Charles se ele pudesse v-los. Em vez disso, ele andou vagarosamente para o quarto e olhou para sua nova esposa 
dormindo ali, imaginando como seria ser casado com ela. De certa maneira, a perspectiva o excitava; de outra, o aterrorizava. Na verdade, era difcil imaginar.
       Charles estava de p e vestido quando Victoria acordou no dia seguinte. Ele havia se barbeado, tomado um banho e se vestido por volta de nove horas e pedira 
os jornais e o caf.
       - Bom dia, Bela Adormecida!  - disse ele com um sorriso enquanto ela vagava pelo quarto em sua camisola, ainda parecendo adormecida. Ela bebera mais do que 
ele imaginava no dia anterior e aquilo acabara com ela  noite. - Voc dormiu bem?
       - Muito - disse ela e serviu-se de uma xcara de caf. Victoria procurou a bolsa de mo que usara na vspera, tirou um cigarro e acendeu-o. Ele olhou para 
ela por sobre os jornais, surpreso, e observou-a fumar.
       - Voc sempre faz isso a essa hora do dia? - Ele parecia divertir-se, pois ela era mesmo a renegada que ele sempre achara que era. 
       - Se eu puder escapar com ele - sorriu. - Posso?
       - Acho que sim, se voc no soprar no meu rosto antes de minha primeira xcara de caf. No posso dizer que amo este cheiro, mas suponho que possa viver com 
ele, se tiver de viver.
       - Bom. - Ela sorriu para ele, satisfeita. 
       Seu primeiro obstculo fora superado com sucesso. Ento, ao prximo. Ela olhou os jornais com ele e comentou sobre o tumulto ocorrido na Itlia e a greve 
de fome de Mary Richardson na priso, na Inglaterra. Os jornais diziam que tiveram de aliment-la  fora.
       - Voc  fascinada por esse tipo de coisa, no ? - perguntou ele, intrigado. 
       Era interessante estar sozinho com ela agora. Eles podiam perguntar qualquer coisa um ao outro, ou fazer o que quisessem.
       - Sou fascinada pela liberdade - disse ela honestamente - e por aquilo que custa para consegui-la e mant-la. Liberdade do perdedor, quem quer que seja ele. 
E acredito muito intensamente na liberdade das mulheres. 
       Ela encontrou seus olhos abertamente e ele novamente se sentiu abalado pela sensualidade da qual ela parecia no ter nenhuma conscincia.
       - Ento por que o casamento? - perguntou ele, divertido com a conversa.
       - Porque  um caminho para a liberdade tambm. Serei muito mais livre casada com voc do que era vivendo com meu pai.
       - Como voc sabe disso? - Ele sorriu de sua resposta.
       - Porque agora sou uma adulta. Eu era uma criana at ontem e tinha de fazer tudo o que ele queria.
       - E agora voc tem de fazer tudo o que eu quero - disse ele, soando como um tirano. Ela olhou em seus olhos para ver se ele estava falando srio, mas ele 
foi rpido em acalm-la. - No, Victoria, no sou um monstro. Voc deve fazer como quiser quando voltarmos, contanto que voc no me embarace em pblico ou se coloque 
em perigo, de alguma maneira. Eu j disse a voc, eu preferiria se voc parasse de tentar ser presa. Mas quanto ao resto, voc  quem sabe. Se voc quer apoiar greves 
de fome ou participar de encontros e leituras com seus grupos polticos, ou passar seu tempo com outras mulheres falando sobre o quanto os homens so maus, voc 
tem toda a minha permisso. 
       Ela pareceu satisfeita com sua resposta. Seu pai estava certo. Ele era uma pessoa extremamente razovel. E no momento parecia no querer nada dela.
       - Obrigada - disse ela baixinho, parecendo muito jovem e um pouco menos ousada do que parecera um momento antes, com um cigarro entre os dedos.
       - Acho que voc deve se vestir agora, ou chegaremos atrasados para embarcar no navio. - Ele olhou para o relgio. Eram dez horas e deveriam estar l s onze 
e meia. - Voc gostaria de um desjejum? - perguntou educadamente. 
       Era como visitar um amigo muito civilizado. Ele era solcito, corts e muito bem-comportado. No fizera nada para assust-la ou aborrec-la.
       - No estou com fome - disse ela cautelosamente, imaginando como fora dormir com ele na noite passada. 
       Ele fora para a cama depois que ela estava dormindo e deixara o quarto antes que ela acordasse naquela manh. Era estranho ter passado a noite com ele e no 
ter tido a menor conscincia disso. Ele no se sentia realmente seu marido. Isso no era nada parecido com o que ela partilhara com Tobby. E ela sabia o que era 
esperado dela aqui, mas no podia nem mesmo imagin-lo com Charles. Na verdade, ela temia particularmente aquilo, mas Charles havia sido sempre um perfeito cavalheiro 
e de qualquer maneira no mostrara qualquer interesse amoroso nela.
       Ela foi se vestir e uma hora mais tarde estava de p na saleta de sua sute, usando o vestido vermelho que Olvia escolhera para ela, com o casaco combinando. 
Ela estava usando um coque novamente, com um chapu-coco tambm combinando e causava impresso no maravilhoso conjunto vermelho. Era estranho estar sozinha com ele 
e no ser automaticamente a metade de um par, com uma pessoa idntica bem a seu lado, mas era muito agradvel deixar o hotel com ele e v-lo receber congratulaes 
de todos. Charles era respeitado e benquisto, e ela se sentiu muito bem cuidada quando ele a conduzia ao carro que esperava por eles. Suas malas j haviam ido na 
frente para o Aquatania e estariam esperando por eles em sua cabine.
       E quando eles chegaram ao grande navio no Per 55, havia uma banda tocando, confete voando por toda parte e pessoas elegantemente vestidas subindo a prancha, 
tanto para encontrar suas cabines quanto para visitar amigos que estavam embarcando. Havia uma grande quantidade de gente em toda parte e os olhos de Victoria se 
arregalaram enquanto ela observava a excitao em torno de si. Victoria desejava apenas que Olvia pudesse estar ali com ela para ver aquilo. Charles viu o breve 
brilho de sofrimento cruzar seus olhos e sabia em que ela estava pensando.
       - Talvez ela possa vir conosco da prxima vez - disse ele gentilmente. 
       E ela olhou para ele e sorriu, grata por sua generosidade de esprito.
       Sua cabine no deck B era bonita, grande e surpreendentemente ensolarada. Era prxima ao Jardim de Estar, que parecia um velho jardim ingls, e enquanto eles 
passeavam pelo navio, Victoria ficou impressionada com a chamin de mrmore na Sala de Estar Adam e o elegante estilo do navio. Ela estava fascinada pelo que as 
outras mulheres estavam usando. Era como olhar para uma das revistas de moda de Olvia e ela estava feliz por Olvia t-la forado a trazer todos os trajes que foram 
cuidadosamente embrulhados em suas malas e que a comissria de bordo j estava desembrulhando.
       - Oh, isso  to divertido!  - disse ela a Charles, batendo as mos como uma criana, e ele colocou um brao em volta de seus ombros. 
       Ele j estivera em navios antes e sempre gostara deles, mas depois do que acontecera com sua mulher, ele estava certo de que jamais se sentiria feliz novamente 
em nenhum deles. Mas Victoria havia mudado aquilo.
       Eles desceram para olhar a piscina e ento voltaram para o deck principal, para a partida. A msica aumentou, as buzinas soaram e o grande navio comeou a 
se mover vagarosamente para longe das docas e para fora do porto. Os visitantes acenavam freneticamente das docas. Victoria tirou o chapu e seu cabelo ficou imediatamente 
coberto de confete. Era a primeira viagem do Aquatania depois de sua viagem de estria para Nova York na semana anterior e Charles esperava apenas que ele fosse 
mais afortunado que seu primo mais velho, o Titanic. Supunha-se que este era um navio melhor e que devia ter o nmero certo de botes salva-vidas a bordo, mas mesmo 
assim ele estava srio enquanto voltavam para sua cabine. Inevitavelmente ele estava pensando em Susan. 
       - Como era ela? - perguntou Victoria corajosamente, enquanto acendia um cigarro, mas ele no objetou. Ele queria que ela ficasse confortvel com ele.
       - No seria justo se eu dissesse que era perfeita - respondeu ele honestamente - porque ela no era. Mas era a mulher certa para mim, e eu a amava muito carinhosamente. 
Foi muito difcil me acostumar ao fato de ela ter ido embora assim. Talvez seja diferente agora que estamos casados - disse ele esperanosamente, como se esperasse 
que uma longa doena fosse curada, mas Charles ainda no estava certo.
       - Foi corajoso de sua parte - disse Victoria baixinho. - Voc no me conhece realmente.
       - Acho que conheo. E ns dois precisamos de ajuda nestas ms situaes.
       -  uma razo estranha para se casar, no? - perguntou ela, subitamente querendo mais do que aquilo, enquanto ele pegava uma taa de champanhe e servia a 
ela. 
       Victoria se sentia muito adulta agora que estava casada e gostava dos privilgios que vinham com aquilo.
       - Casar  uma coisa estranha de qualquer maneira, no? Eu quero dizer duas pessoas juntas para o resto da vida.  um grande risco a se correr, mas acho que 
vale a pena - disse ele, enquanto se sentava prximo a ela e a olhava.
       - E se o risco no der resultado? - Ela olhou em seus olhos e desta vez ele estava assustado com a pergunta.
       - O risco d resultado se voc quer que d - disse ele firmemente. - Voc apenas tem de querer com fora suficiente. - E ento ele olhou nos olhos dela e 
fez-lhe uma pergunta direta. - Voc quer? 
       Houve um longo silncio. E ento, finalmente:
       - Acho que sim. Eu estava aterrorizada ontem. Quase sa correndo pouco antes do casamento - confessou ela e depois sorriu de seu prprio terror.
       -  compreensvel. Se as pessoas fossem honestas, a maior parte delas diria a voc que quis sair correndo antes do casamento. Eu tambm quis, por mais ou 
menos meio minuto.
       - O meu durou um pouco mais - disse ela suavemente.
       - E agora? - perguntou ele, aproximando-se dela e observando-a, fascinado. Ele podia sentir aquela qualidade sensual nela novamente; a coisa que Olvia no 
tinha e que o deixava louco. - Voc ainda quer sair correndo? - perguntou, enquanto chegava bem perto dela. 
       Victoria olhou dentro de seus olhos e sacudiu a cabea. Ela no sabia o que queria ainda, mas sair correndo no era. 
       - Voc no pode correr muito rpido num navio - disse ele numa voz rouca, enquanto deixava sua taa de champanhe e se sentava ainda mais perto dela. 
       E ento, sem dizer mais nada, ele colocou seus braos em torno dela e a beijou. Por um momento ele tirou sua respirao e ento ela o beijou de volta, mais 
forte e profundamente do que ele esperava. Ela era exatamente o que ele suspeitara: um cavalo selvagem que ele jamais domaria, mas que jamais pediria aquilo que 
ele jamais poderia dar. 
       - Voc  muito bonita, Victoria - sussurrou ele para ela, no inteiramente certo da extenso de sua experincia. 
       Ele sabia que ela no era inteiramente inocente, mas seu pai no lhe dera detalhes nem ele quisera conhec-los. Charles tirou cuidadosamente seu casaco carmesim 
e ento a puxou novamente para seus braos, enquanto se sentavam na poltrona da sala de estar da cabine. Os aposentos eram extremamente luxuosos e Charles no medira 
despesas para agrad-la.
       Ela acendeu outro cigarro, um pouco nervosa, e desta vez ele colocou-o de lado e beijou-a. Ele pde sentir o gosto da fumaa do cigarro em seus lbios, mas 
no se importava realmente. Tudo nela o estimulava. E enquanto ela se sentava prximo a ele, languidamente, ele a beijou e ela o beijou de volta. Aquilo pareceu 
durar horas e ento finalmente ele a pegou nos braos e a carregou para o quarto.
       Eles estavam no mar ento, mas ainda havia gaivotas voando prximo s janelas. No havia ningum por perto, eles estavam totalmente sozinhos, sem ningum 
para perturb-los, enquanto ele tirava o vestido vermelho e o jogava perto da cama, admirando suas longas pernas, os quadris estreitos, a cintura delicada e os seios 
fartos. Ela tirou sua respirao quando ele a viu e ento Charles tirou suas roupas tambm. Ele fechou as cortinas antes de tir-las inteiramente e deslizou para 
debaixo dos cobertores com ela. Ali ele tirou o resto do que estavam vestindo e sentiu a opulncia de sua carne contra a dele, o corpo sedoso que ele desejara tanto. 
Seu corpo estava gritando por ela como jamais estivera antes. No houvera nenhuma mulher em sua vida desde Susan. Haviam sido dois longos e agonizantes anos e enquanto 
ele procurava sua atual esposa, sentiu-a subitamente recuar e comear a tremer.
       - No tenha medo - disse ele em seu cabelo, enquanto a tocava, louco para estar dentro dela. - No vou machuc-la, eu prometo. 
        Mas ela j se afastara dele e estava tremendo tanto que no podia parar enquanto ele a abraava. Ele a segurou desta maneira por um longo tempo e depois 
a virou e forou-a a encar-lo. 
       - No vou for-la a fazer nada que no queira, Victoria. Voc no precisa ter medo de mim, eu sei que isso  difcil para voc. 
       Ele se lembrou de sua primeira noite de casado com Susan e do quanto fora jovem, inocente e tmida com ele. Muito mais que Victoria, que parecia muito mais 
ousada. Mas ela no era. Era uma garota de vinte e um anos e ele imaginou que, apesar de seu corao partido, ainda era virgem. Ele era dezesseis anos mais velho 
que ela e tinha tempo. Apesar de sua fome por ela, estava querendo ser paciente.
       - Eu no posso - disse ela, enterrando o rosto contra ele, parecendo to apavorada quanto estivera antes do casamento.
       Tudo o que ela podia pensar agora era nos xtases que tivera com um homem que ela amara e na agonia que acabara no banheiro. No posso fazer isso com voc...
       - Voc no tem que fazer... no agora... ns temos a vida inteira juntos.
       Mas ao som dessas palavras ela comeou a chorar e tudo o que queria era sua irm.
       - Sinto muito... - disse ela miseravelmente. - Sinto tanto... no posso fazer isso...
       - Shhh... - disse ele e abraou-a pelo que pareceram horas, assim como ele teria feito com Geoffrey se ele tivesse machucado o joelho ou ficado amargamente 
desapontado.
       E, por fim, ela enroscou-se e adormeceu em seus braos. E enquanto ela dormia, ele levantou-se e colocou uma roupa de dormir. Ele no queria assust-la se 
o visse nu. Pediu ch para ambos e quando ela se levantou, no fim daquela tarde, ele estava esperando por ela e serviu-lhe ch e biscoitos.
       - Eu no mereo isso - disse ela, infeliz, desejando que as coisas fossem diferentes.
       Ela nem mesmo queria tomar ch com ele. Ela sentia como se o tivesse desapontado. E se sentiu ainda pior quando receberam um telegrama de casa.
       "Ns amamos vocs. Bon voyage e feliz lua-de-mel. Papai, Olvia e Geoffrey." 
       Aquilo a fez sentir saudades de casa apenas de pensar neles e Victoria levantou-se e correu como uma cora para o banheiro. Ele tentou no olhar, mas ela 
era to adorvel que ele no conseguiu. Pouco mais tarde ela voltou e sentou-se com ele, coberta com a camisola de seda prpura que Olvia comprara para ela.
       - No se preocupe - acalmou-a ele novamente e beijou-a gentilmente.
       Ele jamais admitiria para ela, mas seu desejo por Victoria o estava deixando louco. No 
entanto, ele no fez nenhuma tentativa de seduo novamente e pouco mais tarde eles se vestiram para o jantar. Ela usou um traje de noite de cetim branco que aderia 
ao corpo ousadamente e o decote atrs era to baixo que quase se podia ver seu traseiro. 
       - Bem, isso certamente vai chamar a ateno dos rapazes.
       Ele sorriu feliz para ela e depois a seguiu para fora da cabine. Eles se sentaram  mesa do capito Turner naquela noite e, assim que a msica comeou a tocar, 
Charles levou sua esposa para a pista de dana. Eles estavam tocando um tango e ele pde senti-la movendo-se sensualmente em seus braos. Era tudo o que precisava 
sentir para querer se precipitar com ela para sua cabine. 
       - No acho que possa deix-la sair novamente - disse ele quando a msica chegou ao fim. - Voc est deixando todos os homens loucos. 
       Ela riu para ele e claramente no se importava com o tumulto que estava causando. Mas quando ele veio para ela... ela estava assustada. Era to estranho, 
ele simplesmente no conseguia entender aquilo.
       E quando ele se deitou prximo a ela naquela noite, olhou para Victoria e quase sentiu medo de toc-la. Mas simplesmente no podia controlar aquilo e ela 
sabia que teria que encarar isso tambm. No podia ser dessa maneira para sempre. Ele tirou sua camisola e ela se deitou em seus braos, delicada e inerte. Ele sabia 
o quanto ela estava com medo, podia senti-lo e estava determinado a no for-la. Queria deix-la to louca quanto ela o deixava e introduzi-la em todos os caminhos 
do prazer.
       Ele comeou muito gentil e vagarosamente, mas  medida que seu desejo aumentava, ele se tornou mais apaixonado e era de fato um amante gentil e experiente. 
Mais ainda que Tobby, que realmente a usara muito mais rudemente do que Charles o fazia. Mas a diferena entre eles era que ela amara Tobby e seu prprio desejo 
por ele fora to grande que ela no se importara com coisa alguma que eles fizessem, ela no temera nada. Ela desejara tudo o que eles partilharam. E tambm queria 
desejar agora com Charles. Queria ser a esposa que ele esperava, mas ainda que o sentisse estremecer em seus braos e finalmente se deitar exausto, ela no sentiu 
nada.
       Ele foi muito rpido em olhar para ela, chamar seu nome, beij-la e assegurar-lhe que se preocupava com ela profundamente. Ele estava aterrorizado com o fato 
de t-la assustado de novo e ento ele entendeu o que acontecera. Subitamente Charles compreendeu o que ela sabia e ele no.
       - No foi a primeira vez, foi? - perguntou ele roucamente, enterrando o rosto entre seus seios e depois se voltando para encar-la, enquanto ela sacudia a 
cabea tristemente. - Voc deveria ter me contado, Victoria. Eu fiquei aterrorizado com a possibilidade de machuc-la.
       - Voc no me machucou - disse ela suavemente. 
       Ela no fora mesmo a lugar nenhum enquanto ele era transportado pela paixo. Ela se sentira prxima a ele, mas apenas porque sentia muito por ele e pelo que 
ela no podia lhe dar. E j no acreditava no que diziam. Voc no aprende essas coisas. Seu amor por algum no "cresce". Voc amou, ou no amou. E ela sabia que 
fora trada e agora o trara. Eles no "cresceriam" para nada. Eles simplesmente passariam a vida juntos, como estranhos.
       - E voc o amou, no amou? - Charles queria saber tudo agora. 
       - Sim - disse ela honestamente. Ela no evitou seus olhos agora. Apenas parecia justo contar a ele. - Eu o amei.
       - Quanto tempo durou?
       - Quase dois meses. - Charles assentiu, pelo menos no foram um ano ou dois, no que isso realmente importasse. - Ele mentiu para mim. Sobre tudo. Ele nunca 
me amou realmente. Ele me disse que estava preso num casamento sem amor e que estava deixando-a para se divorciar. E eu acreditei nele. Eu nunca o teria feito de 
outra forma - e ento ela pensou sobre isso - ou talvez o tivesse. No sei agora. 
       Ela parecia miservel, mas pelo menos no estava mentindo para ele. Isso j era algo. 
       - Ele comeou a contar s pessoas, rindo daquilo. E quando perguntaram a ele, disse que eu o seduzi. Disse que eu no significava nada para ele, era tudo 
uma diverso. Ele nunca teve a inteno de deixar sua esposa ou se casar comigo. Na verdade, ela estava esperando um beb durante todo o tempo em que o amei.
       - Que bastardo! E agora voc no acredita em mim, no ? 
       - No  isso - disse ela miseravelmente, tocando seu rosto com os dedos. - Eu no sei o que . Eu apenas no posso...  como um muro entre ns... entre mim 
e qualquer pessoa... qualquer homem... eu no quero que ningum me toque. 
       Aquilo certamente no era um bom prenncio para seu futuro.
       - Alguma coisa a mais aconteceu, Victoria, que voc no esteja me contando? 
       Ele suspeitava mesmo antes que ela contasse a ele. Ela comeou a sacudir a cabea e ento olhou para ele e deu de ombros. Aquilo era uma coisa que ela realmente 
no queria contar a ele. 
       - Nada...
       Mas desta vez ele sabia que ela estava mentindo. Ele tocou seus seios com uma das mos e desejou que ela o quisesse, mas ela apenas olhou para ele tristemente.
       - Eu fiquei grvida - disse ela em voz muito baixa. - Foi o que pensei.
       - Ca do meu cavalo e perdi o beb logo depois que voltamos para Croton. Olvia estava comigo, mas eu no contei a ela. Ela me salvou... eu estava tendo uma 
hemorragia... foi horrvel... acho que quase morri, e eles me levaram para o hospital numa ambulncia. - Lgrimas rolaram suavemente por suas faces enquanto ele 
segurava sua mo, desejando que as coisas tivessem sido diferentes. - No quero ter filhos nunca.
       - No tem que ser assim. No tem que ser aterrorizante, horrvel e errado... 
       No sozinha no cho de um banheiro, com o beb de um homem que no a amava. Mas ele no podia dizer a ela que a amava, no honestamente, e ela sabia disso. 
E no importaria se ele a amasse, pois ela no o amava.
       - Minha me morreu quando eu nasci. Eu a matei - disse ela, enquanto lgrimas frescas rolavam por suas faces, e ele a abraou. 
       - Estou certo de que isso no  verdade - disse ele, certo de que havia mais na histria.
       - Ela estava bem quando Olvia nasceu e eu era to grande que ela morreu logo depois que me teve. Eu nasci onze minutos depois de Ollie.
       - Mas voc no a matou - explicou ele; ela era infantil de certa forma, mesmo apesar de ter perdido um beb. - Eu no ligo se jamais tiver outro filho - explicou 
ele - mas no quero que voc se sinta como no deve. Ter Geoff foi o momento mais feliz da vida de Susan, ou... mais tarde, pelo menos - ele sorriu.
       No fora fcil para ela tambm e Geoff fora um beb grande. Mas ele ainda se lembrava do olhar em seu rosto na primeira vez que a vira depois que Geoff nascera, 
enquanto o beb se aconchegava em seu seio e mamava. Ele nunca vira nada to doce e chorou quando os viu. Era difcil esquecer aquilo mesmo agora, dez anos mais 
tarde. 
       - Voc deveria ter um beb um dia, Victoria. Provavelmente as coisas sero diferentes. Ns nos acostumaremos um com o outro. Ns dois esqueceremos as pessoas 
de quem gostamos um dia, ou as colocaremos de lado, com toda a tristeza e as coisas que fizeram para nos machucar.
       - O que ela fez para machucar voc? - perguntou Victoria surpresa, desejando que pudesse acreditar que um dia as coisas seriam diferentes. 
       Mas ela no acreditava. Eles estavam muito longe um do outro. E a verdade era que, alm de simpatia, ela no sentia nada por ele.
       - Ela morreu - disse ele asperamente. - Ela embarcou naquele maldito navio. Eis o que ela fez para me machucar. Ela deu seu assento a uma criana, a algum 
que no conheo e com quem no me importo, e me deixou. xxx
       Havia lgrimas em seus olhos agora; ele conhecera a dor, o sofrimento, a perda e a raiva. Ele conhecera a agonia, mas estava de volta agora. E desejava estender 
a mo para Victoria e deix-la juntar-se a ele. Mas a verdade era que ela no queria.
       - Ns no podemos desistir - disse ele suavemente. - No podemos apenas olhar para trs, para as pessoas que deixamos em nossas vidas. Mesmo que ele a tenha 
machucado terrivelmente, se ele a traiu, voc tem que esquecer.
       - Ainda no consigo.
       - Voc vai acabar conseguindo. E eu estarei aqui esperando. 
       - E enquanto isso? - perguntou ela, parecendo preocupada. 
       No era de maneira alguma perfeito entre eles neste ponto, mas era mais do que Charles tivera em anos, e ele estava desejando pagar para ver por enquanto.
       - Ns damos o melhor de ns... esperamos... nos tornamos amigos... vou tentar no aborrec-la mais do que devo. - Mas ela sabia que no tinha o direito de 
recus-lo, mesmo que no o quisesse, e ele sabia disso. - Ns veremos...  o melhor que podemos fazer, Victoria. Ns estamos casados.
       - Voc merece mais do que eu tenho para lhe dar, Charles - disse ela e falava srio.
       - Se isso  verdade, ento vou encontrar isso algum dia. E voc tambm. At l, isso  tudo o que ... 
       Ele sorriu para ela filosoficamente, desejando aceit-la como ela era: uma jovem e bonita mulher, que o emocionava at a alma, mas no o amava. Mas ele sabia 
que ela era jovem tambm. Ela acabaria esquecendo Tobby. Ela viria para o homem com quem se casara. E quando ela o fizesse, ele estaria esperando.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
QUINZE
       
       
       
       A lua-de-mel definitivamente no foi o que Charles esperava. A resistncia de Victoria no melhorou no decorrer da viagem. Eles chegaram  Europa no dia 26 
de junho e dois dias depois sete jovens nacionalistas srvios atacaram e mataram o sobrinho do imperador da ustria, o arquiduque Franz Ferdinand, e sua esposa, 
na cidade de Sarajevo.
       Parecia ser apenas um incidente isolado, mas dentro de alguns dias causou considervel consternao na Europa. Victoria e Charles estavam ento em Londres, 
no Claridge's, visitando amigos. Victoria estava mais interessada na marcha das sufragistas em Washington, de volta aos Estados Unidos, e na exigncia do direito 
de voto para as mulheres. Mesmo entre os amigos de Charles na Europa, ela encontrara muitas sufragistas e estava fascinada pelo que estava se passando por l. Mas 
seu intenso desejo de visitar as Pankhurst na cadeia fora frustrado. Quanto quilo, Charles batera o p. No queria sua esposa visitando ningum na priso. Houve 
uma intensa discusso sobre o assunto, mas Victoria no conseguira vencer. Charles queria ser tolerante, mas no forado a passar de seus limites.
       - Mas eu me correspondi com elas, Charles - disse Victoria, como se isso fosse alterar o ponto de vista dele.
       - No me importaria nem se voc as tivesse visto em aparies religiosas. Visitar essas mulheres na priso est fora de questo. Voc vai se colocar numa 
espcie de lista negra e vamos acabar sendo expulsos da Inglaterra.
       - Isso  absurdo. Eles aqui tm a mente mais aberta - disse ela, ingenuamente.
       - Duvido muito. 
       Ele no estava se divertindo nem um pouco com aquilo e parecia impaciente naqueles dias, mas ambos sabiam por qu. Todas as suas tentativas de colocar sua 
vida fsica em ordem no haviam tido qualquer sucesso.
       E quando chegaram a Paris, uma semana depois, Victoria estremecia a cada vez que ele a tocava. Ela no sabia por que se sentia daquela maneira. Era algo visceral. 
Ela no queria nenhum homem tocando-a novamente, no queria sentir nenhuma das coisas que sentira antes, no queria acreditar em ningum e estava determinada a no 
ter um beb. Ela dissera tudo isso a ele, que garantira haver precaues que podiam ser tomadas. Ele at mesmo tentou tomar algumas por si mesmo, mas eles nunca 
chegaram to longe. Agora ela comeava a chorar e tremer a cada vez que ele a tocava. E embora ele tentasse ser paciente com ela; estava comeando a ficar irritado.
       - Por que voc no me disse antes que se sentia desta maneira? - censurou-a tarde da noite, depois de terem tentado novamente em Paris.
        E aquilo estava comeando a afet-lo tambm. Por mais que a desejasse, no queria continuar a fazer amor com uma mulher que estava sempre chorando ou tremendo. 
Ele se sentia como um estuprador e estava rapidamente se tornando um frouxo.
       - Eu no sabia que seria assim - disse ela entre soluos no hotel Ritz. Sua melhor sute estava sendo desperdiada. 
       E o romantismo de Paris apenas parecia faz-lo ficar mais nervoso. Ela no queria ficar presa ali, sozinha com ele. Queria estar falando com polticos, encontrando 
sufragistas e indo a assemblias. E estava comeando a parecer a Charles que a ltima coisa que ela queria era um marido. 
       - No era assim com Tobby - revelou Victoria inesperadamente, afinal tendo chegado longe demais e, muito humilhado por aquelas palavras, Charles saiu intempestivamente 
da sute e foi dar uma longa e solitria caminhada em Paris.
       Ela pediu desculpas profusas quando ele retornou e fez um sincero esforo mais tarde, naquela noite, para conseguir fazer amor com ele. Ela era jovem, sensual 
e muito excitante. Ele pde senti-la responder a ele, mas rapidamente tambm sentiu-a se recolher de terror e repulso.
       - Voc no vai ficar grvida, Victoria - assegurou-ele ainda no calor da paixo, mas quando se virou e rolou sobre ela, pde senti-la em seus braos, mas 
era como se ela no estivesse realmente ali. Havia algo morto nela e nada do que ele fizesse a fazia reviver. - No sou um mdico, nem um mgico - disse ele, quase 
em desespero.
       Nunca tivera uma experincia como aquela, uma mulher que o excitasse tanto e que parecia no sentir absolutamente nada. Aquilo era uma tortura e em julho 
a situao contribura muito pouco para melhorar sua disposio.
       Eles tiveram notcias de Olvia vrias vezes. E Victoria parecia viver apenas para ter notcias dela ou ler sobre as sufragistas no jornal. Nada mais parecia 
importar a ela, que atualmente parecia bem mais confortvel em companhia de outras mulheres. Ele estava comeando a pensar se ela realmente gostava de homens. Talvez 
houvesse mais que um problema ali, mais do que qualquer pessoa jamais sonhara. E ele s podia pensar para que pesadelo Edward Henderson o empurrara e se ele soubera 
o que estava fazendo. Mas Charles no gostava nem de pensar isso.
       Olvia disse que todos estavam bem. Fizera um calor atpico da estao em toda a extenso do rio Hudson. Seu pai estava gozando de boa sade e Geoffrey estava 
aprendendo muito em Croton-on-Hudson. Ele aprendera a cavalgar maravilhosamente e ela reassegurou a Charles que no houvera mais contratempos. Na verdade, se ele 
continuasse a cavalgar to bem quanto vinha fazendo, Olvia estava pensando em comprar um cavalo novo para ele, que se adaptasse perfeitamente ao garoto. Podiam 
deix-lo em Croton e ele poderia cavalg-lo sempre que fosse visit-la.
       Ela assegurou a eles, a fim de que no se preocupassem, que Chip tambm estava passando muito bem. Ele mordia todos os mveis e fizera excelentes incurses 
para comer todos os tapetes de seu quarto de dormir. Mais que tudo, ela esperava que eles estivessem bem, que estivessem felizes e prosperando, e que o absurdo incidente 
em Sarajevo no tivesse causado a eles nenhuma preocupao. Eles tambm haviam ouvido notcias sobre isso, mas no havia razo para pensar que o conflito iria mais 
adiante. Os austracos estavam indubitavelmente irritados, mas o resto do mundo parecia no ter sido afetado.
       Charles partilhava completamente de seu ponto de vista, mesmo quando na ltima semana de julho, enquanto estavam no sul da Frana, ficaram sabendo que a ustria 
declarara guerra  Srvia. Mas isso no era muito surpreendente. Mais surpresos e perturbados eles ficaram quando, quatro dias mais tarde, a Alemanha declarou guerra 
 Rssia, e novamente dois dias mais tarde, quando declararam guerra  Frana tambm. As coisas pareciam estar se deteriorando rapidamente na Europa. Eles estavam 
em Nice ento, no Hotel d'Angleterre, e Charles queria retornar imediatamente  Inglaterra.
       - Mas isso  ridculo, Charles! - vociferou Victoria. 
       Ela amava a Frana e no queria partir ainda. Eles haviam planejado uma viagem  Itlia poucos dias mais tarde. 
       - No vou mudar todos os meus planos porque alguns ridculos pases europeus tm um temperamento explosivo. - Ela olhou para ele absolutamente irritada.
       - Este temperamento explosivo chama-se guerra. Ns estamos agora num pas que est em guerra; a Alemanha no  "ridcula" e pode muito bem atacar a qualquer 
momento. Faa suas malas. Ns estamos partindo.
       - Eu no vou! - Ela cruzou os braos e sentou-se calmamente na poltrona em sua sute no hotel.
       - Voc  louca! E vai partir quando eu disser. 
       Ela no era nada fcil, e ele estava ficando cansado daquilo. Fora um longo vero. Eles ainda estavam discutindo sobre aquilo no dia seguinte, quando as tropas 
alems invadiram a Blgica. E desta vez Victoria entendeu a mensagem sem qualquer presso do marido. Fez suas malas e deixaram Nice na manh seguinte, no mesmo dia 
em que Montenegro declarou guerra  ustria. A Europa estava rapidamente se tornando uma confuso de declaraes e acusaes.
       Eles voltaram ao Claridge's e na semana seguinte observaram, estarrecidos, como os srvios declararam guerra  Alemanha, os austracos  Rssia, e Montenegro 
 Alemanha tambm. E ento finalmente, em 12 de agosto, Inglaterra e Frana declararam guerra  ustria e em Londres houve bandeiras desfraldadas.
       Charles voltou preocupado  sute assim que ouviu a notcia, j com suas passagens trocadas no escritrio Cunard. Eles haviam planejado ficar mais uma semana 
na Europa, mas agora estava acabado. Ele queria levar Victoria de volta para os Estados Unidos assim que pudesse. E eles estariam navegando novamente no Aquatania 
na manh seguinte. Quando Victoria voltou de sua incurso s compras, suas malas estavam feitas, seus planos estavam traados e ele mandara um telegrama  sua irm. 
Ele explicou tudo isso a Victoria enquanto ela tirava seu casaco.
       -  isso? Estamos partindo? - Ela parecia chocada quando ele o disse. - Sem nem mesmo me perguntar o que eu penso disso?
       - Exatamente. A Alemanha acaba de declarar guerra  Inglaterra. No vou esperar por aqui at que as balas comecem a voar, estou pegando minha esposa e voltando 
para a Amrica e para a segurana.
       - Eu no sou uma coisa que voc possa empacotar, Charles, sem nenhuma discusso.
       - Parece que ns tivemos muitas discusses durante esses dias, Victoria, e realmente estou cansado. Acho isso uma perda de tempo e muito exaustivo.
       - Sinto muito ouvir isso - disse ela, infeliz. 
       Ela estivera de mau humor o dia inteiro e estava com dor de cabea. Eles haviam tido um de seus desafortunados interldios, ou o que ela achava que eram, 
na noite anterior, e ambos ficaram frustrados e irritados. Ela no sabia o que estava errado com ele, ou com ela, mas todo o seu corpo parecia entrar em convulso 
quando ele chegava perto dela e o dele virava gelatina. Ela tivera muito pouca experincia para comparar, mas tudo o que sabia era que com Tobby aquilo nunca acontecera. 
Charles dissera que ele jamais queria ouvir aquilo novamente e assegurou-lhe que tambm nunca acontecera com Susan. O que deixou ambos zangados, isolados, frustrados 
e muito solitrios, j que nem Susan nem Tobby estavam por perto e tudo o que eles tinham agora era um ao outro.
       - Estamos partindo amanh s dez horas - disse Charles friamente. Pelo menos para ele, a lua-de-mel fora um pesadelo.
       - Talvez voc esteja, Charles - disse Victoria, ousando antagoniz-lo novamente, mas o pior de tudo era que ela achava que gostava disso. Havia alguma coisa 
no fato de importun-lo que a excitava e ela no conseguia parar de sentir isso. - Mas eu no. Eu vou ficar.
       - Na Europa? Em guerra? S por cima do meu cadver. Voc vem comigo.
       - Talvez haja algo a ser aprendido aqui, Charles. Talvez haja uma razo para estarmos aqui neste lugar, neste momento.
       Seus olhos estavam acesos de excitao e ela quase o assustou, mas, pior ainda, apenas o fato de v-la daquela maneira o fez desej-la. Ele imaginou que demnio 
encontrara sua alma e dera a ele uma esposa que o estimulava tanto e que ele podia satisfazer to pouco. 
       - Isso pode ser parte de nosso destino, estar aqui enquanto a guerra estoura na Europa.         Ela parecia jovem e bonita e, pelo menos para Charles, talvez 
at mesmo um pouco louca. Ela tinha um trao de rebelio e aventura que desafiava qualquer razo. Talvez fosse por isso que Edward Henderson ficara to ansioso para 
cas-la. E ele tinha, muito sensivelmente, escolhido um homem so. Mas mesmo quando sentia a pior raiva dela, Charles sabia que Victoria no era louca. Era apenas 
difcil de se lidar. E ele se sentia muito velho para discutir com ela cada assunto a cada momento. O pior  que ela amava aquilo. Ele podia ver. Ela amava tortur-lo, 
atorment-lo, discutir com ele, recusar-se a fazer a coisa mais simples e insistir em fazer algo perigoso e irresponsvel como ficar na Europa.
       - Eu sei que isso vai soar tedioso para voc, Victoria - disse ele, tentando ficar calmo. Ela o havia levado a seus limites. - Mas no  sensato ficar num 
pas que declarou guerra, ou ao qual outro pas declarou guerra. E se eu deix-la aqui, seu pai vai me matar. Ento, goste ou no disso, concorde comigo ou no, 
seja nosso destino estar aqui nesta poca ou seja meramente um acidente, eu estou levando voc de volta para Nova York amanh de manh. E se voc achar isso totalmente 
insuportvel, sugiro que pense em sua irm. Ela ficar doente de preocupao se voc ficar aqui, bem como seu pai. Quanto a mim, estou indo para casa porque tenho 
um filho de dez anos que j perdeu a me e no quero ficar aqui e ser morto desnecessariamente por uma bala perdida. Isso explica a situao o suficiente para voc?
       Desta vez ela assentiu em silncio. A meno a Olvia finalmente a trouxe de volta  razo. E, embora no tenha admitido a ele, sabia que Olvia teria dito 
as mesmas coisas. Teria sido fascinante ficar na Inglaterra e ver o que aconteceria. Ela ficou acordada at tarde naquela noite depois que ele foi para a cama e 
pensou sobre o que acontecera com eles, a virada do destino que os juntara e a m sorte que parecia hav-la marcado desde seu caso com Tobby... o beb que ela perdera... 
a reputao que ela destrura... o fato de ter sido forada a se casar com Charles e deixar sua irm... e agora as obrigaes fsicas que eram esperadas dela e no 
poderia sustentar por muito tempo mais. Era difcil imaginar um futuro feliz. Por um estranho momento, pensou em sair correndo dali e nunca mais voltar para casa, 
mas ela sabia que no podia. 
       No mnimo ela tinha que ver Olvia, mesmo que odiasse voltar para Nova York agora. E comear a vida com ele, com seu filho e todas as responsabilidades que 
isso exigiria parecia dolorosamente triste. A Europa havia comeado a lhe dar um gostinho do que ela queria. Queria excitao, poltica e liberdade. No tinha um 
lao real com aquele homem, no havia ligao de carne, de alma ou de corao e, depois de dois meses com ele, por mais gentil, sbio e paciente que ele fosse, ela 
sabia que ele no estava preparado para admiti-lo. Talvez nunca estivesse. E ento o que ela faria? Ela havia falado corajosamente com Olvia sobre o divrcio quando 
ainda estavam em Croton. Mas sabia que Charles jamais concordaria com aquilo tambm. Ela estava presa numa armadilha. Seu destino estava selado ao dele. Ela estava 
atada a ele e sabia que provavelmente iriam afundar juntos. Essa vida sufocante de estar amarrada a um homem que ela no amava no mnimo a mataria. Ela sabia que 
tinha de falar com Olvia sobre isso, mas no parecia haver muito o que dizer. Eles haviam feito seu trato, jurado seus votos, haviam apostado e perdido. Na verdade, 
eles no sabiam nada um sobre o outro.
       - Voc vem para a cama esta noite? - perguntou ele, e ela pulou ao ouvir sua voz. 
       Ele estava de p na porta do quarto. Ela olhou para ele hesitante e ento assentiu, imaginando se ele queria tentar novamente ou se apenas queria que ela 
fizesse o que ele dissesse. Em qualquer dos casos, ela no gostava das opes. Mas quando foi para a cama poucos momentos mais tarde, ficou surpresa quando ele simplesmente 
colocou seus braos em torno dela e a abraou.
       - No sei como chegar at voc, Victoria - disse ele tristemente. - Sei que voc est trancada a em algum lugar, mas no posso encontr-la. 
       Ele sabia que tinha uma esposa, mas no a conhecia ainda e imaginava se algum dia a conheceria. Como Victoria, ele estava comeando a perder a esperana. 
Eles estavam casados havia dois meses, o que no era muito, mas comeava a parecer uma eternidade.
       - Eu tambm no consigo me encontrar, Charles - disse ela, infeliz, e eles se agarraram um ao outro como nufragos no oceano. 
       - Talvez ns consigamos algum dia. Se esperarmos o suficiente. Eu no vou desistir, voc sabe. Levei meses para acreditar que Susan estava morta. Continuei 
achando que eles iam encontr-la. 
       Ela concordou, de certa forma confortada pelo que ele disse. Teria sido muito mais fcil am-lo. Ela queria, mas no sabia como e parecia haver perdido esse 
tipo de sentimento. No havia amor para ele em seu corao, e o pior era que ele sabia disso.
       - No desista de mim, Charles - disse ela em voz baixa. -No ainda. - Sem Olvia, ela se sentia assustada.
       - No vou desistir - sussurrou ele, enquanto a apertava mais perto. - No vou desistir por muito, muito tempo - sussurrou ele em seu pescoo, enquanto adormecia 
abraado a ela, pensando que talvez a lua-de-mel no tivesse sido to terrvel assim. Talvez as coisas melhorassem.
       E enquanto ele a abraava, Victoria deitou-se em seus braos, sonhando com a liberdade.
       A viagem de volta no Aquatania pareceu duas vezes mais longa que a de ida, enquanto Victoria e Charles sentavam-se lado a lado nas espreguiadeiras. Ele dormia, 
ela lia; estava fascinada por ter conhecido Andrea Hamilton no navio e elas passavam muito tempo discutindo suas ltimas teorias sobre o sufragismo. Charles apenas 
desejava que escutar sobre aquilo tambm o fascinasse. Enquanto isso, sua esposa parecia estar obcecada com as causas e assuntos femininos. Isso no era uma fantasia 
passageira para ela, ou um tpico de conversao um pouco excntrico. Era para aquilo que ela vivia e respirava. E, embora ele tivesse sabido de seus interesses 
antes, no havia compreendido o quanto a doena estava avanada. Aquilo era tudo o que ela lia, falava, se preocupava ou perseverava. E Charles estava achando aquela 
paixo dolorosamente aborrecida.
- Ns vamos nos sentar  mesa do capito esta noite - disse ele sonolento, abrindo um olho, enquanto ela se deitava na espreguiadeira junto a ele. - Achei que devia 
avis-la.
       -  simptico da parte dele - disse ela sem muito interesse. Quer nadar? 
       s vezes ele sentia a diferena de idade entre eles. Ele estava feliz deitado ali, absorvendo o sol, e Victoria gostava de se manter ocupada. Mas ele estava 
querendo agrad-la.
         Meia hora mais tarde mergulharam na piscina e Charles teve de forar-se a no pensar no corpo dela. Ela usava um traje de banho preto e, enquanto atravessava 
a piscina vrias vezes, ele no podia fazer nada a no ser admirar seu estilo e sua figura longa e flexvel. Ele se juntou a ela ento e nadaram lado a lado. Finalmente 
ela parou e sorriu para ele. Parecia se sentir melhor.
       - Voc  uma garota maravilhosa - disse ele, admirando-a. 
       Ela certamente fugira dele nos ltimos dois meses e o desafiara de maneiras que nem sempre eram agradveis. s vezes ele desejava conhec-la melhor, em outras 
desejava nunca t-la conhecido. E olhar para ela daquela maneira o fazia lembrar de sua irm gmea. E ele imaginava se agora, depois de viver com ela dois meses, 
acharia mais fcil distingui-las, ou se ficaria ainda mais difcil. De certa maneira, ele sentia como se tivesse perdido seus sentimentos por ela nos ltimos meses. 
Ela no fora nada do que ele esperava.
       - Voc sentiu muita falta de Olvia? - perguntou ele enquanto se enxugavam e se sentavam nas espreguiadeiras em torno da piscina, observando os outros nadadores.
       - Terrivelmente - disse ela honestamente, com um olhar melanclico. - Nunca pensei que pudesse viver sem ela. Quando eu era uma garotinha, pensava que se 
fosse levada para longe dela, isso me mataria.
       Ele no lhe disse que era como ele tambm se sentira a respeito de Susan.
       - E agora? - perguntou ele, genuinamente curioso. 
       Havia muito sobre elas que o intrigava, aquela espcie de comunicao que pareciam ter, quase sem palavras, o instinto que tinham uma pela outra.
       - Sei que posso sobreviver - disse ela. - Mas no quero realmente. Queria que ela fosse para Nova York viver conosco, mas sei que ela no vai deixar papai. 
E ele no quer que ela o deixe. Ele a mantm l para tomar conta dele. No  justo com ela, mas Olvia no v isso. - Isso era algo que Charles tambm pensara e 
que havia dito a Olvia quando ela trouxera o filhote para Geoff.
       - Talvez ns possamos falar com ela sobre isso quando voltarmos para casa. Ou talvez ela possa nos fazer longas visitas; de qualquer maneira. Geoff adoraria 
isso.
       - Voc se incomodaria se ela vivesse conosco? - perguntou Victoria, surpresa pelo que ele havia acabado de dizer, assim como ele tambm estava surpreso com 
a sinceridade dela a respeito do pai. Ele era um velho egosta e continuaria sendo, porque suas filhas o deixavam ser assim. Mas Olvia estava pagando o preo e 
irritava-o v-la fazer isso.
       - No, eu no me importaria - respondeu Charles. - Ela  inteligente, educada, incrivelmente agradvel e est sempre disposta a ajudar - disse ele, pensativamente, 
e ento notou o olhar no rosto de sua esposa. 
       Era estranho que ele ainda no pensasse nela daquela maneira, como uma cunhada. Mesmo depois de dois meses, eles pareciam estranhos.
       - Talvez voc devesse ter se casado com ela - disse Victoria com sarcasmo.
       - Ela no foi oferecida a mim - devolveu ele, s vezes ainda zangado com o fato de que havia muitas coisas que no haviam contado a ele. 
       Victoria no tinha tido um romance que terminara, ela tivera um caso com um homem casado, fora bastante usada e at ficara grvida. Aquilo no era bem a mesma 
coisa, embora em seu ltimo encontro ele desejasse aceitar isso.
       - Talvez possamos trocar de lugar para voc s vezes - rebateu Victoria, mas ele no pareceu gostar da idia e franzia as sobrancelhas para ela.
       - Isso no  engraado. 
       A idia de que podia ser enganado por elas sempre o fazia sentir-se desconfortvel ou achar que diria algo que no deveria para uma ou outra. De fato ele 
achava aquilo um tanto enervante. 
       - Devemos voltar para cima? - perguntou ele finalmente, e ela concordou. 
       Eles sempre pareciam estar discutindo atualmente, mesmo quando no queriam. Eles se vestiram separadamente para o jantar e subiram em traje de gala para o 
jantar do capito. No se falou de mais nada naquela noite, a no ser da guerra na Europa. Victoria achou aquilo fascinante e deu opinies notveis e radicais, mas 
interessantes. Charles ficou orgulhoso ao ouvi-la. Ela certamente era muito inteligente e era uma pena que no fosse fcil de se conviver.
         Finalmente eles voltaram para a cabine. Haviam danado por um tempo, mas nenhum deles estava com muito humor, apesar de ser uma bela noite no Atlntico 
Norte. Victoria acendeu um cigarro e ficou prximo a ele, olhando para o mar, fumando em silncio.
       - Bem - disse ele, sorrindo com melancolia. - Foi uma boa lua-de-mel ou no? Voc se divertiu? - Pelo menos j teria sido alguma coisa.
       - Para responder a suas perguntas, sim, s vezes, e no sei ainda. Foi boa ou no? O que voc acha?
       - Acho que foi interessante, mas no foi fcil - Era estranho voltar para casa da Europa com a guerra em seus calcanhares. - Talvez seja a maneira que a vida 
. Talvez voc acerte apenas um tiro no alvo. No estou certo ainda. - Ele estava se referindo a Susan e ela o sabia. E ela tivera Tobby, que certamente no era 
um sonho, mas ela o amara loucamente. - Talvez apenas leve tempo. "Ns vamos aprender a amar um ao outro", como as pessoas dizem Isso acontece. Mas ambos duvidavam 
daquilo.
       - E agora? Eu me torno uma dona de casa?
       - Tem algum outro plano, senhora Dawson? Planeja se tornar mdica ou advogada?
       - Acho que no. Poltica. - Ela ainda estava fascinada pela guerra na Europa. - Eu gostaria de voltar e estudar o que est acontecendo por l, talvez. me 
envolver de alguma maneira. Me tornar til.
       - Como assim? - Ele parecia horrorizado. - Dirigir uma ambulncia ou algo assim? 
       - Talvez - respondeu ela, pensativa.
       - Voc no ouse - disse ele muito srio. - Demonstraes sufragistas j so ruins o suficiente, obrigado. Nada de guerras, por favor. 
       Mas ela imaginava se ele poderia impedi-la se realmente quisesse voltar para a Europa. Ela sabia que Olvia tambm desaprovaria, ento certamente no podia 
falar sobre isso com ela ou com seu pai. Mas ela estivera sempre pensando sobre isso seriamente, desde que partiram de Southampton. Ela sentia como se estivesse 
perdendo algo, voltando para os Estados Unidos. Eles estavam deixando toda a excitao para trs.
        - E Geoff? Como ele entra em suas atividades? Voc vai ter tempo para ele?
       Ela sabia como aquilo era importante para Charles, que parecia preocupado.
       - Vou tomar conta dele. No se preocupe.
       - Bom. 
       Ele sorriu para ela, satisfeito com o fato de ela falar srio e ento eles voltaram para a cabine. Estava to quente que deixaram duas janelas abertas, mas 
naquela noite Charles no a tocou. Ele simplesmente no tinha energia ou coragem.
       Na manh seguinte, s nove horas, eles tiveram um treinamento de bote salva-vidas. Era algo extraordinariamente importante desde que a guerra fora declarada 
e Victoria se perguntou por um breve momento se aquilo o aborreceria e o faria lembrar-se de Susan. Mas ele parecia bem, mais tarde, e quando voltaram para o quarto, 
para o caf da manh, ele sorriu para ela e, sem dizer nada, beijou-a.
       - Por que foi isso? - perguntou ela, surpresa, e ele sorriu para ela.
       - Por estar casada comigo. Ns no temos sido exatamente fceis um com o outro. Vou tentar fazer melhor quando voltarmos para casa. Talvez voltar  vida normal 
v fazer bem a ns dois. Talvez as luas-de-mel sejam muito pressionantes.
        Ele estava se referindo criticamente  falta de sucesso de sua vida sexual e ela concordou com a cabea. Mas eles tentaram novamente naquela noite e, embora 
desta vez ele a tenha penetrado e ela tenha feito um esforo, ele sabia que no fora melhor para ela do que havia sido antes e desta vez isso o preocupou profundamente. 
Houvera um tempo em sua vida em que o sexo era maravilhoso; Geoff nascera daquilo e o que ele tinha agora com Victoria o fazia sentir-se muito solitrio e vazio. 
Depois, quando Victoria estava dormindo, ele ficou deitado olhando para ela, imaginando se havia qualquer esperana para uma vida real entre eles. Isso ficaria para 
ser visto quando voltassem para casa, mas ele no estava muito otimista.
Quando o navio passou pela Esttua da Liberdade, Victoria e Charles estavam no deck, observando o sol nascer e foi o mais perto que se sentiram um do outro em dois 
meses. Estavam ambos excitados por estarem voltando para casa; ela para ver sua irm gmea, ele para ver Geoff. Olvia dissera que os encontrariam em Nova York. 
       E assim que o navio gigantesco aportou, s dez da manh, eles comearam a procurar pelo per e ento Victoria soltou um berro. Ela os vira. Comearam a acenar 
freneticamente do navio e, no momento seguinte, Olvia teve um vislumbre deles e comeou a chorar, enquanto pulava para cima e para baixo, segurando a mo de Geoff. 
Seu pai tambm viera e haviam trazido at o cachorro com eles. Ele estava bem mais crescido agora. 
       
DEZESSEIS
     
     
     
       Victoria mal podia conter-se enquanto corria para eles e foi fcil ver quem era o seu primeiro amor quando ela se jogou nos braos da irm e as duas giraram 
em torno de si mesmas, abraadas uma  outra, rindo e chorando. Elas no eram nada mais que um borro de pernas, braos e sorrisos, e quando pararam e Charles olhou 
para elas, compreendeu que, mesmo depois de dois meses separadas, elas ainda eram muito parecidas e ele no poderia diferenci-las por um simples instante. Ele lembrou 
que Victoria usava um vestido vermelho, mas Olvia tambm. Era o mesmo e elas o haviam escolhido sem avisar uma  outra e sem planejar. Olvia simplesmente o usara 
para que eles pudessem v-la. Mas Charles teve que olhar para o anel na mo de Victoria para se certificar de qual gmea era sua esposa. Era assustador.
       - Bem, algumas coisas no mudam, eu acho - disse ele, sorrindo, enquanto as duas garotas giravam novamente e se abraavam ainda com mais fora e Olvia confessava 
que havia pensado que fosse morrer sem sua irm gmea.
       - Mas Geoff tomou conta de mim muito bem - disse Olvia, olhando para ele orgulhosamente. Ele era uma criana maravilhosa e haviam passado um bom vero juntos.
       - Como foi a lua-de-mel? - perguntou o pai das garotas e Charles respondeu rapidamente.
       - Maravilhosa! Exceto pela guerra na Europa, claro. Ns poderamos ter passado sem isso no final, mas samos de l rapidamente. 
       - Parece que h uma confuso terrvel por l - disse Edward, preocupado, enquanto os oficiais da alfndega comeavam a checar suas bagagens. Seus passaportes 
j haviam sido checados no navio naquela manh.
       Olvia abrira a casa da Quinta Avenida e ela e o pai ficariam l por alguns dias, para visitar os recm casados e para seu pai tratar de negcios. Mas Geoff 
estava dividido sobre onde queria ficar. Estava morrendo de saudades do pai, mas odiava deixar Olvia agora. Ela era quase uma me para ele.
       - Ela foi to boa comigo, pai. Ns samos para cavalgar e nadar todos os dias e fizemos piqueniques. Fomos a todos os lugares. Ela at me comprou um cavalo 
- explicou Geoff a Charles enquanto o ajudava a colocar suas bagagens no Ford. 
       Edward trouxera os dois carros, para eles e suas bagagens, e quando chegaram  casa de Charles, no East Side, puderam ver a mo de Olvia ali tambm. Ela 
abrira a casa para eles, organizara as empregadas e dissera a elas o que fazer. A casa fora arejada, as roupas de cama estavam limpas e havia flores por toda a parte. 
No parecia o mesmo lugar. E havia pequenos presentes para eles e alguns brinquedos para Geoff esperando em seu quarto, alm de uma nova cama para seu cachorrinho.
       - Quem fez isso tudo? - Charles parecia estupefato enquanto olhava em torno, mas Victoria sabia e no estava inteiramente certa de que gostava daquilo. 
       Esta era sua casa agora, e era ela quem decidia o que queria fazer. Ela no queria Olvia fazendo-a parecer m, fazendo com que comeassem com o p errado, 
mostrando todas as suas habilidades domsticas. Victoria no tinha inteno de seguir seus passos.
       - Olvia, tenho certeza - disse Victoria baixinho.
       - Bem, ela tem de vir visitar-nos com mais freqncia - disse Charles agradecido, com um olhar brincalho na direo de sua esposa. 
       - No fao as coisas assim, Charles. Eu fao outras coisas. Ns somos muito diferentes.
       - No se saberia disso olhando para vocs - disse ele, brincalho.
       E quando desceram novamente, ele ilustrou sem querer o que disse, beijando respeitosamente o rosto de sua esposa e agradecendo a ela por tudo o que fizera 
para sua chegada em casa. Ele pensara que ela era Olvia e todos riram, enquanto Victoria gargalhava.
       A empregada fizera limonada para eles, como Olvia pedira e os homens se sentaram na sala de estar para falar sobre a guerra, enquanto Geoff saa para o jardim 
com seu cachorrinho. Olvia subiu com a irm para ajud-la a desfazer as malas e l Victoria finalmente relaxou e sentou-se com um sorriso enquanto olhava para sua 
irm.
       - Nunca pensei que pudesse fazer isso... deixar voc assim... foi terrvel.
       - No acredito em voc. - Olvia sorriu, mas fora uma agonia para ela tambm. Cada hora de separao parecera uma vida inteira. - Voc passou bons momentos? 
- perguntou Olvia, hesitante. 
       Ela no queria se intrometer, mas precisava saber se sua irm estava feliz. Victoria olhou para ela por um longo tempo antes de responder e, quando falou, 
Olvia ficou chocada com sua resposta. Ela falou muito suavemente para que ningum mais pudesse ouvi-la.
        - No estou certa de que possa continuar com isso, Ollie. Eu no sei. Vou tentar por tanto tempo quanto puder... mas ns nunca deveramos ter casado. Acho 
que ele sabe disso tambm e quer fazer o melhor que puder. Mas  to errado... ele ainda est apaixonado por ela... e eu no consigo esquecer Tobby, nem a parte 
boa, nem a parte ruim dele. Ele se coloca constantemente entre ns.
       - Voc no pode deixar um homem daqueles arruinar seu casamento, Victoria. - Sua 
irm parecia horrorizada enquanto se sentava ao lado dela e pegava suas mos. - Voc tem de coloc-lo para fora de sua mente de uma vez por todas.
       - E Susan? Ele ainda a ama. E, Ollie - ela pareceu triste, mas no de corao partido com o que estava dizendo para sua irm - ele no me ama. Ele nunca me 
amou, nem nunca amar. Toda esta tolice sobre as pessoas aprenderem a se amar  apenas isto: tolice. Como voc pode amar um estranho?
       - Vocs vo se acostumar um ao outro. D tempo para isso. E Geoffrey vai ajud-la.
       - Ele me odeia. Os dois me odeiam.
       - Pare de dizer isso! 
       Olvia estava perto das lgrimas enquanto a ouvia. Ela nunca esperara isso. Tivera alguns vagos sentimentos de mal-estar sobre ela uma ou duas vezes, mas 
nada como isso. Ela no imaginara que Victoria voltaria para casa e diria algo assim para ela.
        - D um tempo. Prometa-me. Voc no pode fazer nada irresponsvel! 
       - No posso nem mesmo comear a imaginar o que eu faria - disse Victoria honestamente e Olvia pensou que ela parecia subitamente mais madura e mais feminina, 
mas talvez fosse apenas uma iluso.
       Para o observador sem treino, elas pareciam iguais. De fato, era quase como se elas estivessem mais idnticas do que nunca. 
       - Nunca me senti to encurralada - continuou Victoria. - Ollie, o que eu devo fazer?
       - Seja uma boa esposa para ele, seja paciente, seja boa com seu filho. Pelo menos tente fazer o que prometeu a ele que faria no dia de seu casamento.
        - Amar, honrar e obedecer a ele? Soa to indigno, no? H algo degradante nisso - disse Victoria irreverentemente e acendeu um cigarro. Esta era sua casa 
agora.
       - Como voc pode dizer algo assim? - Olvia pareceu chocada e franziu as sobrancelhas. Ela era impossvel e, embora a amasse, podia ver facilmente que ela 
seria uma esposa difcil. - Charles no vai se importar de voc fumar aqui? - perguntou Olvia com um olhar de preocupao e Victoria riu para ela.
       - Espero que no. Eu tambm moro aqui agora. 
       Embora ainda no se sentisse assim. Ela estava morando numa casa estranha, entre estranhos. Era uma estranha volta para casa e tudo o que queria era ir para 
sua casa com seu pai e sua irm. Mas ela sabia, mesmo sem pedir, que Olvia no a deixaria ir e nem seu pai. 
       - Voc vai ficar em Nova York por alguns dias? - perguntou ela, preocupada, e reagiu aliviada quando Olvia assentiu. - Eu nem mesmo sei por onde comear 
- disse ela nervosamente e Olvia sorriu para ela.
       - Virei todos os dias at que voc se ajeite.
       - E depois? - Victoria quase arrancava as mos de angstia. Agora que ela tinha sua irm para se apoiar novamente, podia colocar para fora todos os seus sentimentos, 
que saam numa precipitao de terror. - O que eu fao depois disso? Eu nem mesmo sei como ser uma esposa para ele. E se eu no puder fazer isso?
       - Voc pode, voc est apenas preocupada. 
       Olvia colocou o brao em torno dela e Victoria imediatamente sentiu o efeito daquilo. Era como voltar para casa, para uma me, e ela comeou a soluar enquanto 
colocava sua cabea no ombro da irm.
       - No posso mais fazer isso, Ollie... eu sei... foi terrvel na Europa... 
       Toda a sua pose de sofisticao e amadurecimento subitamente desaparecera e ela se sentia novamente como uma criana nos braos da sua irm, da mesma idade 
que Geoffrey.
       - Shhh... voc pode sim - disse Olvia, tranqilizando-a. Seja uma boa garota, acalme-se e pare de se preocupar. Ns o faremos juntas. 
       Depois disso Victoria assoou o nariz e, quando elas desceram novamente, nenhum dos dois homens pde dizer quem era quem. Quando seu pai finalmente falou com 
Olvia e disse que era hora de voltar para a casa na Quinta Avenida, ambas as garotas responderam e todos sorriram. Era um caso perdido.
       - Vou faz-las usar marcas quando estiverem juntas nesta casa - disse Charles afavelmente, feliz por estar em casa e feliz por ver seu filho novamente. 
       Subitamente era como nos velhos tempos, com uma mulher na casa e flores por toda parte. A nica coisa que ele no entendia completamente era que a mulher 
que colocara as flores e fizera a casa brilhar para ele no era a sua esposa.
       Quando partiram, Olvia beijou Victoria, prometeu voltar cedo no dia seguinte para ajud-la a se ambientar e beijou Geoff, abraando-o junto a ela.
       - Vou sentir terrivelmente sua falta - disse ela suavemente para ele. - Tome conta de Chip e Henry.
       - Volte logo - disse ele melancolicamente, enquanto acenavam da porta da frente e, um por um, os Dawson entraram e fecharam a porta atrs deles, enquanto 
comeavam sua vida juntos.
       Olvia passou uma semana em Nova York ajudando Victoria a desfazer as malas e se adaptar  casa no East River. Era um lugar iluminado e feliz, mas Victoria 
o achava desconfortvel e tinha saudades dos aposentos familiares que dividira com a irm. Ela e Charles dividiam um quarto grande e ensolarado, mas ela achava que 
Geoffrey estava muito perto deles. Ele estava logo do outro lado do hall e estava sempre debaixo de seus ps com seus canhes, seus carros, seu cachorro, suas bolas 
e suas bolas de gude.
- Meu Deus, ele nunca vai a lugar nenhum a no ser a escola? - reclamou Victoria.
       Ele havia acabado de recomear as aulas naquela semana, mas estava ansioso para voltar para casa e passar o tempo com eles. Ele ficara longe de casa por dois 
meses e estava feliz por estar de volta a sua prpria casa, com suas prprias coisas. E ele esperava o pai nos degraus da frente toda noite. Victoria sentia como 
se ela tivesse de ficar na fila para ver o marido.
       Ela no tinha absolutamente idia do que eles gostavam de comer. A primeira refeio que ela mandou fazer para eles, ambos detestaram, embora tentassem ser 
educados, mas mal puderam comer. Ela reclamou com Olvia no dia seguinte e Olvia deu a ela uma lista dos pratos favoritos de Geoff, que eles haviam cozinhado durante 
todo o vero para ele.
       - Talvez voc deva ficar aqui e faz-lo - disse Victoria petulantemente, mas ela estava quase falando srio.
       - Pare de dizer isso! - reprovou-a Olvia.
       Ela podia ver que Victoria se sentia insegura e no gostava de ser to domstica. Ela parecia sentir que aquilo a rebaixava, o que parecia mais do que bobo 
para sua irm.
       - Ele no sabe a diferena entre ns mesmo. Ento por que no trocar de lugar comigo por um tempo? - disse Victoria de brincadeira, mas havia algo em seus 
olhos que Olvia no gostou. 
       Era o nascimento de uma idia que no levava a lugar algum, mas Victoria no a mencionou novamente, o que aliviou sua irm. E no fim da semana as coisas pareciam 
estar um pouco melhor. Charles estava de bom humor, os jantares ficaram bons, ele estava com seu trabalho no escritrio novamente sob controle, j havia comeado 
a tratar de alguns novos negcios para seu sogro naquela semana e Geoff estava se comportando muito bem. A nica coisa que Victoria no gostava era que o trabalho 
de dirigir a casa parecia devorar o seu dia inteiro e ela nunca tinha tempo para fazer mais nada.
       - Apenas o faa por uma ou duas semanas - sugeriu Olvia - e quando voc tiver tudo sob controle, vai poder se dedicar a outras coisas que queira, como fazer 
compras ou almoar com amigos - ...ou assemblias, ou manifestaes, ou corridas. 
       Havia algumas assemblias informativas sobre as quais Victoria lera no clube de imprensa e ela queria freqent-las o mais cedo possvel, para aprender mais 
sobre a guerra na Europa. Victoria devorava as notcias, mas nunca havia informao suficiente para ajud-la a entender todas as complexidades do que acontecera. 
E quando Charles voltava do escritrio para casa, estava muito cansado para conversar com ela.
       Olvia finalmente voltou para Croton com seu pai. Ela ficara o maior tempo possvel para ajudar, mas finalmente ele reclamou que estava cansado e queria voltar 
para casa, ento ela teve de lev-lo. Mas ela prometera voltar logo e Victoria e Charles disseram que eles iriam a Croton em poucas semanas para o fim de semana. 
Mas as coisas se amontoaram, como sempre acontecia em vidas ocupadas. Charles descobriu que tinha um julgamento para preparar, Geoff estava ocupado na escola e Victoria 
ficou absorvida com suas assemblias. Ela telefonava para Olvia de vez em quando e ambas escreviam uma  outra quase diariamente, mas j era fim de setembro e a 
face do mundo havia mudado, isso sem mencionar suas prprias vidas.
       O Japo declarara guerra  ustria e  Alemanha no fim de agosto. A Batalha do Marne terminara com o avano da Alemanha sobre a Frana, mas os alemes comearam 
a promover ataques areos sobre Paris. Os russos sofreram grandes baixas nos Lagos Masurian e novamente na Prssia. Victoria mal podia compreender tudo aquilo, mas 
estava tentando. De fato a guerra estava quase comeando a obscurecer seu interesse no sufragismo. De certo modo, no momento, isso parecia muito mais urgente. Tanto 
que ela quase no ficava mais em casa. Ela seguira o conselho de Olvia nas primeiras semanas, dirigindo a casa de Charles para ele, e ento voltara ao seu velho 
jeito de ser e passava todo o tempo atrs de seus prprios interesses.
       Houve vrias leituras interessantes falando sobre poltica naqueles dias e Victoria ia onde podia para aprender mais. Aquilo a tornava algum mais interessante 
para se conversar quando Charles voltava para casa  noite, isso quando ele tinha energia para falar sobre os assuntos nos quais ela estava interessada, o que no 
acontecia sempre. Mas o que preocupava Charles era que, desde que Olvia se fora, Victoria parecia no ter idia das responsabilidades da vida de casada. Sem Olvia 
estimulando-a ou fazendo todas as suas tarefas por ela, Victoria deixava tudo sem assistncia. 
       E dentro de poucos dias a casa estava abandonada; o lugar parecia uma baguna, o jardim era um matadouro e Charles ouvira dos vizinhos que Geoff estava passando 
todo o tempo brincando na rua, porque Victoria nunca estava em casa para olh-lo.
       - Este no foi o nosso trato - lembrou-lhe Charles e ela tentou escut-lo e fazer o que era esperado dela, mas de alguma maneira ela no conseguia. 
       E a situao ntima entre eles havia apenas piorado desde que tinham voltado para casa. Eles nunca mais fizeram amor. Ela tinha uma bvia averso a isso e 
parecia aterrorizada com o fato de que Geoff pudesse escut-los. Charles estava bebendo mais do que fazia antes de partirem, ela fumava constantemente, e o cheiro 
daquilo o deixava louco. Era tudo o que Charles no queria numa casa, numa esposa ou num casamento.
       E quando Olvia voltou para visit-los novamente, seis semanas depois que partira, encontrou Victoria numa baguna total e seu marido ainda pior. Olvia tivera 
um vago sentimento de indisposio antes de chegar e no sabia por qu. Mas ela fora atrada a Nova York como um m. Ela ficou num hotel e, quando os visitava, 
os dois mal pareciam estar se falando.
       Olvia levou Geoff para ficar no hotel com ela por alguns dias, com Henry e o cachorro, e sugeriu a sua irm, nos termos mais fortes possveis, que ela fizesse 
o possvel para se entender novamente com o marido. Mas quando Olvia os viu novamente no dia seguinte, as coisas pareciam ter apenas piorado.
       - O que est acontecendo? O que voc est fazendo aqui? - berrou Olvia para ela, e Victoria parecia quase to zangada quanto ela.
       - Isto no  um casamento, Olvia!  um "arranjo".  tudo o que , e tudo o que sempre foi. Ele me alugou para ser a empregada, a governanta e uma professora 
para Geoff. Isso  tudo o que eu fao aqui.
       - Isso  ridculo. - Olvia discutiu com ela enquanto andava pela ensolarada sala de estar, censurando sua irm "mais nova". Elas tinham exatamente a mesma 
idade, mas uma vez mais Olvia era bem mais responsvel do que ela. -Voc est se comportando como um moleque mimado - disse ela asperamente. - Ele ofereceu a voc 
a proteo de seu nome, salvou-a do desastre com aquela sujeira que voc fez, est dando a voc a casa dele, seu filho, uma vida muito confortvel, e voc est furiosa 
por ter de tomar conta da casa dele e cuidar para que a cozinheira sirva a ele um jantar apropriado. No, Victoria, ele no "alugou" voc para ser sua empregada. 
Mas voc no parece estar desejando ser esposa dele tambm. 
       - Voc no sabe nada sobre isso. - Victoria estava enfurecida com ela, zangada com o fato de Olvia ter chegado to perto da verdade em suas acusaes.
       - Eu sei o quanto voc pode ser auto-indulgente - disse Olvia, mais calma, querendo chegar perto dela e ajud-la a mudar aquilo. 
       Ela ainda sentia terrivelmente sua falta, mas no o suficiente para querer que ela fizesse algo irresponsvel, como deixar Charles. Olvia sabia o quanto 
aquilo seria desastroso e devastador no apenas para Charles, mas tambm para Geoffrey. 
       - Voc tem que fazer um esforo, Victoria... Voc deve isso a ele... e a Geoff. D tempo ao tempo, voc vai se acostumar com isso. Eu vou ajud-la a cuidar 
da casa - disse ela, seus olhos suplicando a sua irm para no fazer nada estpido.
       - Eu no quero cuidar da casa, nem da dele nem da casa de ningum! Eu nunca quis! Isso foi tudo idia de papai, foi minha punio pelo que fiz com Tobby. 
       Mas Olvia sabia que sua punio real viera muito antes, no banheiro de Croton. Isso era simplesmente uma obrigao que ela tinha de cumprir, uma vida  qual 
ela devia se resignar. Mas Victoria era como um pssaro se debatendo na gaiola, machucando as asas em cada canto. Ela no podia mais voar e odiava isso.
        - Eu preferiria morrer, Olvia, a estar aqui - disse ela finalmente com tristeza, enquanto se sentava numa cadeira e parecia miservel para sua irm gmea. 
Mas Olvia no estava se divertindo nem um pouco com sua performance.
       - No quero nunca mais ouvi-la dizendo isso.
       - Estou falando srio. H uma guerra na Europa, homens esto morrendo aos milhares, pessoas inocentes esto sendo mortas. Eu preferiria estar fazendo algo 
til l a perder minha vida aqui, tomando conta de Geoffrey.
       - Ele precisa de voc, Victoria - disse Olvia com lgrimas nos olhos, desejando por um momento que ela pudesse mudar sua irm. 
       Ela sempre tivera algumas idias selvagens, alguma causa supostamente merecedora pela qual ela estava querendo viver e morrer. Mas ela parecia no ligar nada 
para seu prprio mundo e para as pessoas que precisavam dela e estavam bem na soleira de sua porta.
       - E Charles precisa de voc tambm...
       Os olhos de Olvia imploraram a ela que escutasse, mas Victoria sacudiu a cabea e atravessou o aposento para olhar pela janela para o jardim selvagem. Ela 
nem mesmo falara com o jardineiro desde que haviam voltado da Inglaterra.
         - No! - voltou-se para encarar sua irm novamente - ele precisa de Susan e ela no est aqui. Ela nunca vai voltar. Talvez ela seja uma sortuda - disse 
Victoria e Olvia pareceu ainda mais aborrecida que nunca. Victoria tinha de se assentar e se ajustar ao seu casamento. - Ns no temos nenhuma vida, se voc entende 
o que digo. Nunca tivemos. No foi bom entre ns desde o incio... suponho que ele ainda sonhe com ela e eu... eu simplesmente no posso... depois do que aconteceu 
com Tobby. 
       Seus olhos se encheram de lgrimas desta vez e ela curvou a cabea, parecendo completamente derrotada. E Olvia soube, quando olhou para ela, que aquilo no 
parecia prprio dela. No era prprio de Victoria desistir ou sentir que no podia fazer algo e estava muito claro para Olvia que com um pequeno esforo sua irm 
poderia colocar tudo no lugar novamente, se aquilo fosse o que ela queria.
       - Talvez voc precise de um tempo sozinha com ele - disse Olvia suavemente, um pouco embaraada com o que estava dizendo. Mas no era hora de ser tmida 
com ela. A situao era sria e ela o sabia.
       - Ns tivemos dois meses na Europa - disse Victoria sem esperana e completou, em toda a sua honestidade, que nunca havia funcionado l tambm.
       - Aquilo foi diferente - disse Olvia, soando como uma me agora. - Vocs mal conheciam um ao outro. Talvez vocs precisem de algum tempo aqui para se conhecerem 
melhor. 
       Ela corou suavemente e Victoria sorriu para ela. Olvia era to inocente, ela no tinha idia da complicao desta situao, de quanto era triste deitar em 
seus braos e estremecer toda vez que ele a tocava, do que ele esperava dela e ela no podia dar, nem do que ele no podia mais fazer em face de sua repulsa dificilmente 
escondida.
       - Esta casa  nova para voc e ele tambm. Talvez se vocs tivessem um pouco de tempo sozinhos aqui, talvez sem Geoff, vocs pudessem se acostumar mais confortavelmente 
um ao outro.
       - Talvez - disse Victoria, sem estar convencida.
       Mas aquilo no mudava nada o que sentia por ele, nem o fato de que ela se sentira forada a se casar, que sentia o quanto ele estava solitrio por sua esposa 
e que, embora desejasse sua carne, no amava Victoria realmente. Na verdade, ele no amava ningum. Ele estava lhe escondendo tudo isso e ela o sabia. Pelo menos 
Tobby mentira para ela, fizera com que se sentisse adorada e fizera com que acreditasse nele. No caso de Charles, no importava o quanto ele fosse atencioso e polido 
com ela, e bem educado, ela sabia, no fundo de sua alma, que ele no a amava.
       - Est tudo errado, Olvia. Acredite em mim. Eu sei.
       - Voc no pode dizer isso ainda. Voc est casada com ele h apenas trs meses e voc mal o conhecia antes disso.
       - E em um ano, quando eu disser a mesma coisa a voc? O que voc vai dizer ento? - perguntou Victoria  irm, seus prprios olhos parecendo sbios alm de 
sua idade e disse que ela j sabia o resultado. Eles tinham de passar a vida ao lado um do outro, mas Victoria sabia, to certo quanto respirava, que nunca chegariam 
a amar um ao outro. - Voc vai me dizer ento que posso me divorciar dele? 
       Ambas sabiam que seu pai nem sequer escutaria aquilo e mesmo Olvia pareceu chocada com a idia. Mas Victoria sabia que ela no podia suportar aquilo para 
sempre.
       - No vou ficar aqui at apodrecer, Olvia. No posso. Isso vai me matar.
       - Voc tem de ficar - disse Olvia ferozmente. - Pelo menos o tempo suficiente para conhecer verdadeiramente seu corao e o dele. Voc no pode tomar nenhuma 
deciso agora.  muito cedo.
       No tempo certo, se ela fosse realmente infeliz, talvez pudesse voltar para Croton para viver l e no se divorciar. Mas Olvia sabia que aquilo tambm a destruiria. 
Victoria precisava de muito mais em sua vida; ela precisava de ideais, poltica e novos horizontes para olhar. Ela no se satisfaria em sentar-se em casa e remendar 
as meias de seu pai, como ela o fazia. Mas havia uma parte dela que quase desejava que ela voltasse para casa, para que pudessem estar juntas novamente. Mas um lado 
mais generoso de Olvia queria verdadeiramente que ela ficasse com Charles e fosse feliz. 
       - Por que eu no levo Geoff comigo por alguns poucos dias? Ele pode perder um ou dois dias na escola e eu posso lev-lo para Croton. Isso vai dar a vocs 
dois algum tempo sozinhos. Isso pode fazer maravilhas.
       - Voc  uma sonhadora, Ollie - disse Victoria, sabendo que sua irm gmea absolutamente no entendia a falta de esperana da situao. 
       Victoria j sabia em seu corao para onde seu casamento estava indo. Mas ela tinha de admitir que seria um alivio se ver livre do garoto por alguns dias. 
No era que ela o odiasse, como ele dissera, apenas no queria tomar conta dele, ou se preocupar com ele, ou juntar seus brinquedos, ou caar o cachorro e coloc-lo 
para fora de seu quarto. No queria ser responsvel por outro ser humano. Antes ela no tinha idia de que aquilo iria lhe consumir tanto tempo, ou que seria to 
aborrecido. 
       - Talvez voc possa levar Geoff com voc por um dia ou dois. - Pelo menos a ela poderia ficar em suas assemblias. - Suponho que se ele fosse meu - disse 
ela pensativamente - seria diferente. Mas ele no , e eu simplesmente no posso imaginar o que seria ter filhos. 
       Esse era outro pensamento que no tinha qualquer atrativo para ela. Embora tivesse sido forada a se casar, ela teimara com Charles que no haveria crianas. 
E enquanto Olvia a escutava, ficou surpresa ao compreender que no poderia ter amado Geoff mais do que j o amava se ele fosse seu filho, o que ela j desejara 
muitas vezes desde que o conhecera. Ele ia substituir, em seu corao e em sua mente, as crianas que ela jamais teria agora.
       - Eu ficaria feliz em lev-lo de volta para Croton comigo - disse ela calmamente - mas quero que voc passe algum tempo com Charles e no que apenas se encontre 
com suas sufragistas em velhas igrejas e corredores escuros.
       - Voc faz isso soar to srdido. - Victoria sorriu para ela, mas estava satisfeita por se ver livre de Geoffrey por alguns dias. - Garanto a voc, no  
assim. Voc poderia ver por si mesma, se fosse comigo alguma vez. Mas ultimamente eu tenho estado ocupada aprendendo sobre a guerra na Europa.
       -Sugiro que em vez disso voc aprenda sobre seu marido - disse Olvia severamente e Victoria foi colocar seus braos em torno dela e beij-la.
       - Voc sempre me salva - disse ela, parecendo novamente uma garotinha, enquanto Olvia a abraava. 
       Olvia sentia to terrivelmente a sua falta, particularmente  noite, deitada em sua cama enorme. E agora ela no tinha nem mesmo Geoff para lhe fazer companhia, 
com seu cachorrinho.
       - No estou certa de que possa resgat-la desta vez - disse Olvia honestamente. - Voc vai ter de fazer isso sozinha.
       - Voc sabe, seria to mais fcil se ns simplesmente trocssemos de lugar - disse Victoria, parecendo insolente, e Olvia no pareceu satisfeita. No se 
"trocava" de lugar num casamento.
       - Seria? Voc gostaria de ficar em Croton cuidando de papai? 
       Victoria agora j sentira o gosto do mundo e Olvia sabia que ela tambm no ficaria satisfeita em Croton. Victoria tinha fome de muito mais do que aquilo. 
Olvia apenas esperava que Charles pudesse dar isso a ela. Talvez se ela tivesse seus prprios filhos e assentasse a vida, resolvesse o problema. 
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
DEZESSETE
       
       
       
       Olvia pegou Geoff de carro na escola naquela tarde, com seu casaco, seu cachorro e seu macaco esfarrapado e ele ficou deliciado ao saber que estavam indo 
para Croton. Ele estava louco para cavalgar novamente e estar com Olvia e ver o pai dela, que ele agora chamava de "vov". Mas Charles ficou muito surpreso quando 
chegou em casa e descobriu que o garoto fora para Croton.
       - E a escola? - perguntou a Victoria com uma vaga aparncia de consternao.
       - Ele pode perder alguns dias. Ele tem apenas dez anos, afinal de contas. 
       Ela afastou o assunto. Tivera uma tarde muito interessante, numa leitura sobre a Batalha de Bruxelas em agosto. Olvia no ficaria nada satisfeita se soubesse 
daquilo.
       - Voc devia ter me perguntado - disse ele, parecendo cansado e aborrecido, mas ao mesmo tempo ciente de que estava sozinho com Victoria e ela parecia adorvel. 
       Seus olhos estavam excitados e vivos e seu corpo excepcional se destacava num vestido novo que a irm comprara para ela. Era longo, suave e negro, a ltima 
moda em Paris.
       - Achei que voc queria que eu fosse a me dele - disse Victoria, repreendendo Charles. Ele no gostou da maneira como ela falou, mas o fogo em seus olhos 
apenas a tornava mais sedutora.
       - Voc , mas eu sou mais velho e experiente do que voc - disse ele, um pouco mais gentilmente. - Est tudo bem. Vai fazer bem a ele ficar no campo por alguns 
dias. Pode fazer bem a ns dois tambm, talvez ns possamos subir tambm este fim de semana. 
       Ela no gostava muito de Croton, mas sempre amava visitar a irm. Mas por outro lado, se eles fossem a Croton agora, isso desmontaria todo o propsito de 
Olvia levar Geoffrey com ela.
       - Talvez em outra ocasio - disse ela vagamente. - Ns poderamos deix-lo aqui e subir sozinhos para visitar Olvia e papai. 
       - Sem Geoff? - Charles pareceu surpreso. - Ele nunca nos perdoaria. - E ento ele olhou para ela tristemente. - Voc no gosta de estar com ele, no  mesmo, 
Victoria?
       - Eu no sei como fazer - disse ela, enquanto acendia um cigarro e olhava para o marido atravs do quarto. Era sempre um esforo estar com ele. Ela desejava 
que pudesse ver nele todas as virtudes que Olvia via. Para Victoria, mesmo agora, era como estar com um estranho. - No estou acostumada com crianas.
       - Ele  uma criana to fcil - disse ele, pensando no amor maternal que o garoto merecia e que tanto tivera de Susan. Era sempre difcil para Charles no 
comparar Victoria a ela. Mas ela mesma nunca tivera me, exceto sua irm gmea. Sempre fora Olvia quem a educara, e Victoria era tratada como um beb. - Espero 
que vocs dois passem a se conhecer melhor. - Ele pensara em passarem o vero juntos em Newport, os trs, mas Victoria, ao contrrio, insistira numa lua-de-mel na 
Europa.
       - Olvia diz a mesma coisa sobre ns. - Sua esposa sorriu para ele atravs da fumaa de seu cigarro.
       - Voc esteve se queixando com ela? - perguntou ele, algo infeliz. Ele gostava de manter seus assuntos familiares em particular, mas j desconfiava havia 
muito que entre as gmeas no havia segredo. E com a situao embaraosa que compartilhavam em sua vida privada, ele no achou aquilo nada confortvel. - Foi por 
isso que ela levou Geoff? Para nos deixar juntos?
       - Eu apenas disse que estava tendo problemas para me acostumar a tudo isso - disse ela vagamente, mas ele sabia, pelo que via em seus olhos, que ela provavelmente 
contara tudo  irm.
       - Gostaria que voc no discutisse assuntos privados com ela, Victoria - disse ele, aproximando-se dela atravs do quarto com um franzir de sobrancelhas cauteloso 
-  um pouco indelicado. 
       Victoria assentiu e no disse nada enquanto a cozinheira os chamava para jantar. A hora que passaram na sala de jantar foi um pouco tensa e depois Charles 
foi para seu estdio no andar de cima para examinar alguns papis. Victoria estava no quarto, lendo Penrod, e j era tarde quando ele finalmente entrou no quarto. 
Charles estivera trabalhando muito pesado desde que voltaram para casa e parecia cansado e algo vulnervel quando olhou para ela. Ela parecia to doce, sentada, 
lendo ali, e to jovem. Aquilo lembrou a ele o motivo de ter concordado em se casar com ela e por que s vezes ele quase a amava. Ele nunca dera rdeas livres a 
seu corao com ela e estava certo de que jamais faria isso novamente, mas o jeito dela hoje  noite, com seus longos cabelos negros caindo em cascatas sobre a camisola 
de rendas e os seios fartos, quase fez com que ele baixasse as defesas.
       - Voc est acordada at tarde - disse ele com um sorriso, indo trocar de roupa, e ela ainda estava lendo quando ele voltou de pijamas. 
       Embora no fizesse isso com sua falecida esposa, com Victoria ele dormia totalmente vestido e hoje em dia tinha o cuidado de manter uma distncia segura. 
Eles haviam feito algumas outras poucas tentativas sem sucesso e ela parecia achar o contato fsico com ele  noite muito pouco prazeroso.
       Quando ele foi para a cama, ela colocou obedientemente o livro de lado, apagou a luz, e eles ficaram l deitados por um instante, lado a lado, acordados, 
em silncio. 
       -  estranho estarmos aqui sozinhos, no? Sem Geoff, quero dizer.
        Ele sempre gostava de saber que seu filho estava perto dele. Mas gostava de estar com ela tambm e o pensamento de ter o andar superior da casa s para eles 
comeara a estimul-lo. Victoria no disse nada enquanto ficava deitada perto dele. Por alguma razo ela estava pensando em sua irm e no quanto sentia sua falta. 
Ela desejava estar em casa novamente com ela e no casada com Charles ou se preocupando com Geoffrey. Era tudo to difcil, to cansativo e to mais difcil e insuportvel 
do que ela havia esperado. Se ela soubesse como seria, jamais teria se casado com ele e devia ter deixado seu pai mand-la para um convento.
       - No que voc est pensando? - perguntou ele num sussurro, enquanto se deitava de lado e olhava para ela.
       - Religio - respondeu Victoria, sorrindo travessamente para ele, embaraada por seus pensamentos, e ele no acreditou nela.
       - Esta  uma mentira horrvel. Estou surpreso com voc. Deve ter sido algo realmente malvado.
       - Foi - disse ela, cheia de inocncia. 
       De certa forma, eles eram amigos; de outra, no.
       Ele tocou seu rosto gentilmente ento, desejando que pudessem voltar  maneira certa de comear. Aquilo havia sido to medonho entre eles e era doloroso e 
vergonhoso para ambos. Particularmente para Victoria, que no tinha idia de como lidar com seus prprios sentimentos de repulsa, ou com seu problema inesperado 
mas totalmente compreensvel depois que fora rejeitada.
       - Voc  to bonita - sussurrou ele, movendo-se vagarosamente para perto dela, enquanto a observava enrijecer-se. -Victoria... no... por favor... acredite 
em mim...
       Mas tudo em que ela podia pensar enquanto olhava para ele era em Tobby... e ento ela pde sentir ainda o sofrimento abrasador da noite em que perdera seu 
beb...
       - Eu no quero machuc-la.
       - Voc no me ama - disse ela em palavras que surpreenderam at mesmo a si prpria. No quisera dizer aquilo.
       - Deixe-me aprender... talvez se conseguirmos ter isso, possamos nos aproximar mais um do outro. 
       - Mas no funcionava assim para ela. Ela precisava se sentir prxima a ele antes que fizessem amor, at mesmo para querer faz-lo. Era a diferena primordial 
entre homens e mulheres. 
       - Ns temos que comear a amar um ao outro em algum momento... ns temos que acreditar um no outro... - Mas ele estava mentindo para ela e sabia disso. Ele 
no acreditava que qualquer mulher no fosse morrer e deix-lo. 
       Fora o que ele sentira por Olvia naquela noite quando ela cara do cavalo; ela era to frgil e vulnervel, e se tivesse morrido... Ele jamais se deixaria 
sentir aquilo novamente por ningum, nem mesmo pela irm dela. Susan levara aquela parte dele com ela. 
       - Deixe-me aprender a am-la - sussurrou ele, mas Victoria soube instintivamente que tudo o que ele queria dela era seu corpo e sua vida... para amar, honrar 
e obedecer a ele.
       E ela no obedeceria a nenhum homem, nem mesmo a este. 
       Ele fez amor com ela naquela noite, o mais gentilmente possvel, e no foi to ruim quanto vinha sendo. Mas certamente no havia iluses sobre os sentimentos 
dela por ele, ou sobre qualquer lao que pudesse ser formado entre eles. No havia nada e ambos sabiam disso. No mnimo, repetir as tentativas, menos freqentes 
do que deveriam ser, apenas parecia afast-los ainda mais. E mesmo esta noite, Charles compreendeu que no havia mgica entre eles e os dois adormeceram em cantos 
opostos da cama, em total silncio.
       O tempo que Olvia dera a eles foi gasto em leituras e na biblioteca por ela e no escritrio por ele. Ele tinha um jantar no clube com John Watson e seus 
scios na noite seguinte e ficou ocupado se preparando para um julgamento todo o fim de semana. De fato, eles quase no viram um ao outro, a no ser privadamente 
e incapazes de atravessar a distncia. E quando Geoff veio para casa com Donovan no domingo  noite, foi realmente um alivio ouvir vozes na casa novamente e, para 
Charles, ter algum com quem conversar.
       Olvia o mandara para casa com alguns brinquedos novos, uma garrafa trmica de chocolate quente para a viagem e uma grande caixa de biscoitos que eles haviam 
feito juntos. Aquilo fez o corao de Victoria doer, apenas de ver os sinais familiares to tpicos de sua irm. Ele at tinha um leno em seu bolso com o perfume 
dela e aquilo trouxe uma dor fsica a seu corao, sabendo que apenas horas antes o garoto estivera com ela. No mnimo aquilo a fez sentir cimes dele e ela repreendeu-o 
por Olvia no ter vindo para casa com ele.
       - Ela queria - disse ele, parecendo imediatamente magoado pelo tom de acusao na voz de Victoria, como se ele tivesse deixado Olvia para trs, o que ele 
no tinha feito. - Mas vov teve uma gripe novamente, e ela achou que no podia deix-lo.  apenas bronquite, o mdico disse, e no pneumonia, mas ns fizemos muitas 
sopas para ele e tia Ollie queria fazer para ele alguns demnios poltergeist especiais ou algo assim.
       - Emplastros poultices - corrigiu-o o pai com um sorriso, mas Victoria pareceu amargamente desapontada.
       Ela esperara ver sua irm e agora no tinha idia de quando Olvia viria novamente, particularmente se seu pai no estava bem, o que parecia estar acontecendo 
com mais e mais freqncia. De fato, a gripe se arrastou e ela nunca se sentia bem o suficiente para deix-lo e desencorajava Victoria a deixar Charles e ir a Croton 
sozinha. As gmeas no viram uma  outra at o Dia de Ao de Graas.
       Seu pai estava de p novamente ento, embora mais magro e plido, e deliciado por ver os Dawson. Victoria sempre sentia como se ele estivesse falando sobre 
outra pessoa quando dizia seu nome. Ela no conseguia se acostumar a usar um nome diferente do seu e no iria entender nunca por que uma mulher devia usar o nome 
de um homem apenas porque estavam casados.
       Os dias estavam espetaculares todo o tempo em que estiveram l e Geoff cavalgou com Olvia todos os dias, mesmo na manh do Dia de Ao de Graas. Ela estava 
muito orgulhosa dele, que se tornara um pequeno cavaleiro muito bem dotado. Ele mostrou a Charles o que podia fazer no crculo naquele dia e anunciou que quando 
fosse mais velho iria  jogar plo.
       Eles estavam todos de bom humor no fim do dia, quando se sentaram para o jantar do Dia de Ao de Graas, exceto Victoria, que parecia tensa. Ela passara 
a maior parte daquela manh na cozinha, conversando com Bertie. Havia sempre algo tranqilizador quando estava com ela e Victoria parecia faminta por reminiscncias 
de sua velha vida em casa. Era tudo que ela podia fazer, pois dormia no quarto de visitas com Charles. Tudo o que ela queria era subir na cama com Olvia e Geoffrey.
       Mas ele usurpara seu lugar. De fato, ele parecia ser o objeto da ateno de todos, de Olvia, Bertie, Charles, at de seu prprio pai, e quando todo mundo 
disse mais tarde naquela noite, depois que ele fora para a cama, o quanto ele tinha sido bom, Victoria assustou a todos ao atac-lo violentamente.
       - Oh, pelo amor de Deus, parem de ronronar sobre ele como um bando de gatos velhos! Ele j tem quase onze anos e deveria ser capaz de comportar-se sozinho. 
O que  to extraordinrio nisso? - soltou ela e por um longo momento houve um silncio absoluto. Ento at ela pareceu embaraada. - Desculpem - disse e rapidamente 
deixou a mesa, enquanto seu pai a encarava e Charles parecia profundamente magoado com o que ela dissera sobre Geoffrey.
       Olvia foi at ela assim que pde e a encontrou em seu quarto, enquanto Geoff dormia pacificamente na cama, com seu macaco e seu cachorro, esperando por Olvia 
para juntar-se a ele.
       - Sinto muito. - Victoria olhou para ela, mortificada por seu prprio comportamento.  No sei o que aconteceu. Apenas me sinto muito cansada de ouvir o quanto 
ele  adorvel. 
       Assustou Olvia entender que sua irm estava com cimes dele.
       - Voc deve desculpas a Charles - disse Olvia gentilmente, sentindo muito por ambos.
       Eles pareciam estar sofrendo muito. At Geoff comentara isso. Ele disse que Victoria e seu pai brigavam todos os dias no caf da manh e todas as noites no 
jantar. Ele no parecia se incomodar com aquilo, apenas contara como algo que eles faziam, como dizer gracinhas nas refeies ou cantar.
       - Vou pedir. - Ento ela suspirou e deitou sua cabea de volta contra a poltrona com um olhar cansado para sua irm. - Suponho que ser assim para sempre. 
Dois estranhos zangados, presos numa pequena casa com uma criana especialmente irritante e sem absolutamente nada em comum.
       Olvia no pde fazer nada, a no ser sorrir do que ela dissera. Soava muito exagerado para ela, mas era obviamente como Victoria via aquilo. - Voc certamente 
pinta um quadro bem bonito.
       - No , Ollie. Nem por um minuto. No tenho idia do que estamos fazendo juntos. E nem ele, se for honesto.
       - Talvez vocs devessem pensar mais sobre isso - sugeriu Olvia e ento, de mos dadas, ambas voltaram para Charles e seu pai.
       E quando entraram no aposento, Charles olhou bem dentro dos olhos de Olvia e sorriu melancolicamente para ela. A sinceridade de seu olhar sempre fazia seu 
corao doer.
       - Est se sentindo melhor? - perguntou ele quando ela se aproximou.
       - Eu... sim... - Ela no sabia o que dizer e Victoria riu da confuso.
       - Ela est bem. Eu sou a malvada com quem voc se casou. E peo desculpas por meu mau comportamento.
       A confuso que ele fez com elas serviu para desanuviar o momento e Olvia corou, compreendendo o que acontecera. Elas estavam usando o mesmo vestido como 
sempre e haviam feito o cabelo exatamente da mesma maneira. Ainda era muito fcil confundi-las e a mais recente caracterstica de sua esposa, de ter se tornado silenciosa, 
que a identificaria facilmente, desaparecia quando ela estava perto da irm.
       Todos ficaram com o humor melhor depois daquilo e tiveram um fim de semana agradvel. Mas Victoria parecia particularmente fria quando chegou a hora de voltar 
para casa. Ela passara horas conversando com o pai sobre a Batalha dos Ypres na Frana e fora muito confortvel estar ali com ele e Ollie. Ela odiava ir para casa 
agora e deix-los. Ela e Charles foram na frente do Packard e Geoff atrs, com Chip e o macaco Henry e todas as suas bolsas, e por um longo momento Olvia ficou 
olhando para eles, desejando que pudesse mant-los ali para sempre.
       - Seja uma boa garota - sussurrou ela para sua irm gmea - ou terei de ir at a cidade para bater em voc.
       - Prometa-me que voc vai fazer isso. - Victoria sorriu para ela, parecendo muito triste novamente, desejando que ela pudesse vir com eles. 
       Todas as vezes que deixavam uma  outra, ela sentia uma pequena parte dela morrer e assim tambm se sentia Ollie. E enquanto Charles as observava silenciosamente, 
ele via aquele lao entre elas que sempre o fascinava. Era um lao que ele sabia que jamais teria com ela, nem se vivessem cem anos juntos. Um lao que ningum mais 
poderia ter, com nenhuma delas. Era algo que se formara entre elas bem antes do nascimento e que iria at bem depois. Elas eram feitas do mesmo tecido, como dois 
vestidos feitos de uma s vez, sem costura, sem rasgos, sem diferenas. No havia um lugar onde uma comeava e a outra terminava. Aos olhos dele, s vezes, mesmo 
parecendo to diferentes como pareciam, ou diziam que eram, elas eram quase que uma pessoa s. 
       E, ainda assim, a mulher que foi a seu lado no carro para Nova York no tinha nada da gentil suavidade de sua irm. Ela tinha todas as idias brilhantes de 
algum muito interessante, mas muito diferente. Como os dois lados da mesma moeda talvez. Cara, voc ganha... coroa, voc perde... e ele sabia que no momento ele 
havia perdido o movimento da moeda. Victoria jamais seria fcil.
       - Como eu posso saber que gmea est no carro comigo? - disse ele, brincando, enquanto iam para casa, num esprito um pouco melhor depois de um Dia de Ao 
de Graas muito agradvel, que Olvia preparara para todos. 
       A refeio em si fora extraordinria, bem como todos os jantares e todos os vinhos. Seu quarto fora perfeitamente arrumado para eles, e os empregados atenderam 
a todas as suas necessidades do momento em que chegaram ao momento em que partiram. Olvia era uma perfeita dona de casa.
       - Voc no sabe. Esta  a graa - brincou Victoria e ambos riram 
       Ele ainda estava embaraado por t-las confundido na noite de Ao de Graas e sempre achara que seria realmente embaraoso cometer um erro como aquele ou 
outro ainda pior. Aquilo o fazia tomar um cuidado especial com o que dizia s duas sempre que estavam em Croton ou em sua casa em Nova York. Ele se sentiria um perfeito 
tolo se dissesse algo indiscreto e no queria embaraar Olvia. Mas Victoria gostava da idia de causar embarao s pessoas e ainda contou a ele outra histria escandalosa 
sobre sua troca na escola quando eram crianas.
       - No sei por que voc acha isso to engraado - reprovou-a Charles. - Acho que seria muito embaraoso e realmente horrvel. E se algum dissesse algo que 
voc no quisesse ouvir? - S de pensar naquilo ele ficava nervoso.
       - Olvia e eu no temos segredos.
       - Espero que isso no seja mais verdade. 
       Ele olhou para ela atentamente e ela deu de ombros com um sorriso e ento Geoff levantou a voz no banco de trs e contou ao pai tudo sobre seu cavalo e um 
show de cavalos no prximo vero no qual Olvia dissera que ele poderia cavalgar.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
DEZOITO
       
       
       
         As semanas aps o Dia de Ao de Graas voaram, com os preparativos para o Natal: comprar presentes, fazer coisas e um grande nmero de festas para ir. 
Foi um pouco embaraoso quando foram a uma festa de Natal nos Astor e Tobby e sua esposa estavam l, mas, com exceo de poucos minutos sozinha no jardim com ele, 
Victoria pareceu evit-lo completamente.
       Tobby tentara falar com ela, que estava fumando um cigarro tranqilamente quando se voltou e o viu. Ela comeou imediatamente a sair de perto dele, mas ele 
agarrou seu brao e puxou-a para si. E apenas seu toque provocou um longo e lento tremor atravs dela.
       - Tobby, no... por favor... - Seus olhos se encheram de lgrimas e imploraram a ele. Sem nem mesmo saber, ele j havia arruinado seu casamento.
       - Eu apenas quero falar com voc... - Ele estava mais bonito que nunca e ela percebeu que estivera bebendo. - Por que se casou com ele? - perguntou ele, parecendo 
ferido e ela desejou gritar o mais alto que pudesse com seus pulmes e bater nele. Era tudo culpa dele. Se ele no tivesse dito nada, tudo teria sido diferente.
       - Voc no me deixou escolha - disse ela, tentando parecer fria para ele, mas sentindo coisas que no sentira em um ano e no queria sentir.
       - O que isso significa? Voc no estava... - Ele pareceu confuso. No ouvira nada sobre um beb e sabia que ela s se casara muitos meses depois... era apenas 
muito ruim a maneira como as coisas aconteceram... fora divertido... para ele...
       - Voc disse a todos que eu seduzi voc - disse ela, parecendo machucada e sentindo a dor daquilo novamente, enquanto olhava dentro de seus olhos, querendo 
odi-lo.
       - Foi s uma brincadeira.
       - No muito boa. - Ela deu de ombros, escapuliu dele e voltou para a sala de estar, onde viu Charles esperando por ela.
       E ele pareceu assustado quando viu Tobby entrar logo depois dela, mas no fez perguntas no caminho para casa. Ele no queria saber. E ela no tinha nada para 
contar a ele. A brincadeira fora com ela. E agora ela tinha de viver com o que Tobby fizera com sua alma e sua reputao.
       Mas Victoria ficou surpresa quando teve notcias de Tobby novamente. Ele mandou flores para ela no dia seguinte  festa dos Astor. Anonimamente, claro, mas 
ela soube que eram dele. Duas dzias de longas rosas vermelhas. No havia mais ningum em sua vida que pudesse t-las mandado. E apesar das sensaes fsicas que 
ela ainda parecia sentir por ele, pegou as rosas e jogou-as no lixo. Ele mandou um bilhete depois disso, assinado apenas T. e pedindo a ela para encontr-lo, mas 
ela no respondeu quilo tambm. No importa o que ainda sentisse por ele, ela no desejava retomar seu caso. No importa o que tivesse sido, estava definitivamente 
acabado.
       Como sempre, ela e Charles tomaram cada qual seu caminho e nada foi dito sobre seu encontro com Tobby. E todos estavam de bom humor quando partiram para Croton 
para passar o Natal. Encheram o carro com presentes e comida e Victoria lembrou-se de seu presente para Geoff. Ela comprara um complicado jogo para ele, que a mulher 
na loja assegurara que era tudo o que um garoto de dez anos gostaria de ganhar no Natal.
       Victoria e Charles falaram sobre a guerra quase todo o caminho para Croton. Mais que o sufragismo, aquilo se tornara sua maior fascinao, e ela estava extremamente 
interessada, o que impressionou Charles, mas ele no gostava de falar sobre aquilo tanto quanto ela. Naquele momento, o front ocidental na Europa se solidificara 
numa trincheira de oitocentos quilmetros do Mar do Norte aos Alpes suos, com franceses, ingleses e belgas lutando contra os alemes.
       - Ns jamais entraremos nisso, Victoria, e  melhor para ns - disse ele de maneira prtica. Os americanos estavam vendendo munio e armas para qualquer 
um que as comprasse.
       - Acho isso muito desagradvel - disse ela calorosamente. Ns devemos ir l e matar as pessoas ns mesmos. Em vez de ficar em casa, fingindo hipocritamente 
manter nossas mos limpas.
       - No seja to purista, pelo amor de Deus - disse ele, surpreso com o quanto ela era ingnua. - Como voc acha que so feitas as fortunas? O que voc acha 
que a fbrica de ao de seu pai fazia?
       - Me deixa doente pensar sobre isso - disse ela, olhando pela janela, pensando nos homens passando o Natal nas trincheiras na Europa. Parecia errado at mesmo 
celebrar, sabendo o que os alemes estavam fazendo a eles, mas ningum mais ali parecia entender aquilo. - Graas a Deus ele a vendeu! - disse ela suavemente, triste 
com o fato de Charles no partilhar de nenhuma de suas paixes. Ele era bem mais prtico e tinha os ps no cho, sempre preocupado com seu trabalho legal e preocupado 
com Geoffrey.
       Quando chegaram a Croton, Victoria achou que seu pai estava doente novamente e desta vez o resfriado que ele pegara duas semanas antes j virara pneumonia. 
Ele parecia fraco e magro e desceu apenas brevemente na manh de Natal. Eles estavam abrindo seus presentes e ele deu s duas filhas colares de diamantes idnticos 
e muito bonitos. Elas estavam trmulas e ambas os colocaram sobre camisolas idnticas, como disse Charles, para confundir ainda mais a todos. Ele disse que receava 
dar o presente errado  mulher certa, ou vice-versa. 
       Mas deu  esposa um adorvel corpete e um par de brincos de diamantes que caam perfeitamente bem com o colar de seu pai. E, com um casto beijo no rosto, 
deu a Olvia um xale bem quente e um livro de poesias. Victoria ficou assustada ao notar mais tarde que o livro fora de Susan.
       - Por que ele daria isso a voc? - Victoria parecia confusa. 
       - Talvez o aborrecesse ficar com ele. E voc odeia poesia. Ele no poderia dar a voc, 
poderia? 
       Ela sorriu, sentindo-se um pouco estranha. Mas era um livro que ela conhecia e amava, e Olvia ficara tocada por sua dedicatria. Ele soubera exatamente do 
que ela gostaria. 
Aparentemente, fora um dos favoritos de Susan.
       Mas a verdadeira exploso aconteceu quando Olvia deu a Geoffrey duas pequenas armas, um canho antigo e um exrcito inteiro de pequenos soldados. Seus uniformes 
eram realmente perfeitos e havia soldados franceses e alemes, ingleses e australianos. Ela os encomendara meses antes, e ele estava extasiado, enquanto Victoria 
encarava a irm, ultrajada.
       - Como voc pde dar algo assim a ele? - disse ela, num tom de voz muito alto para a manh de Natal. Mas ela estava literalmente tremendo. - Como voc pde 
dar a ele algo to revoltante? Por que no cobri-los todos de sangue, pelo amor de Deus? Seria bem mais honesto se voc tivesse feito isso. 
       Havia lgrimas em seus olhos e ela estava genuinamente preocupada com os presentes de sua irm. E a situao se tornou ainda pior quando ficou bvio que ele 
achou o complicado jogo de Victoria, impossvel de entender e muito chato.
       - Eu no tinha idia de que voc ia se opor... - Olvia parecia desapontada. - So apenas brinquedos, Victoria. E ele gosta deles. Ele adora brincar de soldado.
       - No sei e no ligo para o que ele gosta. H homens morrendo aos milhares l fora, em trincheiras por toda a Europa. No  um jogo, no  divertido. So 
homens que as pessoas amam... e voc est fazendo deles pequenos brinquedos. No posso tolerar isso! 
       Ela afastou-se com lgrimas nos olhos e Geoffrey perguntou a seu pai num sussurro preocupado se teria de devolv-los para tia Ollie. Charles sacudiu a cabea 
acalmando-o, e pouco mais tarde ele e Victoria se vestiram e saram para uma caminhada at o local onde sua me estava enterrada.
       - No acho que voc devesse ter ficado to preocupada - disse ele gentilmente. - Sua irm no queria causar nenhum dano. No acho que ela tenha entendido 
a violncia de seus sentimentos. 
       Nem ele tinha, por aquele assunto. De fato, ele no entendia quase nada sobre ela e ambos o sabiam.
       - No posso mais continuar com isso - disse ela, olhando para ele miseravelmente. - No posso ser sua esposa. No fui talhada para isso, Charles. Todo mundo 
pode ver isso menos voc. At Geoff sabe. - Ela se sentia horrvel sobre o presente e mesmo sobre o livro que ele tinha dado a sua irm. No que estivesse com cimes 
dela, apenas sentia como se estivesse constantemente nos sapatos errados e estava cansada disso. - Foi um erro meu deixar papai me empurrar para este casamento. 
Eu deveria t-lo deixado me mandar embora para algum lugar e me esquecer. Simplesmente no posso mais.
       Ela comeou a soluar e ele parecia extremamente infeliz. Ento ele decidiu perguntar a ela o que estivera perguntando a si mesmo desde a festa nos Astor.
       - Voc o est vendo novamente?  isso? - perguntou ele desoladamente, enquanto ela olhava para ele, imaginando como ele sabia que Tobby tinha sequer tentado 
voltar para sua vida. Teria sido mais simples se ela tivesse deixado, mas ela tambm no queria aquilo agora.
       - No, no  isso - disse ela friamente. -  o que voc pensa? Que estou traindo voc? Queria estar, seria mais interessante. 
       Mas ela sentia muito por dizer aquilo tambm. Ela sentia muito por tudo, mas simplesmente no podia mais. E ele no disse nada enquanto ficavam ali, prximo 
ao tmulo de sua me, enquanto Victoria chorava e ele se sentia totalmente paralisado.
       - No sei o que dizer. 
       Ele sentia por ter mencionado Tobby, mas imaginara aquilo quando a cozinheira contara a ele sobre as rosas que ela jogara fora. Ela achava que era um desperdcio 
chocante, no podia imaginar quem o fizera e queria contar a ele sobre aquilo antes que algum mais o fizesse. Ela at mesmo resgatara o carto, que dizia apenas: 
"Por favor, me encontre." Mas aquilo dissera tudo a ele, ou pelo menos ele pensara que sim. Mas aparentemente ele estava errado. No que aquilo mudasse nada do que 
Victoria estava dizendo.
       - Voc quer que eu v embora? - Ela se virou e olhou para ele em desespero e desta vez ele chegou mais perto e colocou um brao em torno dela.
       - Claro que no. Quero que voc fique. Ns vamos conseguir. Foram apenas seis meses. Dizem que o primeiro ano  o mais difcil em qualquer casamento. - Mas 
no fora assim para ele antes. O primeiro ano com Susan fora idlico. - Vou tentar ser mais razovel e voc tente ser mais paciente. O que voc quer fazer com Geoffrey 
e seu pequeno exrcito? No acho que ele esteja ansioso para desistir dele, mas se voc quiser vou conversar com ele.
       - No. - Ela assoou o nariz no leno dele e desejou ter um cigarro. - Ele iria me odiar por isso, mais do que j odeia. Aquele jogo que comprei para ele era 
muito estpido. No sei do que ele gosta, e a mulher na loja disse que ele ia adorar. No posso nem mesmo entender o que aconteceu.
       - Nem eu - sorriu. - Mas vou aprender. Posso aprender qualquer coisa - disse ele gentilmente - se voc me ensinar. 
       Mas ela no queria ensinar nada a ele. Ela queria sair correndo. Era tudo em que ela podia pensar.
       Eles finalmente andaram vagarosamente de volta para a casa e ambos pareciam consideravelmente mais calmos, mas naquela tarde ela foi encontrar Olvia, que 
estava separando roupas de cama com Bertie.
       - Sinto muito sobre as armas - disse Olvia, parecendo genuinamente arrependida quando Bertie as deixou. - No tinha idia de que elas iam preocup-la tanto.
       Elas estavam usando vestidos verdes idnticos e cada uma tinha brincos idnticos de esmeralda. Ambas amavam estar juntas novamente e trocaram um sorriso silencioso 
que falou alto.
       - Est tudo bem. Talvez eu seja mesmo uma estpida. Fiquei muito envolvida no que est acontecendo por l e  to real para mim. s vezes esqueo que no 
fazemos parte daquilo. Estou satisfeita que pelo menos papai tenha vendido a fbrica de ao, embora eu aposte que ele no est nada satisfeito. Eu provavelmente 
estaria fazendo demonstraes do lado de fora e sendo presa. 
       Ambas sorriram de sua honestidade e Victoria sentou-se numa poltrona prxima a sua irm. E Olvia pde ver imediatamente, antes mesmo que ela falasse, que 
sua irm queria algo. Levou um minuto, mas Victoria olhou para ela melancolicamente e falou num sussurro conspirador. 
       - Voc tem que me tirar disso, Ollie. Pelo menos por um tempo. Antes que me deixe completamente louca. Simplesmente no posso mais. Olvia olhou para ela 
desconfortavelmente, preocupada com o que ela ia pedir, mas j podia imaginar e no queria escutar.
       - Ser que eu deveria dizer no antes que voc pea ou deixar voc pedir e ento dizer a voc que no quero ouvir isso?
       Victoria baixou ainda mais sua voz.
       - Ollie... troque comigo, por favor... s um pouco... deixe-me ir a algum lugar, por favor, s para pensar... no sei o que estou fazendo. 
       Seus olhos imploraram  irm que a escutasse e Olvia pde ver facilmente o sofrimento que ela estava sentindo, mas estava certa de que trocar de lugar com 
ela no era a soluo. Victoria tinha de encarar aquilo. Ela fizera um arranjo, Charles era um bom homem e ela tinha apenas de se ajustar a tudo. Fugir no ia tornar 
nada melhor. Mas Olvia sacudiu a cabea enquanto escutava.
       - Voc est certa, voc no sabe o que est fazendo - disse ela num sussurro. - Trocar de lugar seria desastroso. E se ele descobrisse? O que eu tenho de 
fazer? No posso fingir que sou mulher dele. Ele saberia em cinco minutos. E mesmo que no soubesse, no  certo fazer isso. Victoria, eu no vou fazer isso - disse 
ela e Victoria sabia que ela falava srio. Lgrimas encheram seus olhos e ela agarrou a mo da irm e implorou.
       - Eu sei que  errado. Mas foi errado quando trocamos na escola e tambm foi errado quando voc mentiu por mim e fingiu que era eu. Ns fizemos isso mil vezes. 
E eu juro, ele nunca vai saber... ele no pode nos diferenciar e voc sabe disso.
       - Ele vai acabar entendendo. Ou Geoff vai. Depois, eu no vou nem mesmo conversar sobre isso com voc. No! Voc me escutou?
       Ela no estava realmente zangada com ela, mas queria estar certa de que Victoria sabia que aquela no era uma opo. Mas Victoria nem discutiu. Apenas assentiu, 
levantou e olhou para Olvia desesperada, o que tornou aquilo ainda pior. E ento ela se afastou vagarosamente de sua irm.
       Elas no falaram sobre a troca novamente durante sua estadia, mas Victoria parecia extraordinariamente derrotada quando partiram. E Olvia ficou preocupada 
com ela. Queria ir  cidade ver como ela estava em uma semana ou duas, mas seu pai piorou novamente e a pneumonia voltou violentamente. Foi um enorme problema para 
ele, e depois foi Olvia quem ficou de cama com um caso grave de gripe. E j era fim de fevereiro quando Olvia ficou pronta para voltar  cidade. Mas nada mudara 
entre eles. Victoria estava no mnimo mais sensvel com tudo. Ela parecia brigar com todo mundo mais facilmente. E Charles parecia estar ainda pior do que ela. 
       E, no segundo dia em que Olvia estava l, Geoff ficou com febre. Victoria estava fora quando Olvia descobriu. No fim da tarde ele estava quase delirando 
e Olvia havia chamado o mdico. Chamou Charles no trabalho tambm e ele foi direto para casa para v-lo.
       - Onde est ela? - perguntou ele sobre Victoria e Olvia teve de admitir que no tinha idia, embora odiasse faz-lo.
       E ento comearam a surgir manchas e ele teve uma tosse horrvel. O mdico disse que era um caso grave de sarampo. Victoria voltou para casa s sete horas 
naquela noite, depois de uma leitura particularmente interessante no Consulado Britnico sobre a crueldade dos submarinos alemes. Eles haviam acabado de formar 
um bloqueio na Inglaterra. Houvera um lanche depois e Victoria fora atrada pelas prolongadas discusses. Ela nem mesmo pensara em telefonar para Charles e avisar 
que chegaria atrasada para o jantar. Esperava que ele tambm chegasse tarde, mas para seu azar ele estivera em casa toda a tarde com Geoffrey. Olvia estava calmamente 
limpando a fronte da criana com uma esponja quando ela entrou e havia um silncio na casa que apenas acontecia em eventos de morte ou doena grave.
       - O que aconteceu com ele? - sussurrou Victoria para ela da porta quando o viu e Olvia andou na ponta dos ps at ela, parecendo sua prpria imagem se aproximando 
no espelho.
       - Ele pegou sarampo. Pobre garoto! Est realmente muito doente. Queria que estivesse comigo em Croton. Estava pensando em mandar Bertie. Ele vai ficar mal 
por duas semanas e provavelmente vai se sentir horrvel. Eu posso ficar, se voc quiser. - Ela olhou para Victoria mas j sabia a resposta.
       - Oh Deus... por favor... como est Charles? - Ela queria saber se ele estava zangado.
       - Acho que ele estava preocupado com voc. 
       Era uma maneira polida de dizer que ele estava furioso com seu atraso e suspeitando de onde ela havia ido, mas ele disse isso tudo a ela naquela noite em 
seu quarto.
       - E onde voc disse que estava? - perguntou ele grosseiramente pela segunda vez. O tipo de tom que ele adotara com ela no combinava com ele.
       - Eu disse a voc. No Consulado Britnico. Numa palestra sobre submarinos.
       - Que fascinante! Meu filho com uma febre de quarenta graus e voc aprendendo sobre submarinos. Fantstico!
       - No sou clarividente, Charles. No sabia que ele ficaria doente hoje - disse ela calmamente. 
       Mais calma do que se sentia. Nos ltimos oito meses, eles haviam se tornado especialistas em brigas. Sem dvida melhores que os capites dos submarinos e 
certamente to mortais quanto as deles.
       - Voc deveria estar aqui com ele - gritou ele para ela. - Eu no deveria precisar vir do escritrio porque ningum consegue encontrar a me dele.
       - A me dele est morta, Charles. Eu estou apenas substituindo-a - disse ela friamente.
       - E no muito bem, eu deveria acrescentar. Sua irm d mais ateno a ele do que voc.
       - Ento voc devia ter se casado com ela. Ela seria uma esposa bem melhor. Ela tem muito mais dotes domsticos do que eu.
       - Seu pai no a ofereceu para mim. Ele ofereceu voc -- disse ele infeliz, odiando a si mesmo pela espcie de coisas que disse a ela. 
       Mas sua vida juntos fora um desapontamento completo para ambos e nenhum deles sabia o que fazer com aquilo. No havia sada. Eles simplesmente tinham de viver 
um com o outro at que aquilo os matasse. Ela j havia mencionado o divrcio a ele, mas para Charles aquilo estava fora de questo.
       - Talvez se voc voltar a papai, ele queira nos trocar uma pela outra. Como sapatos que no servem. Por que voc no pergunta a ele? - resmungou ela, sentindo-se 
to presa quanto ele. 
       E o fato de que no tinham mais qualquer relacionamento fsico havia virtualmente dado fim ao que quer que pudesse ter havido entre eles. Sua ltima e v 
tentativa de fazer amor havia sido em janeiro e os dois haviam prometido silenciosamente que jamais tentariam novamente. E no haviam tentado. Era muito desapontador 
e ainda mais deprimente. Era apenas um reflexo de todas as suas desgraas e de tudo o que jamais fora e nunca poderia ser. Charles estava determinado a nunca mais 
encostar a mo nela, mesmo se isso significasse ficar em abstinncia para o resto de sua vida. No seria pior que isso. E Victoria sentia o mesmo. Ela no tinha 
desejo nenhum de continuar frustrando a ele e a si mesma sem propsito.
       - No acho suas sugestes engraadas - disse ele sombriamente para a esposa. - Nem seu comportamento. E espero v-la aqui todos os dias com nosso filho... 
meu filho, se voc prefere assim... com sua mo em sua testa, ou dando sopa de carne a ele at que ele se recupere. Est claro?
         - Sim, senhor - disse ela, fazendo uma reverncia como uma empregada numa pea francesa da Broadway. E ento, mais seriamente: - Voc se importa se minha 
irm ficar para me ajudar?
       - Para tomar conta dele por voc,  o que quer dizer - disse ele cruelmente, mas era a verdade e Victoria sabia. Ela no tinha idia de como cuidar de crianas 
doentes. - No me importo com qual das duas tome conta dele. No consigo mesmo saber a diferena entre vocs - disse ele parecendo perturbado - contanto que uma 
de vocs o faa.
       - Vou cuidar disso - disse ela e deixou o quarto para encontrar a irm. 
       Ela desejava poder dormir com a irm naquela noite, mas sabia que aquilo enfureceria Charles ainda mais. Embora ele no tivesse inteno de encostar a mo 
nela, no queria que outras pessoas soubessem de sua vida, especialmente sua irm.
       - Como est ele? - perguntou Olvia suavemente a respeito de Charles, do p da cama de Geoffrey. Ele estava dormindo e a febre ainda no baixara.
       - Nada satisfeito, para dizer o mnimo. 
       Victoria sorriu para ela. Mesmo sob essas circunstncias, era bom estarem juntas. Era quase um alvio estar com ela, poder falar com ela e fazer confidncias, 
quantas ousasse. Era realmente embaraoso admitir para ela o quanto seu casamento se havia deteriorado, mas ela podia sentir que Olvia sabia de qualquer forma e 
ela o ouvira gritando.
       No fim elas ficaram juntas por quase um ms, na pequena casa do East River. Geoffrey ficou doente por trs semanas e Olvia nunca o deixava sozinho nem por 
um momento. Charles sabia disso, embora tivesse a impresso de que Victoria tomara conta dele ao menos um pouco. Ele a vira sentada em sua cama s vezes e ficara 
aliviado com isso. O que ele no sabia  que sempre era Olvia e que ela o deixara pensar que era sua irm. Era o nico engano que ela permitiria. Mas pelo menos 
Victoria no lhe pedira para trocar de lugar de novo, como o fizera no Natal e Olvia ficava aliviada ao pensar que ela voltara  sensatez sobre o assunto.
       As relaes entre eles pareciam tensas, mas Olvia ainda estava convencida de que, com o tempo e com amor de ambas as partes, eles conseguiriam. Talvez at 
se houvesse uma criana, mas Victoria no lhe contara que no havia chance e nunca haveria. Ela tambm no contara  irm que Charles recentemente repetira a acusao 
de que ela estava vendo Tobby. Ele achava difcil acreditar que uma mulher que antes j havia esquecido tanto de si mesma e desejara arriscar tudo por um homem estivesse 
agora querendo desistir de tudo e viver como uma freira. Particularmente desde que ele nunca sabia onde ela estava ou onde havia ido.
       Suas atividades eram todas realmente inofensivas, mas ela achava que no era da conta dele o que ela fazia e particularmente a espcie de pessoas com quem 
ela vinha se encontrando ultimamente. Ela conhecera um general na Embaixada Francesa e muitos coronis no Clube Britnico, que incutiram nela a idia da grande necessidade 
das pessoas irem  Europa e fazerem qualquer coisa que pudessem para ajudar as pessoas que estavam morrendo por l. Seus apelos a haviam impressionado. Mas ela tambm 
no disse nada sobre isso a Olvia.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
DEZENOVE
       
       
       
       Quando finalmente voltou para casa no fim de maro, Olvia estava absolutamente exausta. Fora um esforo estar com eles naquela pequena casa; tomar conta 
de Geoffrey tomara toda a sua ateno e energia. Era um alivio estar de volta ao ar puro novamente e cavalgar sua gua. E, por mais que a amasse, foi um alvio no 
ver sua irm ou sua famlia at a Pscoa. 
       Eles foram para Croton ento, e estavam todos mais abatidos este ano. Victoria e Charles sentiam como se tivessem estado na guerra por dez meses e Geoffrey 
ainda estava esgotado aps o sarampo. Mas Olvia cuidara bem dele e Geoffrey tivera uma recuperao completa. Duas garotinhas em sua classe haviam morrido na epidemia. 
Olvia ficou particularmente agradecida por ele estar passando bem quando ouviu sobre elas. 
       Charles agradeceu a ela uma tarde, enquanto andavam pelos jardins e seu corao se abriu para ele enquanto olhavam para o rio Hudson em silncio. Ela sentia 
um grande sofrimento nele. Ele sabia o que fizera. Uma vez amara muito e agora tinha arranjado algo menor num momento de loucura. Ele pensara que estava fazendo 
isso por seu filho, mas na verdade ele tambm quisera proteger a si mesmo de futuros sofrimentos e errara ao fazer isso.
         Ele olhou para Olvia por um longo momento e no disse nada a ela. Ento eles se viraram e voltaram para casa. Ela enfiou uma das mos em seu brao e s 
sentir sua empatia por ele emocionou-o tanto que ele gentilmente se afastou dela. Era muito doloroso estar perto de qualquer pessoa agora, particularmente da irm 
mais misericordiosa de sua esposa. Ele no queria ser lembrado do quanto estava perdendo em seu casamento. E embora ficasse machucada quando ele se afastou, Olvia 
instintivamente entendeu aquilo.
       Olvia estava comeando a pensar que sua irm estava se resignando a seu destino tambm, quando ela subitamente entrou em seu velho quarto no dia anterior 
a sua partida e olhou longa e seriamente para a irm.
       - Tenho de falar com voc - disse Victoria, parecendo tensa e por um louco momento Olvia esperou que ela fosse contar que estava grvida. 
       Seria a resposta para tudo, um elo que finalmente os uniria. Mas ela no estava preparada para o que Victoria disse em vez disso. Ela ficou bem perto dela, 
olhou dentro de seus olhos e tocou o rosto de Olvia com os dedos.
       - Estou partindo.
        - O qu?
       - Voc me ouviu. Olvia, eu tenho de fazer isso. No posso mais suportar nem por um momento.
       - Mas voc no pode fazer isso com eles. Como voc pode ser to egosta? 
       Ela nem mesmo pensara em si mesma ainda e no que significaria para ela se Victoria se fosse. Tudo em que ela podia pensar agora era em Charles e Geoffrey.
       - Isso vai acabar me matando se eu ficar, estou absolutamente certa disso, Ollie. - Ela andou pelo quarto, olhando vez por outra para a irm, e ento parou 
e encarou-a. -Troque comigo, por favor. Eu vou de qualquer maneira... mas pelo menos assim voc vai cuidar deles, se est to preocupada com eles.
       - Mas para onde voc vai? - Olvia estava horrorizada com o que estava ouvindo.
       - Europa - disse ela em tom confidencial. - Frana, eu acho. Posso trabalhar atrs das fileiras. Posso dirigir uma ambulncia se tiver de fazer isso, sou 
uma boa motorista.
       - Diga isso a papai - disse Olvia entre lgrimas - e seu francs  terrvel. Eu fiz todos os seus exames por voc - disse ela, comeando a chorar abertamente 
ao pensamento de perder a irm.
       - Eu vou aprender... Oh, Ollie no chore, por favor... apenas faa isso por mim. Uma ltima vez. Trs meses. Isso  tudo o que eu quero. Vou embarcar em trs 
semanas e volto no fim do vero. Tenho de fazer isso! Passei toda a minha vida lendo sobre as coisas, indo a encontros, me preocupando com causas. Sempre estive 
 margem, nunca fiz nada importante. Nunca fiz nada por ningum... no como voc, voc faz isso aos poucos, mas voc se destaca. Eu nunca fiz nada. 
       Ela parecia to determinada que assustou sua irm. Olvia compreendeu novamente que elas eram, de fato, muito diferentes.
       - Fique aqui e voc pode dobrar roupas de cama para mim. Voc no tem de ir a lugar algum. Voc pode me ajudar a replantar o jardim... Oh, Victoria - ela 
soluou - no v... por favor... e se alguma coisa acontecer a voc? 
       Ela no podia suportar aquele pensamento de perd-la por um dia ou uma hora, de ser deixada sozinha para sempre. Era difcil o suficiente se acostumar com 
ela vivendo em Nova York, mas pelo menos era a apenas uma hora de distncia. E tirava todo o autocontrole de Olvia no estar constantemente com ela.
       - No vai acontecer nada comigo, eu juro. 
       As duas irms se abraaram fortemente no quarto em que dormiram juntas por vinte anos, at o casamento de Victoria e que agora, sem ela, parecia to vazio. 
       - No posso viver mais assim. Ns somos errados um para o outro. Um dia teremos que deixar um ao outro, ou talvez depois que eu me v, as coisas fiquem diferentes.
       - Por que voc no diz isso a ele? - disse Olvia sensivelmente, assoando o nariz no leno. - Por que voc no explica isso a ele? Ele  um homem inteligente, 
ele vai entender.
       - Ele nunca vai me deixar ir - disse Victoria com segurana e Olvia no podia lhe dizer honestamente que no concordava com ela. 
       - E se eu tomar seu lugar? - Olvia olhou para ela pensativamente - Eles ento vo pensar que eu me fui? - Olvia subitamente pareceu assustada. Combinava 
to pouco com ela!
       - Ns poderamos dizer que voc foi  Califrnia por alguns meses, apenas para pensar, porque  muito difcil para voc ficar sem mim.
       - Todos vo pensar que sou um monstro por deixar papai. At eu. At ele - disse ela, sacudindo novamente a cabea. 
       Ela simplesmente no podia fazer isso. Mas Victoria realmente a fizera pensar no assunto.
       - Acho que papai entenderia - disse Victoria esperanosamente, gostando do fato da conversa ter ido to longe e subitamente muito excitada. 
       E ento Olvia olhou para ela e sacudiu a cabea. Ela pensara em algo mais. Era impossvel. Ela no ia fazer aquilo por sua irm. Mas Victoria j sabia em 
que ela estava pensando. 
       - Ele no vai tocar em voc. No h mais nada entre ns. H meses. E no haver novamente. Nenhum de ns quer. - Olvia ficou chocada ao ouvir aquilo. Todo 
este tempo ela esperara que houvesse um beb.
       - Por qu? - Ele parecia to vital, to vivo e to quente e ainda era to jovem. Ela no podia entender e imaginou subitamente se era sua irm a culpada por 
aquilo.
       - No sei por que - disse Victoria pensativamente. - Muitos fantasmas... Susan... Tobby... algo est errado entre ns, e ambos sabemos. Acho que simplesmente 
no amamos um ao outro.
       - No acredito nisso - disse Olvia firmemente.
       -  verdade - disse Victoria, olhando duro para ela. - Ns no fazemos. Eu no o amo, Ollie. No acho que jamais o amarei. No h nada e jamais haver.
       - E quando voc voltar? O que vai ser diferente ento?
       - Talvez eu tenha a coragem de realmente deix-lo. - Olvia ficou devastada ao ouvir aquilo.
       - E se eu no trocar com voc?
       - Vou partir de qualquer maneira. No vou contar a ele onde fui; no quero que ele me encontre. Vou voltar quando estiver pronta. Vou escrever para voc, 
na casa da Quinta Avenida. Voc pode pegar as cartas l facilmente e ningum saber.
       Ela pensara em tudo e, quanto mais ouvia, mais chocada Olvia ficava. O maior empecilho para ela era seu pai. Estava com medo de partir seu corao, mas o 
lao entre as gmeas era mais forte que o lao com ele e ela o sabia. Sempre se sentira arrastada por tudo o que sua irm queria. E ainda assim isso era uma loucura 
total, e sabia disso. No podia tomar seu lugar com um marido e uma criana, era uma coisa insana, e ento ela pensou em Geoffrey.
       - Geoff saberia, Victoria. Ele  o nico a quem no podemos enganar, exceto Bertie.
       - Voc pode, se quiser. Basta agir mais como eu. No seja to agradvel com ele.  Ela sorriu, e Olvia balanou um dedo para ela. 
       - Tome vergonha! Como voc pode dizer isso?
       - Porque sou horrvel e amo voc... tudo bem, eu vou ser melhor com ele nas prximas trs semanas e com Charles tambm e ento no ser uma mudana to grande 
para eles quando voc tomar meu lugar. Vou parar de fumar inteiramente... Oh Deus, que pensamento... - ela sorriu - e eu vou beber apenas um pouco de xerez e s 
quando Charles me oferecer. 
       Ela estava sorrindo de orelha a orelha e Olvia parecia uma noiva relutante enquanto olhava furiosamente para sua irm.
       - Esses so grandes sacrifcios - disse ela sarcasticamente e ento olhou seriamente para sua irm. - O que a faz pensar que eu vou fazer isso? - perguntou 
timidamente.
       - Voc vai? -Victoria prendeu a respirao enquanto esperava. 
       - No sei.
       - Voc vai pensar sobre isso?
       - Talvez. 
       Era uma chance de estar com eles e, mais importante, uma oportunidade de manter Victoria longe de destruir completamente seu casamento. Se Olvia tomasse 
seu lugar, ela deveria ser capaz de fazer com que Charles jamais soubesse que ela se fora, e ento Victoria poderia voltar e retomar tudo, tendo voltado ao bom senso. 
Ele jamais deveria saber que aquilo acontecera. Mas se Olvia no tomasse seu lugar, Victoria simplesmente partiria em trs semanas e bateria a porta sem cuidado 
atrs de si. Talvez impedi-la de fazer isso fosse ainda mais importante do que cuidar de seu pai. E ela estaria por perto. Estaria em Nova York, ela podia vir a 
qualquer momento que ele precisasse. Sabia que no seria a mesma coisa, mas era o melhor que ela podia fazer, se queria consertar as escapulidas de Victoria.
       - Voc vai? - Victoria estava observando-a, vendo tudo o que ela estava pensando. - Ele vai estar bem e voc no vai estar longe. 
       - No, mas ele vai pensar que eu parti sem me importar com ele.  uma coisa terrvel de se fazer - disse Olvia tristemente.
       - Talvez voc deva fazer isso a ele - disse Victoria ainda mais maldosamente. - Ele s pensa em manter voc aqui pelo resto de sua vida, tomando conta dele, 
para que voc no consiga encontrar um marido.
       Havia uma certa verdade naquilo, mas Olvia riu do jeito que ela falou.
       - Eu no quero um marido, muito obrigada - disse ela firmemente. - Estou bem como estou.
       Mas se as coisas tivessem sido diferentes e Victoria no tivesse se casado com Charles, ela teria adorado estar com ele. Ela jamais o teria feito apenas por 
aquela razo, disse a si mesma e tentou desesperadamente acreditar naquilo, temendo subitamente o fato de que a idia toda era bastante atraente.
       - Voc pode ter meu marido - disse Victoria, feliz - por quanto tempo quiser. Trs meses ou para sempre.
       Ela estava brincando, mas no inteiramente e Olvia pareceu chocada. Victoria no havia esquecido totalmente que Olvia j ficara algo tocada por ele, mas 
aquilo fazia parte do passado, e ela tambm sabia que Olvia jamais teria tentado tirar seu marido. Ela era decente, leal e honesta demais. E as emoes de Olvia 
estavam bem controladas agora. Ela jamais se deixava pensar romanticamente em Charles desde o dia em que se casaram e genuinamente queria que ele fosse feliz com 
sua irm.
       -  melhor que voc volte no fim do vero ou eu vou contar a todo mundo e eu mesma vou busc-la - disse Olvia enfaticamente e Victoria sorriu.
       - Eles provavelmente vo nos colocar na cadeia.
       - E voc provavelmente vai gostar disso - gemeu Olvia com a idia.
       - Provavelmente. 
       Victoria riu novamente e passou os braos em torno da irm, implorando para que ela fizesse aquilo. Era o primeiro vislumbre de liberdade que ela j tivera 
desde seu desastroso caso com Tobby. E ela pagara um preo alto por seus pecados com ele. Agora ela queria sua liberdade.
       - Por favor, diga que vai fazer, Olvia... por favor... eu vou me comportar pelo resto da vida, juro... Vou bordar guardanapos para voc... polir seus sapatos... 
nunca mais vou pedir a voc para trocar comigo! Apenas faa isso por mim agora, por favor...
       - S se voc prometer voltar e ser uma esposa e me exemplar. 
       Mas Victoria sorriu sombriamente a este pedido e pareceu pensativa.
       - No posso prometer isso a voc. No sei o que vai acontecer. Talvez ele no me queira de volta - disse ela, pensando alto.
       - Ento ele nunca deve saber que voc foi embora - disse Olvia suavemente. - Quando voc parte?
       - Primeiro de maio. 
       Era dali a trs semanas, quase tempo suficiente para preparar seu pai e fazer tudo o mais que era preciso antes de entrar nos sapatos de Victoria. As duas 
mulheres trocaram um longo e forte olhar e depois, vagarosamente, Olvia assentiu. Victoria soltou um grito vitorioso, elas se abraaram, e por um momento insano 
Olvia ficou assustada ao perceber que ela realmente se sentia excitada. 
       Elas falaram sobre isso exaltadamente pelos minutos seguintes, como duas crianas extremamente travessas com um plano extravagante, enquanto Olvia pensava 
no que havia se metido. Estava certa de que nas prximas semanas haveria dvidas, mas estava igualmente certa de que Victoria jamais a deixaria voltar atrs agora.
       Elas desceram as escadas de braos dados e Geoffrey estava no hall da frente, brincando com seu canho. Instintivamente elas souberam o que tinham de fazer, 
sem dizer uma palavra. Victoria escondeu sua mo esquerda no bolso para que ele no pudesse ver seu anel de casamento e sorriu calorosamente para ele.
       - Parece uma grande brincadeira - riu alegremente, depois desarrumou o cabelo dele gentilmente. - Ser que posso faz-lo se interessar por limonada e biscoitos? 
       Ele riu adoravelmente para ela e ento acertou doze de seus pequenos soldados com seu canho e os derrubou, enquanto Olvia franzia as sobrancelhas para ele.
         - Gostaria que voc no brincasse disso.  to estpido! - disse ela, andando friamente at ele, esperando para ver se ele acreditaria nela.
       Mas ele lanou um olhar desinteressado sobre seus ombros e voltou para sua brincadeira resmungando desculpas.
       - Desculpe, Victoria, papai disse que eu podia... - e ento ele piscou para a mulher que ele pensou que era Ollie e no era. Ambas foram para a cozinha e 
Olvia estava impressionada. Era a primeira vez que elas conseguiam engan-lo.
       - Voc vai se sair bem - sussurrou Victoria para ela, enquanto Olvia servia o copo de limonada para Geoffrey, imaginando se teria tanta sorte assim com seu 
pai.
       A parte mais difcil da partida, para Olvia, era imaginar o que dizer ao pai. Ele estava se sentindo melhor do que estivera em meses esses dias, mais forte 
tambm, e estava at mesmo pensando em ir a Nova York visitar sua filha, mas Olvia disse a ele que no achava que ele deveria ir ainda. Complicaria tudo se ele 
o fizesse! 
       Ela lembrou que Victoria e Geoff estariam vindo em junho para passar o ms com eles, e faltava pouco mais de um ms para que chegassem. Era melhor para ele 
ficar confortavelmente em casa, em Croton, nesse meio tempo.
       Naquele vero Charles ia alugar uma casa para eles perto do mar e Geoff e Victoria estariam em Newport em julho e agosto. Charles at a convidara para juntar-se 
a eles. Mal sabia ele que agora ela estaria com eles constantemente. E na poca em que voltassem, esperanosamente, a verdadeira Victoria estaria de volta da Europa. 
Olvia j tirara seu passaporte e o guardara cuidadosamente para dar a sua irm.
       - Como voc acha que eles esto indo? - surpreendeu-a o pai com a pergunta um dia, bem na hora em que ela estava pensando sobre a carta que teria de escrever 
a ele, contando que tinha ido para a Califrnia. Ela diria a ele que era um retiro religioso e rezava para que ele acreditasse. - Me preocupo com ela s vezes - 
disse ele honestamente. - Charles  um bom homem. Mas s vezes se pode sentir que ela no est feliz com ele. - Olvia estava chocada com as observaes de seu pai.
       - No estou certa de que seja verdade. - Parecia mais seguro neg-lo agora, tendo em vista o que iriam fazer. - Acho que  um ajuste normal. Ele adorava sua 
esposa, estou certa de que  difcil para ele e para Geoff... - Mas seu pai estava certo e ela sabia disso.
       - Espero que voc esteja certa. Ela parecia muito inquieta quando esteve aqui e muito nervosa. 
       Oh, Deus... Olvia teve de se virar enquanto seus olhos se enchiam de lgrimas, odiando o pensamento de que em poucos dias ela ia machuc-lo. E ento ele 
a assustou ainda mais quando ela se virou novamente para ele.
        - E voc, minha querida? No est muito sozinha aqui comigo, sem sua irm?
       - Eu sinto a falta dela s vezes... terrivelmente... - disse ela, a voz rouca de emoo - mas eu amo voc, papai... onde quer que eu esteja, sempre o amarei. 
- Ele viu algo estranho em seus olhos ento, algo que ele vira ali antes, mas achara melhor no comentar.
       - Voc  uma boa garota - deu um tapinha em sua mo - e eu tambm amo voc - disse ele, enquanto saa para o jardim.
       E naquela noite, ela ecoou as mesmas palavras para ele em sua carta. Ela ia levar a carta para Nova York e traz-la de volta quando Victoria partisse, fingindo 
ser sua irm. Era absurdamente complicado, mas era a nica maneira que podia pensar de fazer isso. Ela dificilmente poderia deixar a carta aqui com Bertie agora 
e pedira ela para d-la a ele trs dias depois.
       No fim, tudo o que ela pde dizer foi que, como ele imaginara, fora muito difcil para ela ficar sem Victoria e que agora ela devia encontrar seu caminho 
sozinha e encontrar a si mesma. E para conseguir fazer isso ela sairia por poucos meses, para visitar amigos e fazer um retiro religioso na Califrnia. Parecia um 
pouco louco, mesmo para ela, mas no podia pensar em nada mais para dizer a ele. Assegurou que ficaria a salvo, que escreveria a eles e estaria de volta no fim do 
vero. Ela dissera que uma amiga de escola a havia convidado, mas como ela e Victoria no haviam estado na escola nos ltimos dez anos, era uma histria um tanto 
estranha, mas ela esperava que ele no notasse. Mais que tudo, ela assegurou a ele o quanto o amava, que ele no fizera nada para faz-la partir, mas que ela precisava 
desse tempo para si mesma e que voltaria melhor, mais forte e mais devotada que nunca a ele. Era, de fato, exatamente o que ela esperava de sua irm. Mas as lgrimas 
caram fartamente na pgina enquanto ela escrevia. Seus olhos estavam to embaados que ela mal pde assinar seu nome.   
       E ento ela escreveu outra para Geoff, selou-a tambm, e uma pequena para Bertie, que dizia apenas "Volto logo... tome conta de papai... eu te amo... Ollie". 
Era suficiente; ela mal podia respirar ento e quando se deitou na vspera de sua partida, pensou na loucura que         as tomara. Victoria era louca de fazer o 
que estava fazendo e ela era obviamente ainda mais louca por trocar de lugar com ela. Esperava apenas que algum bem viesse daquilo, que a sade de seu pai no piorasse 
e que Charles no descobrisse o que Victoria fizera e se         divorciasse dela. 
       Havia muitas coisas pesando nos ombros de Olvia e quando ela se levantou na manh seguinte, estava determinada a falar para Victoria sair daquilo, mas ela 
conhecia muito bem sua irm gmea para saber que Victoria morreria antes. Olvia deu um beijo de adeus em seu pai antes de partir e ficou com os braos em torno 
de seu pescoo e seu rosto contra o dele,         desejando que pudesse ficar ali com ele para sempre. Era uma boa vida para ela e, embora j tivesse desejado outras 
coisas, aceitava isso agora e ia sentir falta dele de verdade.
       - Divirta-se em Nova York e compre algumas coisas bonitas para vocs duas - disse ele com um abrao caloroso e ela sentiu a faca da culpa atravessar seu corao 
enquanto o abraava.
       - Eu te amo, paizinho - sussurrou.
       Ela no o chamava assim havia anos e ele a beijou e saiu para caminhar no jardim.
       Ela estava estranhamente calada no caminho para Nova York; at mesmo Donovan comentou isso mais tarde. Mas mais tarde tudo fez sentido para eles. Ela estava 
se sentindo culpada por estar fugindo para a Califrnia! Jamais ocorreria a ningum que ela ainda estava em Nova York, vivendo abertamente com Charles Dawson e fingindo 
ser sua irm. Aquilo ia alm de toda imaginao.
       Olvia chegou  casa s trs da tarde, antes que Geoff voltasse da escola e Victoria estava esperando. Estava prtica e fria, mas Olvia pde ver que ela 
tambm estava muito excitada. Ela embarcaria para a Europa na manh seguinte. Olvia pensara em vir alguns dias antes, mas ambas concordaram que estariam muito nervosas 
e isso poderia suscitar alguma suspeita e Olvia quis ficar o mximo de tempo possvel com seu pai. Ela deu a Victoria seu passaporte. Ela estaria viajando como 
Olvia Henderson, e no como Victoria Dawson. A fotografia obviamente no representava problema. 
       Havia alguns outros papis, algumas chaves, algumas notas sobre nomes de empregados, coisas que ela devia saber, como o nome da secretria de Charles e da 
professora de Geoff, mas era tudo surpreendentemente simples. Havia to poucos detalhes, to pouco a fazer. Tudo o que Olvia tinha de fazer era entrar nos sapatos 
de sua irm na manh seguinte. Ela ficava aterrorizada ao pensar naquilo. E quando Geoff chegou em casa, Olvia ainda parecia perturbada.
       - H algo errado, tia Ollie? - perguntou ele, parecendo preocupado. - Vov est doente?
       - No, ele est bem. Melhor do que tem estado. Ele amou sua ltima visita.
       Ela sorriu, pensando que teria de ser cuidadosa com ele a partir do dia seguinte, mas notou que Victoria estava sendo mais calorosa com ele esses dias tambm, 
era preparao para sua troca. Mas aquilo tambm mostrou a Olvia que ela podia muito bem faz-lo. E ela disse isso a Victoria quando Geoff subiu para fazer seu 
dever de casa. 
       - Voc v, voc  to boa com ele como eu sou.
       - Quando estou fingindo ser voc - sorriu. - No resto do tempo, eu nem mesmo penso sobre isso.
       - Talvez voc tenha de comear a pensar quando voltar - disse Olvia explicitamente.
        Ela ainda estava fazendo planos para o futuro. Na verdade, suspeitava que este breve interldio pudesse realmente melhorar o casamento da irm. Em suas fantasias, 
Victoria voltaria agradecida a Charles, faminta por ele e desesperadamente agradecida por ter uma criana como Geoffrey. Ela os abraaria a todos e Olvia voltaria 
para Croton. Sem nenhum dano. E todos viveriam felizes para sempre.
       Estava certa agora de que Victoria poderia fazer isso. Sob a fala de Victoria, ela sempre pintara mil quadros bonitos. Mas abalou-a um pouco quando Charles 
chegou em casa e Victoria subitamente empurrou-a inesperadamente para a troca. Ela foi fria com ele, o que no pareceu surpreend-lo, perguntou a ele sobre seu dia 
e mencionou algo que lera nos jornais. E poucos minutos mais tarde ele subiu para seu estdio. Ele no tinha a menor idia de que estivera falando com Olvia nos 
ltimos dez minutos e no com sua esposa.
        - Voc v como  fcil - disse-lhe Victoria. -  apenas como sempre foi, sem diferena. 
       Na verdade era, o que a surpreendeu. Olvia dormiu no quarto de Geoff naquela noite, agarrada a ele na cama estreita, satisfeita com a ltima oportunidade 
que tinha de demonstrar afeio por ele.
       Do dia seguinte em diante, como Victoria, ela deveria ser mais fria, mas talvez com o tempo,  maneira de Victoria, eles pudessem se aproximar mais. Ela se 
preocupava com a ligao que tinha com ele tambm, quando ele soubesse que ela fora passar o vero na Califrnia sem avisar. Ela tentou dizer algo a ele naquele 
dia, enquanto o ajudava a se vestir para visitar um amigo. Era sbado e Victoria j havia arranjado isso h tempos. Olvia olhou para ele com os olhos cheios d'gua, 
enquanto o estreitava nos braos e rezava para que ele no notasse.
       - Eu te amo muito, muito - disse ela. - No importa o que acontea. Voc sabe, mesmo que eu v embora por um tempo, eu vou voltar. No... - Ela sufocou com 
as palavras, mas continuou. Tinha de diz-lo. - ... no vai ser como sua me. - Ela queria que ele soubesse que voltaria para ele, que jamais o abandonaria. 
       - Voc est indo a algum lugar? - Geoff pareceu surpreso ao olhar para ela e ento ele viu as lgrimas. - Voc est chorando, tia Ollie?
       - No, estou resfriada. E acontece que eu te amo muito e sou uma velha mulher estpida e sentimental.
       - Ok. 
       Ele sorriu para ela e levou Chip para baixo, para uma caminhada e eles se encontraram novamente na mesa de caf da manh. Ela quisera deixar Victoria sozinha 
com eles, no caso de ela querer fazer sua prpria e silenciosa despedida, mas Victoria no parecia precisar de nada disso. Olvia jamais a vira to alegre. Ela estava 
num tremendo bom humor, trinando, sorrindo e falando sobre novidades da guerra. Ela at deu um beijo em Geoff quando ele saiu para a casa de seu amigo, o que no 
era nada de seu feitio. Ela estivera realmente fazendo um esforo e estava to feliz porque no ia v-los por trs meses que quase gritava de prazer. E depois de 
trs semanas de total abstinncia perto deles, naquela tarde ela estaria fumando. Quando Charles saiu para ir ao escritrio, como ele sempre fazia aos sbados, ela 
estava um pouco mais fria e ele sorriu e acenou quando disse adeus a Ollie.
       - Tentem no se meter em muitas travessuras, vocs duas. Eu tenho uma montanha de trabalho para fazer esta manh. 
       - Victoria contara com aquilo tambm, sabendo que o navio estava zarpando no sbado. Ela estaria em apuros se ele houvesse decidido ficar em casa naquele 
dia, mas ela o conhecia bem e, se tivesse ficado, Victoria acharia um jeito de contornar a situao. Ela estava determinada.
       - Divirta-se - disse Victoria com um sarcasmo gentil e ele correu escadas abaixo e esta foi a ltima viso do marido. 
       Quando ele se foi, elas subiram, fecharam e trancaram a porta do quarto. Ela deu a Olvia sua estreita aliana e o anel de noivado da me dele, e Olvia rapidamente 
deslizou-os para seu dedo. Serviram perfeitamente; no havia diferena. E ento Victoria olhou em torno do quarto e para a irm.
       - Espero que seja isso ento.
       - To simples assim?  isso? 
       Olvia parecia ansiosa e Victoria assentiu. Ela estava muito feliz para esconder aquilo. Ela estava triste por deixar sua irm gmea, como sempre ficava, 
mesmo por uma tarde, mas estava muito aliviada por deixar para trs sua vida em Nova York com Charles. Ela agora sabia o que desejava ter sabido onze meses antes: 
que jamais deveria ter se casado com ele, no importa o que seu pai a forasse a fazer.
       - Tome conta de voc - disse para Olvia - eu te amo. 
       Ela a abraou fortemente e ento se afastou, enquanto Olvia parecia preocupada.
       - Tome conta de voc tambm. Se qualquer coisa acontecer com voc... - Ela no pde nem mesmo terminar a frase, sufocada pelas lgrimas.
       - No vai acontecer nada. Vou passar os prximos trs meses enrolando bandagens e servindo caf para homens sujos bem atrs das fileiras - disse ela, enquanto 
Olvia fazia uma careta.
       - Parece charmoso. No posso imaginar por que voc gostaria de fazer isso. Especialmente em vez de estar aqui, a salvo e confortvel, com Charles e Geoffrey. 
       No fazia sentido para ningum, mas Victoria era quem estava querendo arriscar a vida para deix-los e fazer algo que ela pensava que era importante e til.
       - Algum tem de faz-lo - disse Victoria baixinho, enquanto colocava um vestido preto simples. 
       Ento ela saiu do quarto e subiu para o sto, onde escondera sua nica e prtica mala. Ela a levou para baixo e tirou do armrio um chapu de aparncia triste, 
com um pesado vu negro.
       - Para que  isso? 
       Olvia pareceu confusa e achou aquilo muito pouco parecido com Victoria e surpreendentemente feio. Era obviamente feito para uma viva e o vu era to grosso 
que no se podia ver seu rosto atrs dele. Ela estava completamente escondida pela grossura do vu.
       - Haver fotgrafos no navio.  um belo navio, ouvi dizer. Mais ainda que o Aquatania. 
       E isso seria melhor que uma lua-de-mel para ela. Era sua viagem para a liberdade. Ela reservara uma cabine simples na primeira classe, nada parecida com a 
que dividira com Charles no Aquatania e cuidadosamente sacara uma parte do dinheiro que seu pai dera a ela quando se casara. Charles no suspeitara de nada. Tinha 
quinhentas libras em dinheiro com ela agora, mas no imaginava que fosse precisar de uma boa quantidade para trabalhar atrs das trincheiras. Pegara roupas speras 
e quentes, exceto por alguns poucos vestidos apropriados para o navio e estava planejando ficar em sua cabine a maior parte da viagem, para o caso de algum reconhec-la 
e falar sobre isso mais tarde.
       - Voc pensou em tudo, no? - disse Olvia tristemente. 
       Partia seu corao v-la partir agora; pior ainda, v-la to animada. Elas pegaram um txi para o Per 51, na rua 14, e Olvia e Victoria seguraram-se as 
mos nervosamente no txi.
Havia a usual algazarra furiosa de atividade em torno do navio, msica retumbava, pessoas sorriam e gritavam para amigos, champanhe escorria enquanto os passageiros 
da primeira classe subiam a bordo e a viva no vu pesado subia rapidamente a prancha com sua irm atrs dela. Elas encontraram facilmente a cabine e o carregador 
j colocara sua mala l.
       Por um longo momento elas ficaram olhando uma para a outra. No havia mais nada a dizer agora. No eram necessrias palavras. Victoria deixara sua vida nas 
mos de sua irm e estava indo embora para a guerra agora. E Olvia tomaria conta de tudo em sua ausncia. Mas Olvia mal podia suportar deix-la. Ela queria implorar 
a ela para no ir, mas sabia que sua irm jamais a escutaria.
       - Vou saber tudo o que voc fizer, voc sabe, bem aqui - ela apontou seu estmago - ento no me deixe louca de preocupao, por favor.
       - Vou tentar no deixar. - Victoria sorriu, sabendo o quanto aquilo era verdade. Elas sempre haviam tido uma telepatia misteriosa entre si. - Pelo menos eu 
saberei que voc estar a salvo com Charles. No esquea de brigar com ele noite e dia, de outra forma ele vai sentir minha falta - provocou ela e Olvia abraou-a.
       - Jure para mim que voc vai voltar s e salva.
       - Eu juro - disse ela solenemente, enquanto o apito do navio tocava e soava o aviso para que os visitantes desembarcassem. Olvia sentiu seu corao golpeado.
       - No posso deix-la ir - disse Olvia, falando srio por aquele breve instante. Ela queria agarrar-se a ela subitamente e demov-la da idia de partir.
       - Sim, voc pode - disse Victoria baixinho. - No  diferente de quando fui para minha lua-de-mel. 
       Olvia assentiu e Victoria levou-a at a prancha no ridculo chapu negro com o vu. Aquilo fez Olvia sorrir novamente pouco antes de deix-la.
       - Eu te amo, sua garota estpida. No sei por que estou deixando voc fazer isso.
       - Porque voc sabe que eu tenho de fazer.
       E a verdade era que ela sabia. Olvia sabia que ela teria ido a qualquer lugar. E era melhor desta maneira. Elas abraaram-se mais uma vez, mais forte do 
que jamais haviam feito antes e Olvia pde ver seus olhos atravs do vu grosso. Ambas estavam chorando. Aquilo no era nada fcil.
       - Eu te amo - disse Olvia novamente e Victoria apertou-se contra ela.
       - Eu te amo...  oh, Deus, Ollie, obrigada por me dar minha vida de volta.
       Olvia beijou-a uma ltima vez e sussurrou para ela.
       - Que Deus esteja com voc - e ento saiu vagarosamente do Lusitania e deixou-a.
















VINTE



       Olvia passou o resto da tarde sentindo-se paralisada. No sabia o que fazer consigo mesma enquanto vagava sem objetivo de aposento para aposento, pensando 
sobre ela. Sabia que o navio devia estar em alto-mar agora e, mesmo ficando nervosa quando pensava em v-los, desejava que Geoffrey e Charles voltassem para casa, 
para que ela no se sentisse to solitria. Ela se sentia to despojada sem sua irm gmea, nunca se acostumara a ficar sem ela por qualquer perodo que fosse. Era 
muito mais fcil para Victoria. Olvia jamais teria feito uma viagem longa sem sua irm gmea. Mas Victoria j o havia feito antes, em sua lua-de-mel e agora ela 
o fizera novamente. Mas Olvia se sentia perdida sem ela.
       E ela sabia que quando eles chegassem em casa naquela tarde ela teria de fazer a melhor performance de sua vida. Ela tinha as cartas para Geoff e seu pai 
prontas para entregar a eles e at mesmo uma para si mesma, que fingia explicar tudo e por que ela fugira para a Califrnia. Ela deveria ter pegado o trem para Chicago 
naquela tarde, em vez de navegar para Liverpool no Lusitania.
       Mas na hora em que Charles chegou em casa ela estava pronta e ele ficou chocado ao ver seu rosto quando entrou no quarto. Ele soube instantaneamente que algo 
terrvel acontecera a ela e esquecendo todas as discusses que haviam tido correu imediatamente at ela.
       - Voc est doente? - Ela parecia mortalmente plida e estava reclinada numa poltrona com uma expresso desolada. - O que aconteceu?
       -  Ollie - disse ela suavemente. 
       Ele sabia que Olvia no podia ter sofrido um acidente, ou sua esposa estaria no hospital com ela. Mesmo sendo to cruel como ela parecia ser com qualquer 
outra pessoa s vezes, ele sabia o quanto ela adorava a irm.
       - Ela partiu.
       - Ela foi para casa? - Ele pareceu surpreso. -  isso? 
       Victoria, ou a mulher que ele pensava ser sua esposa, parecia como se algum tivesse morrido, no simplesmente voltado para casa em Croton. Ele sabia que 
algo mais devia ter acontecido.
        - Vocs tiveram alguma discusso? 
       Ela estava brigando com todo mundo esses dias, talvez at com Ollie, mas a Olvia real sacudiu a cabea, enquanto o observava. E ela estava se sentindo to 
solitria por causa de Victoria que era fcil parecer arrasada. E estava, tanto quanto se sentia enjoada, e era assim que parecia estar. 
       - Seu pai est doente? 
       Olvia sacudiu a cabea novamente e entregou a ele a carta que supostamente escrevera para sua irm. Fora de fato escrita com sua prpria mo, alegadamente 
para Victoria, embora de qualquer maneira ningum pudesse diferenciar suas letras, nem mesmo Bertie.
       A carta explicava simplesmente que, embora isso rasgasse seu corao, ela sentia que tinha de escapar por alguns meses, que sua vida era demais para ela no 
momento. Estava muito sozinha agora que Victoria se fora, havia entendido que era muito dependente dela, sentia-se oprimida pelo vazio de sua vida em Croton e precisava 
de alguns meses para pensar sobre tudo aquilo e se afastar deles. Ela disse que estava at mesmo pensando em entrar para um convento, j que sabia que jamais se 
casaria.
       - Oh, meu Deus! - ele olhou para ela, horrorizado - que terrvel! - Ele comeou a checar seus bolsos ento e olhou rapidamente em sua carteira. - Queria ver 
quanto dinheiro trouxe para casa. Vou a Chicago esta noite e det-la. Ela no pode fazer isso. Vai matar seu pai. - Olvia estava com medo daquilo tambm e esperava 
que ele estivesse errado em sua previso.
       - Na hora em que voc chegar a Chicago - disse ela com praticidade - ela estar no trem para a Califrnia. 
       Ela soava um pouco descuidada com sua irm, mas no queria Charles atravessando o pas numa caa ao ganso selvagem enquanto sua irm se sentava confortavelmente 
numa cabine de primeira classe num navio para a Europa.
       - Voc nunca vai encontr-la.
       Ele pde ver o sentido do que ela dizia e sentou-se pesadamente a seu lado. Estava chocado com o fato de Olvia fazer algo como aquilo e no podia imaginar 
isso, enquanto olhava bem dentro de seus olhos e no desconfiava de nada. Se ele conhecesse sua esposa melhor do que conhecia, teria visto sua mo em tudo aquilo, 
mas no conhecia.
       - Voc tem alguma idia de para onde ela foi? Quem ela pode ter procurado? Que amiga poderia ser? 
       Ele parecia to nervoso quanto ela se sentiria se a histria fosse verdadeira e seu corao se derreteu por ele se preocupar tanto assim com a irm de sua 
esposa.
       - Ela  uma pessoa muito cheia de segredos - disse Olvia e comeou a chorar, pensando sobre sua irm que se evaporara para longe dela por trs meses. 
       Era fcil chorar quando ela pensava no quanto odiava o fato de ela ter partido e j sentia sua falta.
       - Oh, minha querida - disse ele, imediatamente colocando um brao em torno dela e aquilo surpreendeu Olvia. Isso no era o que ela esperava. - Sinto tanto. 
Talvez ela v pensar melhor e volte em poucos dias. Talvez voc no devesse contar nada a seu pai por um tempo e ver o que acontece.
       - Voc no sabe como ela  teimosa, Charles - queixou-se Olvia convincentemente. - Ela no  sempre o que parece.
       - Aparentemente - disse ele, parecendo to preocupado quanto desaprovador. - Voc acha que seu pai tem sido muito duro com ela desde que voc partiu? Eu sempre 
pensei que era injusto que ela ficasse l presa a ele, sem vida prpria, sem amigos, sem vida social, sem pretendentes. Ela nunca vai a lugar nenhum e ele no parece 
se importar com isso, contanto que ela esteja l para tomar conta dele. Talvez seja isso que tenha conduzido a esta situao - disse ele tristemente.
       - Talvez. 
       Olvia nunca pensara naquilo daquela maneira, mas ele no estava inteiramente errado. Ela se perguntou se seu pai veria aquilo daquela maneira tambm e se 
sentiria culpado. Mas pensou que no era razovel.
       - Mas se ela diz poucos meses, estou certa de que fala srio. Ela deixou uma carta para papai. Pensei em levar a ele amanh. - Amanh era domingo.
       - Voc no acha que deveramos esperar alguns dias? - Ele estava muito preocupado.
       - Realmente, Charles, eu a conheo e acho que simplesmente  justo contar a papai.
       - Vou levar voc at l - disse ele solenemente e ela assentiu. - Ela disse algo a voc na noite passada? Nenhuma dica do que ela ia fazer?
       - Nada - disse Olvia, ainda parecendo consternada, e ele no disse a ela que os suicidas se comportavam daquela maneira tambm. 
       Talvez fosse at melhor que ela apenas tivesse escapado por algum tempo e no feito algo ainda mais irresponsvel. Mas pela primeira vez durante meses ele 
sentiu pena de sua esposa, ela parecia to gentil e to subitamente quebrada que o fazia lembrar-se ainda mais de sua irm.
       E quando Geoff chegou da casa de seu amigo, eles estavam ainda mais preocupados com ele. Ele soluou abertamente quando contaram que Olvia se fora e foi 
ainda pior quando ele leu a carta que ela deixara para ele.
       -  exatamente como mame - disse ele, enquanto soluava nos braos de seu pai e lgrimas rolaram abertamente pelas faces de Olvia enquanto ela olhava para 
ele.
       - Ela nunca mais vai voltar. Eu sei.
       - Sim, ela vai - disse Olvia firmemente atravs de suas prprias lgrimas. - Lembre-se do que ela disse a voc... que no importava onde ela fosse, ela sempre 
voltaria e sempre amaria voc. 
       Ela dissera aquilo a ele apenas naquela manh, quando ele estava se vestindo e ele no questionou como ela sabia disso, mas ela imediatamente lembrou-se de 
ser mais cuidadosa. 
       - Ela no estava mentindo, Geoff - disse Olvia suavemente, soando mais como si mesma que como sua irm. - Ela realmente o ama; voc  como um filho para 
ela, o filho que ela nunca teve e nunca ter. Ns apenas temos que esperar que ela volte agora. 
       Mas ele se recusou a acreditar que ela voltaria e mais tarde, naquela noite, Olvia lembrou a ele que sua prpria me tambm teria voltado, se pudesse. Olvia 
estava deitada em sua cama, brincando com o cachorro, sentindo a sensao pouco familiar dos anis de Victoria em seus dedos enquanto falava.
       - Minha me podia ter voltado e no voltou - disse ele raivosamente. 
       Ele estava zangado com Olvia tambm, por deix-lo e ela no o culpou. Mas ela estava surpresa pelo que ele dissera sobre sua me.
       - O que voc quer dizer, Geoff? - perguntou ela confusa. Susan morrera. Ela no o deixara.
       - Ela no tinha que dar seu assento; ela podia ter entrado no barco comigo!
       - Ela salvou a vida de outra pessoa e essa  uma coisa muito corajosa de se fazer. - Ele olhou para ela hesitante e ento deu de ombros, enquanto duas lgrimas 
solitrias escorriam por suas faces.
       - Eu ainda sinto a falta dela - sussurrou. 
       No era a espcie de coisa que ele normalmente teria confessado a Victoria, mas ele estava to perturbado com Olvia que se deixou ir e Olvia estendeu a 
mo e tocou seus dedos.
        Eu sei que voc sente - disse ela suavemente - e sei que voc sente falta de Ollie. Eu tambm... mas talvez ns possamos ser amigos agora. 
       Ele olhou estranhamente para ela ento e havia uma pergunta em seus olhos, mas ela se afastou dele e lembrou-se de no ir to longe. Poucos minutos mais tarde 
ela beijou-o e deixou o quarto, voltando para seu pai em seu quarto. Fora uma noite extremamente difcil, e ela no agradecia a Victoria por isso.
       - Como ele est? -perguntou Charles com olhos perturbados. 
       Ele estava preocupado com o fato de seu filho perder mais uma figura materna em sua vida. E durante o ltimo ano Victoria fora muito pouco conforto para ele, 
embora ela tivesse sido melhor hoje do que fora em meses e ele estivesse feliz por aquilo. Ele ficaria furioso com ela se tivesse deixado o garoto sofrendo. Pelo 
menos havia alguma humanidade nela.
       - Ele est bastante transtornado - disse ela calmamente. - Eu no o culpo. No sei o que se passou com ela. Para mim  um mistrio to grande quanto para 
ele. 
       Ela se sentou na cama, parecendo genuinamente exausta e esperando que naquele momento Victoria estivesse enjoando violentamente no navio. Ela merecia isso. 
E Olvia se deu conta novamente do quanto fora louca de fazer aquilo. E amanh ela tinha de contar ao pai.
       - Voc acha que ela estava apaixonada por algum e ningum sabia? 
       Olvia sorriu com a idia que ele estava propondo sobre ela; certamente era criativa. O 
nico homem de quem ela remotamente um dia gostara era Charles e ele estava casado com sua irm. Ela apenas esperava que ele no colocasse aquela idia na cabea 
e que ningum mais o fizesse, que ela estava secretamente apaixonada por Charles. Aquilo seria mortificante e desastroso.
       - No vejo como ela poderia estar apaixonada por algum. Ela realmente no est interessada nesse tipo de coisa. Ela  muito tmida - disse ela inocentemente 
e ele olhou para ela com estranheza.
       - Como voc, minha querida - disse ele sarcasticamente e ela ficou assustada.
       - O que voc quer dizer? - Era o tipo de coisa que Victoria teria dito a ele e Olvia sabia, ento ela foi em frente.
       - Voc sabe o que quero dizer. Ns no temos tido exatamente uma vida cheia de romance, temos?
       - No sabia que era isso que voc esperava. - Olvia tentou cort-lo hesitante e ele pareceu pensar que era normal.
       - Bem, eu certamente no esperava o que acabou acontecendo conosco. Mas suponho que voc tambm no - disse ele tristemente e ela olhou-o com simpatia. 
       Ele viu o olhar em seus olhos e aquilo o surpreendeu. Decidiu ento mudar de assunto. 
Ela j estava liquidada o suficiente por um dia sem precisar brigar tambm. E no havia finalidade naquilo, ele sabia. Sob aquele ponto de vista, seu casamento estava 
acabado.
       - A que horas voc quer se levantar para ver seu pai amanh?
       -  um longo caminho. Ns teremos que nos levantar cedo pela manh. Voc se incomoda de me levar? 
       Ela esperava que no, porque no sabia dirigir e, claro, Victoria sabia. Ela teria de chamar Donovan naquele caso e dizer que estava muito preocupada para 
dirigir at Croton.
       - Fico feliz em lev-la. Voc se incomoda se levarmos Geoff? 
       Ele sentiu que devia perguntar a ela. Sabia que o garoto a deixava nervosa e ela j estava preocupada com sua irm, mas Olvia foi rpida em responder.
       - Claro que no.
       Ele notou uma mudana sutil nela durante toda a noite. O choque da partida de Olvia parecia t-la suavizado imperceptivelmente. Ela parecia mais vulnervel 
e ele sentia algo que nunca sentira nela antes, embora no soubesse como expressar isso. Ela parecia domada e, de alguma maneira, diminuda. No fisicamente, claro, 
mas de uma maneira espiritual estranha e intangvel. Ela dava a impresso de que a mais simples brincadeira a assustaria.
       Ela ficou acordada por um longo tempo naquela noite, usando a camisola de Victoria e deitada em sua cama, aconchegada o mais longe possvel que pde ficar 
dele. Era a primeira vez que Olvia dormia com um homem e, se no fosse to aterrorizante, ela teria pensado que era engraado. Ela estava com medo de que a qualquer 
momento ele descobrisse que elas haviam trocado de lugar e a jogasse para fora de sua casa, na camisola de sua irm. Mas ele no fez nada parecido com isso. Ao contrrio, 
deitou-se olhando para ela na escurido, perguntando-se se deveria toc-la, mas no ousou faz-lo. Ela estava de costas, e ele suspeitava de que estava chorando. 
E finalmente ele colocou uma mo gentil em seu ombro.
       - Voc est acordada? - sussurrou. Ela assentiu, mas no respondeu. -Voc est bem? - sussurrou novamente e ela sorriu, mas ele no pde ver.
       - Mais ou menos - disse ela suavemente. - Continuo pensando nela. - Era verdade. Era tudo em que ela pensara desde aquela manh.
       - Ela estar bem. Ela  muito capaz - disse ele sensatamente. - E vai voltar quando estiver pronta. Ela no vai desaparecer para sempre. 
       Ele no entendia que a mulher de quem estava falando era sua esposa, o que era muito bom, pensou Olvia tristemente.
       - E se ela se machucar? - Olvia partilhava seus medos com ele e Charles ousou se mover um pouco mais para perto.
       - Ela no vai se machucar. Agora os ndios esto praticamente domados por l. Na verdade, acho que muitos deles esto em circos e espetculos. E no houve 
um terremoto em nove anos. Eu diria que ela talvez provoque um durante o vero. - Ele sorriu para ela, mas no a tocou.
       - E se houver outro terremoto? Ou um incndio? Ou uma guerra... - era tudo em que ela podia pensar.
       - Na Califrnia? No acho que vamos entrar em guerra com a Califrnia. 
       Ele virou-a para encar-lo ento e, como ele pensara, ela estava chorando. Parecia uma criana adorvel  luz da lua. Por que voc no dorme e pra de se 
preocupar? Talvez seu pai mande investigadores atrs dela, e eles a tragam para casa em poucos dias. 
       Mas ela no podia dizer a ele que no iam encontr-la. Victoria estaria bem longe da Califrnia. E Olvia desejou que ela nunca a tivesse deixado ir para 
l. Estava pensando em mandar um telegrama para o navio dizendo que mudara de idia e que tinha de voltar para casa agora. Olvia sabia que podia mandar o telegrama 
antes que eles chegassem a Liverpool. Pensar naquilo a fez lembrar-se dos submarinos alemes, que ela soubera que estavam do lado de fora dos portos ingleses. Ela 
se perguntava em que estivera pensando quando concordara em deix-la navegar para a Europa. 
       Apenas pensar naquilo a fazia chorar ainda mais e, sem considerar o perigo daquilo, deixou Charles segur-la em seus braos e abra-la. Ela podia sentir 
o cheiro do sabonete em seu pescoo e o ps-barba que ele usava. Ele tinha obviamente se barbeado antes de ir para a cama, o que Olvia pensou que era uma gentileza 
surpreendente, algo em que ela nunca pensaria, e estava impressionada com sua fora e o calor enquanto ele a abraava. Finalmente ela se afastou e olhou para ele 
embaraada. Ele era, afinal, apenas seu cunhado, e no seu marido, embora ele no soubesse disso.
       - Sinto tanto - disse ela sem jeito.
       - Tudo bem 
       Ele tambm pareceu surpreso e no disse a ela que gostara daquilo. Ela voltou para seu lado da cama novamente, e pouco mais tarde ambos adormeceram at de 
manh. Eles se levantaram e se vestiram separadamente, e Olvia ficou aliviada ao descobrir que ele era extremamente polido e seu arranjo, muito civilizado. Ele 
no era excessivamente pessoal com ela, e Olvia no o viu novamente at que estivesse inteiramente vestido no caf da manh. Victoria estava certa; de certa forma, 
isso era fcil. Geoffrey ainda estava numa compreensvel melancolia e nem mesmo queria ir a Croton, mas tinha de ir. A empregada e a cozinheira estavam fora e no 
havia mais lugar algum onde eles pudessem deix-lo. Mas ele disse que no queria ir a Croton sem Ollie, nem mesmo para ver o av.
       Foi uma longa e solene viagem, enquanto Olvia pensava no que dizer a seu pai. Ela havia ensaiado mil vezes, mas ainda no estava preparada para o olhar de 
sofrimento que ele mostrou quando ela lhe contou. Se tivesse atirado nele, talvez parecesse sentir menos dor e ficar menos chocado. E ela ficou agradecida por Charles 
estar ao seu lado. Juntos, eles o ajudaram a ir at uma poltrona e Charles serviu a ele um conhaque. E enquanto seu pai bebia, olhou para ambos em desespero e depois 
diretamente para a filha.
       - Fui eu que fiz isso a ela? Perguntei a ela outro dia mesmo - fez uma pausa e refletiu - perguntei se a havia tornado terrivelmente infeliz. Esta no  uma 
vida para uma jovem garota, mas ela sempre disse que era tudo o que ela queria. E eu deixei que ela vivesse assim porque  muito fcil para mim... eu teria sentido 
horrivelmente a sua falta se ela tivesse me deixado... e agora ela se foi... 
       Ele estava realmente chorando e Olvia queria arrancar seu corao. E ento ele realmente a impressionou quando olhou diretamente para Charles.
       -Acho que ela teria se apaixonado por voc se tivssemos deixado. Mas ns no deixamos,  claro. 
       Ele desviou o olhar e todos sabiam o que acontecera, enquanto a verdadeira Olvia ficou ali sem ar.
       - Pai, tenho certeza de que isso no  verdade. Ela nunca disse nada... - Ela estava mortificada e certa de que estava corando, mas ningum parecia notar.
       - Ela no precisava - interrompeu-a ele, secando os olhos e tomando outro gole do conhaque. - Era fcil de ver. Sou um homem. Eu sei. Mas era mais importante 
salvar voc na poca, ento eu optei por ignorar isso. 
       Os lbios de Charles estavam estreitados numa fina linha e ele no fez comentrios. Olvia no teve coragem de olhar para ele novamente por vrios instantes.
       - Estou certa de que voc est errado. Ela teria me dito - repetiu Olvia, tentando salvar  revelia o fim de sua dignidade.
       - Ela lhe contou sobre isso? - rugiu ele para ela, que sacudiu a cabea miseravelmente. Estava infeliz de verdade. - Ento no pense que sabe de tudo, Victoria 
Dawson! 
        Ela estava horrorizada com a idia de que Charles pensasse que ela tinha ido embora porque o amava. Era horrvel e ela sabia que teria de dissipar aquilo 
o mais cedo possvel, pelo seu prprio bem. Mas Charles parecia partilhar sua opinio.
       - Acho que  impossvel saber por que as pessoas fazem coisas como esta, senhor. A mente  um lugar secreto, e o corao ainda mais. E gmeas dividem uma 
ligao pouco usual, ambos sabemos disso. Ns todos ouvimos histrias sobre o quanto elas so prximas, quanto elas sabem uma sobre a outra, como elas sentem coisas 
que outras pessoas no podem nem mesmo imaginar. Talvez tenha sido apenas demais para ela que Victoria tivesse sua prpria vida agora. Talvez ela esteja tentando 
encontrar a si mesma e ter sua prpria personalidade.
       - Num convento? - Ele pareceu apavorado. No era o destino que queria para sua filha. - Eu ameacei voc com isso - disse ele infeliz para a gmea que ele 
pensava ser Victoria, mas no era - mas eu no falava realmente srio.
       - Acho que voc falava - disse ela honestamente. Ambos achavam.
       - No poderia ter feito isso com voc. 
       Mas em vez disso, ele forara Victoria a se casar e esse era o motivo de ela ter fugido agora. Esta era a verdade. Mas Olvia no podia dizer a ele.
       Como Charles dissera, Edward jurou colocar investigadores naquilo e pediu a Charles para cuidar disso na cidade na segunda-feira pela manh. Eles reuniram 
todas as suas cartas para Charles dar a eles e Olvia prometeu quebrar a cabea para lembrar os nomes das garotas com quem haviam ido  escola dez anos antes, para 
ver se alguma delas vivia na Califrnia, mas  claro que no haveria nenhuma.
       E quando eles deixaram a biblioteca mais tarde, Bertie estava esperando na cozinha com Geoffrey e os dois estavam chorando. Bertie recebera sua carta tambm 
e estava to perturbada que nem olhou com cuidado para a gmea que estava  sua frente. E, depois de um rpido beijo na face, Olvia correu para fora para esperar 
por eles. Ela no queria ficar perto dela mais tempo do que precisava. Nem mesmo foi at seu quarto; estava com medo de que, se o fizesse, pudesse dar motivos para 
um deles suspeitar e j havia muita coisa apostada agora.
       Edward Henderson convidou-os para passar a noite, mas Charles disse que tinham de voltar, ou ele tinha, de qualquer maneira. Ele tinha de estar na corte na 
manh seguinte. E queria contatar os investigadores o mais cedo que pudesse na segunda-feira. Ele disse a Victoria que ela podia ficar ali com Geoff, mas ela no 
quis. Sem sua gmea, ficar em Henderson Manor a deprimiria. E ela estava francamente com medo de que Bertie soubesse quem ela era uma vez que se acalmasse novamente 
e Olvia precisava de mais tempo para aperfeioar sua decepo. At agora nenhum dos Dawson suspeitara de nada do que acontecera.
       Seu pai chorou novamente quando ela lhe deu um beijo de despedida e ela se sentiu pssima. Bertie estava de p prximo a ele e Edward acenou enquanto partiam 
no carro. Geoff nem mesmo quis passear em seu cavalo. Ele apenas fora v-lo no estbulo.
       - Imagino se Olvia desconfiava de que todos ficariam to abalados por causa dela - disse Charles enquanto voltavam, sentindo muito por seu pai. 
       Mas ele recebera as notcias melhor do que Charles esperara. Charles no fez nenhum comentrio sobre o fato de que Edward pensava que ela estava apaixonada 
por ele. Deixou isso de lado, como a desiluso de um velho homem.
       - No acho que ela pudesse ter imaginado o quanto ficaramos tristes, ou ela no o teria feito - disse Olvia supostamente sobre si mesma, mas pensando em 
sua irm.
       Ela estava sentindo terrivelmente sua falta, bem como a dor de cada dia que ficariam separadas. A idia de mandar um telegrama e pedir a ela para voltar logo 
para casa novamente estava soando cada vez melhor para ela.
       Eles chegaram em casa depois das nove horas naquela noite e nenhum deles havia jantado. Olvia disse a Geoff para colocar seu pijama e voltou para a cozinha 
para fazer uma sopa. Ela colocou um avental e foi ver o que tinham na despensa e, dez minutos mais tarde, tinha galinha no fogo com legumes, alm de finas fatias 
de torradas amanteigadas e uma salada fresca.
       - Como voc fez isso tudo to rpido? - Charles pareceu surpreso. - Voc vem guardando segredos de mim. - Ele sorriu cautelosamente, sem nunca estar certo 
de seu humor ou seu temperamento.
       - Mais segredos do que voc imagina - disse Olvia com um sorriso, mas Charles no pareceu satisfeito com sua observao e ela se sentou para jantar em silncio.
       Geoff desceu novamente e despertou um pouco enquanto tomava a sopa e comia a torrada e ainda pediu uma segunda poro de salada.
       - Isso est bom, Victoria - disse ele, parecendo surpreso, e ento olhou para ela com um sorriso tmido.
       Mas Olvia no se deixaria ser to calorosa esta noite, por medo de que ele descobrisse quem ela era. Em vez disso, ela se afastou e deu a ele um prato cheio 
de cookies de chocolate.
       - Voc fez isso? - Ele pareceu ainda mais surpreso, mas desta vez ela riu e sacudiu a cabea.
       - No, foi a cozinheira - disse ela honestamente.
       - Gosto mais dos de Ollie - disse Geoff, mastigando um e brincando com seu cachorrinho.
       Olvia limpou a cozinha enquanto Charles levava Geoff para a cama e meia hora depois se juntou a eles no andar de cima. Geoff j estava na cama e, enquanto 
ela ficava na porta, olhando para ele, no conseguiu evitar pensar no quanto sua irm tinha sorte e nem mesmo sabia disso. Ela estava em um navio, em algum lugar 
no caminho para Deus sabe onde, quando podia estar em casa, naquela casa aconchegante, com seu marido e seu filho adotivo.
       - Posso colocar voc para dormir? -perguntou-lhe casualmente e ele deu de ombros. 
       Ele ainda estava parecendo triste, mas estava um pouco melhor. No caminho para casa, falara a respeito de quando Olvia voltasse para casa, no fim do vero. 
Ele j estava olhando para a frente e comeando a acreditar que ela voltaria, como tinha prometido.
       - Claro - disse ele, empurrando seu macaco para o lado e segurando Chip para que ele no pulasse da cama. Mas ele apenas balanou o rabo e lambeu a mo de 
Olvia. Ele gostava dela.
       - Durma bem - sussurrou ela em seu cabelo e ento saiu para seu prprio quarto. Fora um longo dia e suas costas doam depois da longa viagem de ida e volta 
para Croton.
       - Voc estar na corte amanh? - perguntou ela casualmente, enquanto desfazia o cabelo e Charles olhou para ela surpreso. Era a primeira vez que ela perguntava 
sobre seu trabalho, e ele assentiu com um movimento de cabea.
       - No  nada importante - disse ele e voltou a ler os jornais. E ento ele olhou novamente para ela. - Obrigado pelo jantar. 
       Ela sorriu sem certeza do que dizer, parecia to normal para ela, mas obviamente era algo que Victoria no havia feito muitas vezes.
        -Achei que seu pai foi muito bem hoje, considerando tudo.
       - Eu tambm - disse ela tristemente.
       - Vou chamar alguns investigadores para ele amanh quando voltar ao escritrio. Ainda no posso acreditar que ela fez isso. Ela  to responsvel.  to pouco 
parecido com ela fugir. Ela devia estar terrivelmente infeliz para fazer isso.
       - Eu sei - disse Olvia suavemente.
       Na verdade, foi a mais longa conversa que Charles tivera com a esposa em semanas, exceto quando eles discutiam um com o outro. Eles se trocaram separadamente 
em seus quartos de vestir, como sempre, e naquela noite, quando foram para a cama, ambos se deram as costas. E enquanto Olvia comeava a dormir, perguntou-se como 
eles haviam vivido daquela maneira. Era to solitrio!
       Ela se levantou e fez o caf da manh para eles no dia seguinte. Era a empregada que normalmente o fazia, mas Olvia disse que no se importava. Ela sabia 
que no precisava fazer nada que Victoria no teria feito, mas parecia uma coisa to pequena e ela odiava no fazer.
       Mas Charles notou a diferena nela desde que sua irm se fora. Ela parecia ter uma necessidade sbita de tomar conta deles e tinha de admitir que gostava 
daquilo. Mas Geoff olhou para ela de maneira muito estranha. E ela o viu instintivamente olhar para sua mo, mas ela estava coberta pela toalha que usara para no 
se queimar com as vasilhas. Ela sabia o que ele estava procurando e estava determinada a no deix-lo encontrar. Era to pequena de qualquer forma, que ela sabia 
que ele no a veria, a menos que estivesse particularmente descuidada.
       - Tenha um bom dia na escola - disse ela de modo casual e propositadamente no se ofereceu para beij-lo. 
       Nem disse nada para Charles quando ele saiu para o escritrio. Ela sabia que tinha de ser cuidadosa. E sentia que Victoria no teria dito muito a eles, se 
 que ela os via pela manh.
       De fato, Charles pareceu surpreso ao v-la quando voltou para casa. E Geoff ficara ainda mais quando chegou da escola e a encontrou cerzindo algumas meias 
de seu pai na cozinha.
       - O que voc est fazendo? - Ele pareceu chocado e ela corou enquanto respondia.
       - Ollie ensinou-me como fazer.
       - Nunca vi voc fazendo isso antes.
       - Bem, se no fizer, seu pai vai para o escritrio descalo. 
       Ela sorriu e Geoff riu e foi tomar leite com biscoitos antes de subir relutantemente para fazer seu dever de casa. Ele tinha apenas mais um ms de escola 
e mal podia esperar pelas frias de vero.
       
       
       
       
       
VINTE E UM

       
       
       O resto da semana passou sem eventos especiais. Olvia falou muito pouco com eles. Ela era muito cuidadosa com o que fazia ou falava. Queria ser cautelosa 
at que os conhecesse melhor. Viver com eles constantemente era bem diferente de visit-los. E queria estar certa de que no cometeria nenhuma gafe que a revelasse. 
Na verdade, ela ficou muito aliviada quando, na sexta-feira, Geoff pediu para ficar na casa de um amigo e Charles disse que tinha reunies a tarde inteira com clientes 
de fora da cidade. Na realidade, ele estava planejando jantar com eles e, como sabia o quanto ela odiava esse tipo de coisa, no a convidou.
       Ela ficou feliz por ter tempo para si mesma, para olhar algumas coisas de sua irm. Ela queria olhar cuidadosamente os livros que Victoria queria ler, os 
artigos que ela recortara, as cartas de alguns poucos conhecidos de Nova York e os convites que ela aceitara. Haveria algo no Ogden Mills em duas semanas e Olvia 
se preocupou com algo mais que Victoria no tivesse lhe contado, mas ela parecia bastante familiarizada com a maior parte daquilo. 
       Ento, pouco depois das nove da manh, ela teve a sensao estranha. Era um sentimento de desestrutura, quase como se ela fosse perder o equilbrio; na verdade 
ela se sentia quase doente, como passou todo o dia, e  noite ela teve uma fortssima dor de cabea. No tinha idia de por que estava doente. No tinha febre nem 
resfriado e estava bem quando se levantara naquela manh. Na hora em que Charles chegou em casa, ela estava na cama e, enquanto ficava l deitada, teve um crescente 
sentimento de pnico e ele ficou surpreso quando olhou para ela e viu o quanto estava plida. Ela parecia genuinamente horrvel.
       - Foi algo que voc comeu? - perguntou ele com uma leve preocupao. 
       Ele tivera um longo dia, mas as negociaes haviam ido bem e ele conseguira um novo cliente.
       - No sei - disse Olvia numa voz fina, sentindo-se terrivelmente tonta. 
       Ela sentia como se o quarto estivesse girando em torno dela. Estava se sentindo assim praticamente desde a hora do almoo.
       - Pelo menos sabemos que voc no est grvida - disse ele sarcasticamente e Olvia no respondeu. 
       Ela se sentia muito mal para responder a ele e apenas ficou deitada na cama por horas naquela noite, sentindo-se desgostosa. Quando por fim adormeceu, teve 
a terrvel sensao de que estava se afogando. Sentou-se arfando e pulou da cama quando no pde mais suportar aquilo. E, assim que se movimentou, ele se mexeu, 
sentou-se e olhou para ela.
       - Voc est bem? - perguntou numa voz sonolenta e ela sacudiu a cabea, ainda sem ar.
       Ele veio rapidamente em direo a ela com um copo de gua. Ela tomou um gole, tossiu e ele ajudou-a a sentar-se numa poltrona. 
       - No sei o que aconteceu... foi um terrvel pesadelo - e ento, quase que subitamente, ela foi tomada por uma onda de pnico e soube que algo acontecera 
com sua irm. Ela olhou para ele, que leu em seus olhos o que estava pensando.
       - Voc est apenas exausta - disse ele tranqilizando-a, impressionado novamente com a ligao entre as gmeas. Era quase como se elas nunca tivessem se separado, 
como se fosse muito traumtico para elas. - Estou certo de que ela est bem, onde quer que esteja - disse ele calmamente.
       Mas ela estava agarrando seu brao com um olhar de terror. 
       - Charles, eu sei que ela no est bem!
       - Voc no sabe nada disso - disse ele numa voz suave e tentou faz-la voltar para a cama com ele, mas ela no foi.
       - No posso respirar - disse ela, parecendo assustada.
       Parecia impossvel num navio como aquele, mas e se algo tivesse acontecido? E se... e se ela estivesse doente?... Olvia sabia que podia senti-lo. E Charles 
pde ver que algo muito estranho estava acontecendo a ela. Ela comeou a chorar e no conseguia parar. Ele teve medo por seus nervos, enquanto a observava.
       - Devo chamar um mdico, Victoria? - perguntou, e ela quase pulou ao som do nome de sua irm. - No sei - respondeu, sentindo-se estrangulada e ento olhou 
para ele e comeou a chorar novamente. - Oh, Charles... estou com tanto medo... 
       Ele veio ajoelhar-se perto dela ento; ele nunca a vira dessa maneira antes e no sabia o que fazer por ela. Sentou-se perto dela, segurou sua mo e finalmente 
levou-a de volta para a cama e deitou-a a seu lado. Mas sempre que fechava os olhos, ela dizia que sentia como se estivesse se afogando. 
       - Sinto muito - disse ela finalmente - no queria ser um problema to grande - mas ela ainda estava chorando suavemente. -Apenas sinto que algo terrvel aconteceu 
com ela.
       - Estou certo de que no  verdade - disse ele, ainda segurando sua mo, querendo confort-la e surpreso com o quanto ela parecia suave e precisando de ajuda 
enquanto se deitava a seu lado. 
       Ela no dormiu mais, mas pela manh estava calma. Ela ainda ficou deitada mais algum tempo e pareceu quase como se estivesse em transe quando Charles falou 
com ela. 
       - Voc gostaria de um ch, Victoria? - perguntou. 
       Ele ainda achava que ela parecia doente e decidira que em breve chamaria o mdico. Era a primeira vez em seus onze meses juntos que ela ficava doente e aquilo 
de alguma forma o surpreendia. Ela era normalmente bem equilibrada e muito saudvel. Mas ele estava comeando a achar que o choque de sua irm gmea ter ido embora 
na semana anterior a havia desequilibrado de alguma maneira.
       Ele desceu as escadas e fez ch para ela, mas antes que pudesse lev-lo, ela desceu e vagou descala pela cozinha. Estava parecendo um pouco mais forte quando 
se sentou e abriu os jornais, pensando que aquilo manteria sua mente longe de preocupaes com sua irm.
       Mas assim que ela os abriu, sentiu o ar faltar e olhou para o jornal. Havia uma manchete de dez centmetros atravessando a pgina e aquilo fez seu corao 
parar enquanto lia. O Lusitania fora torpedeado a cerca de vinte quilmetros da costa da Irlanda e afundara completamente em apenas dezoito minutos. Tudo o que se 
sabia era que fora visto do porto, mas muitas vidas foram perdidas; nenhum sobrevivente ainda fora listado, mas de acordo com o artigo havia corpos por toda parte, 
e o navio inteiro fora destrudo pelos submarinos.
       - Oh, meu Deus! -disse ela, encarando-o. -Oh, meu Deus... Charles... - e enquanto ele olhava para ela, totalmente espantado, Olvia escorregou vagarosamente 
para o cho. Ele conseguiu peg-la assim que ela desmaiou.
       A copeira havia acabado de entrar, e Charles gritou para ela chamar o mdico e dizer a ele que viesse rpido. A Sra. Dawson estava muito doente e acabara 
de desmaiar. Ele a carregou escadas acima antes que ela recuperasse a conscincia e deitou-a em sua cama. E um momento mais tarde ela se reanimou, enquanto ele segurava 
alguns sais sob seu nariz. Havia alguns muito velhos no armrio do banheiro, que Susan usara quando estava grvida de Geoffrey.
       - Eu... oh... o que... oh, meu Deus... Charles...
       O navio afundara e sua irm estava nele. Ela no sabia se estava viva ou morta e no tinha meios de descobrir, ou mesmo de contar a ele o que acontecera. 
Tudo o que ela podia fazer era chorar e Charles ficou doente de preocupao enquanto esperavam pelo mdico.
       - No fale, Victoria, apenas feche seus olhos. 
       Ele tentou acalm-la, mas ela estava muito agitada e ele ficou bastante aliviado quando ouviu o mdico subindo as escadas vinte minutos mais tarde. Ele tambm 
estava aliviado por Geoffrey no estar em casa; seria preocupante demais para um garoto de sua idade ver sua madrasta em tal estado de desequilbrio.
       - O que aconteceu aqui? - perguntou o mdico num tom alegre, mas pde ver imediatamente que a Sra. Dawson estava extremamente abalada e estivera chorando.
       - Sinto muito, doutor - desculpou-se ela, recomeando a chorar, enquanto Charles olhava para ela pensando que havia algo muito estranho com sua mulher. 
       Ele sentia como se ela tivesse se tornado uma pessoa completamente diferente desde que Olvia partira e tambm estava comeando a achar que ela estava tendo 
um ataque nervoso. 
       Olvia tentou explicar seus sintomas ao mdico, embora todos soassem terrivelmente tolos agora. Mas ela agora sabia o que os causara. Ela comeara a se sentir 
doente no exato momento em que o navio afundara e se sentia desgraada desde ento. O que ela no sabia era se Victoria estava viva ou no. Tudo o que queria era 
aquela segurana, mas ningum podia d-la a ela.
       A seguir o mdico falou a ss com Charles, que lhe explicou que sua irm gmea havia ido embora na semana anterior. Eles estavam em completo acordo sobre 
a concluso. Ela estava sofrendo de distrbios nervosos e da espcie de histeria que pode acontecer quando se separa um gmeo do outro. Ele estava bastante surpreso 
por aquilo no ter acontecido em sua lua-de-mel, mas no o surpreendia ter acontecido agora. O mdico explicou que havia vezes em que o gmeo que ficava ou sobrevivia 
se tornava confuso e comeava a absorver a identidade ou personalidade do outro. E para Charles aquilo explicava a recente e quase imperceptvel suavidade de sua 
esposa. Subitamente ela estava ainda mais parecida com Ollie.
       O mdico sugeriu repouso completo para ela e desejou que ela se recuperasse no tempo certo. Mas enquanto isso ele no queria que absolutamente nada a preocupasse. 
Nenhuma notcia perturbadora, nada que fosse minimamente desagradvel. Charles lhe explicara o que acontecera a ela quando lera sobre o Lusitania.
       - Terrvel, no? Que coisa chocante para acontecer. Alemes podres! 
       Ento ele subitamente se lembrou de que Charles perdera sua esposa e quase perdera seu filho no Titanic, suspeitou que aquilo o estivesse incomodando e mudou 
de assunto. Sugeriu que ele mantivesse Geoff longe por mais um dia ou dois, at que ela se acalmasse novamente e perguntou com particular cautela se era possvel 
que sua esposa estivesse grvida. Charles pareceu surpreso com aquilo e disse que duvidava, mas subitamente comeou a pensar.
       - Vou conversar com ela. Talvez ela possa estar - disse ele sem expresso.
       E o mdico prometeu voltar para v-la na segunda-feira. Ele sugeriu que Charles a mantivesse o mais calma possvel e deixou alguns barbitricos para que ela 
pudesse dormir, mas quando Olvia os viu disse que no os tomaria.
       - Vou ficar bem - disse ela fracamente, embaraada com o tumulto que causara. 
       Mas tudo o que queria agora eram notcias do Lusitania. Ela mal podia conter-se enquanto Charles se sentava perto dela com uma expresso de sofrimento. 
       - H algo errado? - perguntou ela suavemente, imaginando se algo mais havia acontecido, se ele sabia ou tinha imaginado ou algum telefonara da Cunard. Seu 
corao golpeava seu peito enquanto olhava para ele.
       - No realmente - disse ele baixinho - pelo menos eu espero que no. O mdico me fez uma pergunta que percebi que no posso responder.
       - O que foi? Que pergunta? - Ela comeou a se sentir histrica de terror, mas tentou no demonstrar.
       - Ele me perguntou se voc estava grvida.
       Olvia olhou para ele horrorizada. Sua irm lhe dissera que no havia mais nada fsico entre ela e Charles, o que ele queria dizer perguntando a ela se estava 
grvida?
       - Claro que no! - disse Olvia em tom quase inaudvel enquanto pensava.
       - Sei que voc certamente no est grvida de mim, a menos que tenhamos aqui uma concepo imaculada, o que  bem pouco provvel. Mas eu estava imaginando 
se voc e Tobby tinham comeado a se encontrar novamente. Sei que ele mandou flores, mas no tenho idia do quanto voc est envolvida com ele, embora talvez voc 
ainda pense que isso no  da minha conta. 
       Ela certamente havia ficado fora at tarde o suficiente e nunca dizia a ningum onde estivera ou onde estava indo. Mas Olvia pareceu horrorizada com a sugesto.
       - Como voc pode dizer algo assim para mim? - Ela pareceu enraivecida, mas tambm estava chocada ao ouvir que Tobby Whitticomb tivera a audcia de mandar 
flores para sua irm. - Como voc ousa me acusar de uma coisa dessas? Eu nunca mais o vi - disse ela, esperando estar lhe dizendo a verdade, mas no podia imaginar 
sua irm sendo to estpida a ponto de cair nessa armadilha de novo. Estava certa de que ela no o faria. - No, Charles - disse ela espantada. - No estou tendo 
um caso com ele e no estou grvida. 
       Ela tinha certeza de que sua irm tambm no estava. Ela estava muito ferida pelo passado, com muita raiva de todos os homens agora e muito faminta por liberdade. 
Olvia sentia em sua alma que Victoria teria morrido antes de voltar para Tobby depois daquela traio. Isso ela sabia sobre sua irm. E Olvia tambm sabia que 
ela mesma no estava grvida e no podia estar, pois era virgem.
       - Peo desculpas se a insultei, mas voc tem de admitir que isso no  totalmente impossvel. Voc caiu nas garras dele uma vez, poderia ter cado de novo 
- disse ele, parecendo um tanto aliviado. Por alguma razo, Charles no achou que ela estivesse mentindo para ele e acreditou nela.
       - Eu posso ter sido ingnua - disse Olvia friamente, pensando em como Victoria responderia a ele e tentando se agarrar quilo. - Mas no sou estpida!
       - Espero que no - disse ele e deixou o quarto, esperando no t-la aborrecido muito, mas ela parecia um pouco mais lcida. 
Mas quando ele voltou para v-la novamente mais tarde naquela manh, ela estava chorando. Ela estava fora de si por causa do Lusitania. E naquela tarde ela escapou 
para o andar de baixo quando ele saiu e leu tudo o que pde sobre o navio desgraado. Ela at mandou a empregada sair para comprar um jornal vespertino para ela 
e leu o pouco que haviam acrescentado. Eles ainda no sabiam de nada, exceto que centenas de pessoas haviam se afogado na costa de Queenstown, Irlanda. Corpos j 
haviam comeado a chegar  terra firme, e Olvia sentiu seus joelhos enfraquecerem novamente enquanto lia. Mas ela tambm sabia que tudo o que podia fazer agora 
era esperar at segunda-feira e ento ir at a Cunard e esperar que eles tivessem uma lista de sobreviventes. E tudo a que ela podia se apegar agora era a pequena 
esperana de que sua irm estaria entre eles.
       Enquanto isso, ela tinha que manter Charles sob controle e rezar para que ele no pensasse que ela estava completamente louca.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
VINTE E DOIS
       
       
       
       O que Olvia no vira, mas sua irm sim, foi a pequena notcia que a Embaixada Alem colocou nos jornais de Washington e Nova York no dia em que ela embarcou. 
Dizia simplesmente que os passageiros que tinham a inteno de embarcar em viagens pelo Atlntico deveriam se lembrar de que havia um estado de guerra entre Alemanha, 
Inglaterra e seus aliados. A zona de guerra inclua as guas adjacentes s Ilhas Britnicas e os navios que carregassem a bandeira da Gr Bretanha ou de seus aliados 
eram passveis de destruio naquelas guas. Os viajantes que estivessem naquela rea em navios britnicos deveriam saber que corriam riscos. A notcia era datada 
de 22 de abril de 1915, fora emitida pela Embaixada Imperial Alem em Washington e parecia bastante oficial.
       Mas era igualmente sabido que a lei das naes ditava que um navio sob qualquer bandeira no podia ser afundado sem aviso e remoo de passageiros civis. 
Sob estas circunstncias, os passageiros no Lusitania sabiam que no corriam perigo. 
       Victoria tambm sabia que deveria ter embarcado no navio americano New York, mas este no era nem de perto to bom quanto o outro, e ela gostava mais da idia 
de viajar num navio Cunard. O Lusitania era mais veloz que o New York e ela considerara a possibilidade de que ele poderia fugir mais rpido de um submarino.
       Na ocasio o Lusitania estava fazendo uma viagem de um ms de Nova York para Liverpool e no carregava bandeiras nacionais ou regionais, para mant-lo a salvo 
dos alemes. Mesmo seu nome e o porto de registro haviam sido pintados para que ficasse ainda mais seguro. As portas de vedao foram mantidas fechadas durante toda 
a viagem e, uma vez no mar irlands, os barcos salva-vidas foram suspensos e a vigia redobrada. Tudo foi feito para proteger o navio e os passageiros do Lusitania 
sabiam que estavam quase to a salvo quanto qualquer um poderia estar dos alemes. Alm disso, era um navio gigantesco, com quatro mastros pintados de preto e vermelho, 
um total de dez decks, sete acima e trs abaixo da linha da gua. E ele comprovara ser mais do que confivel nos ltimos oito anos. Quando Victoria embarcou, era 
a 202 viagem do navio. O Lusitania no era o Titanic.
       E para ficarem absolutamente certos de que no corriam risco nenhum, eles observaram blackout completo; todas as cabines tinham de fechar as cortinas  noite 
e os homens eram solicitados a no fumar nos decks. E, no caso de Victoria, as mulheres tambm.
       Na primeira noite, Victoria estava completamente relaxada no navio e ficou muito excitada por ter visto lady Mackworth, Margaret Thomas, quando solteira. 
Victoria a reconheceu imediatamente. Sabia que ela no apenas era um membro ativo da Unio Social e Poltica das Mulheres, mas uma amiga prxima das Pankhurst. A 
prpria Margaret tinha ateado fogo a um posto de correio e passara uma temporada na cadeia, para horror de seu respeitvel pai, um membro do Parlamento Liberal. 
Mas ela parecia em boa forma no navio, depois de passar um tempo em Nova York. Victoria encontrou-a na primeira noite do lado de fora, e ficaram juntas no deck.
       -  corajoso de sua parte estar indo para a Europa agora - disse ela a Victoria, que lhe explicou que era uma jovem viva indo servir como voluntria na Frana, 
para trabalhar atrs das trincheiras com os aliados. Ela tinha os nomes de alguns poucos contatos na Cruz Vermelha e outros no exrcito francs.
       - Ns podemos us-la na Inglaterra tambm - disse ela, sorrindo, impressionada com sua energia e ento lady Mackworth saiu para jantar com seu pai, enquanto 
Victoria optou por jantar sozinha em sua cabine.
       Mas eles falaram com ela a respeito de estar com eles na prxima noite. A sala de jantar da primeira classe era extraordinria, da altura de dois pavimentos, 
com colunas em toda parte e uma abbada enfeitada no alto. Havia tambm uma biblioteca, salas de fumar e uma gigantesca creche para as crianas. Havia jogos para 
eles e tambm muito entretenimento, tanto para os jovens quanto para os adultos a bordo. E Victoria ficou surpresa ao descobrir que, apesar da guerra, todo mundo 
parecia estar de bom humor e falavam muito pouco daquilo.
       Os homens certamente falavam sobre as notcias todos os dias, particularmente quando se reuniam para fumar, como Victoria e algumas poucas mulheres tambm 
faziam, mas eles no pareciam insistir naquilo e ningum falava absolutamente nada sobre submarinos.
       Victoria notou Alfred Vanderbilt a bordo, mas foi cuidadosa em evit-lo, j que ele conhecia seu marido. Ele tinha aproximadamente a mesma idade de Charles 
e ela se lembrou que eles conheciam um ao outro e Charles almoara com ele uma vez naquele inverno. E ela no queria ningum dizendo a Charles onde ela tinha ido 
ou destruindo sua histria de que "Olvia" havia ido para a Califrnia. Embora ela estivesse viajando como Olvia Henderson, era totalmente compreensvel que algum 
que conhecia as duas a identificasse e ela poderia nem mesmo reconhec-los, se fossem conhecidos apenas de sua irm. Ento ela era cuidadosa. Compareceu a menos 
atividades sociais do que o usual e passou um tempo considervel na biblioteca, no deck ou em sua cabine.
       Charles Froman, o magnata do teatro, tambm estava a bordo. Ele parecia ter trazido um grupo de amigos com ele e era consideravelmente mais velho. Estava 
indo a Londres para ver a nova pea de James Barne, The Rosy Rapture, que Froman queria levar para a Broadway. Charles Klein, o dramaturgo, passou uma quantidade 
considervel de tempo conversando com ele e at mesmo trouxe sua nova pea para trabalhar nela. Mas embora Victoria tivesse gostado de encontr-los, ela se manteve 
sozinha a maior parte da viagem e at mesmo declinou quando foi convidada para o jantar do capito. O capito Turner a vira no deck e a achou de uma beleza impressionante.
       Victoria se sentia surpreendentemente livre no navio e, depois do ano com Charles, era um grande alivio estar sozinha agora. A nica pessoa de quem ela sentia 
falta terrivelmente era sua irm gmea. Ela pensava em Olvia constantemente e rezava para que ela no tivesse entregado seu segredo, mas Victoria confiava completamente 
nela. E como sua gmea, ela sentia a mesma agonia por estarem separadas agora. Era quase assustador. O tempo esteve agradvel durante toda a viagem, eles no encontraram 
tempestades e no fim da semana todos estavam aguardando ansiosamente a chegada. 
       Na sexta-feira, Victoria fizera sua mala pela manh e ficou feliz por encontrar lady Mackworth novamente  tarde. Ela deu a Victoria seu endereo em Newport 
e encorajou-a a lhe telefonar. Victoria estaria viajando de Liverpool para Dover e de l, de trem, para Calais. A partir da, tinha de fazer contato com as pessoas 
cujos nomes ela tinha e comear a se mover lentamente em direo s trincheiras.
       Victoria almoou sozinha naquele dia e fazia um calor fora de poca quando entraram no Mar Cltico. Os comissrios de bordo abriram todas as janelas possveis 
na sala de jantar e muitas nas cabines de primeira classe. No fim do almoo, as pessoas estavam indo para suas cabines para se trocar. A terra j fora avistada e 
eles estavam a apenas vinte quilmetros do porto, ao sul do farol de Old Kinsale, na Irlanda. Havia uma atmosfera de celebrao e excitao. Eles haviam conseguido!
       Victoria foi para o deck depois do almoo e estava de p no parapeito, olhando para o mar enquanto se aproximavam de Liverpool, quando um rastro fino e branco 
correu sob a superfcie do mar para estibordo. Ela comeou a acompanh-lo enquanto ouvia os animados acordes de Danbio azul e imaginou se era um peixe ou algo assim 
que vinha na direo deles. 
       Estava usando um vestido vermelho que Olvia comprara para elas anos antes e deixara seu chapu embaixo. O sol brilhava nela e subitamente o navio inteiro 
tremeu e ela foi lanada contra o parapeito, enquanto uma coluna de gua crescia e tomava todo o caminho para a ponte de comando no deck e todo o casco se erguia 
fora da gua. Era a coisa mais extraordinria que ela jamais havia visto e ela olhou para aquilo enquanto se agarrava ao parapeito, imaginando vagamente se seria 
jogada ao mar, mas no foi. 
       Ela estava usando saltos altos e sentiu seus ps se desequilibrarem. O casco do grande navio estabilizava-se no mar novamente, e uma nuvem cegante de vapor 
subia, enquanto seguiam na direo do farol  distncia.
       Mas dentro de alguns minutos, enquanto as pessoas exclamavam sobre o que viram, o navio comeou a inclinar-se severamente para estibordo. A cabine de Victoria 
ficava no deck B e tudo em que ela pde pensar foi em voltar at l para pegar seu colete salva-vidas e seu dinheiro. Mas subitamente havia uma multido por toda 
parte, e assim que ela comeou a descer o navio comeou a virar ainda mais perigosamente para estibordo. Era extremamente difcil andar agora.
       - Fomos atingidos!... - ouviu algum dizer. - Torpedo!
       Um alarme soou em algum lugar e o barulho era ensurdecedor. Alm dele, ela ainda podia ouvir msica e tudo em que pde pensar subitamente foi em Susan no 
Titanic.
       - No agora - disse ela para si mesma, correndo para baixo e lutando para recuperar o equilbrio, enquanto batia repetidamente contra as paredes do navio. 
       Ele estava se inclinando lentamente para o lado. Mas ela alcanou sua cabine a tempo de pegar seu colete salva-vidas, a carteira e o passaporte. No pegou 
mais nada. No trouxera jias com ela e no tinha nada de valor, exceto seu passaporte e o dinheiro que trouxera para se sustentar. Ela lutou para colocar o colete 
salva-vidas, enquanto deixava novamente a cabine e corria para cima.  distncia ela podia ouvir as pessoas gritando. Havia pessoas em pnico em toda a sua volta 
e quando ela alcanou as escadas, quase colidiu com Alfred Vanderbilt, carregando sua caixa de jias.
       - Voc est bem? - perguntou ele, perfeitamente calmo. 
       Ela no estava certa se ele a havia reconhecido ou no. Como sempre, ele estava sorrindo e era corts. Ele parecia completamente sereno e seu criado estava 
com ele.
       - Acho que sim - disse ela em resposta. - O que est acontecendo? 
       Ela no tivera nem tempo de entrar em pnico. Era tudo to confuso. Mas enquanto falava com ele, ambos ouviram o som de outra exploso bem abaixo deles.
       - Torpedos - disse ele agradavelmente - muitos deles.  melhor que voc suba ao deck rapidamente. - Ele deu passagem e ela passou  frente dele e ento o 
perdeu de vista. 
       Eles j haviam iado os botes salva-vidas nos guindastes, mas o navio virava ainda mais pesadamente para estibordo, tornando imprestveis os botes a bombordo. 
Eles balanaram sobre o navio num ngulo maluco e os que estavam a estibordo estavam submergindo rapidamente. O Lusitania parecia um brinquedo de criana, prestes 
a virar completamente na banheira. Mas isso no era um brinquedo e eles estavam longe o suficiente no mar para aquilo se transformar num desastre real. Victoria 
olhou para a costa, imaginando subitamente se conseguiria nadar at l. Eles podiam ver a costa de onde estavam e as pessoas de Queenstown podiam ver o casco do 
Lusitania ir abaixo abruptamente, enquanto a popa se elevava no ar. E o gemido do navio parecia quase como os das gaivotas.
       E quando o navio comeou a escorregar para baixo, as muitas janelas que haviam sido abertas anularam o efeito das portas de vedao e deixaram a gua corrente 
entrar. 
       Victoria estava observando a cena de caos absoluto em torno dela; seus saltos altos jogados de lado e ento ela subitamente teve problemas para respirar. 
No estava certa se era fumaa ou pnico, mas a chamin do navio estava bem embaixo e ela teve de lutar para manter o equilbrio. As pessoas estavam literalmente 
caindo no mar, enquanto a antena de rdio tombava, quase matando muitos. As pessoas estavam saltando do navio e gritando por socorro, crianas choravam e mes tentavam 
freneticamente coloc-las em coletes salva-vidas. E ento ela viu Alfred Vanderbilt novamente, ajudando crianas a entrarem nos botes. Ela o viu tirar seu prprio 
colete salva-vidas e d-lo a uma garotinha e, enquanto ela o observava, empurrou a carteira para dentro do vestido, bem segura dentro do colete salva-vidas.
       E enquanto Victoria observava os botes descerem, viu os primeiros dois virarem e ouviu as pessoas gritando, enquanto uma das chamins caa e engolia uma mulher. 
Foi como uma cena do inferno quando uma garotinha escorregou por entre suas pernas no deck, para dentro do oceano. Victoria gritou, procurando por ela, mas era muito 
tarde e a criana tropeou e se afogou, enquanto Victoria a olhava.
       - Oh meu Deus... oh meu Deus... - disse ela, virando-se para no ver o horror daquilo, quando os cachos louros surgiram por apenas um instante e a criana 
caiu de cabea para baixo no mar abaixo dela.
       Uma voz atrs de Victoria disse a ela para entrar num bote salva-vidas. Muito estranhamente, parecia a voz de sua irm, mas ela nunca soube quem era e havia 
um terrvel rudo quando ela olhou em direo a eles. Havia apenas cinco minutos desde que haviam sido atacados, mas o navio estava afundando rapidamente e Victoria 
alcanou os botes salva-vidas. Por um momento pareceu que no haveria lugar para ela. Havia apenas dois botes sobrando e parecia haver crianas por toda a parte.
       - Pegue as crianas, no a mim! - gritou para o jovem oficial que os ajudava a entrar no bote, que balanava loucamente.
       - Voc sabe nadar? - perguntou ele e ela assentiu. - Se agarre numa espreguiadeira, vamos afundar em um minuto - gritou o oficial para ela e desceu sem lev-la. 
       Seguindo seu conselho, Victoria se agarrou numa espreguiadeira e literalmente deslizou para fora do navio, que afundou apenas um instante mais tarde. Subitamente 
ela se viu num mar de colches flutuantes, pedaos de madeira, esttuas, espreguiadeiras e corpos. Era um repugnante conglomerado de coisas que estavam sendo literalmente 
atiradas do navio enquanto ele batia no fundo, com uma srie de exploses ensurdecedoras e aterrorizantes e ela gritou quando dois cadveres bateram contra ela. 
       Para todo lugar que ela olhava havia pessoas gritando, morrendo, chorando, crianas flutuando perto dela, mulheres pedindo ajuda e ela observou uma mulher 
afogada agarrada a seu beb morto. Era tudo quase inimaginvel e ela afundou mais de uma vez, mas sempre voltava para ver mais uma cena de horror, at que finalmente 
sua espreguiadeira flutuou perto de outra com um garotinho numa roupa de veludo azul deitado nela. Ele parecia um pequeno prncipe perfeito, dormindo ali, exceto 
pelo fato de estar morto, assim como sua me. Era a pior coisa que Victoria jamais havia visto ou sonhado. Ela manteve os olhos fechados, querendo que o pesadelo 
acabasse, mas no acabou. E ela no pde acreditar quando finalmente viu o capito Turner agarrado a uma espreguiadeira e lady Mackworth, prximo a ele, agarrada 
a outra. E  distncia havia um oficial do navio e uma velha senhora sentados num grande piano.
       Mas em toda parte as pessoas gritavam e por toda parte elas estavam se afogando. Aps alguns momentos, Victoria no podia mais suportar aquilo; era simplesmente 
horrvel demais, suas pernas estavam frias, ela no podia respirar com o choque daquilo tudo e as pessoas em volta dela estavam todas morrendo. Ela segurou-se  
espreguiadeira o quanto pde e ento, finalmente, misericordiosamente, deslizou para debaixo d'gua. Ela podia ouvir terrveis rangidos, pessoas gritando e pssaros 
chiando no alto, os sons do inferno, at que sentiu algum arrast-la pelos ps, sua cabea batendo em cada pedra. Ela queria gritar, mas no podia. Sabia que devia 
estar morta, mas logo j no estava to certa, porque cada pedao de seu corpo estava doendo. 
       Ela abriu os olhos dolorosamente para ver quem a estava puxando e encontrou-se olhando para o rosto de um homem que estava puxando suas pernas, prestes a 
coloc-la num caixo.
       - Oh, meu Deus, Sean, esta aqui est viva!... ela est se mexendo.
       Ela tossiu horrivelmente e vomitou o que pareciam gales de gua. Seus cabelos estavam grudados na cabea e seus lbios estavam rachados. Seus olhos ardiam 
e seus pulmes pareciam prestes a explodir. Quando ela olhou em volta, viu que era noite e tudo em torno dela eram caixes, com o cheiro da morte misturado ao do 
oceano. Havia pssaros circulando acima e Victoria no teve foras nem mesmo para se sentar enquanto o homem a ajudava. 
       - Pensamos que voc estivesse morta - disse ele, desculpando-se. - Voc parecia estar.
       - Sinto como se estivesse - disse ela e tentou vomitar novamente, imaginando o que acontecera aos outros. 
       Mas isso era mais fcil de ver do que ela desejaria. Aquilo que pareciam milhares de cadveres estavam deitados por toda a sua volta, a maior parte crianas. 
Partiu seu corao ver aquela cena. Elas pareciam to doces, ainda to bonitas mesmo mortas, algumas delas com os olhos abertos, outros fechados, e aqui e ali mes 
soluantes.
       - Os alemes pegaram seu navio - explicou o homem chamado Sean. - Pegaram bem no fundo. Foi a pique em dezoito minutos. Isso foi h cinco horas atrs. Ns 
pegamos voc perto do porto, meu irmo e eu. Ns todos fomos peg-los. Mas h poucos malditos sobreviventes - disse ele com um sotaque irlands que a teria encantado 
em outro momento. - Sabe, os submarinos estiveram rondando o porto por semanas, aqueles bastardos podres! Ficaram vagabundeando na boca do porto. - Ela no pde 
evitar se perguntar se o capito Turner soubera disso.
       - Venha - disse ele - deixe-me ajud-la a levantar-se. Voc  uma garota sortuda - declarou ele, puxando-a gentilmente para ficar de p, descala.
        Suas meias de seda haviam desaparecido, com boa parte de seu vestido. Ela estava usando apenas o que parecia uma combinao, calcinhas e uma blusa vermelha 
sob o colete salva-vidas, em cima de sua cinta e, quando procurou, viu que ainda tinha sua carteira. E ela no ficou nem mesmo embaraada quando os jovens marinheiros 
meio que puxaram, meio que a carregaram at o bar local, para onde estavam levando os sobreviventes. 
       Eles tambm haviam aberto a igreja, o Queen's Hotel, a prefeitura e os hospitais Queenstown e Royal Naval. E havia um estande com ch quente na estao. Eles 
estavam fazendo tudo o que podiam para ajudar os sobreviventes, e a Cunard havia encomendado dois mil caixes.
       Quando Victoria entrou no bar, assistida por Sean, olhou em volta e viu um ou dois rostos familiares, entre eles o do capito. Ele chegara a Queenstown num 
pequeno barco a vapor chamado Bluebell, que tambm resgatara Margaret Mackworth.
       - Belo vestido - disse uma mulher ironicamente, olhando para ela. 
       Ela era uma das poucas que ainda tinha suas duas crianas com ela, mas todos os trs estavam nus. E em outros cantos do local, mulheres soluavam por seus 
maridos e bebs perdidos. Elas os haviam visto escorregar de seus braos no deck, os observaram caindo ou sendo golpeados pelos escombros, ou simplesmente afogando-se 
na gua fria. Era algo alm da imaginao, alm de tudo o que Victoria jamais lera ou sonhara. E tudo em que ela estava pensando agora era em mandar um telegrama 
para sua irm. Ela sabia que era perigoso contat-la, mas tambm sabia que no tinha escolha. Tinha de contar a Olvia que estava viva, que havia sobrevivido ao 
desastre.
        meia-noite, o cnsul americano, Wesley Frost, fez a ronda de todos os locais para onde os sobreviventes estavam sendo levados e perguntou o que podia fazer 
por cada um deles. Ela deu a ele o nome de Olvia, o endereo e uma mensagem cifrada. Sabia que ela entenderia o que aquilo queria dizer e pediu a ele que confirmasse 
quando o tivesse mandado. Ele prometeu que o faria. Ele estava mais que ocupado naquela noite. Havia 189 americanos a bordo, e ainda no havia meio de dizer quantos 
deles estavam mortos, mas havia pessoas histricas em torno dele por toda a parte, de todas as nacionalidades, muitas delas seriamente feridas. E todos os que haviam 
sobrevivido estavam desesperados para contatar seus parentes e acalm-los.
       - Vou cuidar disso o mais cedo possvel, senhoria Henderson - prometeu-lhe, dando-lhe um dos cobertores que as mulheres do local haviam deixado para eles. 
       Havia pessoas em farrapos por toda parte, algumas completamente nuas, mas ningum nem mesmo notava.
       - Obrigada, eu apreciaria muito - disse ela. Seus dentes estavam batendo violentamente e ela ainda achava difcil respirar. 
       Havia engolido muita gua. E enquanto se sentava no cho, encostada contra a parede do bar, em suas roupas de baixo, pensou sobre o que acontecera, sobre 
tudo o que ela vira, o horror completo daquilo e imaginou se Alfred Wanderbilt sobrevivera. Ela no o via h muito. Mas aquilo a fez pensar bastante em Geoffrey, 
que sobrevivera a um desastre parecido no Titanic e vira sua me afundar com ele. Subitamente ela sentia muito mais simpatia pelo que ele passara e desejava poder 
colocar seus braos em torno dele naquele momento e em sua irm tambm. Ento ela fechou seus olhos, como se para mandar as imagens embora, especialmente a de uma 
mulher gritando, dizendo que estava dando  luz e logo ficando inconsciente. Mas tudo o que ela pde ver quando fechou os olhos foi Olvia sentada na cama em seu 
quarto em Nova York, e Victoria desejou poder alcan-la e toc-la. E com cada pedao de seu ser ela tentou se concentrar e dizer a ela que estava bem, rezando com 
toda a sua alma para que Olvia soubesse disso.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
VINTE E TRS
       
       
       
       Enquanto Olvia observava Geoffrey e Charles tomarem o caf da manh na segunda-feira, dez de maio, ela pensou que ia gritar se eles demorassem mais um momento. 
Ela ainda se sentia doente e tivera uma discusso feroz com Charles sobre ler o jornal.
       - O mdico disse que voc no devia se aborrecer - lembrou-lhe ele, levando o jornal para longe, e ela agarrou-o de volta.
       - Me d o jornal, Charles! - gritou para ele numa voz em que no reconheceu a si mesma. Ele olhou para ela surpreso e ento o entregou a ela, enquanto ela 
pedia desculpas. - Sinto muito, no estou em meu estado normal. Apenas quero ler sobre algo e manter minha mente longe de Olvia,  tudo.
       - Entendo perfeitamente - disse ele de forma lacnica e afinal, misericordiosamente, saiu para o escritrio.
       At Geoff parecia arrastar os ps para ir para a escola naquele dia, mas no momento em que ele saiu, Olvia agarrou o chapu e a bolsa e correu para fora. 
Pegou um txi e deu-lhe o endereo do escritrio da Cunard, na State Street. Mas ela estava totalmente despreparada para o que encontrou 1. Havia um verdadeiro 
mar de pessoas selvagens gritando, jogando coisas, chamando nomes, chorando, implorando por informaes e, quando no as conseguiam, ficavam ainda mais horrveis. 
Oficiais da linha martima faziam o que podiam para conter a multido com a ajuda da policia, mas no fim ficou bvio que eles tinham muito poucas informaes. Eles 
tinham nmeros incrveis de perdas, talvez bem mais do que a marca de mil que temiam, e o corpo de Frohman havia sido encontrado flutuando prximo a Queenstown. 
       Alm disso, havia apenas pedaos de informao e muitos rumores aterrorizantes. Havia tambm rumores de que houvera celebrao na Alemanha por causa da vitria 
do submarino, o que enfurecia a multido ainda mais. Mas, aps sete horas l, Olvia ainda no tinha o que viera buscar: a lista de sobreviventes. Eles a haviam 
prometido para o dia seguinte e seu corao estava oprimido quando saiu de l, s quatro e meia. Ela estivera de p o dia todo, no tinha comido nada e fizera tudo 
o que podia para agarrar qualquer pedao de informao. Havia poucos nomes, algumas listas de mortos. Um jovem disse que a empresa estava tirando fotografias dos 
corpos em Queenstown para identific-los mais tarde. 
       Apenas o pensamento daquilo a fez estremecer. E mesmo assim, quando estava ali quieta, era como se pudesse ouvir Victoria falando com ela. Ela no sentia 
como se ela estivesse morta, o que quer que aquele sentimento pudesse parecer. Talvez ela tambm fosse morrer ento. Talvez fosse assim que ela saberia. Ela estava 
to cansada que se sentia quase paralisada enquanto andava todo o caminho de volta para a casa no East River.
       E quando subia os degraus da frente, seu corpo doendo tanto quanto sua mente, ela viu um rapaz de uniforme se aproximando. Ele usava o uniforme da Western 
Union e quando olhou para ele, ela sentiu seu corao parar e correu degraus abaixo. Ela agarrou seu brao sem pensar e parecia uma louca enquanto o segurava.
       - Voc tem um telegrama para mim? Victoria Dawson? 
       Ela sabia que era o nome que viria no telegrama se Victoria ousasse mand-lo para ela ali e estava certa de que Victoria no seria cruel o suficiente para 
mant-la em silncio se estivesse viva. Agradeceu por estar certa quando ele assentiu.
       - Sim... eu... aqui - disse ele e quase saiu correndo dela. 
       Ela se sentiu como uma bruxa enquanto arrebatava o telegrama dele e o rasgava para abri-lo. Suas mos tremiam to terrivelmente que ela mal podia ler o que 
dizia e pareceu engolir grandes quantidades de ar enquanto lia. A garota era louca. Absolutamente maluca! Mas estava viva em Queenstown.
       "Viagem comeou com batida. Ponto. Graas a Deus por Mr. Bridgeman. Ponto. Tudo bem em Queenstown. Ponto. Eu te amo sempre. Ponto."
         Mr. Bridgeman era seu velho professor de natao em Croton. E Olvia ficou gritando e chorando nos degraus enquanto lia, sem se importar com quem a escutava. 
No havia mais informaes, nem endereo, nenhum lugar para procur-la ou encontr-la. Mas Olvia sabia que sua irm gmea estava viva e bem e havia sobrevivido 
ao naufrgio do Lusitania. Era tudo o que ela precisava saber agora. Amassou a mensagem na mo e depois correu para a casa e queimou o papel no forno, embora suspeitasse 
de que deveria t-lo guardado, mas era muito perigoso ficar com ele. Algum poderia encontr-lo e calcular onde ela realmente estava.
       Aqueles haviam sido os piores trs dias da vida de Olvia e ela esperava que nunca tivesse de passar por nada parecido novamente. Estava to exausta que decidiu 
tomar um banho e encheu a banheira com gua quente e espuma. Ela no sabia o que fazer para celebrar, se danar, cantar ou chorar. Em vez disso, correu para o quarto 
de Geoff e o abraou, o que ele achou estranho. Ele achou que Victoria estava definitivamente ficando maluca. Seu pai dissera algo a ele sobre seus nervos, mas ele 
estava comeando a achar que era sua cabea que estava estragada agora. Mas ele nunca a vira de to bom humor.
       - O que aconteceu com voc hoje? - perguntou ele, enquanto ela dava piruetas feliz e sorria para ele. 
       Eu tenho minha irm de volta, ela queria dizer. Ela est viva! Ela est bem. Ela est em Queenstown. Ela no morreu no Lusitania.
        - Voc realmente parece feliz.
       - Estou. Foi um dia adorvel - disse ela, rindo para ele. - E voc? Teve um bom dia na escola?
       - No - ele disse, de maneira trivial - muito chato. Onde est papai?
       - Ainda no chegou.
       Ela o deixou para entrar na banheira e desceu para jantar usando um vestido novo e parecendo uma nova pessoa. Charles havia acabado de entrar e parecia cansado 
e irritado. Mas ele lavou as mos e foi direto jantar.
       - Por que voc est to feliz? - Ele olhou para ela, infeliz, e deu uma olhada para Geoff, como se esperasse uma explicao.
       - Apenas me sinto melhor,  tudo. 
       - Suas intuies se acalmaram?
       - Talvez - disse ela, embaraada com o pesadelo que fora o fim de semana e aliviada com a crena de que havia acabado, mas  claro que Charles no sabia disso. 
       -Apenas me sinto melhor,  tudo. 
       Olhando para ela, ele imaginou o que ela estivera tramando e se realmente estava tendo um caso, mas ela foi muito agradvel com ele e ainda mais doce com 
Geoff naquela noite, e ele estava um pouco tranqilizado na hora em que a cozinheira serviu o caf aps o jantar.
       - Falei com um investigador hoje - disse ele baixinho, quando Geoff subiu as escadas para terminar seu dever de casa. - Ele vai comear a procurar por ela 
na Califrnia na prxima semana. Ele diz que tem alguns contatos muito bons l - tranqilizou-a e ela agradeceu a ele. Mas a cada vez que olhava para ele, ela no 
podia parar de sorrir.
       - O que voc fez hoje, Victoria, para ficar de to bom humor? Receio que voc esteja me deixando com muitas suspeitas. 
       Mas ela parecia to bonita e to jovem naquela noite que ele no teve corao para ficar com raiva dela, embora imaginasse que devia ficar.
       - Apenas me sinto melhor. Sinto-me aliviada - respondeu ela, tentando explicar at onde ousava. -  como se eu soubesse que agora ela est bem, embora eu 
no possa explicar. 
       Mas ele tinha grande respeito pela telepatia entre elas, embora no a entendesse.
       - Talvez voc esteja certa - disse ele calmamente - Espero que sim. 
       E ficou feliz por ela ao menos se sentir melhor. O fim de semana fora um pesadelo, ele realmente comeara a pensar que ela estava tendo um ataque de nervos.
       - Sinto muito pelo problema que causei.
       - No se preocupe com isso, no foi um problema. Eu apenas fiquei preocupado com voc - disse ele quase timidamente, olhando para ela. 
       Ela parecia muito mais aberta com ele do que era antes e ele imaginou se a partida abrupta de Olvia a mudara ou se o mdico estava certo e ela absorveria 
um pouco da personalidade de Olvia depois de seu desaparecimento. No caso de Victoria, seria definitivamente uma melhora. Depois que Olvia partira, Victoria estava 
mais dependente dele do que jamais estivera, mais desejosa de estender a mo a ele do que antes do desaparecimento de sua irm. Ele lembrou-se de sexta-feira  noite, 
quando ela se agarrara a ele e dissera que estava com medo. 
       Aquilo o fazia olhar para ela agora de maneira um pouco diferente, embora ele no quisesse ser to otimista. Eles estavam casados h quase onze meses agora 
e ele tinha feito de tudo para no desistir de seu casamento.
       - Vou tentar no ser um problema novamente - disse ela calmamente e subiu para escrever algumas cartas. 
       Desejava poder escrever a Victoria, mas  claro que no podia. Ainda no, mas poderia quando sua irm chegasse a seu destino final nas trincheiras. E ela 
esperava que Victoria escrevesse para ela, de preferncia logo, para a casa de seu pai na Quinta Avenida, como haviam combinado. Olvia queria saber tudo o que havia 
acontecido no Lusitania.
       Charles leu um pouco antes de ir para a cama naquela noite. Ambos beijaram Geoff e ele voltou para o quarto e disse algo a ela sobre o Lusitania. 
       -  uma coisa terrvel os alemes afundarem aquele navio. Parece que eles tiveram grandes perdas de vidas, mais que no Titanic. No queria que Geoff ouvisse 
muito sobre isso, acho que iria faz-lo lembrar-se de sua me. - Ela olhou para ele por um longo momento e ento assentiu.
       - E voc, Charles? - perguntou ela calmamente. - Voc est bem?... Isso o fez lembrar-se dela tambm? 
       Sua doura golpeou-o como uma bofetada e por um momento ele no pde responder. Ele no esperava aquilo dela. Seu relacionamento era como o de dois adversrios 
e era estranho ter um toque gentil dela e no uma palavra azeda ou uma resposta raivosa.
       - Fez - respondeu ele finalmente. - Passei maus momentos por causa disso durante todo o fim de semana. - Enquanto ela estava sofrendo, ele tambm estava e 
ela nem mesmo soubera disso.
       - Sinto muito, Charles - disse ela e ele se virou e assentiu. 
       Ele no disse nada a ela novamente, e um pouco mais tarde foram para a cama, ambos cuidadosos como sempre, para ficar em seus prprios lados, com uma vasta 
distncia entre eles.
       - Foi gentil de sua parte - disse ele subitamente no escuro e a surpreendeu. - Perguntar como eu me senti, quero dizer... sobre Susan... e o navio que afundou. 
 to estranho como essas coisas voltam s vezes. Foi to incrivelmente horrvel esperar para ouvir, desesperado para saber. Eu os levei  loucura completa na White 
Star e eles ainda no sabiam, e depois esperando nas docas, na chuva, o Carpathia chegar... eu no sabia at ento se algum deles estava vivo - disse ele, parecendo 
chocado. - Pensei que nenhum deles tivesse sobrevivido... e ento eu o vi... um dos membros da equipe estava carregando Geoff... e eu olhei por toda parte atrs 
dele procurando por Susan. Mas ela no estava l. E eu soube. Peguei o garoto e fomos para casa. Levou meses para Geoff falar sobre aquilo. No acho que algum jamais 
esquea uma coisa dessas. - Assim como Victoria jamais esqueceria o que acabara de passar.
       - Sinto tanto que voc tenha passado por isso - disse ela delicadamente e estendeu a mo gentilmente, tocando seu ombro. - No  justo para nenhum de vocs. 
Vocs no mereciam isso. 
       Ela sentia tanto por ambos, aquilo rasgava seu corao. E quando ele olhou para ela na luz turva da lua l fora, viu algo nela que o teria assustado antes, 
mas subitamente no assustou.
       - Talvez as coisas aconteam na vida por alguma razo. Voc no estaria aqui se isso no tivesse acontecido - disse ele gentilmente e ela sorriu tristemente 
para ele, sabendo em que eles estavam metidos.
       - E voc estaria bem mais feliz se eu no estivesse. 
       Ela ainda estava com raiva de sua irm por deix-lo e a Geoffrey, particularmente depois de tudo o que acabara de acontecer. Aquilo certamente provou que 
a viagem era perigosa. E o irreverente "terminou com uma batida" no era nenhum exagero.
       - No diga isso - disse ele generosamente. - Talvez Susan tenha sido tirada de ns por alguma razo. J pensei nisso algumas vezes.  impossvel saber por 
que algumas coisas acontecem.
       - Me sinto uma pessoa de muita sorte por conhecer voc - disse ela gentilmente e falava srio, sem se dar conta de que era uma coisa estranha para dizer ao 
marido. 
       Olvia ainda era muito inocente e ele viu isso nela quando olhou em seus olhos naquela noite e aquilo o surpreendeu.
       -  uma coisa carinhosa de se dizer - disse ele gentilmente, imaginando se ele realmente a conhecia ou se apenas pensava que sim.
        Ela parecia subitamente muito diferente. E sem dizer nenhuma outra palavra, ele deslizou vagarosamente para perto dela e a beijou muito suavemente nos lbios, 
com medo de assust-la. Ele no queria comear com os velhos problemas entre eles novamente, queria apenas dizer-lhe que estava agradecido pelo que ela lhe dissera 
e, se nada mais, pela sua amizade. 
       Mas quando a beijou, sentiu algo emocion-lo, algo que ela nunca fizera a ele antes, embora ele no soubesse por que e beijou-a novamente e tentou dizer a 
si mesmo que no devia. 
       - Devemos fazer isso? - sussurrou roucamente e ela sacudiu a cabea, mas ela no queria parar, embora dissesse a si mesma que deveria. 
       Mas enquanto ele a beijava repetidamente, ela esqueceu tudo o que sabia sobre seu relacionamento e sentiu seus braos se colocarem em torno do pescoo dele 
e seu corpo pressionar o dele e ele nasceu novamente quando a abraou.
        - Victoria, no quero fazer nada que voc no queira - disse ele roucamente. 
       Eles j haviam estado nessa situao antes, embora no o fizessem havia meses e sempre se arrependiam. Sua vida sexual no fizera nada, a no ser torn-los 
ambos muito infelizes.
       - Charles, eu no sei... eu... - ela queria dizer a ele para parar, sabia o quanto aquilo era errado; ele era o marido de sua irm e ainda por cima Victoria 
havia acabado de voltar da morte. Olvia entrara em sua vida e estava ali nos braos do homem que amara por tanto tempo. Ela no podia parar agora. 
       - Eu te amo - sussurrou ela. Ela nunca dissera aquilo a ele antes e Charles olhou para ela num espanto meigo.
       - Oh, minha doce garota - disse ele, sentindo seu corao se juntar ao dela, dando tudo o que tentara esconder dela, e subitamente ele soube o que estivera 
errado entre eles. Ele nunca ousara am-la. - Como eu te amo - disse ele, quase a despeito de si mesmo e ento, como se fosse a primeira vez, o que era para ela 
e ele no se deu conta, fez amor com ela muito gentilmente. 
       Apesar da dor que causou a princpio, ela se deu completamente a ele, sem reservas, com total abandono e, quando ele olhou para ela mais tarde, sentiu como 
se tivesse nascido de novo. Para ambos, era um novo comeo, uma nova vida, a lua-de-mel que nunca tiveram e de que ambos tinham sentido tanta falta.
       Ele ficou deitado horas em seus braos, acariciando-a, afagando-a, descobrindo-a toda novamente, pensou, mas na verdade pela primeira vez, e por fim ele dormiu 
aconchegado a ela, enquanto ela o abraava imaginando o que fariam quando Victoria voltasse para casa. Charles era a maior alegria que ela jamais tivera na vida 
e, ao mesmo tempo, sua pior traio. Ela no tinha idia do que diria  irm quando ela voltasse para casa, mas soube naquele momento que no podia deix-lo.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
VINTE E QUATRO
       
       
       
       Depois que Wesley Frost, o cnsul americano em Queenstown encontrou para ela um vestido e um par de sapatos para usar, Victoria pegou um trem de Queenstown 
para Dublin no domingo. Encontrou-se l com um representante da Cunard e ento pegou o trem para a estao de Lime Street, em Liverpool. Havia vrios outros sobreviventes 
no trem com ela e Victoria ficou assustada ao ver membros da imprensa esperando para entrevist-los na estao de Lime Street. 
       Vance Pitney, do New York Tribune, j havia ido a Queenstown, estava em Liverpool e de l iria para Londres. Era a maior notcia que qualquer jornal j tivera 
desde o Titanic. E esta era ainda maior porque o gigantesco navio fora torpedeado pelos alemes. No era apenas uma tragdia que custara mais de mil vidas, eram 
notcias de guerra. 
       Mas Victoria foi cuidadosa e evitou a imprensa enquanto deixava a estao e foi para o Adelphi Hotel, onde tentou calcular o que fazer depois. Quando chegou 
l no fim da tarde de domingo, ainda estava muito abalada. E o vestido que ela estava usando parecia horrvel. Enquanto ela checava o quarto, acendeu um cigarro, 
e quando se sentou e olhou em volta, comeou a chorar, querendo estar em casa em Croton. No era muito tarde para voltar atrs, havia sido um incio infernal.
       O hotel mandou uma bandeja para seu quarto naquela noite; eles sabiam quem ela era e por que estava l. Houvera sussurros no saguo quando ela chegara. Ela 
explicara sua situao ao recepcionista, at suas letras de cmbio e seu dinheiro britnico estavam molhados, bem como sua carta de crdito, e ela teria de ir ao 
banco na segunda-feira para troc-los. Ela tentou o mximo possvel evitar qualquer ateno exagerada. Mas no importava o que fizesse naquela noite, no podia tirar 
da cabea as imagens medonhas do navio afundando, o casco em primeiro lugar e os rostos das pessoas que haviam morrido em torno dela. Ela ainda se lembrava do rosto 
do jovem membro da tripulao que lhe dissera para se agarrar a uma espreguiadeira, quando ela no pde entrar nos botes salva-vidas e seu conselho a havia salvado.
       Ela ficou acordada toda a noite e se sentia horrvel quando se levantou na manh seguinte. Mas depois que comeu alguma coisa e bebeu uma grande xcara de 
caf quente, sentiu-se melhor. Em seguida foi ao banco, trocou o dinheiro, entrou na loja mais prxima e comprou alguns vestidos, suteres, um par de calas compridas, 
dois pares de sapatos e at um par de botas que ela poderia usar quando fosse para as trincheiras. Ela no sabia se eles dariam a ela um uniforme ou no, mas assim 
ela tinha algo para usar quando chegasse l. Precisava de roupas de baixo, meias, camisolas, cosmticos, um pente. No tinha mais absolutamente nada, nem mesmo os 
pedaos de seu vestido vermelho que ela deixara em Queenstown.
       - Voc est fugindo de casa? - perguntou-lhe a mulher na loja com um sorriso falso, mas Victoria no conseguia mais rir de nada. Ela apenas olhou para a mulher 
e sacudiu sua cabea.
       - Eu estava no Lusitania quando ele afundou - disse Victoria solenemente e a mulher arfou. Como o mundo inteiro ento, ela ouvira sobre aquilo.
       - Voc tem sorte de estar viva, minha cara - sussurrou a mulher e abenoou-a. 
       E Victoria sorriu tristemente enquanto pegava seus pacotes e voltava para o hotel, ainda perseguida pelas imagens dos outros. Ela imaginou se os veria por 
toda a vida, especialmente as crianas, com seus rostos doces e olhos cegos, flutuando em torno dela. Ficou pensando no garotinho flutuando morto numa espreguiadeira 
na roupa de veludo azul, com o broche comemorativo do Lusitania pregado em sua gola. Era suficiente para fazer qualquer um odiar os alemes para sempre.
       Mas no fim daquela tarde Victoria estava comeando vagarosamente a se recuperar e comeou a pensar em como ia chegar  Frana. Seus planos haviam mudado, 
para dizer o mnimo, mas o recepcionista do hotel disse-lhe como chegar a Dover e o que fazer depois. Ela tinha de pegar uma pequena balsa para Calais, e aquilo 
era arriscado tambm. Havia submarinos espionando no canal ingls entre a Frana e a Inglaterra e pensar neles agora a fazia estremecer.
       - Talvez eu devesse ter comprado apenas uma roupa de banho e economizado muitos problemas - disse ela com um sorriso nervoso, e o recepcionista sorriu de 
seu humor.
       - Voc tem uma esportiva infernal, senhorita - disse ele. No estou certo se eu tentaria novamente depois do que acabou de passar.
       - No tenho muita escolha se quiser ir at a Frana, tenho? - disse ela pensativamente, certa de que tinha de faz-lo.
        Era por isso que ela viera at ali e ningum dissera que seria fcil. Os alemes haviam introduzido gs de cloro na Batalha dos Ypres duas semanas antes 
e pelo que Victoria ouvira, a batalha ainda estava acontecendo e estava sendo um massacre. A questo era como chegar o mais perto dela que pudesse e encontrar os 
contatos que haviam sido dados a ela. Eles estavam baseados em Reims e o melhor que ela podia fazer era tentar encontr-los quando chegasse a Calais, se os telefones 
estivessem funcionando. Aquilo ficava para ser visto mais tarde. Era tudo uma aventura, uma peregrinao que sentira que tinha de fazer e esperava que no estivesse 
errada ao ter vindo. Os sinais, at agora, certamente no tinham sido bons.
       Ela deixou Liverpool na tera-feira de manh e agradeceu a todos no hotel. Nos ltimos dois dias, as pessoas haviam lhe dado pequenas coisas, presentinhos, 
doces, frutas, pequenos objetos religiosos, apenas para faz-la saber que estavam felizes por ela ter sobrevivido ao Lusitania.
       Ela voltou para a estao de Lime Street de txi, de l pegou um trem para Dover e quando chegaram s docas, subiu na balsa. Havia pequenas balsas e pareciam 
inofensivas o suficiente num dia ensolarado de maio, mas depois da experincia que ela tivera no Mar Cltico sabia o quanto os submarinos eram traioeiros e no 
estava nem um pouco ansiosa para encontrar outro deles.
       Ela negociou o preo da passagem com o capito da balsa e havia apenas um punhado de outros passageiros quando ele tomou o comando. Era uma tarde brilhante, 
azul e sem nuvens, mas ela passou a viagem inteira agarrada ao parapeito totalmente aterrorizada, preparada para morrer a qualquer momento.
       - Vous avez bien peur, mademoiselle. 
       Ele sorriu para ela. Ele raramente havia visto uma garota to encantadora ou to apavorada. Comentou sobre seu nervosismo durante toda a viagem e ela apenas 
assentiu, sem dizer uma palavra para ele, enquanto mantinha os olhos fixos na gua, esperando pelos submarinos e o rastro branco que ela vira antes de ele atingir 
o Lusitania.
       - Lusitania - disse ela, sabendo que ele entenderia. 
       O mundo inteiro entenderia, ela sabia por ter lido os jornais. E a cada vez que ela lia outro artigo, se encolhia, pensando na pobre Olvia e no que ela devia 
estar pensando. Mas o marinheiro na pequena balsa havia entendido tudo. Ele no disse mais nenhuma palavra a ela durante a breve travessia para Calais e, quando 
chegaram l, ele carregou sua bagagem para ela e entregou-a a um homem com um carro, que a levou para o hotel mais prximo e recusou-se a receber qualquer dinheiro 
dela. Depois de muitas conversas longas, eles lhe deram um quarto pequeno e bonito, que dava para o mar.
       Ela pediu para usar o telefone e ligou para um dos nomes que recebera em Nova York no consulado francs. Era uma mulher que organizava voluntrios para a 
Cruz Vermelha em Paris e ela seria capaz de dizer a Victoria para onde ir e onde seria necessria. Mas quando ligou, ela estava fora, e ningum mais falava ingls. 
       - Rappellez demain, mademoiselle - e tudo o que ela entendeu foi "amanh".
       Ela se sentou sozinha em seu quarto naquela noite, fumando cigarros e pensando na jornada que fizera e no quanto custara chegar at ali. Ela enganara o marido, 
abandonara o pai e a irm gmea, sobrevivera ao naufrgio de um navio, e agora s Deus sabia o que esperava por ela ali. Tinha de se admirar com sua prpria determinao. 
Nada parecia conseguir det-la. Nem mesmo a mulher desagradvel que encontrou em Paris no dia seguinte, que disse a ela que estavam muito ocupados para falar com 
ela e que ela ligasse novamente no dia seguinte.
       - No! - gritou no telefone rapidamente, determinada a no ser colocada de lado novamente. Ela estava perdendo seu tempo ali. - No, eu preciso falar com 
algum agora... maintenant...
       E ento ela lanou as palavras mgicas, s para ver o que aconteceria. 
       - Eu acabo de sair do Lusitania.
       Houve um breve silncio e ento ela pde ouvir palavras abafadas do outro lado. Houve outra pausa e ento um homem pegou o telefone e perguntou a ela qual 
era o seu nome. 
       - Olvia Henderson. Peguei seu nome ou o daquela senhora, no consulado francs de Nova York. Eu vim para servir como voluntria na guerra. Sou americana e 
estou em Calais agora.
       - E voc estava no Lusitania? - Ele pareceu um pouco apavorado e ela ficou satisfeita por ele t-lo dito.
       - Sim.
       - Meu Deus... Voc pode estar em Reims amanh s cinco horas?
       - No sei - disse ela honestamente. - Acho que sim. Onde fica?
       - A cerca de duzentos e quarenta quilmetros ao sul de onde voc est. Se puder conseguir algum para lev-la de carro, podem vir direto pelo interior, por 
trs. H luta por l, mas no  to ruim como em Soissons, nas proximidades. Mas mesmo assim voc ter de ser bastante cuidadosa - e ento ele sorriu ao telefone, 
imaginando por que ela viera de to longe para participar de uma guerra na qual seu governo no queria tomar parte. 
       O presidente Wilson ainda estava determinado a ficar fora daquilo a qualquer custo e os custos eram incrivelmente altos. Cinco milhes de homens haviam morrido 
desde que a guerra fora declarada no vero anterior. E mais sete milhes haviam sido feridos. 
       - Encontre algum com um carro - continuou a voz do outro lado - e chegue l, se puder. Ns temos uma delegao de voluntrios partindo amanh. Voc  enfermeira?
       - No. Sinto muito - desculpou-se ela, imaginando se eles ainda a quereriam.
       - Voc dirige? 
       - Sim.
       - timo! Voc pode dirigir uma ambulncia, ou um caminho, ou o que quer que eles digam. Apenas esteja l amanh - disse ele e ia desligar quando ela o interrompeu.
       - Qual  o seu nome? - perguntou e ele sorriu de sua ingenuidade.
        Ela era obviamente muito nova naquilo e ele mais uma vez no conseguiu imaginar por que ela viera para c arriscar sua vida numa guerra que pertencia a outros 
pases. Outros haviam vindo tambm, mas muitos deles eram mais velhos e tinham histrias complicadas. Ela parecia uma criana no telefone e ele lhe disse que seu 
nome no era importante, pois ele no estaria l. 
       - Ento por quem eu procuro?
       Ele pareceu irritado novamente.
       - Qualquer um que esteja sangrando. Voc vai encontrar muitos deles, receio. Vai ficar esgotada de trabalhar quando chegar l. Pergunte pelo capito responsvel 
pela rea. Ele vai dirigi-la ao hospital, ou  Cruz Vermelha, se estivermos l. Voc vai nos encontrar, no se preocupe.  uma pequena guerra com muita gente nela. 
Voc no vai conseguir nos perder. 
       E ele desligou. Ela agradeceu s pessoas da mesa e voltou para seu quarto no hotel. Jantou bem naquela noite e o dono do hotel negociou com um motorista para 
ela. Era um garoto com um velho Renault, mas ele disse que podia chegar aonde ela queria ir pelas estradas do interior. Disse que levariam o dia todo e queria partir 
bem cedo de manh. E ela imaginou, enquanto olhava para ele, que ele era mais novo que ela. Seu nome era Yves e ela pagou adiantado, como ele havia pedido. Ele disse 
a ela para vestir roupas quentes e usar sapatos pesados. Estaria frio quando partissem e, se o carro quebrasse, ele no queria ter de carreg-la at Reims porque 
ela estava de saltos altos. 
       Ela pareceu irritada com a observao, mas de qualquer maneira ele sorriu e ela perguntou asperamente se o carro quebrava sempre.
       - No mais do que ele tem de quebrar. Voc dirige? - perguntou, e ela assentiu. E ento ele partiu, dizendo que a veria de manh.
       Victoria ficou acordada em sua cama toda aquela noite; estava to excitada que no conseguiu dormir. Era por aquilo que ela estava ali. Mas foi difcil se 
lembrar disso na manh seguinte. Estava frio e mido e ela no dormira nada. Ela ficou feliz ao descobrir que o hotel havia embrulhado um lanche para eles e que 
o garoto trouxera uma garrafa trmica de caf, dada a ele por sua me.
       - Por que voc veio para c? - perguntou ele, enquanto ela tomava a primeira xcara no caminho para sua primeira parada em direo a Doullens. Seria uma longa 
jornada.
       - Vim porque achei que seria necessria aqui - respondeu ela, imaginando se poderia explicar a ele. 
       Era difcil o suficiente explicar para si mesma naqueles dias, ainda mais para um garoto de Calais que mal falava sua lngua. 
       - Me sentia intil onde estava, porque no estava fazendo nada por ningum. Isso aqui parecia mais importante. 
       Ele assentiu. Havia entendido. Soava nobre, mesmo para ela, a maneira como havia colocado a coisa.
       - Voc no tem famlia - disse ele, presumindo que ela no tivesse. 
       Ela no contou a ele que tinha um marido e um filho adotivo que deixara para trs, ou ele realmente pensaria que ela era louca ou pelo menos pervertida.
       - Sou gmea - disse-lhe - jumelle - o que parecia mais interessante e era uma palavra que ela conhecia em quase todas as lnguas. 
       Era uma palavra que sempre fazia as pessoas se iluminarem. E ele o fez, enquanto olhava para ela.
       - Identique? - perguntou Yves interessado. 
       - Oui. - Ela assentiu.
       - Trs amusant. - Ele assentiu com aprovao. - Ela no quis vir com voc?
       - No - disse Victoria firmemente, contando a mentira que criara para vir para c. - Ela  casada, no pde.
       Ele fez um sinal de que tinha entendido, mas na verdade ele no tinha idia do quanto aquilo tudo era complicado. Ele apenas achou que entendera. Depois disso 
eles rodaram por um longo tempo em silncio. Passaram por farmcias, igrejas, algumas escolas campestres e campos que no haviam sido plantados naquele ano. No 
havia homens jovens para faz-lo. Ele tentou explicar a ela com gestos e ela entendeu. E ento eles rodaram novamente em silncio por um tempo e ela acendeu um cigarro, 
tomando outra xcara de caf.
       - Vous fumez? - Ele pareceu impressionado. Mulheres francesas de sua classe no faziam aquilo. Mas ela assentiu. - Trs moderne. - Ele assentiu e sorriu. 
       Ela era "trs moderne" at mesmo em Nova York; na verdade, at um pouco demais.
       E ento eles rodaram atravs de Montdidier e depois Sensil, e foi bem depois que a noite caiu que eles finalmente chegaram a Reims. H muito tempo ela j 
perdera seu encontro s cinco horas com a Cruz Vermelha, e eles h muito tambm j rodavam sem caf e comida. Ela e Yves podiam ouvir armas  distncia. Elas soavam 
mais perto do que estavam e havia o ocasional e repetitivo espocar das balas.
       - No  bom para ns ficarmos aqui - disse ele nervosamente, olhando em volta, mas eles chegaram a Chlons-sur-Marne exatamente como lhes disseram para fazer 
e, poucos minutos mais tarde, viram um hospital de campo e ela lhe disse para parar ali. 
       Havia macas sendo carregadas para dentro e para fora homens em aventais ensangentados de p em pequenos grupos, dando consultas, e enfermeiras correndo para 
ajudar homens mortos ou feridos. Yves pareceu desconfortvel e Victoria apenas ficou ali olhando a ao em torno dela. Ela sentiu como se estivesse acordada h dias 
e sua vida inteira tivesse sido virada de cabea para baixo, mas ainda assim sentiu uma sbita exploso de excitao apenas por estar ali.
       Ela perguntou na emergncia se havia algum da Cruz Vermelha ali e eles apenas sorriram para ela e se viraram, embora ela estivesse certa de que falavam ingls. 
Yves ento disse que tinha de ir. Ele apenas viera deix-la e ela devia se virar sozinha; e ela no o contratara para ser um guia pelo resto da guerra, seu motorista 
particular. Ele acenou enquanto entrava no carro novamente, e ela gritou "Merci" quando ele partiu, mas ele estava obviamente apressado para sair de Chlons-sur-Marne 
e ela no o condenava realmente. Mas ela no tinha idia do que fazer a seguir enquanto ficava l.
       Havia pessoas correndo para dentro e para fora da tenda e alguns poucos olharam para ela. Ela parecia to limpa e intocada enquanto ficava ali, parecendo 
um pouco perdida com seu casaco. E finalmente, sem saber o que mais fazer, ela perguntou a um servente pelo posto das enfermeiras.
       - Ali - disse ele vagamente, apontando por cima de seus ombros, enquanto carregava um grande saco de lixo e Victoria estremeceu ao pensar o que poderia estar 
ali dentro.
       Mas as enfermeiras estavam muito ocupadas para falar com ela, um novo grupo de feridos havia acabado de chegar e ningum tinha tempo a perder com uma principiante.
       - Aqui - disse um servente subitamente, jogando um avental para ela enquanto a ltima enfermeira corria para um homem gritando na esquina. - Preciso de voc. 
Siga-me. 
       Ele se moveu apressadamente entre duas centenas de macas no solo, separadas por apenas meio metro e ela teve de se mover o mais rpida e cuidadosamente que 
pde para no pisar nelas enquanto o seguia. Havia uma pequena tenda mais alm sendo usada como sala de operaes. E havia homens deitados no cho, esperando para 
ser carregados, alguns deles gemendo suavemente, outros gritando lastimosamente, outros misericordiosamente inconscientes.
       - No sei o que fazer - disse Victoria nervosamente.
         Ela esperara encontrar algum que explicasse as coisas a ela, dirigir uma ambulncia ou fazer algo que ela sabia que podia fazer, no estar aqui com esses 
homens, to cruelmente feridos pelas exploses, bombas e projteis. Havia queimaduras horrveis e muitos haviam sido envenenados pelos gases de cloro e fosgnio 
que os alemes estavam atirando neles. Era to novo e to cruel que os aliados no tinham armas comparveis com as quais combat-los.
       O servente que ela estava seguindo era pequeno e forte, tinha um cabelo vermelho brilhante e ela ouvira algum cham-lo Didier quando passaram por ele. Ela 
estava muito agradecida por ele falar ingls. E quase desmaiou quando compreendeu que ele esperava que ela o ajudasse a cuidar dos homens que haviam acabado de ser 
trazidos das trincheiras. Todos eles haviam sido fortemente envenenados por gs e muitos estavam confusos. Ele apontou um grupo para ela e falou em voz baixa, em 
ingls.
       - Faa o que voc puder por eles - disse ele calmamente em meio ao rudo infernal. Ela subitamente se lembrou das pessoas que vira em torno de si no mar quando 
o Lusitania afundara. Mas isso era muito pior e eles ainda estavam vivos. - Eles no vo durar at a noite. Muito gs. Ns no podemos ajud-los.
       Havia um homem a seus ps com um vmito verde saindo de seu nariz e de sua boca e Victoria agarrou o brao de Didier enquanto ele se movia para deix-la.
       - No sou enfermeira - disse ela, tentando segurar sua prpria blis. Isso era demais para ela. Ela no conseguiria. Sabia que no devia ter vindo para c. 
- No posso...
       - Tambm no sou enfermeiro - disse ele severamente. - Sou msico. Voc vai ficar ou no? - perguntou asperamente. Esta era sua prova de fogo. Isso era o 
que ela dissera que queria. - Se no vai ficar, ento v embora. No tenho tempo para isso... 
       Ele olhou para ela zangado, como se ela tivesse vindo at ali para nada, uma diletante, para se mostrar para seus amigos. Mas o que viu nos olhos dele desafiou-a 
e ela assentiu.
       - Vou ficar - disse ela com voz rouca e ajoelhou-se vagarosamente em direo ao homem mais prximo dela. 
       Metade de seu rosto havia sido arrancada e havia bandagens ensangentadas cobrindo-o, mas os cirurgies decidiram no perder tempo com ele. Ele j estava 
quase morrendo para eles perderem horas com ele. Num hospital apropriado talvez, mas no aqui. Ele nunca sobreviveria. Estaria morto em algumas horas.
       - Ol... qual  o seu nome? - perguntou ele numa voz j tocada pela morte. - Eu sou Mark. - Ele era ingls.
       - Sou Olvia - respondeu ela, dando a ele o nome que tinha de usar agora.
       Ela se sentia paralisada enquanto pegava a mo do rapaz na sua e segurava seus dedos com fora, tentando no olhar para ele e ver o ferimento, mas para algo 
alm dele.
       - Voc  americana - disse ele suavemente com seu sotaque de Yorkshire. - Eu j estive l uma vez...
       - Sou de Nova York - como se importasse.
       - Quando voc chegou aqui? - Ele estava se agarrando  vida, segurando-se a ela, sentindo que se falasse com ela atravessaria a noite, mas ambos sabiam que 
ele no conseguiria.
       - Hoje  noite - disse ela, sentindo-se tola novamente, enquanto sorria para ele e outro rapaz puxava seu avental.
       - Da Amrica, eu quero dizer... quando voc chegou? - perguntou Mark a ela.
       - No ltimo fim de semana... no Lusitania - disse ela entorpecida. 
       Havia tantos deles. Tudo o que ela podia ouvir eram seus soluos e seus gritos. Era exatamente como quando o navio afundara.
       - Uma coisa podre e sangrenta que os alemes fizeram... mulheres e crianas... eles so uns animais, eis o que so - disse ele e ela pde ver pelo que haviam 
feito a ele.
       E ento ela se virou para o outro que estava chamando por ela, ele queria sua me e estava com sede. Tinha dezessete anos, era de Hampshire e morreu segurando 
sua mo dez minutos mais tarde.
       Ela falou com centenas de homens naquela noite e dzias deles morreram enquanto ela os observava. Ela no fez nada em particular por eles, segurou a mo de 
um, acendeu um cigarro, deu a eles todos os seus, deu-lhes gua embora no pudessem beber; alguns deles no tinham mais estmago, ou lbios, ou estavam com os pulmes 
cheios de gases. Era horrivelmente alm da imaginao e ela pensou se realmente teria sido til enquanto cambaleava para fora da tenda de manh. Ela estava coberta 
de vmito, sangue e cuspe e no tinha idia de para onde ir ou para onde fora sua mala na noite anterior. Ela a esquecera e a tudo o mais enquanto estava ajoelhada 
ao lado dos rapazes que chamavam seu nome, seguravam sua mo ou apenas morriam em seus braos enquanto ela os olhava. Ela havia ajudado Didier a carreg-los para 
fora em macas e os deitara no cho at que outros homens viessem carreg-los para serem enterrados. Havia milhares deles agora, todos to jovens, enterrados nas 
encostas.
       - H comida naquela tenda. - Didier conseguira alguns suprimentos frescos e apontou para uma tenda grande, longe o suficiente para que ela pensasse se conseguiria 
chegar l.
       Ela no tinha dormido toda a noite e cada pedao de seu corpo doa, mas ele parecia incansvel enquanto sorria para ela. 
       - J est arrependida de ter vindo para c, Olvia? - perguntou. 
       Ela estava to cansada que quase escorregou e disse a ele que Olvia era sua irm. Mas enquanto estivesse ali, este seria o seu nome.
       - No - mentiu com um sorriso cansado, mas ele sabia que ela estava mentindo. 
       Ela havia trabalhado pesado na noite anterior, seria realmente bom t-la por perto, se ela ficasse. Muitos voluntrios no conseguiam. Eles ficavam poucos 
dias e ento saam correndo, chocados pelo que haviam visto e felizes por voltar para casa novamente. Outros, os mais fortes, os que podiam suportar aquilo, e esses 
eram raros, vinham e ficavam para sempre. Alguns voluntrios haviam estado com eles desde o incio. Fazia quase um ano agora. Mas ele no achava que ela seria um 
deles. Ela era muito jovem e muito bonita. Ela provavelmente tinha vindo pela excitao, calculou.
       - Voc vai se acostumar. Espere at o inverno, voc vai adorar. 
       Eles haviam estado com lama at as coxas durante meses. As chuvas haviam sido cruis. Mas era melhor do que o que acontecera com os russos, gelando na Galcia. 
Mas enquanto ela o escutava, se deu conta de que no inverno no estaria ali. Estaria de volta a Nova York, novamente com Charles e Geoffrey. Eles pareciam to distantes 
para ela agora, era como se nem mesmo existissem mais. A nica que ainda parecia real era Olvia, ela parecia viver em sua alma e Victoria s vezes quase podia ouvi-la 
falando com ela  noite. Era estranho.
       Ela ento deixou Didier e cambaleou em direo  tenda em que ele dissera ser o refeitrio e, enquanto se aproximava dela, sentiu cheiro de caf e comida 
e outros cheiros desconhecidos. Subitamente se deu conta de que, apesar do morticnio que vira, estava faminta. Serviu-se de ovos em p, um cozido que era em sua 
maior parte cartilagem e uma fina fatia de po que parecia ser to velho que era como um bloco de madeira, mas ela o comeu de qualquer forma, amaciando-o no cozido. 
E bebeu duas grandes xcaras de caf preto forte. Algumas poucas enfermeiras e alguns serventes disseram al a ela, mas todos estavam ocupados ou exaustos. 
       Eles pareciam ter uma cidade inteira organizada ali, com tendas servindo de quartis, um hospital, depsitos de suprimentos, o refeitrio. Havia um pequeno 
chteau bem atrs deles, onde os oficiais graduados ficavam alojados, inclusive o general que era o comandante e havia tambm uma casa de fazenda para o resto dos 
homens graduados. Todos os outros ficavam nas barracas. E Victoria ainda no tinha idia de onde eles a colocariam.
       - Voc est aqui com a Cruz Vermelha? - perguntou uma garota forte e agradvel. 
       Ela estava usando um uniforme de enfermeira e tomando um gigantesco caf da manh, embora estivesse coberta de manchas de sangue. Doze horas antes, Victoria 
podia ter ficado horrorizada, mas agora subitamente parecia normal.
       - Eu deveria estar - explicou Victoria. 
       A outra garota disse que seu nome era Rosie e, como muitos dos outros ali, ela era inglesa. 
       -Acho que os perdi ontem. No sei o que aconteceu.
       - Acho que sei. - Rosie olhou para ela com uma expresso estranha, enquanto Victoria esperava. - O carro deles foi atingido em Meaux. Havia trs pessoas. 
Todas morreram ontem  tarde no caminho para c. 
       O pensamento horrvel era que ela devia estar com eles, se tivesse tentado encontr-los em Paris. Graas a Deus ela no tinha! 
       - O que voc vai fazer? - perguntou ela calmamente e Victoria pensou sobre aquilo um longo momento. 
       Ela ainda nem mesmo estava certa se ia ficar. Isso era muito mais duro do que ela havia imaginado. Enquanto ainda estava em Nova York, escutando as palestras 
sobre a guerra nos consulados, parecera tudo to limpo e to definido, a ideologia to pura, os problemas to simples. Ela ia dirigir para eles. Mas dirigir o qu? 
Homens morrendo? Cadveres para o necrotrio temporrio? Ela nunca entendera realmente aquilo at chegar ali. Mas ela tambm sabia agora que, se quisesse ficar, 
seria til.
       - No estou certa - disse Victoria, hesitante. - No sou uma enfermeira treinada nem nada. No estou certa do como poderia ser til para algum. -Victoria 
olhou para Rosie timidamente, o que era pouco usual nela. - Com quem eu deveria falar?
       - Sargento Morrison - disse Rosie com um sorriso. - Ela  a responsvel pelos voluntrios e no se iluda, garota. Ns precisamos de toda a ajuda que pudermos, 
treinada ou no, se voc puder agentar. - Esta era a questo.
       - Como eu a encontro? - perguntou Victoria com cautela, ainda tentando decidir o que fazer.
       Rosie sorriu de sua pergunta e serviu-se de outra xcara de caf. 
       - Espere uns dez minutos e ela vai encontr-la. A sargento Morrison sabe de tudo o que acontece aqui. E isso  um aviso. 
       Ela sorriu. E no estava errada. Menos de cinco minutos mais tarde, uma gigantesca mulher de uniforme caminhou rapidamente para elas e pareceu medir Victoria 
com os olhos. Ela j ouvira Didier falar sobre a novata que chegara. A sargento Morrison tinha um metro e oitenta de altura, cabelos claros e olhos azuis e era australiana, 
de Melbourne. Estava na Frana h cerca de um ano e nunca fora ferida. Tratava seus voluntrios como escravos e, de acordo com Rosie, no suportava tolices.
       - Ouvi dizer que colocaram voc diretamente no trabalho ontem  noite - disse para Victoria de modo agradvel e a jovem americana sentiu-se estremecer enquanto 
olhava para ela espantada.
       - Sim, colocaram - respondeu, sentada muito reta e subitamente sentindo-se como um soldado raso.
       Era estranho estar ali, era tudo to ordenado e to civilizado no meio do caos. Todos sabiam o que tinham de fazer e o que era esperado.
       - Voc gostou? - perguntou a sargento Morrison asperamente. 
       - No estou certa de que "gostar" seja a palavra certa - disse Victoria cautelosamente, enquanto Rosie as deixava para voltar para a sala de operaes. 
       Ela tinha mais doze horas de trabalho por fazer. Eles trabalhavam em turnos de vinte e quatro horas aqui, ou at que cassem, o que quer que acontecesse primeiro. 
Ela tinha trabalhado trinta horas sem parar uma vez. 
       - Muitos dos homens de que tomei conta na noite passada estavam mortos antes do amanhecer - disse Victoria suavemente, enquanto Penny Morrison assentia rapidamente, 
mas seus olhos no estavam sem emoo.
       - Isso acontece muito por aqui. Como se sente a respeito disso, senhorita Henderson?
       Ela lembrara seu nome, sabia quem ela era e, embora Victoria no soubesse ainda, ela j havia mandado sua maleta para o acampamento e lhe designado uma cama 
no setor feminino.
        - Ns precisamos de sua ajuda aqui - disse ela honestamente. - No sei por que voc veio e no estou realmente interessada, mas se voc tem estmago para 
isso, precisamos demais de voc. Os homens tiveram uma derrota terrvel. 
       Victoria j vira isso na noite passada e at j ganhara uma mscara antigs para o caso de que tudo corresse mal, as trincheiras cedessem e os alemes invadissem.
       - Gostaria de ficar - disse Victoria, surpreendendo a si mesma. 
       Ela nem mesmo sabia ainda o que a fizera dizer aquilo, quase soava como se outra voz que no a dela tivesse respondido  pergunta.
       - Bom. 
       A sargento Morrison ficou de p e olhou para o relgio. Ela tinha outros assuntos para tratar. Eles teriam um encontro de oficiais no chteau naquela manh 
e, como era a sargento responsvel pelos voluntrios, pediram que se juntasse a eles. Ela sups corretamente que seria a nica mulher no encontro. 
       - Oh! - ela se virou como se tivesse esquecido de dizer algo. - Voc est no acampamento das mulheres. Mandei sua bagagem para l na noite passada. Algum 
vai lhe mostrar onde est. E voc precisa voltar a se apresentar ao trabalho no hospital em dez minutos.
       - Agora? 
       Victoria parecia abalada. Ela ficara acordada a noite toda e estava pronta para ir para a cama. Mas no de acordo com a sargento.
       - Voc vai parar s oito da noite hoje - ela sorriu. - Eu disse a voc, Henderson, ns precisamos de sua ajuda aqui. Voc pode pr sua beleza em dia mais 
tarde. E a propsito...
       Ela olhou para ela com um pouco de severidade, mas seus olhos eram calorosos e preocupados. Victoria ainda no podia acreditar que tinha de voltar ao trabalho. 
A mulher era uma tirana. Ela preferia poupar suas enfermeiras e usar suas voluntrias. Eles tinham de racionar tudo aqui, at pessoas. 
       -...amarre seu cabelo para trs - disse ela e ento desapareceu, enquanto Victoria ficava olhando para ela.
       Ela tomou outra xcara de caf e considerou mais doze horas de trabalho. Perguntou a si mesma se poderia faz-lo, mas no tinha escolha agora.
       - De volta to cedo? Voc deve ter encontrado a sargento Morrison - provocou-a Didier quando a viu novamente. 
       Ele ainda estava trabalhando tambm e Victoria vestiu um avental limpo. Amarrou o cabelo para trs; como a sargento Morrison dissera a ela para fazer e encontrou 
uma touca esterilizada para colocar sobre ele. As Foras Aliadas mandavam os suprimentos que podiam, mas eles eram pateticamente pequenos comparados s suas necessidades. 
E ento ela voltou para suas obrigaes.
       As doze horas seguintes foram mais ou menos a mesma coisa, rapazes morrendo, homens gritando, membros cortados, olhos cegos e pulmes cheios de gases venenosos. 
Desta vez, quando deixou a tenda, ela estava quase caindo. Estava to cansada que pensou que vomitaria enquanto perguntava a algum pela tenda das mulheres e, quando 
chegou l, nem mesmo procurou por sua maleta. Encontrou a cama mais prxima e deitou-se nela, sentindo como se estivesse morrendo quando adormeceu. Ela nunca ficara 
to cansada em toda a sua vida e desta vez nem mesmo sonhou com sua irm. 
       
       
       
       
       
       
VINTE E CINCO
       
       
       
       Ela no se levantou novamente at a tarde seguinte e tomou banho na barraca temporariamente montada para aquilo, lavou seus cabelos e voltou para o refeitrio 
para o que deveria ter sido seu caf da manh, mas era quase o jantar. Era uma gloriosa tarde de maio e ela se sentiu quase humana novamente, enquanto se servia 
de alguma comida e do caf preto e forte para o qual todos pareciam viver. Era como combustvel para seus carros, eles no podiam funcionar sem aquilo.
       Enquanto comia, ela imaginou quando deveria estar de volta ao hospital. No tinha idia de quais seriam seus horrios e ningum dissera a ela. E enquanto 
ela terminava um prato do familiar cozido, viu Didier e perguntou a ele. Ele estava saindo de trinta e seis horas de trabalho ininterrupto e parecia mesmo ter trabalhado 
tanto.
       - No acho que voc seja esperada de volta at a noite. Os horrios devem estar colocados na sua barraca. Morrison achou que voc precisava dormir um pouco. 
Eu acho.
       - Voc tambm - disse ela com simpatia, comeando a se sentir parte das coisas. Era realmente um sentimento muito bom. - Obrigada, Didier, eu o vejo mais 
tarde.
       - Salut! - disse ele, afastando-se com uma caneca de lata cheia de caf.
       Ele sabia que no o manteria acordado, nada o manteria, nem mesmo bombas ou homens com martelos. Ele estava alm da exausto, mas sorriu enquanto saa. Ele 
gostava dela. No tinha idia de por que ela estava ali. Muita gente tinha suas prprias razes e raramente diziam a algum por que haviam vindo, a menos que se 
tornassem amigos prximos. Muitas pessoas estavam fugindo de vidas infelizes ou tinham altos ideais. O que quer que os trouxesse at aqui, nunca era a mesma coisa 
que os mantinha ali.
       Ela voltou para a barraca depois daquilo e achou sua tabela de horrios. Ela estaria trabalhando novamente em duas horas e deitou-se em seu catre por um tempo, 
descansando, e depois andou em torno do campo e descobriu onde estavam as coisas. Ela pensou em escrever para Olvia, mas decidiu que no teria tempo antes de voltar 
ao trabalho. 
       Em vez disso, ela se reportou ao hospital um pouco mais cedo. No havia rostos familiares l desta vez, exceto a sargento Morrison, que apareceu um pouco 
mais tarde para chec-la. Ela pareceu satisfeita ao ver seus cabelos e deu a ela alguns uniformes. Eles pareciam roupas masculinas, exceto por terem uma longa saia. 
Ela usou um avental branco sobre ele e uma pequena capa com uma cruz vermelha. Tambm deram a ela uma capa vermelha para quando estivesse frio. Era uma estranha 
mistura de trajes, mas deixava as pessoas saberem quem ela era e o que fazia, se precisassem de sua ajuda em qualquer lugar. E ento a sargento perguntou-lhe como 
as coisas estavam indo.
       - Muito bem, eu acho - disse Victoria cautelosamente. Ela no estava certa de sua competncia, mas estava tentando.
       - Estou feliz por ouvir isso. Voc pode pegar seu carto de identificao na tenda do comando. Sua estada foi aprovada no encontro de ontem - disse Morrison 
despreocupadamente. 
       -Acho que voc vai se dar muito bem. - Victoria ficou surpresa com o elogio e poucos minutos mais tarde a sargento deixou-a. 
       E ela no teve mais tempo nem para pensar depois disso. Houve uma batalha em Berry au Bac naquela noite e hordas de homens foram trazidos em macas. Ela trabalhou 
quatorze horas seguidas e estava to cansada e muito debilitada at para comer quando saiu e andou vagarosamente de volta para sua barraca. Era impossvel no pensar 
nos garotos que haviam morrido e, cansada como estava, comeou a pensar nas crianas que vira morrer no Lusitania. Tudo aquilo parecia to sem sentido! 
       O sol estava alto no cu, era maio na Frana, os pssaros estavam cantando e as pessoas estavam morrendo  sua volta. Em vez de entrar, ela andou um pouco 
mais, passando de sua tenda, at uma pequena clareira, onde se sentou no cho encostada numa rvore e acendeu um cigarro. Precisava apenas estar sozinha com seus 
prprios pensamentos por alguns minutos. No estava acostumada a ficar cercada de pessoas o tempo todo, sem nunca ter um momento para si mesma e com tantos pedidos 
feitos a ela. No tinha imaginado que seria to exaustivo. 
       Ela deitou-se contra a rvore, com o cigarro em suas mos e seus olhos se fecharam. O sol batia quente em seu rosto, mas ela se sentia com mil anos de idade 
enquanto ficava sentada ali.
       - Voc vai ficar bem bronzeada - ouviu uma voz dizer bem em frente a ela - mas posso pensar em lugares melhores para umas frias. 
       A voz era francesa e masculina, mas ele falara em ingls. E quando ela abriu seus olhos, de seu ponto de vista no cho, ele pareceu to grande quanto a rvore 
em que ela se encostara. Tinha cabelos louro-prateados e em outro lugar e outra poca ela a teria achado muito bonito.
       - Como voc soube que eu falo ingls? - perguntou curiosa, mas sem sorrir.
       - Aprovei seus documentos ontem - disse ele, seus olhos encontrando os dela friamente. Ele tambm no estava sorrindo. Cada um deles estava avaliando o outro. 
- Reconheci o uniforme e a descrio. 
       Penny Morrison dissera que havia uma garota americana muito bonita que viera no Lusitania e provavelmente ficaria por apenas dez minutos. Mas ele no disse 
aquilo a Victoria enquanto a observava.
       - Devo ficar de p e bater continncia para voc? - perguntou Victoria. 
       Ela ainda no sabia o protocolo, mas neste momento eles pareciam mais ser um homem e uma mulher e no um capito e uma assistente mdica. Ele sorriu desta 
vez com sua pergunta.
       - No, a menos que voc entre para o exrcito e eu acho que voc realmente no deveria. Voc pode fazer melhor como est fazendo, a menos,  claro, que sinta 
necessidade de se graduar; voc no  uma enfermeira, acredito, ento voc seria apenas um soldado raso. Francamente, eu no me incomodaria. 
       Ele falava ingls perfeitamente e tinha estado em Oxford e Harvard. Parecia mais velho que Charles para ela, embora no estivesse certa do quanto. De fato, 
ele tinha trinta e nove anos e era muito atraente. E parecia extremamente aristocrtico. 
       - Sou o capito Edouard de Bonneville, a propsito. 
       Ele estava sorrindo para ela agora e havia uma luz nos olhos dela que no havia estado l desde que ela deixara Nova York. Victoria quase no tivera ningum 
para conversar, exceto lady Mackworth no Lusitania. Desde ento, suas conversas haviam sido puramente superficiais. Mas este homem parecia diferente.
       - Voc  o comandante aqui? - perguntou. - Suponho que deveria ficar de p, mas para falar a verdade no estou certa de que minhas pernas me segurariam.
       Seus olhos pareciam cansados e seu sorriso, lastimvel.
       - H outra vantagem em no estar no exrcito. Voc no precisa ficar de p e fazer continncia ou ficar em posio de ateno. Sugiro veementemente que voc 
no se aliste - provocou ele, sentando-se num tronco, encarando-a - e no, no sou o comandante. Sou o terceiro ou quarto na escala e no tenho qualquer importncia.
       - De certo modo, se voc assinou meus papis ontem, no estou certa de acreditar nisso.
       -  bem prximo  verdade.  
       Mas no realmente. Ele fora a Saumur, a escola de cavalaria para nobres e cavalheiros e seguira carreira no exrcito. E finalmente, se tudo corresse bem, 
ele seria um general. Mas ele estava bem mais interessado nela do que em sua prpria histria. Nos ltimos dois dias, ele ouvira muitos homens falarem sobre ela 
e Penny Morrison estava intrigada com ela. Ela era obviamente bem-nascida, muito jovem e bonita, e ningum podia imaginar por que ela viera para c. Parecia a espcie 
de garota que passava o vero danando em trajes de cetim e indo a festas. 
       - Ouvi dizer que voc veio no Lusitania - disse ele, observando seus olhos. Ele pde ver toda a dor e o sofrimento l. - No foi um bom comeo para sua viagem, 
temo... mas novamente - ele sorriu quase sem educao - este tambm no  um fim muito bom. Voc se perdeu no caminho de algum lugar mais agradvel ou fez isso a 
si mesma de propsito? Ela riu para ele e, sem nem mesmo conhec-lo, gostou dele. Havia algo muito sincero nele e at mesmo um pouco rgido e ela gostava.
       - No, eu fiz isso de propsito. Seria muito mais horrvel se eu no tivesse feito.
       Ela sorriu para ele e ento encontrou seu olhar. Seus olhos eram quase exatamente da mesma cor, embora os cabelos dela fossem to escuros e os dele, claros. 
Qualquer um que os observasse teria pensado que eles fariam um casal atraente, embora o capito fosse obviamente bem mais velho. Tecnicamente, embora no facilmente 
com trinta e nove anos, ele poderia ter sido seu pai. 
       - Por que voc fala ingls to bem?
       - Eu estive em Oxford por um ano depois da Sorbonne e depois, para aperfeioar o sotaque - ele sorriu e imitou um sotaque de Boston perfeitamente - passei 
um ano em Harvard. Ento fui a Saumur, uma escola militar francesa um pouco tola e com muitos cavalos. 
       Ela amou o jeito com que ele descreveu aquilo. At ela ouvira falar daquela escola e sabia que era muito famosa. Era o equivalente ao West Point nos Estados 
Unidos, mas com cavalos.
        - E agora estou aqui e, francamente - ele acendeu um cigarro tambm; os dela haviam acabado e ela teria acendido outro - gostaria de no estar. 
       Ela riu de sua honestidade. Muitos homens teriam dito a mesma coisa. Era incrvel pensar que ela tinha viajado quase cinco mil quilmetros porque queria estar 
ali. 
       - E se voc tivesse qualquer juzo, pegaria um navio, um americano desta vez, desde que seu pas  sensvel o suficiente para ficar fora de tudo isso e voltaria 
para o lugar de onde veio. Onde  isso, por sinal? 
       Ele sabia que ela era americana, mas no sabia mais que isso, exceto que seu nome era Olvia Henderson, ou ao menos ele pensava que fosse.
       - Nova York - disse ela cautelosamente.
       - E voc fugiu de pais tiranos? 
       Ele sabia que ela tinha vinte e dois anos pelo passaporte, mas ainda era jovem o suficiente para morar com eles, ou querer deix-los, por qualquer razo que 
fosse. Ou talvez um corao partido a tivesse trazido at ali. Era possvel, mas teria sido extremamente imprudente.
       - No - ela sacudiu a cabea - tenho um pai muito agradvel. Edouard pareceu surpreso com aquilo.
       - E ele deixou voc vir para c? Que homem estranho! 
       Mas Victoria sacudiu a cabea em resposta. Ela gostava de conversar com ele e da estranha mistura de seu sotaque, muito francs, algo britnico. 
       - No acho que deixaria minha filha fazer isso, estou certo de que no, se tivesse uma, o que graas a Deus no tenho. 
       Ela olhou para sua mo e no havia aliana de casamento. Mas tambm no havia nenhuma na sua e ela era casada com Charles. Olvia a estava usando por ela.
       - Ele no sabe que estou aqui - disse Victoria honestamente. - Ele acha que estou na Califrnia.
       - Esta no  uma coisa bonita para se fazer. - Ele olhou para ela com franca desaprovao. E se algo lhe acontecesse? E o navio? - Ningum sabe que voc est 
aqui? 
       Ela era muito ousada para uma garota de vinte e dois anos, muito corajosa e muito irresponsvel.
       - Minha irm sabe - respondeu ela, voltando a se recostar na rvore. 
       Ela gostava de conversar com ele, mas estava muito cansada. E ainda assim havia algo nele que a fazia querer lhe contar coisas que imaginava que no deveria. 
Mas ele no podia mand-la de volta agora. Ela tinha seus papis. E era maior de vinte e um anos. O que ele poderia fazer para det-la?
        - Somos gmeas - disse ela calmamente.
       - Idnticas? - Ele estava totalmente fascinado por ela quando ela assentiu.
       - Completamente - disse ela. - Somos gmeas espelhadas. Tudo o que tenho no lado esquerdo ela tem no direito e vice-versa. Como esta sarda.
       Ela estendeu a mo esquerda para ele, que mal pde ver a pequena mancha em sua palma, exatamente entre seus dedos. Ele olhou para ela e assentiu. No tinha 
nenhuma necessidade real de saber esta informao e seu processo de identificao, j que no as estava vendo juntas, mas podia imaginar que seria um problema e 
tanto.
       - Ningum pode nos diferenciar, exceto a mulher que tomou conta de ns quando ramos pequenas. Nem mesmo nosso pai. 
       Ela sorriu travessamente e ele pde apenas imaginar todo o caos que ela devia ter causado e tinha de fato causado com prazer.
       - Deve ser bem complicado - disse ele, imaginando aquilo e ento sorriu para ela - especialmente com os homens, no? Vocs confundiram algum de suas relaes? 
       Ele era muito esperto, mais at do que sabia e ela sorriu para ele. Ela no sabia ainda, mas Edouard de Bonneville estava ofuscado por sua beleza. Ele ouvira 
falar dela e as palavras no haviam sido generosas o suficiente, pelo menos at onde ele achava. Ela era maravilhosa.
       - Ns apenas confundimos alguns - confessou ela, parecendo muito inocente, no que ele no acreditou nem por um nico momento.
       - Pobres-diabos! Que terrvel! Estou feliz de no t-las conhecido juntas, embora deva admitir que gostaria de ter visto isso. Qual  o nome de sua irm? 
- perguntou ele e ela hesitou, mas apenas por um segundo.
       - Victoria - disse ela simplesmente.
       - Olvia e Victoria.  absolutamente perfeito. Ento, Olvia - continuou ele - voc est aqui como um enigma e apenas sua irm sabe. E quanto tempo voc vai 
ficar conosco? At o fim? 
       Ele duvidava. Por que deveria? Ela era obviamente bem-nascida, bem educada, falava bem, era inteligente e muito bonita. Podia ir para casa quando quisesse 
e ele estava certo de que ela iria no momento em que se cansasse dos perigos e do desconforto e aquilo era o que no faltava ali. Ele duvidava que ela ficasse muito 
tempo.
       - No sei. - Ela olhou para ele honestamente, e seus olhos lhe contaram uma histria que ele no entendeu. Talvez ela estivesse fugindo de algo. - Vou ficar 
o mximo que puder. Depende de minha irm.
       - De sua irm? - Aquilo o surpreendeu e ele levantou uma sobrancelha e olhou para ela. - Por que dela? - Ela era um ser raro e curioso e ele adoraria passar 
o dia com ela, conversando e conhecendo-a melhor.
       - Ela est cuidando das coisas para mim.
       - Parece complicado - disse ele discretamente.
       - E  - assentiu ela com uma estranha expresso nos olhos.
        - Talvez um dia voc me conte sobre isso. 
       Ele prometeu acompanhar sua carreira enquanto ela estivesse em Chlons-sur-Marne. Seria interessante, ele tinha certeza.
       Ela ficou de p lentamente e sentiu a mesma dor nos ossos que sentira quando sara da tenda mdica. Victoria no queria deix-lo, mas sabia que no podia 
ficar acordada por muito mais tempo. Mas ele a surpreendeu conduzindo-a lentamente para a barraca das mulheres. Ela estava certa de que ele no iria querer ser visto 
conversando com uma voluntria humilde, mas ainda assim ele no parecia se importar com aquilo.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
VINTE E SEIS
       
       
       
       De fato, ele apareceu freqentemente durante a semana seguinte no hospital, observando-a enquanto ela se ajoelhava ao lado de algum vomitando suas entranhas 
depois de ter sido envenenado pelo gs, ou chorando ao segur-los enquanto morriam. Ele apareceu no refeitrio uma ou duas vezes e tomou caf com ela, e uma vez 
sentou-se com ela tempo suficiente para que Victoria engolisse a comida num intervalo de dez minutos antes que voltasse ao trabalho. Eles conseguiam conversar, apesar 
dos constantes estrondos das armas a que todos estavam acostumados agora e do ocasional assovio que sempre a lembrava do som do primeiro torpedo que atingira o Lusitania. 
       Falavam das nuvens amarelo-esverdeadas dos gases que continuavam a atingir o exrcito prximo a Dangemarck e dos milhares de homens que estavam sendo mutilados 
e mortos ou ficando invlidos. E ainda, intercalado com tudo aquilo, eles falavam sobre coisas tolas, como tnis de gramado, embarcaes de vero, seu amor pelos 
cavalos que o levara  cavalaria e o tempo que ele passara em Boston. Acharam at mesmo que tinham alguns conhecidos em comum em Newport. Era muito estranho falar 
sobre tudo aquilo ali, mas a maior parte do tempo eles falavam apenas sobre o que estavam fazendo dia a dia.
       Ele tambm aparecia para v-la no acampamento de vez em quando. Ela j estava l havia um ms quando ele finalmente a convidou para sair. Haveria um pequeno 
jantar no chteau, oferecido pelo general aos oficiais superiores, e Edouard convidou-a para ir com ele.
       - Aqui? - Ela pareceu chocada.
       No tinha absolutamente nada para vestir. Perdera tudo no navio e o que comprara em Liverpool era funcional e feio. Tudo o que ela tinha eram seus uniformes 
e aventais engomados.
       - Receio que o Maxim's em Paris esteja fora de questo 
       Edouard parecia divertir-se. Depois de observ-la usando aventais ensangentados por um ms e dirigindo ambulncias para o necrotrio provisrio atrs das 
trincheiras, ela subitamente parecia muito mais com uma mulher.
       - No tenho nada para usar a no ser meu uniforme - lamentou ela, feliz por ele t-la convidado, mas tambm surpresa. 
       Eles haviam se tornado amigos no ltimo ms, mas nunca lhe ocorrera que ele poderia se sentir atrado por ela. Ele era mais velho, de alta patente, e aquele 
local dificilmente parecia apropriado para um romance, embora ela soubesse que havia outras pessoas envolvidas amorosamente ali. Em alguns casos, a agonia por toda 
a parte fazia as pessoas se aproximarem mais; em outros, parecia mais sensato manter distncia das pessoas. E ela havia deduzido que Edouard escolhera a segunda 
opo.
       - Eu tambm no tenho nada para usar, a no ser meu uniforme, Olvia.
       Ele parecia divertido. E sempre a fazia sorrir quando dizia o nome de sua irm. Ela respondia facilmente agora, mas no caso dele realmente parecia como se 
o estivesse enganando. Ela pensara em contar a ele uma ou duas vezes, mas agora tinha medo de se meter 
em apuros. Afinal de contas, ela estava viajando numa zona de guerra com o passaporte de outra pessoa. 
- Ser agradvel - assegurou-lhe ele, dizendo que a pegaria s sete, quando ela sasse do trabalho.
       Ela sabia que teria de ter permisso especial para sair do trabalho ento, mas por fim Didier concordou em cobri-la. Ela disse a ele por que precisaria sair 
e ele levantou uma sobrancelha para ela.
       - Imaginei quando isso aconteceria - disse ele de maneira aprovadora. 
       No ltimo ms, ele realmente comeara a gostar dela. Ela trabalhava duro; era sempre correta com ele e fazia trabalhos extras sempre que necessrio, sem um 
murmrio de reclamao. Mais do que freqentemente ela trabalhava alm de seu turno e nunca dizia nada sobre isso.
       - Ns somos apenas amigos - disse ela, sorrindo de sua insinuao.
       - Isso  o que voc pensa. Voc no conhece os homens franceses. - Didier sorriu para ela.
       - No seja estpido - disse ela e voltou para sua tenda na noite do jantar para pelo menos vestir um uniforme limpo. 
       Sua nica concesso  feminilidade aquela noite foi deixar os cabelos soltos e pente-los rapidamente. Ela no tinha nem mesmo maquiagem. Aquilo tambm havia 
afundado com o Lusitania, e ela nunca se incomodara em comprar mais depois que a perdera. Na poca parecera absolutamente sem importncia. Agora parecia uma vergonha.
       Edouard pegou-a no acampamento num caminho e apenas algumas cabeas se voltaram. Todas as outras pessoas estavam ainda no jantar, nas trincheiras ou trabalhando.
       - Voc parece muito bonita, Olvia - disse ele calorosamente e ela nem mesmo reagiu ao nome enquanto sorria e agradecia a ele.
       - Voc gosta de meu vestido? - Ela fingiu enfeitar-se. - Foi feito em Paris. E meu cabelo? - Ela o segurou como uma modelo, enquanto olhava para ele e sorria. 
- Levei horas para faz-lo.
       - Voc  um monstro! No me espanta que sua famlia a tenha mandado para c. Estou certo de que estavam desesperados para se ver livres de voc.
       - Estavam - disse ela, pensando tristemente em Charles e Geoff. Mas a verdade era que ela no sentia a falta deles. Nem uma vez desde que estava ali.
       - Voc teve notcias de sua irm desde que chegou aqui?
       - Sim. Duas vezes. E escrevi para ela tambm, mas minhas cartas parecem to estranhas.  to difcil explicar tudo isso a qualquer pessoa que no esteja aqui. 
Eu mandei as cartas, mas elas soam muito artificiais.
       -  difcil entender uma guerra, a menos que voc esteja nela - disse ele, enquanto chegavam ao chteau. 
       Ela alisou seu cabelo novamente e subitamente sentiu-se nervosa enquanto entrava ao lado dele. Havia duas outras mulheres l. A castel original do chteau, 
que estava vivendo no campo num pequeno chal, era uma condessa, velha o suficiente para ser me de Victoria e muito agradvel e polida. A outra mulher era a esposa 
de um dos coronis, que viera de Londres para visit-lo. Era pouco usual, mas ele no pudera sair durante meses e a deixara vir para v-lo.
       O jantar foi um encontro pequeno e informal e a princpio a conversa foi em sua maior parte sobre a guerra e sobre a campanha na Galcia, que havia sido extremamente 
brutal. Mais de um milho de poloneses haviam sido mortos no ltimo ms, o que parecia inconcebvel para Victoria, embora, se ela parasse para pensar, se daria conta 
de que provavelmente vira mil homens morrerem desde que chegara l.
       Finalmente a conversa voltou-se para outros assuntos. O general foi extremamente agradvel com ela e todos falavam ingls perfeitamente com ela, embora o 
francs de Victoria estivesse melhorando. E por volta das dez horas ela e Edouard estavam no caminho de volta para o acampamento. Ele ficara muito orgulhoso dela, 
mas no disse nada. Podia ver que tanto o general quanto a condessa ficaram impressionados, mas Victoria estava completamente inconsciente daquilo enquanto conversava 
com Edouard no caminho de volta.
       Eles podiam ouvir o rumor das armas  distncia, os familiares assovios em torno e ela rezou para que naquela noite pelo menos as vtimas no fossem tantas.
       - Onde isso tudo vai terminar? - perguntou Victoria calmamente, enquanto Edouard parava o carro pouco antes de chegarem s barracas. 
       No havia mais nenhum lugar para eles irem. O refeitrio estava cheio de gente a qualquer hora e no havia privacidade para nenhum deles em lugar algum. Era 
difcil encontrar algum lugar para conversas calmas e a maior parte do tempo eles estavam cercados de gente. Mas apenas desta vez ele queria estar sozinho com ela; 
havia algumas coisas que ele queria dizer a ela.
       - Guerras nunca nos levam a um lugar melhor - disse ele filosoficamente. - Olhando para trs na histria, para todo o caminho de volta at a Guerra Pnica, 
todo mundo perde no final.
       - Por que ns no vamos at l e dizemos isso a eles? - Ela sorriu para ele, enquanto Edouard lhe oferecia um cigarro, que ela aceitou. Victoria estava fumando 
Gitanes agora. - Ns podamos economizar muitos problemas para todo mundo.
       - No se esquea, eles sempre matam o mensageiro - disse ele, acendendo seu cigarro com um isqueiro de ouro. - Tive bons momentos esta noite - disse Edouard, 
olhando para ela e imaginando o que ela deixara para trs em Nova York. 
Era difcil acreditar que Victoria no deixara um rastro de coraes partidos e, contudo, no ltimo ms, como ele observara cuidadosamente, ela parecera sempre muito 
pouco sobrecarregada. 
       - Voc  uma companhia muito boa, Olvia. Gostaria de repetir isso um dia desses - disse ele, desejando que estivessem de volta a Paris. 
       A vida teria sido muito diferente l. Ele poderia ter feito tantas coisas com ela, lev-la ao seu chteau em Chinon,  caadas em Dordogne, apresent-la a 
todos os seus amigos, passado algum tempo no sul da Frana. Teria sido o paraso. Mas tudo o que tinham agora eram as trincheiras entre Streenstraat e Poelcapelle 
e homens morrendo com fosgnio. No era muito adequado para se fazer a corte.
       - Tambm tive bons momentos - disse ela com simplicidade, saboreando o cigarro francs e a companhia dele. Ela gostava de estar com ele. - O general  muito 
especial. - Ela sorriu para Edouard, que pegou sua mo e beijou-a.
       - Voc tambm. - E ento ele gentilmente largou sua mo, sem certeza de como ela reagiria ao que ele tinha a dizer. - H algo que quero dizer a voc, Olvia. 
No quero que haja mal-entendidos entre ns.
       Mas quando ele disse as palavras, ela sentiu uma dor familiar em seu corao, onde ele j fora ferido antes e pde sentir todo o seu corpo se enrijecer. Ela 
disse a ele, sem esperar que ele a destrusse. Ela jamais deixaria isso acontecer com ela novamente. Ela sabia que se defenderia de todos os homens para sempre.
       - Voc  casado - disse ela, inteiramente sem emoo, seus olhos procurando os dele, seu corao completamente protegido dele. 
       - O que faz voc dizer isso? 
       Ele estava totalmente surpreso. Ela era mais esperta do que ele se dera conta e imaginou o que acontecera a ela. Ele pde ver a dor em seus olhos agora, era 
brutal e ainda muito viva.
       - Eu simplesmente soube. No antes... mas quando voc disse aquilo. O que mais h por a?
       - Oh... muitas coisas... as pessoas carregam todo tipo de bagagem com elas. Esta  a minha. No  um casamento de verdade - disse ele e ela o interrompeu 
duramente.
       - No, claro que no,  um casamento sem amor. Voc nunca devia ter se casado com ela e vai deix-la aps a guerra, ou ento novamente voc no deve... 
       Sua voz sumiu e havia algo muito ferido em seus olhos enquanto ela olhava para fora da janela, para longe dele.
       - No exatamente. Ela me deixou cinco anos atrs. E sim, era um casamento sem amor. Para ambos. No estou nem certo de onde ela est agora. Na Sua, provavelmente. 
Ela fugiu com meu melhor amigo. Mas francamente, foi um alivio. Ns ficamos casados por trs anos e odivamos um ao outro. Mas eu no posso me divorciar; este  
um pas catlico. E eu queria que voc soubesse disso. Isso faz supor muitas coisas, todas elas absurdas, estou certo, mas eu no quis esperar mais para contar a 
voc. At onde interessa  lei e  igreja, eu sou casado. O resto , infelizmente, um pouco mais incerto. 
       Ela se virou para olhar para ele, surpresa. A histria era um pouco diferente do que ela havia esperado. Ou talvez fosse tudo a mesma coisa e esta fosse a 
verso francesa. Ela no estava certa se devia ou no acreditar nele e mostrou sua incerteza enquanto olhava para ele.
       - Ela o deixou? 
       Ela parecia muito jovem ao perguntar e ele sorriu de sua expresso cautelosa. Ele assentiu, parecendo bastante calmo. Fora muito tempo atrs e houvera uma 
ou duas mulheres interessantes desde ento, mas nada permanente e nenhuma nos ltimos tempos. No no ltimo ano.
       - Quase seis anos atrs - explicou ele. - Eu podia dizer a voc que ela partiu meu corao, para ganhar sua simpatia, mas receio que no possa. Foi um enorme 
alivio quando ela partiu. Eu devo minha vida a Georges por isso. Um dia terei de agradecer a ele adequadamente. O pobre-diabo provavelmente sempre se sentiu culpado. 
- Ele estava sorrindo e ela teve de rir com sua expresso.
       - Por que voc a odiava tanto?
       - Porque ela era mimada, difcil e quase insuportvel, e realmente muito indecente. Ela era a mulher mais egosta que jamais viveu e era impossvel de se 
conviver.
       - Por que voc se casou com ela? Ela  muito bonita?
       Victoria estava mais curiosa sobre ele do que teria admitido naquele momento. Mas ele era um homem intrigante.
       - Muito bonita - disse ele honestamente. Ele sempre havia tido um fraco pela beleza. - Mas no foi isso. Ao menos eu espero que no. Ela estava noiva de meu 
irmo e, desafortunadamente, ele morreu num acidente de caa. Eles se casariam em poucas semanas e ele fora estpido o suficiente para engravid-la. - ele olhou 
para ela com ar de desculpas - Sinto muito, estive no front por muito tempo, no devia ter dito isso. 
       Mas ela apenas acenou com a mo e pegou outro de seus cigarros, enquanto o escutava com interesse. No soava inteiramente diferente de sua prpria histria. 
       - De qualquer maneira, fiz o que pensei que era mais nobre. Coloquei-me no lugar dele e a desposei. Ela abortou trs semanas mais tarde, ou pelo menos foi 
o que disse. Realmente no estou nem mesmo convencido de que ela estivesse grvida. Acho que ela o enganou e ele foi ingnuo o suficiente para acreditar nela. E, 
francamente, acho que se ele tivesse casado com ela, a teria matado. Ele no era to paciente como eu sou. Trs anos mais tarde, ela partiu com Georges, depois de 
ter um caso com ele por cerca de um ano; os dois seguros de que eu no sabia. Acredito que houve dois ou trs antes dele. E agora eles se foram e minha vida  maravilhosamente 
pacfica. O nico problema  que, a menos que Georges se torne muito rico, o que eu duvido, j que ele no  muito brilhante, ou que ela conhea algum mais, ela 
no vai se divorciar de mim. Eu poderia dar uma larga quantia em dinheiro para ela e tentei faz-lo, mas por enquanto ela prefere o ttulo.
       - Ttulo? - Victoria levantou uma sobrancelha e ele tocou levemente sua mo, como se quisesse espanar a palavra como uma teia de aranha.
       - Ela  uma baronesa agora, infelizmente. No teria sido nada se tivesse se casado com meu irmo. Ele era o filho mais novo. E eu receio que Heloise seja 
f de ttulos. O que precisamos agora  de um melhor. Como um marqus ou um visconde. 
       Ele achava muita graa naquilo e ela sorriu para ele. Era tudo bem menos assustador do que quando ele falara da primeira vez. Mas agora ele olhou para ela 
na escurido. Seus olhos j haviam h muito se acostumado a ela e ele vira tudo o que se passara em seu rosto quando ele comeara a falar.
       - E agora voc deve me contar sobre o homem que partiu seu corao. Acredito que toquei num ponto nervoso quando disse casamento "sem amor". Voc quer me 
contar sobre isso? - perguntou ele gentilmente e desta vez ele procurou sua mo e segurou-a. 
       Ele estava aliviado por ter dito a ela o que devia. No queria dar a ningum a iluso de que era livre para se casar, porque no era. Estava livre, mas no 
para um casamento. E at conhec-la, nunca se importara. Sentia apenas por no ter tido filhos em alguma poca, mas o pensamento de t-los com Heloise lhe fazia 
ter pesadelos.
       - No h muito a dizer - mentiu Victoria polidamente a princpio. - No  realmente muito importante.
       - Importante o suficiente para vir para c por causa disso? - perguntou ele gentilmente. - Ou foi algo mais?
       - Foram muitas coisas - disse ela honestamente, agora se sentindo obrigada a contar algo a ele, j que fora to honesto, ou ao menos ela achava que havia 
sido. 
       Mas sua histria tinha o toque da verdade e a espcie de coisas estpidas em que ela mesma podia ter se metido. 
       - Sim, houve algum- disse ela finalmente. - Eu era muito jovem e muito estpida. Foi h dois anos. Eu tinha vinte anos. E era incrivelmente ingnua. Realmente 
- ela pareceu um pouco embaraada e ele sorriu, encorajando-a - soa to sem importncia agora. Na poca parecia monumental de to importante. Eu me apaixonei e ele 
me tirou do srio. Fiz coisas muito irresponsveis num perodo muito curto. Estvamos visitando Nova York por dois meses, e ele era mais velho e muito charmoso... 
e muito bem casado... ele tinha trs crianas. Mas ele me disse que odiava sua esposa, que eles no tinham nada mais que um arranjo, que no era um casamento de 
verdade e que estava planejando deix-la a qualquer momento. Eles 
se divorciariam e, se eu esperasse pacientemente, claro que nos casaramos. E  claro... era tudo tolice... Eu... eu... - Ela no conseguia dizer a ele, era muito 
embaraoso mesmo depois de tudo o que ele lhe contara. - Eu acreditei no que ele disse - e ento ela forou-se a diz-lo - e fiquei muito apaixonada por ele. Eu... 
eu comprometi minha reputao e algum contou a meu pai. Meu pai o confrontou, e ele disse... - seus olhos endureceram neste ponto, enquanto Edouard a observava 
- ...ele disse que eu o havia seduzido. Ele me rejeitou completamente, negou que jamais tivesse feito qualquer promessa, at me disse que nunca tivera a inteno 
de deix-la, pois na verdade ela estava grvida. 
       E ento ela decidiu que se ia choc-lo, agora era a hora. Ela no tinha nada mais a perder e se ele contasse a qualquer pessoa, ela o odiaria:
       - Sua esposa ia ter um beb - disse ela suavemente - e eu tambm. Ns voltamos para Croton-on-Hudson, onde vivemos, ca do cavalo e perdi o nenm poucas semanas 
mais tarde. Tive de ir para o hospital e acho que quase morri. Perdi muito sangue, mas estava tudo acabado. Meu pai fez o maior alvoroo. Disse que todos em Nova 
York estavam falando de mim. O homem por quem eu me apaixonara estivera contando s pessoas o que eu fizera. Suponho que ele pensou que era muito engraado, mas 
meu pai disse que eu tinha de fazer algo para recuperar minha reputao, assim como a dele e a de minha irm. Ele disse que eu havia colocado todos em risco pelo 
que havia feito e que nunca poderamos botar os ps para fora de casa novamente. Esse tipo de coisa - disse Victoria e suspirou enquanto olhava pela janela, lembrando 
o quanto fora horrvel e o quanto ela se sentira desesperada quando ele lhe dissera aquilo. 
       E ento ela se voltou para Edouard com um sorriso triste.
       - Ento ele me forou a casar com um de seus advogados. Ele disse que eu no tinha escolha. Eu devia isso a ele. E eu acreditei. Antes eu costumava pensar 
que nunca ia querer me casar. Apenas queria ser uma sufragista, fazer greves de fome, ir para a cadeia e ser presa - disse ela, seus olhos novamente iluminados e 
Edouard sorriu com uma expresso interessada.
       - Esta certamente seria uma alternativa, embora eu no necessariamente a recomendasse. - Ele colocou as mos dela em seus lbios e beijou seus dedos. - No 
imagino que voc fosse fcil de controlar dois anos atrs, ou talvez no seja nunca. Ela sorriu para ele, confirmando aquela possibilidade.
       - Talvez no. De qualquer forma, eu o fiz. Casei-me com ele. Ele era vivo e tinha um filho. Sua esposa morrera no Titanic e ele queria uma me para seu filho.
       - E voc foi? - perguntou ele ainda com mais interesse.
       Certamente havia muito mais sobre ela do que ele havia esperado. Mas ela no viera para c sem razo.
       - No - respondeu ela honestamente. - Eu no fui uma me para ele, nem uma esposa para Charles. O garoto me odiava e acredito que o pai tambm. Eu era tudo 
o que sua esposa no era. E ele no era... o tipo de homem por quem eu me apaixonaria. Eu no podia ser quem ele queria que eu fosse, fazer o que ele queria que 
eu fizesse. Eu odiava tudo aquilo e eu o odiava... - Sua voz sumiu, enquanto Edouard a observava. - No sentia nada por ele - disse ela tristemente - e ele sabia.
       - Ele tambm  um homem mau?
       - No. - Seus olhos se encheram de lgrimas enquanto sacudia a cabea e olhava para ele. - No... ele no . Eu apenas no o amava. - Aquilo era tudo; ela 
nunca o amara e nunca o amaria e Edouard entendia aquilo.
       - E onde est ele agora? - perguntou Edouard suavemente. Ele no era o nico que estava enrolado.
       - Em Nova York - sussurrou ela.
       - E voc ainda est casada com ele, eu presumo. - Ele parecia desapontado. Isso no era o que ele esperava.
       - Sim, estou. - Ela olhou para ele com olhos grandes e tristes.
       - Talvez ele a ame mais do que voc pensa, se ele a deixou vir pra c.
       Era algo generoso de se fazer e Edouard admirou-o por isso. Ele sabia que no poderia ter feito isso com sua prpria esposa, no importa o quanto ela fosse 
independente ou teimosa.
Mas ento ela o surpreendeu ainda mais.
       - Ele no sabe que estou aqui - disse ela suavemente, sabendo que tinha de contar tudo a ele. 
       No havia volta agora, quaisquer que fossem os perigos. Ela tinha de confiar nele. Queria confiar. Pela primeira vez em dois anos, ela confiava num homem. 
E sabia que este homem no a machucaria.
       - Onde ele pensa que voc est? - perguntou ele horrorizado e ela subitamente riu para ele.
       Era realmente horrvel, mas subitamente ela achou tudo aquilo muito engraado. Era to engraado que ela nem sabia como comear a explicar.
       - Ele pensa que estou em casa com ele.
       - O que voc quer dizer com isso, por Deus? - Ele pareceu totalmente confuso e ento olhou para ela, a boca aberta de espanto. - Oh, meu Deus!... sua irm... 
 isso? Ele pensa...
       - Espero que sim.
       - Voc trocou de lugar com sua irm? 
       Ele parecia apavorado e ela de repente sentiu medo de que ele a expusesse. Afinal de contas, ele tinha o endereo de sua casa em seu passaporte. E se escrevesse 
para eles e contasse tudo? 
       - No posso acreditar que voc tenha feito uma coisa dessas, mas certamente... mas... um homem e uma mulher... um marido e uma esposa...
       - Ns paramos com isso logo no comeo. Era horrvel, tudo O que odivamos um no outro estava l entre ns, como uma rocha que nos impedia de chegar perto 
um do outro. Tudo o que ela tem de ser  sua dona de casa e ele jamais saber a diferena.
       - Voc tem certeza disso? - Ele olhou para ela ainda espantado pela audcia do que ela fizera para chegar at ali.
       - Absolutamente, ou eu jamais pediria a ela para faz-lo. Ela  muito doce e meiga e todas as coisas que no sou e o garoto a adora.
       - Ele vai saber?
       - No acho. No se ela for cuidadosa.
       Ele se encostou novamente no banco do carro, tentando assimilar o que ela lhe contara.
       - Voc certamente deixou uma confuso daquelas atrs de voc, no, Olvia?
       - Victoria - sussurrou ela.
       - Victoria? Mas seu passaporte... 
       -  de minha irm.
       - Oh, sua bruxa,  claro!... at seus nomes devem ter sido trocados... pobre homem, como eu tenho piedade dele!... como ele vai se sentir quando voc contar 
a ele, ou voc no vai contar?
       Talvez ela apenas fosse deslizar novamente para dentro de sua vida quando estivesse cheia da guerra, mas Edouard queria saber aquilo agora tambm. E ele esperava 
ter o direito.
       - Terei de contar tudo a ele quando voltar. Pensei em contar por carta, mas isso parece muito covarde e no  justo com Olvia. Pensei sobre isso desde que 
parti e sei o que tenho de fazer. No posso voltar para ele novamente. Vou voltar para casa um dia, mas no para ele. Simplesmente no posso, Edouard. No o amo. 
Em primeiro lugar, foi errado fazer isso. Eu nunca deveria ter deixado meu pai me forar a faz-lo, mas eu pensei que ele sabia o que era melhor. Talvez algumas 
pessoas possam viver assim, mas eu no posso. Vou voltar e viver com minha irm. Ou talvez eu v ficar aqui. Eu simplesmente no sei ainda. Mas vou pedir o divrcio 
a ele.
       - E se ele no quiser? - perguntou Edouard com curiosidade. 
       - Ento vou viver longe dele e continuar legalmente casada - disse ela, filosoficamente. - No me importo de verdade e  exatamente por isso que no tenho 
de voltar para ele. E no vou voltar. Ele merece mais do que isso tambm. Ele deveria ter se casado com Olvia. Ela teria sido perfeita para ele.
       - Talvez ele se apaixone por ela enquanto voc est aqui - disse ele, divertindo-se com o lado cmico daquilo e definitivamente havia um. 
       Era como Racine ou Molire, uma farsa francesa das melhores. O mais espantoso era que ela realmente tinha feito aquilo. Ela era muito corajosa e quase ultrajante.
       - No acho que eles vo se apaixonar. Olvia  muito certinha. Coitada, no pode ser muito divertido para ela tomar conta deles e fingir ser eu! Ela foi um 
anjo por fazer isso. Eu disse a ela que morreria se ela no trocasse comigo por um tempo. Ns costumvamos fazer isso quando ramos crianas. Ela estava sempre me 
tirando das confuses. 
       Victoria sorriu, pensando em Olvia, e Edouard pde apenas sorrir de espanto com a histria que ela lhe contara.
       - E voc - disse ele explicitamente - no  um anjo, mas um demnio, senhorita Victoria Henderson. Que coisa terrvel de se fazer! - mas ele realmente estava 
se divertindo com aquilo; era to ousado! E ento ele pensou em algo que tinha se esquecido de perguntar e ela no lhe dissera. - Quanto tempo ela deu a voc?
         Victoria hesitou antes de responder; seus olhos se arregalaram ao encontrar os olhos azuis dele, cheios de perguntas.
       - Trs meses - disse ela calmamente. 
       - E voc j partiu h um ms, no? 
       - Cinco semanas - respondeu ela.
       - Isso no nos d muito tempo, no ?
       Mas ambos sabiam que nada na vida era certo, que estavam em tempos incertos, num lugar onde nada significava nada por uma hora, um dia ou um simples momento. 
- Como voc se sente sobre passar seu tempo com um homem casado? - perguntou ele honestamente.
Ela sorriu para ele.
       - Como voc se sente sobre passar seu tempo com uma mulher casada?
       - Eu diria que merecemos um ao outro, minha querida... voc no?
       Na verdade, ambos mereciam muito mais do que haviam tido e, sem dizer mais nada, ele inclinou-se no assento, puxou-a para seus braos e beijou-o.


































VINTE E SETE



       Embora Olvia tivesse prometido ficar com seu pai em Croton em junho, achou que quando chegasse a hora de ir, no conseguiria deixar Charles e Geoffrey. Suas 
vidas haviam mudado inteiramente nas ltimas semanas. Desde que a procurara na noite em que Olvia descobrira que sua irm estava viva, Charles mal conseguia manter-se 
longe dela. Sua vida se transformara na lua-de-mel que nunca haviam tido e, em vez de se afastar de Charles, Olvia sentia-se ainda mais prxima a ele. Era tudo 
o que ela sempre sonhara. O nico problema era que tudo o que tinha agora era emprestado de sua irm. Seu marido, o filho dele e at mesmo seu anel de casamento 
eram na verdade de Victoria, mas tudo o que ela podia fazer agora era trat-los com carinho e dar todo o amor que tinha ao marido de sua irm e ao filho adotivo. 
       Ela dizia a si mesma que o que quer que estivesse dando a eles seria creditado a Victoria no fim das contas, ento, num certo aspecto, este era o ltimo presente 
que podia dar a ela. Mas em outras ocasies ela sabia o quanto aquilo era errado e se consumia de culpa at que ele se virasse para ela e a tomasse nos braos novamente, 
ou a alcanasse na cama  noite e a tocasse. Sua paixo havia atingido alturas que ele nunca conhecera e nunca suspeitara, por nenhum instante, de que Victoria fosse 
capaz, mesmo no incio. Sua sensualidade era diferente do que parecera a princpio. Ela no era to selvagem ou to incontrolvel quanto ele a princpio achara. 
Em vez disso, suas emoes pareciam ser profundas, e ela lhe revelava sua alma exatamente como ele temera que Olvia pudesse fazer quando se conheceram. De certa 
forma, era um alivio no ter de encar-la agora. Seus sentimentos por ela sempre haviam sido confusos. Mas ele no estava mais confuso sobre nada, exceto sobre sair 
ou no para o escritrio de manh.
       Eles riam como crianas enquanto se esforavam para deixar a cama e voltavam correndo para ela  noite, prontos para o frescor da paixo. Na verdade, ultimamente 
eles estavam indo para a cama cada vez mais cedo, at que tiveram de fora-se a pelo menos ficar at a hora de Geoffrey dormir.
       - Ns somos terrveis. - Olvia sorriu sem sada uma manh, enquanto Charles a seguia por toda parte at o banheiro e depois at a banheira. - Isso  obsceno 
- disse ela, sem qualquer convico, enquanto ele a tocava suavemente embaixo da gua quente. 
       Ela gemeu enquanto se deitava l com ele e seus olhos estavam quase vidrados meia hora mais tarde, quando preparava seu caf da manh e ele deu um tapinha 
brincalho em seu traseiro quando saiu. Mas quando a casa ficou silenciosa novamente, Olvia ficou quieta na sala de estar, imaginando como ela um dia poderia deix-lo. 
Eles ainda tinham dois meses antes que Victoria voltasse para casa novamente e o reivindicasse. E a parte terrvel daquilo era que agora ela no tinha mais dvida 
de que sua irm no o amava. As histrias a que ele se referira, os comentrios que fizera e as coisas que ela colhera de Geoff disseram a ela exatamente o que Victoria 
j lhe dissera, que seu casamento simplesmente no existia. O nico problema era que ele era real e os amarrava, e Charles no tinha a menor idia de que ela no 
era sua irm. 
       E no fim de tudo Victoria voltaria para ele e inevitavelmente ele saberia o que acontecera. Olvia no tinha idia de como resolver o problema. E tudo o que 
ela podia fazer enquanto isso era ficar com ele, dar toda a sua ateno a ele e a Geoff e am-los.
       E Charles pensava que havia morrido e ido para o paraso. O que ele tinha com sua esposa agora era o que esperava ter quando se casara com ela, e mais at 
do que jamais tivera com Susan, embora ele ainda tivesse medo de admitir.
       - Levou apenas um ano para conseguirmos nos ajustar - disse ele uma noite, provocando-a depois de terem feito amor, enquanto ficavam deitados nos braos um 
do outro.
       - No foi muito tempo, foi?
       - Foi muito tempo - disse Olvia honestamente e ele se virou e olhou para ela.
       - O que voc acha que aconteceu para mudar tudo?
       Quando olhou dentro dos olhos dela, viu algo que de certa forma o aterrorizava; era algo to aberto, to querido, as portas de seu corao ficavam totalmente 
abertas e ele rolou sobre o prprio corpo e afastou-se dela, olhando para o teto.
       - Suponho que deveria apenas agradecer e no fazer muitas perguntas aos deuses. 
       Quando ele disse aquilo, Olvia teve uma sensao estranha, quase como se ele soubesse sem saber. Mas ele adormeceu pacificamente pouco depois e nunca questionou 
nada, mesmo quando ela no se lembrava de pequenos detalhes que deveria saber, como onde ele guardava suas contas ou suas ferramentas. 
       At Geoff perdia a pacincia com ela s vezes por causa disso. Mas ela estava de to bom humor atualmente, que ele no queria fazer muitas perguntas.
       Eles partiram para Croton-on-Hudson, enquanto Olvia lutava contra as lgrimas, assim que Geoffrey terminou a escola, no fim da primeira semana de junho e 
Charles prometeu subir todos os fins de semana. Ele manteve a palavra e ficou at tarde na noite de seu aniversrio de casamento, que caiu num domingo naquele ano. 
Ele decidira no trabalhar no dia seguinte e ficar em Croton a noite toda para celebrar o aniversrio com ela. Edward estava satisfeito de v-los to felizes tambm. 
Era bvio para todos, incluindo Bertie, que mais de uma vez olhou para Olvia com suspeita.
       - Voc deve estar querendo alguma coisa dele, como uma casa nova e grande - provocou-a Bertie naquela tarde, por ela estar sendo to doce com ele, mas ambas 
sabiam que Victoria herdaria a casa na cidade, j que vivia em Nova York agora. 
       E Olvia herdaria Henderson Manor, embora ela detestasse pensar naquilo. Mas a sade de seu pai no estivera nada bem no ltimo ano e desde o desaparecimento 
de Victoria piorara como nunca. Mas ele parecia estar passando por uma calmaria nos ltimos dias. Seus pulmes estavam limpos, seu humor estava bom e ele abriu uma 
garrafa de champanhe para comemorar o aniversrio deles naquela noite. 
       Ento, como normalmente fazia de qualquer forma, foi para a cama mais cedo. 
       Geoffrey estava dormindo no antigo quarto de Olvia, como sempre fazia agora, e ainda machucava Olvia entrar l. Apenas ver a cama que ela partilhara com 
a irm por vinte e um anos sempre a fazia sentir falta dela. Ela recebera duas cartas, que Victoria mandara para a casa da Quinta Avenida, como dissera que faria, 
e tudo o que sabia era que ela estava em Chlons-sur-Marne, trabalhando em um hospital de campo e cuidando de soldados moribundos. Soava desgostoso para Olvia. 
Aquilo certamente no eram frias, particularmente depois da maneira como comeara, mas era bvio, por tudo o que ela dizia, que Victoria amava estar l. E no importa 
quais fossem suas razes, da mesma maneira que Olvia sentia falta de sua irm gmea, tambm tinha de admitir secretamente que estava feliz por ela ter ido embora, 
mesmo que por pouco tempo. Isso dava a ela aqueles preciosos momentos com Geoff e Charles, e naquela noite de seu aniversrio fizeram amor com uma ternura especial.
       Mais tarde ele fez referncia ao tempo que passaram no Aquatania no ano anterior e o quanto fora solitrio e desapontador para ambos. O corao de Olvia 
transbordou de amor por ele, enquanto fingia se lembrar ou pelo menos saber do que ele estava falando, mas ela no sabia. Tudo o que pde colher do que ele disse 
foi o quanto os dois foram infelizes. Por fim eles fizeram amor novamente e desta vez pareceu um pouco diferente.
       Ela sentiu seus coraes e almas se fundirem como nunca antes acontecera, mesmo nas ltimas semanas com ele. Mais tarde, enquanto ela se deitava ao seu lado, 
usando os anis de Victoria, sentiu-se verdadeiramente casada. 
       Foi como se ele sentisse algo diferente tambm, pois falava com ela de maneira diferente agora. Tudo entre eles parecia mais ntimo agora que haviam entrado 
numa unio mais fsica e no dia seguinte, na hora de partir, ele quase teve de se obrigar a ir embora. No podia tirar os olhos de seu rosto e quase deu a volta 
e retornou assim que chegou a Newburg. Ele teve de rir de si mesmo no fim e escreveu para ela naquela noite, apenas para dizer o que ela passara a significar para 
ele agora e o quanto a amava. Olvia chorou quando recebeu sua carta. Nunca imaginara que a vida pudesse ser to perfeita.
       Olvia cavalgou com Geoff em Croton quase todos os dias. Seu estilo havia melhorado consideravelmente e ela o estava treinando em saltos que seu pai temia 
serem muito altos para ele, mas Olvia o observava cuidadosamente e Geoff era capaz de faz-lo. Ele estava surpreso por ela cavalgar tanto com ele agora, pois sabia 
que a madrasta no gostava de cavalos tanto quanto sua irm. Mas ela mudara muito nos ltimos dois meses e ele queria acreditar que Victoria estava fazendo um esforo. 
       Ela lembrava muito mais Olvia atualmente, mas ainda tinha seus humores tambm. E de vez em quando Olvia ainda tomava atitudes um pouco speras com ambos, 
para que eles jamais suspeitassem de seu engodo. A nica diferena entre ela e sua irm era que Olvia ficava consumida de culpa no momento em que o fazia. E passava 
o resto do dia fazendo as pazes com eles, com gestos gentis e palavras calorosas. Na verdade Geoff quase gostava daquilo. Ele gostava de passar o tempo com a madrasta 
agora, embora ainda estivesse sofrendo pelo choque do desaparecimento de Olvia. 
       Ele falava sobre isso de vez em quando, mas era bvio para ela que a dor daquilo ainda era colocada ao lado da perda de sua me. E ela se sentia pssima com 
isso, mas no havia nada que pudesse fazer para mudar aquilo, exceto am-lo, e ela o fazia mais que nunca.
       Charles foi obrigado a passar a ltima semana de junho com eles e, na vspera de sua chegada, Olvia e Geoff estavam cavalgando como sempre. J estavam no 
caminho de casa quando ela saltou sobre um pequeno riacho e sua gua perdeu o equilbrio. A gua tropeou e Olvia no caiu, mas o animal pareceu ficar um pouco 
manco depois daquilo. Assim, Olvia desmontou e levou a gua a p para casa, com Geoff perto dela, montado em seu prprio cavalo. Quando voltaram ao estbulo, ela 
encontrou uma grande pedra enfiada no casco da gua e pegou uma picareta afiada para tir-la, mas um sbito movimento de outra gua assustou-a e ao cavalo, que se 
movimentou tentando sair, enquanto a picareta entrava na mo direita de Olvia, entre seus dedos. 
       Havia sangue por toda parte, e um garoto do estbulo correu para pegar uma toalha, enquanto Robert, o velho cocheiro, pegou o cavalo e tirou a pedra de seu 
casco. Geoff estava  beira das lgrimas quando saram rapidamente e Olvia segurou a mo sob a torneira para limp-la.
       - Deve precisar de um ponto ou dois, senhorita Victoria - disse um dos cocheiros com preocupao, mas ela corajosamente insistiu que no precisava.
       Estava se sentindo um pouco frgil por causa da dor e da viso de tanto sangue, e Geoff foi buscar um caixote para que se sentasse.
       - Voc est bem, Victoria? - perguntou ele nervosamente. Aquilo o fazia sentir-se um pouco enjoado tambm e ele olhou para outro lado enquanto o sangue flua 
livremente na gua fria.
       - Estou bem - disse ela, agradecida pela caixa para se sentar, enquanto colocava a cabea para baixo e tentava clare-la.
       Geoff estava segurando uma toalha limpa para ela e quando Olvia finalmente achou que tinha jogado gua suficiente sobre o ferimento, segurou a mo para ele 
e deixou-o brincar de mdico. 
       - Amarre com fora, por favor - disse ela, incapaz de faz-lo sozinha com apenas uma das mos. 
       Mas quando ele olhou para sua mo direita, engasgou e olhou para ela. Todo o seu mundo havia subitamente virado de cabea para baixo. Ela nem mesmo pensara 
naquilo. Mas ele vira a sarda e agora sabia exatamente quem ela era e quem ela no era.
       - Tia Ollie... - sussurrou ele, incapaz de acreditar e olhando novamente para a sarda, incrdulo. Ele soubera que havia algo diferente nela, mas jamais imaginaria 
que elas pudessem ter trocado de lugar, no por tanto tempo. - Onde est... - comeou a perguntar, quando Robert, o cocheiro, se aproximou deles.
       - Como est? - perguntou ele, preocupado. - Devo chamar o velho doutor?
       - No, est tudo bem - disse ela, com medo agora de que ele pudesse ver tambm. 
       Talvez ele soubesse a diferena entre elas. E Bertie saberia com certeza. Ela no podia mostrar para ningum agora. Sabia disso.
       - Vou ficar bem. Apenas me assustou.
       - Foi bom que no tenha entrado bem no meio de sua mo, senhorita Victoria - disse ele, sacudindo a cabea. - Tome conta direito disso agora. Mantenha limpo. 
Cubra-o bem - disse ele a Geoffrey, que estava amarrando a atadura bem apertada, como se estivesse ansioso para esconder algo na mo de sua madrasta. 
       Mas assim que ficaram sozinhos novamente, ele estava sorrindo. Ela estava de volta. Ele nunca a perdera, afinal de contas. Olvia pensou que nunca vira uma 
criana iluminar-se como ele e pegou-o em seus braos e o abraou.
       - Eu disse que jamais o deixaria -sussurrou ela em seu cabelo.
        - Papai sabe? 
       Ele parecia totalmente confuso agora, enquanto ela sacudia a cabea e olhava para ele.
       - Ningum sabe, Geoff. Exceto voc agora. Voc no pode dizer a ningum. Voc tem que jurar. Nem mesmo a seu pai.
       - Eu prometo. 
       E ela sabia que ele falava srio. O castigo poderia ser a volta de sua madrasta de verdade e ele no queria aquilo de forma alguma. No que ela fosse particularmente 
ruim com ele, apenas no gostava dela. E ela no era Ollie. E ento ele pensou em algo.
       - Papai vai ficar nervoso quando descobrir?
       - Acho que sim - disse ela com honestidade. No queria mentir para o garoto mais do que j tinha feito.
       - Ele vai mandar voc embora de novo?
       - No sei. Ns temos apenas que ficar bem calados sobre isso, eu e voc, e aproveitar enquanto pudermos. E eu falo srio, Geoff, voc no pode contar a ningum. 
- Seus olhos imploravam a ele para acreditar nela.
       - Eu no vou contar. 
       Ele pareceu insultado por ela repetir aquilo. Ento colocou um brao em torno da cintura de Olvia e andaram de volta para a casa, com sua mo amarrada e 
seu segredo.
       Charles passou a ltima semana de junho em Croton com ela e Geoff, como dissera que faria. Sua mo j estava boa novamente e Geoff cumpriu sua palavra. Ele 
no disse nenhum sussurro sobre o que vira em sua mo naquele dia e nada em seu comportamento sugeria que ele tinha um segredo. Olvia ficara preocupada com aquilo 
por alguns dias, mas finalmente relaxou e, na poca em que deixaram Croton, tudo estava bem novamente. Seu pai parecia melhor, Bertie estava triste por v-los partir 
e os trs Dawson estavam excitados para irem para o litoral. 
       Charles alugara um chal para eles em Newport, Rhode Island. Como sempre, os Goelet estavam l naquele ano, e os Vanderbilt tambm. Quase todas as noites 
havia festas nas grandes casas que eram modestamente chamadas "chals" e o tempo estava fabuloso. Geoff adorava nadar com ela e Charles estava mais feliz do que 
nunca. Ele caou-a pela praia mais de uma vez e eles riam como crianas. E no Quatro de Julho ficaram na praia para ver os fogos do clube. A casa que haviam alugado 
era muito boa e confortvel, e depois de passar todo o ms de julho com eles, Charles voltou para a cidade no dia 1 de agosto. Como fizera em Croton, em junho, 
ele voltaria nos fins de semana. 
       E na sexta-feira  tarde Olvia mal podia esperar para v-lo. Ela ficara sozinha com Geoff durante a semana e, mesmo quando estavam sozinhos, ele nunca a 
chamava de Olvia ou falava sobre seu segredo. Ele sabia que era uma coisa indizvel, que nunca poderia ser mencionada novamente, e era crescido o suficiente, aos 
onze anos, para entender isso.
       Eles saram para longas caminhadas na praia, tomaram ch com amigos, foram ao Iate Clube com freqncia e cataram conchas. Juntos, Olvia e Geoff fizeram 
colagens para Charles, fizeram at mesmo uma carta de navegao para ele com pequenas conchas, que parecia ser de verdade. Olvia dividia toda a sua gentileza, seu 
amor e seus talentos com eles. E quando Charles chegava a Rhode Island tarde da noite na sexta-feira, sempre valia a pena a longa viagem que fizera para v-la.
       - No sei como consigo ficar sem voc a semana toda - disse ele, beijando-a e segurando-a bem perto de si, enquanto ficavam na sacada do quarto,  luz da 
lua. 
       Era uma noite perfeita e ele estava sentindo falta dela como sempre sentia, embora odiasse ceder ao seu desejo to rapidamente. Ele gostava de falar com ela, 
abra-la e apenas estar com ela. Mas assim que voltaram para o quarto, ele no pde resistir. Era um longo clamor que tinha origem em seu primeiro ano, quando ela 
o mantivera  distncia e estremecia a cada vez que ele a tocava. Ela era infinitamente sensual agora, como ele sabia que sempre fora, mas ele simplesmente no conseguira 
chegar at ela antes. Tudo mudara no momento em que ele admitira para si mesmo que a amava.
       E naquela noite, enquanto se deitavam juntos, mais tarde, ele a segurou perto de si e acariciou seu rosto com os dedos. Havia algo mais que ele queria dela 
agora, mas jamais ousaria pedir. Ele conhecia seus sentimentos sobre o assunto. Mas talvez, se outras coisas haviam mudado, aquilo tambm mudasse por fim. Ela nem 
mesmo havia mencionado assemblias sufragistas em dois meses, embora ainda lesse avidamente os jornais, bem como tudo o que podia sobre a guerra na Europa. E ela 
mantivera sua palavra e nunca voltara a fumar. Ele sabia que fora um enorme sacrifcio para ela, mas achou que valera a pena. Aquilo simplesmente no era feminino 
nem atraente, embora ele tivesse de admitir que a princpio achara interessante. Mas depois de um certo tempo ele se cansara daquilo e estava feliz por ela tambm 
ter finalmente se cansado. No mnimo aquilo cheirava horrivelmente. 
       Ele agora notava tambm, enquanto ela se enroscava perto dele, que ela at dormia de maneira diferente do que fazia antes. Ela sempre se esquivara de qualquer 
contato, dormindo o mais longe que podia dele, e agora no podia ficar mais perto enquanto ronronava a seu lado. E ele amava aquilo.
       No dia seguinte foram todos  praia, como sempre, e fizeram um piquenique na areia. Na volta para casa, pararam para comprar algumas coisas. Olvia disse 
que precisava de um novo guarda-sol, pois o sol estava to forte ultimamente que a fazia ficar tonta. E Geoff precisava de um novo par de sapatos. Ele crescera muito 
no vero e mal cabia nos seus antigos. No caminho para casa, quando estavam todos conversando animadamente, aconteceu de Olvia olhar para a estrada e ver uma garotinha 
lanar-se entre duas carruagens atrs de uma bola e imediatamente ficar entre as pernas dos cavalos. Um dos cavalos empinou e a me gritou, mas ningum fez nada 
para salv-la. 
       Charles estava prestes a se arremessar atrs dela, mas antes que pudesse sequer se mexer Olvia se lanou  frente dele, agarrou a criana e se jogou para 
o lado, a salvo com ela. A criana no podia ter mais que dois ou trs anos e todo o seu corpo estava protegido pelo de Olvia, enquanto o cavalo empinado voltava 
a colocar as patas dianteiras na terra, arranhando levemente Olvia. Ela ainda conseguiu passar para o outro lado da rua com a criana, a salvo de perigo, mas estava 
um pouco confusa e as pessoas estavam gritando e se lanando em torno dela. Os cavalos haviam sido seguros, a me da criana havia explodido em lgrimas, a bab 
estava gritando com ela, a garotinha estava gritando tambm e Charles no prestava ateno em ningum, enquanto se lanava pela rua em direo a Olvia, com Geoff 
bem atrs dele.
       - Meu Deus, voc est tentando se matar? - gritou ele para ela, consciente do quanto ela havia chegado perto daquilo, ainda mais consciente do que ela prpria, 
j que no havia visto nada. Ela apenas reagira  situao e tudo j havia acabado antes mesmo que ela soubesse.
       - Mas Charles... a criana... a garotinha... 
       Ela olhou para ele com olhos arregalados e, enquanto olhava, ele pareceu muito longe e a cor sumiu vagarosamente de seu rosto. Ela pde ouvir tudo o que ele 
disse e ento viu seus lbios se mexendo, mas ele j no estava fazendo nenhum som, e ficou muito pequeno e quase cinza. Ela olhou para ele com uma expresso confusa 
e ele observou, horrorizado, enquanto ela deslizava como melado derretido para a calada.
       Ele teve tempo apenas de segur-la antes que ela batesse no cho. E ento subitamente ele tambm estava gritando para que algum o escutasse. Ele s havia 
pensado que ela fora ferida pelos cascos dos cavalos, mas talvez fosse ainda pior do que ele imaginava. Ele estava aterrorizado enquanto gritava para algum trazer 
o mdico.
       - O que aconteceu?... O que aconteceu?... - perguntou uma mulher. - O que ?
       - Eu no sei - disse ele, sem prestar ateno em nada do que estava acontecendo em torno deles. 
       Quando olhou sobre seus ombros, viu os olhos de Geoff cheios de lgrimas e tentou se acalmar o suficiente para acalm-lo tambm. Mas estava em pnico por 
causa da mulher que ele pensava ser sua esposa e que Geoff sabia que era Olvia. Depois de tudo por que tinham passado, ele no podia perd-la. 
       - Ela vai ficar bem, filho - disse ele a Geoff, enquanto algum ia buscar o mdico, e deitou-a na calada com a bolsa de Geoff por baixo de sua cabea. Mas 
ela no recuperara a conscincia. Ela tinha desmaiado completamente.
       - Ela no vai ficar bem, pai, ela est morta - disse Geoff, chorando abertamente e mais e mais pessoas se juntaram em torno deles, enquanto Charles ajoelhava-se 
perto dela e pedia s pessoas para deixarem-na respirar.
       Finalmente chegou um homem que disse que era mdico. Ele carregou-a para um restaurante prximo e deitou-a cuidadosamente sobre um balco para que pudesse 
examin-la. No havia contuso nem golpe aparente em sua cabea, e ao examinar seus olhos, ele no acreditou que ela pudesse ter tido uma concusso, mas ela estava 
definitivamente inconsciente. Ele esfregou seus pulsos, colocou gelo atrs de seu pescoo e em suas tmporas, e ento ela vagarosamente voltou a si e viu Charles, 
parecendo verde enquanto perguntava o que acontecera.
       - Voc salvou uma garotinha, sua doida, e quase foi pisoteada at a morte por dois cavalos - disse ele, despedaado entre sentimentos de terror, alvio e 
fria. - Seria bom se voc deixasse o herosmo para outra pessoa, meu amor - disse ele, beijando sua mo, enquanto Geoff limpava as lgrimas, embaraado por ter 
estado chorando.
       - Sinto muito - disse ela fracamente, depois olhou para o mdico. 
       Ele estivera escutando seu corao e estava satisfeito. No parecia haver nada errado com ela, mas mesmo assim perguntou a eles se gostariam de lev-la para 
o hospital. Olvia disse que queria ir para casa, mas assim que ficou de p quase desmaiou novamente e admitiu para Charles, numa voz frgil, que se sentia pssima. 
Ele podia ver como ela se sentia e estava perto das lgrimas quando a deitou novamente no balco.
       - Acho que se sua esposa fosse para casa e se deitasse um pouco, talvez ficasse bem. Provavelmente foi o calor e a emoo. Voc pode me chamar novamente esta 
noite se ela precisar de mim - disse o mdico de maneira agradvel e deu a Charles um carto.
        E poucos minutos mais tarde, Charles a deixou com Geoff e foi buscar o carro, enquanto o garoto olhava para ela docilmente.
       - Ollie, voc est bem? - sussurrou.
       - Geoff, no! - disse ela, embora no houvesse ningum perto para ouvi-los. - Lembre-se do que eu disse a voc.
       - Eu sei...  que fiquei to assustado... voc parecia estar morta.
       Seus olhos se encheram de lgrimas, e ela apertou a mo dele na sua. 
       - Bem, eu no estou morta e vou bater em voc daqui at o fim de sua vida se voc me chamar assim novamente. 
       Ela sorriu para ele e ambos estavam rindo quando Charles voltou para peg-la. Ele insistiu em carreg-la para o carro, o que a embaraou, e ela disse que 
estava bem agora, mas ainda estava muito plida. E naquela noite ela decidiu no jantar. Estava muito enjoada.
       - Vou chamar o mdico - anunciou Charles firmemente, quando foi ver como ela estava depois que ele e Geoff haviam comido sozinhos na sala de jantar. - No 
gosto da sua aparncia.
       - Charles, como voc  cruel - provocou-o Olvia e ele riu para ela.
       Ele amava seu senso de humor. No era to acurado como antes, mas com o tempo se tornara mais sutil. Mas ela ainda tinha um bom senso de humor.
       - Voc sabe o que quero dizer - suspirou ele, enquanto se sentava e olhava para ela. - Achei que fosse morrer quando aquele maldito cavalo quase pisoteou 
voc. Pelo amor de Deus, que coisa louca de se fazer!
       - A garotinha podia ter morrido - disse ela simplesmente, sem arrependimentos, j que nenhuma delas havia sido ferida.
       - Voc tambm.
       - Estou bem - disse ela e beijou-o gentilmente nos lbios. 
       Havia algo que tinha de dizer para ele. Ela no sabia o que fazer com aquilo. No era o que ela queria que acontecesse, de forma alguma, e ia complicar tudo. 
Mas ela queria aquilo to desesperadamente, que no haveria meio de desistir agora. 
       - Estou muito bem, realmente - disse ela suavemente, olhando para ele, que pareceu subitamente confuso. Ela tinha uma maneira gentil de dizer coisas que s 
vezes o confundiam.
       - O que isso significa?
       - No estou certa do que dizer a voc - disse ela cautelosamente. 
       Ela no sabia quais seriam seus sentimentos sobre aquilo e sabia que sua irm jamais quisera crianas. Talvez ele tambm no quisesse.
       - H algo errado? - perguntou ele, parecendo preocupado, mas ela apenas sacudiu a cabea e teve de lutar contra as lgrimas de emoo. - Oh, Victoria - disse 
ele, lembrando-a novamente de que ela o havia roubado e no tinha direito a essa felicidade, e ainda assim ela o amava to encarecidamente. - Diga-me o que est 
preocupando voc... - Ele no podia imaginar nada que a fizesse ficar assim e estava ansioso para acalm-la.
       - Eu... eu estou... Charles... - Mas quando ele olhou para ela e lembrou o que acontecera naquela tarde, subitamente entendeu.
       - Voc est esperando, Victoria? - perguntou ele, parecendo abalado, enquanto ela assentia. 
       Ele havia sido incrivelmente cuidadoso nos ltimos dois meses, mas ela nunca reclamara e ento ele apenas deixara acontecer. E sabendo como ela se sentia 
a respeito, ele ficou subitamente aterrorizado com o fato de que ela ficaria furiosa com ele e que todos os maus tempos voltariam novamente, ainda com mais intensidade. 
Mas quando ele olhou para ela, Olvia parecia tudo, menos zangada, e estava chorando.
       - Estou - admitiu para ele. 
       Achava que devia ter acontecido no aniversrio de casamento. Ela j havia ido ao mdico uma vez. O beb era esperado para o fim de maro e ela estava grvida 
de dois meses. 
       - Voc est muito zangado?
       - Zangado? - disse ele, olhando para ela, perguntando-se como ela podia ter esquecido todas as coisas que dissera no passado sobre no querer ter filhos. 
- Como eu poderia estar zangado? Voc  que nunca quis ter uma criana. Voc est zangada comigo? - perguntou ele com olhos preocupados.
       - Nunca estive to feliz - sussurrou Olvia, enquanto fechava os olhos e ele a beijava, dominado pelos sentimentos de quanto eles eram sortudos e do quanto 
ela era infinitamente preciosa para ele.
       - No posso acreditar... quando ser? - perguntou-lhe ele.
       - Em maro - disse ela suavemente, perguntando-se o que faria quando sua irm voltasse para casa e o reivindicasse. 
       O que aconteceria ao beb ento? De quem ele seria? O que Victoria diria a ela sobre isso? Seria um escndalo terrvel, mas ainda assim tudo o que ela podia 
fazer era se agarrar a ele agora e rezar para que o futuro nunca chegasse. Quando chegasse, ela seria a perdedora em tudo aquilo. Principalmente se eles exigissem 
ficar com o beb. Ela imaginava todos os tipos de enredos aterrorizantes quando se permitia, mas a maior parte do tempo apenas se forava a no pensar em nada daquilo, 
exceto em Charles e no beb.
       Eles contaram a Geoff pouco antes de voltarem para casa e ele ficou um pouco assustado tambm, mas no fez nenhuma pergunta a ela. Ambos tomavam conta dela 
como se fosse uma pea de cristal antigo e ela ria deles, mas amava aquilo. Charles estava at com medo de fazer amor com ela agora, mas, para seu prprio desgosto, 
descobriu que no conseguia se conter e era to amoroso como sempre.
       Assim que voltaram para Nova York, Olvia correu para a casa da Quinta Avenida. As cartas haviam se acumulado l por dois meses e ela no ousara pedir a ningum 
que as mandasse para ela. Rezou para que Victoria estivesse bem na Frana, no mesmo lugar, trabalhando no hospital e arregalou os olhos quando leu a ltima carta 
da irm. Era a Providncia. Por um breve momento, seu corao se dilacerou, desejando v-la novamente e ento ela soube que tinha de ser assim, para o seu prprio 
bem, bem como por Charles e pelo beb. 
       Victoria dizia que era muito difcil explicar, mas que era necessria l, e, embora sua vida estivesse um pouco complicada, nunca fora to feliz, e por razes 
que ela explicaria mais tarde para Olvia, no voltaria para casa no fim do vero, como planejado. No momento, sua vida era onde estava e implorava  irm para perdo-la. 
       Olvia sentia seu corao bater forte enquanto relia a carta. Ela sentia terrivelmente a falta da irm, mas sabia que teria de ser desse jeito agora, pelo 
bem delas. Rezou para que ela estivesse a salvo e bem e para que um dia Victoria a perdoasse pelo que estava fazendo.
       O vero em Chlons-sur-Marne fora difcil para todos eles. O calor da batalha se movera para Champanhe, comandada pelo general Ptain. Por causa das campinas 
sem rvores, no havia cobertura nem defesas naturais para os homens. Os "poilus", como os rapazes franceses eram chamados, cavaram trincheiras novamente e foram 
massacrados aos milhares. O objetivo de sua misso na Champanhe fora interromper as estradas de ferro alems. 
       Mas como os alemes estavam observando-os das terras altas, os aliados se tornaram alvos fceis. A batalha de artilharia continuou noite e dia, at que a 
infantaria entrasse e os rapazes fossem derrubados como soldados de brinquedo, abatidos um por um. Seus cadveres ou seus corpos quebrados foram levados para os 
hospitais de campo, para que os mdicos e mulheres como Victoria cuidassem deles. Mas havia sobrado muito poucos para cuidar. Fora um massacre.
       No fim de setembro, eles encararam chuvas fortes e em todos os lugares a que iam chapinhavam em lama e gua. Era grotesco como alguns dos rapazes morriam 
na lama, literalmente afundando enquanto bolhas de sangue borbulhavam nas poas de gua. O horror e as perdas chocantes continuaram outubro adentro. 
       E Edouard parecia to cansado como todos ao se sentar em sua barraca tarde da noite com Victoria, quando ela saiu do trabalho. Ele tinha dois aposentos na 
casa de fazenda que pertencia ao chteau, um que lhe servia como quarto e outro como estdio, e Victoria estava mais ou menos vivendo com ele ali, embora todo mundo 
fingisse no saber e ela ainda mantivesse algumas de suas coisas no acampamento.
       - No  muito divertida essa guerra, no , meu amor? - perguntou Edouard, enquanto se deitava e a beijava.
       Ele estava encharcado e havia acabado de chegar a p do hospital sob a chuva torrencial, mas agora ela j estava acostumada com aquilo. Nenhum deles estivera 
seco durante o ltimo ms. Suas roupas, suas tendas, seus lenis, tudo estava molhado e mofado.
       - Voc j est cansada disso? - perguntou ele. - Pronta para voltar para casa? 
       Parte dele queria que ela fosse, para que soubesse que ela estaria a salvo. Mas outra parte sempre a queria perto dele. Ele encontrara nela algo que nunca 
tivera em lugar nenhum antes, uma mulher que era igual a ele, sua amiga, to forte quanto ele, sua amante e ao mesmo tempo sua companheira. Eles eram perfeitos juntos.
       - No tenho mais certeza do que  casa. - Ela sorriu com cansao para ele, deitada em sua cama aps dezesseis horas de trabalho. - No  aqui, com voc? Achei 
que era - disse ela suavemente, e ele aproximou-se dela e beijou-a.
       - Acredito que sim - disse ele, beijando-a novamente, e ento olhou para ela com interesse. - Voc j contou  sua irm sobre ns?
       Ele se perguntava se ela faria isso. J haviam falado sobre esse assunto repetidamente, mas Victoria ainda estava com medo de choc-la. Afinal, ambos eram 
casados.
       - No, mas vou contar. Ela sabe. Ela sabe tudo sobre mim.
       - Que estranho ter algum assim. Eu fui muito prximo a meu irmo antes que ele morresse, mas ns sempre fomos muito diferentes. 
       Ele amava conversar com ela sobre a vida, sobre a guerra, sobre poltica e gente; eles partilhavam tantos interesses comuns e ele era quase to liberal quanto 
ela. Quase, mas nem tanto. Achava que as sufragistas haviam ido muito longe e disse-lhe que se ela um dia deixasse crescer um bigode ou entrasse numa greve de fome 
para conseguir o direito ao voto, ele bateria nela.
       - Olvia e eu somos diferentes tambm- disse ela, acendendo um de seus Gitanes. Eles estavam ficando cada vez mais difceis de conseguir e agora tinham de 
partilh-los. 
       - Mas  como se fssemos dois lados da mesma moeda. s vezes, quase parece que somos a mesma pessoa.
       - Talvez sejam - provocou ele, rolando para cima dela e pegando um trago do Gitane. - Quando  que eu terei a outra metade? - Ele riu.
       - Nunca. - Ela riu tambm. - Voc ter de ficar satisfeito com o que tem. Ns somos crescidas agora, no trocamos mais de lugar. 
       Ele riu do que ela havia acabado de dizer e rolou para o lado novamente.
       - Estou certo de que seu marido vai ficar feliz de ouvir isso - disse ele maldosamente - pobre-diabo! Depois desta baguna, voc tem de voltar para casa e 
colocar tudo em ordem, pelo bem deles - disse ele carinhosamente e ela h muito j havia concordado em fazer isso. 
       Quando chegasse o momento certo de ir para casa, ela voltaria e contaria tudo a Charles ela mesma. Devia aquilo  irm.
       - Talvez ela no queira que eu conte a ele quando chegar a hora. 
       - Isso poderia ficar complicado, eu admito. Ao menos no h nada fsico entre eles, ou pelo menos  o que voc diz. Mas se ela  realmente parecida com voc, 
no estou certo de acreditar nisso. Desafio qualquer homem a resistir a vocs duas por mais que algumas semanas. Deus sabe que eu no poderia.
       - Voc tentou resistir? - perguntou ela, parecendo intencionalmente m e quase rugindo para ele, enquanto Edouard dava uma risada. Mesmo no uniforme mais 
feio e amarrotado, Victoria dava um jeito de parecer sexy.
       - Nem por um minuto, eu receio - respondeu ele honestamente. - Nunca pude resistir a voc, meu amor - disse ele e momentos mais tarde provou o que estava 
dizendo.
       Mais tarde naquela noite, ele chegou com a notcia de que tinha de ir a Artois em poucos dias, para a prxima ofensiva franco-britnica. Comeara no mesmo 
dia da Batalha em Champanhe, mas no estava indo bem e os poilus odiavam o comandante britnico, Sir John French e queriam um dos seus l. Havia um movimento em 
ao para substituir Sir John por Sir Douglas Haig, mas nada ainda havia sido feito e os franceses no o queriam de jeito nenhum. Ento Edouard prometera ir ao Artois 
e ver o que podia fazer para ajudar no estado de esprito de todos e colaborar no planejamento da batalha.
       - Seja cuidadoso, meu amor - disse ela, sonolenta. 
       Havia algo que queria dizer a ele, mas estava to cansada que no podia lembrar o que era. De manh ele se foi e ela teve de voltar para o hospital de campo 
novamente. Ela no se importava de trabalhar quinze ou at dezoito horas por dia. Esta era sua vida agora.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
VINTE E OITO
       
       
       
       
       A vida em Nova York era bem mais civilizada do que em Chlons-sur-Marne, para dizer o mnimo, e outubro foi um ms brilhante, belo e ensolarado. Estava extraordinariamente 
quente e Olvia e Charles pareciam estar muito ocupados. Eles foram muitas vezes aos Van Cortlandts, a jantares festivos com clientes no Delinonico's e, no fim de 
outubro, planejavam ir a uma grande festa nos Astor. 
       Olvia estava grvida de quatro meses, mas no se via no estilo de vestido que ela usava. Sua silhueta j comeara a engrossar e, sem roupas, havia uma pequena 
salincia arredondada que ele amava segurar. Era to doce v-la daquele jeito e aquilo s vezes o fazia lembrar-se de quando Susan estava esperando Geoffrey. De 
certa forma, sendo agora mais velho e tendo pagado um alto preo por aquilo que amava, esta gravidez parecia ainda mais querida. Charles disse que queria uma garota 
e Olvia no se importava, apenas queria que o beb fosse saudvel.
       Ele a fez ir ao mdico regularmente e havia lembrado a ela uma vez, meio sem jeito, para contar ao mdico sobre o aborto que tivera antes de se casarem.
       - Ele no precisa saber disso - disse Olvia, mortificada.
       Ela no o tivera, de qualquer forma, mas no podia dizer isso a Charles; estava aterrorizada com o fato de ele contar isso a seu mdico.
       -  claro que precisa - disse Charles com bom senso. - Particularmente porque voc quase morreu: Voc pode ter outra hemorragia desta vez. Ou pior ainda, 
perder o beb. 
       Ambos estavam com medo disso e sempre que estava muito cansada ou se sentia mal, ela ia para casa descansar, mas isso no acontecia sempre. Olvia estava 
com boa sade e com o humor melhor ainda.
       At agora, apesar dos horrores da guerra e das pesadas perdas em Champanhe e no Artois naquele outono, Victoria parecia estar a salvo e bem e quando Olvia 
lia o que ela contava, sempre tinha um estranho sentimento de paz vindo dela, como se sua irm houvesse finalmente encontrado o que queria. Ela no mencionou Edouard 
e ainda assim Olvia tinha a sensao de que ela no estava sozinha l. Quando fechava os olhos e pensava nela, tinha uma sensao estranha de preenchimento e integridade, 
bastante parecida com o que ela sentia agora vivendo com Charles e esperando seu beb.
       Ela usou um vestido de seda prpura na noite em que foram aos Astor e um casaco de peles que seu pai mandara fazer para ela quando soubera que ia ter um beb. 
Ele estava muito orgulhoso dela e agradecido pelo fato de as coisas terem ido to bem. Era fcil ver o quanto eles estavam felizes. O nico sofrimento que todos 
partilhavam era o fato de que "Olvia" no voltara, como prometido, no fim do vero. A mulher que todos pensavam que era Victoria, exceto Geoff, disse que tivera 
notcias dela, que sua irm estava bem e que, embora no tivesse dado endereo; ela estava num convento em So Francisco e logo estaria em casa. Mas nenhuma das 
muitas buscas que fizeram havia dado em qualquer lugar: os investigadores finalmente haviam desistido no final de agosto. Mas Olvia novamente assegurara a seu pai 
que sua irm parecia bem e ele no deveria se preocupar. 
       Ele ainda se censurava pelo desaparecimento de Olvia e secretamente voltara a admitir para a Olvia real que achava que sua irm estava apaixonada por Charles. 
E  claro que a Olvia real negou isso veementemente. 
       Mas, fora isso, tudo estava indo bem para eles, e na noite em que foram ao baile dos Astor, Olvia parecia especialmente bonita. Charles ficou perto dela 
e foi apenas quando se dirigiu a um velho amigo que se afastou dela por um instante, deixando Olvia conversar com uma conhecida de sua irm. Ela nunca duvidara 
por nenhum momento que estava falando com Victoria, ningum jamais duvidara. Olvia j estava acostumada com isso agora e elas conversaram agradavelmente. Olvia 
ficou um pouco surpresa ao saber que Victoria ainda devia dinheiro  amiga por ter perdido no bridge para ela, o que a fez sorrir enquanto prometia pagar desta vez, 
j que Victoria sempre jurara para ela que no apostava, porque pensava que era algo muito estpido.
       Olvia foi andando para o jardim em seguida, para fugir do barulho e do calor do aposento e quando estava olhando calmamente para as roseiras, assustou-se 
ao ouvir uma voz atrs dela.
       - Cigarro? - perguntou ele. Ela no reconheceu a voz e comeou a recusar, quando viu que era Tobby.
       - No, obrigada - disse ela friamente. 
       Ele estava to bonito quanto sempre fora, mas ela achou que ele parecia um pouco mais acabado do que parecera dois anos antes, quando o vira pela primeira 
vez.
       - Como voc tem passado? - perguntou ele com especial sutileza, quase se empertigando enquanto chegava mais perto dela, fazendo com que ela sentisse o cheiro 
e visse que ele estivera bebendo.
       - Muito bem, obrigada - respondeu ela, comeando a se afastar, mas ele agarrou-lhe o brao e puxou-a para perto dele a fim de det-la.
       - No se afaste de mim assim, Victoria. Voc no precisa ter medo de mim - disse ele ousadamente.
       - No estou com medo de voc, Tobby - disse ela numa voz clara que o pegou de surpresa, bem como ao homem que estava escutando-a, sem ser visto, poucos passos 
atrs deles. - Apenas no gosto de voc.
       - No  disso que me lembro - disse ele, parecendo uma bela serpente, enquanto ela se virava para ele com olhos que brilhavam de raiva.
       - De que exatamente se lembra, senhor Whitticomb? De me enganar, ou  sua esposa, foi disso que tanto gostou? Realmente, do que eu mais me lembro  de sua 
tentativa de seduzir uma garota jovem e inocente e depois mentir para o pai dela. Homens como voc deveriam estar presos e no em salas de visitas, Tobby Whitticomb. 
E no perca tempo me mandando flores novamente ou bilhetes de amor. No perca seu tempo. Estou muito velha para essas besteiras vindas de um homem feito voc. Tenho 
um marido que me ama e a quem eu amo encarecidamente. E se chegar perto de mim novamente, no vou contar apenas a ele, mas  cidade inteira que voc me estuprou.
       - No foi estupro, foi... - comeou ele a dizer, mas antes que pudesse terminar, Charles saiu das sombras, parecendo extremamente satisfeito e sorrindo para 
a esposa. 
       Ele viera procurar por ela justamente a tempo de ver Whitticomb segui-la at o terrao e ento ficara cautelosamente escutando-os, no intencionalmente, mas 
adorou tudo o que ela havia dito a ele, e seu corao se aquecera ao ouvir a conversa. 
       Isso havia colocado um velho fantasma para descansar. No havia mais espectros entre 
eles, exceto talvez Susan, mas mesmo sua memria j estava descansando. O nico fantasma que sobrava, como Olvia sabia muito bem, era sua irm.
       - Devemos ir, minha querida? - Charles ofereceu-lhe o brao e eles voltaram para a sala de visitas, enquanto ele olhava para ela com um pequeno sorriso de 
prazer. 
       - Aquilo foi muito bom. Lembre-me de no brigar com voc novamente. Eu havia esquecido o quanto voc  boa nisso, usando as palavras como lanas. 
       A verdade era que a verdadeira Victoria era bem melhor naquilo do que ela, mas ele no sabia disso. E, por uma vez, Olvia se aproveitou da ocasio.
       - Voc estava escutando? - Ela parecia to embaraada quanto chocada.
       - Eu no queria, mas eu o vi seguir voc e sa atrs para ter certeza de que no a perturbaria.
       - Voc tem certeza de que no estava com cimes? - provocou ela, vendo-o ficar levemente corado, sem responder. - No precisava. Ele  um verme desagradvel 
e era hora de algum dizer isso a ele.
       - Acho que voc fez isso com muito sucesso. - Charles sorriu e beijou seu rosto, enquanto a levava para o salo de danas.
       Foi um estranho Dia de Ao de Graas em Croton-on-Hudson naquele ano por causa da aparente partida de Olvia, embora ela ainda estivesse entre eles e eles 
no soubessem. E em seu corao, Olvia sentia terrivelmente a ausncia de Victoria. Era a primeira vez que no estavam todos juntos num feriado.
       Seu pai deu as graas, mas a atmosfera estava pesada enquanto cada um deles pensava nos anos anteriores, sentindo falta de seus entes queridos. A nica coisa 
que realmente animava a todos agora era a iminente chegada do beb. Geoff achava um pouco embaraoso, mas tambm achava engraado. Olvia estava grvida de cinco 
meses e finalmente a barriga havia comeado a aparecer, apesar do cuidado com que ela escolhia suas roupas. E ela sabia que em janeiro no poderia mais sair de casa, 
exceto para visitar amigos prximos ou para jantares muito ntimos. O beb j parecia bem grande e ela secretamente desejava gmeos, mas o mdico no parecia pensar 
assim. Ela tinha dito isso para Charles, que revirou os olhos e disse que no estava certo de estar preparado para aquilo.
       - Talvez da prxima vez? - disse ele, com os olhos cheios de perguntas.
       Mas at agora ela tivera uma gravidez fcil, ao contrrio de Susan com Geoff, e, apesar de toda a sua suposta falta de vontade de ter bebs, ela parecia completamente 
relaxada em relao a isso agora. Ele jamais falara novamente sobre o medo que ela mencionara antes, gerado pelo fato de sua me ter morrido no parto. Ela parecia 
no ter o menor medo e de fato estava muito feliz. Mas quando ele perguntou sobre ter outros filhos aps este, ela apenas disse que dependia dele e ele sabia que 
ficaria satisfeito com este, se ela optasse por no ter outro. Gmeos iriam praticamente arruin-lo.
       O inverno na Frana foi rduo em 1915, enquanto ambos os lados se fortaleciam para futuras batalhas. Foram conseguidos novos suprimentos, tropas novas chegaram 
e as velhas ficaram o mais que puderam nas trincheiras geladas. Os ataques de gs continuavam. Em novembro, Edouard havia retornado do Artois e estava de volta a 
Chlons-sur-Marne para o inverno. Ele e Victoria estavam confortavelmente acomodados nos dois aposentos da casa de fazenda. Havia muitos comentrios sobre eles e 
no era segredo o que estava acontecendo, mas o acampamento parecia respeitar seu caso com calorosa afeio.
       Os oficiais que dividiam a casa da fazenda com ele deixavam-nos sozinhos a maior parte do tempo e Victoria estava rindo, tarde da noite, enquanto cozinhavam 
o menor pssaro que ela jamais vira na velha cozinha campestre.
       - No seja difcil. Estou certo de que  uma codorna - disse Edouard, tentando ser otimista.
       - No . - Ela sorriu para ele de todo corao. A ave era pouco maior que um rato quando o tiraram do forno. -  um pardal.
       - Voc no sabe de nada - disse ele, beijando-a e pressionando-a contra ele.
       Ele havia ido apenas para Verdun, uma cidade prxima, por dois dias, mas sentira sua falta. Sempre sentia. No podia mais suportar ficar longe dela. E nunca 
mais falaram sobre ir para casa. Na verdade, ele lhe falara seriamente sobre mudar-se para Paris com ele, depois que fosse em casa e encarasse Charles e sua irm.
       Suas situaes eram idnticas. Nenhum dos dois podia se casar e ele sugeriu que chocassem o mundo educado e vivessem juntos em pecado no chteau, felizes 
para sempre. 
       - E talvez um dia, quando a bruxa morrer, a atual baronesa, eu possa fazer de voc uma mulher honesta.
       - Eu sou uma mulher honesta agora - disse ela firmemente. - Oh, por favor... com sua irm fingindo ser voc para seu pobre marido em Nova York? Eu no acho. 
       Ambos sorriram sem pena e ela ao menos teve a generosidade de ficar embaraada. Ningum em Chlons-sur-Marne poderia jamais entender por que todos a chamavam 
de Olvia e ele a chamava de Victoria. Achavam que era uma piada particular e Victoria jamais explicou.
       Naquela noite, com seu pequeno pssaro, Victoria informou a Edouard que nos Estados Unidos era o Dia de Ao de Graas.
       - Eu lembro disso quando estava em Harvard - disse ele com nostalgia, sorrindo para ela. - Eu gostava. Muita comida e bons sentimentos. Voc sabe, eu gostaria 
de conhecer seu pai um dia, quando tudo isso tiver passado - disse ele melanclico, mas nenhum deles, nem o resto do mundo, sabia quando aquilo acabaria. 
       Parecia que ainda se passaria muito tempo antes que os poilus sassem das trincheiras.
       - Ele iria gostar de voc - disse ela, comendo uma ma. 
       Era o menor jantar de Ao de Graas de sua vida, mas talvez o mais feliz, enquanto olhava para Edouard e tentava no pensar em sua irm. Era muito duro estar 
afastada dela, mas mesmo assim, com ele, ela sentia que tinha uma vida agora. Com Charles, no tivera nada. 
       - Espere at conhecer Olvia. - Ela sorriu para ele.
       - Isso me assusta. Pensar em vocs duas juntas  verdadeiramente aterrorizante - disse ele. 
       Mais tarde eles se deitaram juntos em sua cama e falaram sobre suas infncias, seus amigos, as coisas que gostavam de comer e fazer quando eram crianas. 
Ele falou sobre o irmo que perdera e Victoria percebeu que ele o havia amado profundamente, o suficiente para se casar com a garota que ele engravidara, embora 
no a amasse.
       Mas enquanto estavam deitados juntos naquela noite e ela comeou a adormecer depois de fazerem amor, sentiu suas mos tocando-a gentilmente, abriu os olhos 
e virou-se para ele. Seus olhos estavam cheios de perguntas.
       - H algo sobre o que precisemos conversar, senhorita Henderson.
       - No estou certa do que voc quer dizer - respondeu ela com um sorriso misterioso nos olhos.
       - Voc  uma mentirosa horrvel - disse ele roucamente, chegando para mais perto e se deitando bem atrs dela, enquanto segurava sua barriga. - Por que voc 
no disse nada? 
       Ele parecia ferido e ela realmente sentia muito. Ela se virou para encar-lo ento e beijou-o gentilmente nos lbios enquanto ele a abraava.
       - Eu s descobri h trs semanas... e no estava certa do que voc ia pensar... 
       Ele no pde fazer nada a no ser rir para ela; sua barriga j estava redonda com o beb. Ele presumia que fosse dele; certamente no era de Charles, depois 
de tudo o que ela lhe contara.
       - Quanto tempo voc achou que poderia manter em segredo este pequeno bonhomme? 
       Ele estava sorrindo para ela. Era a primeira criana que ele jamais tivera e havia acabado de fazer quarenta anos. A despeito das circunstncias, ele estava 
empolgado, mas subitamente olhou para ela, preocupado. 
       - Voc deve ir para casa agora, Victoria - disse ele suavemente, machucado com o pensamento de perd-la, mas querendo duas vezes mais v-la a salvo agora.
       - Por isso no contei a voc - disse ela tristemente. - Eu sabia que voc diria isso. Mas eu no vou. Vou ficar.
       - Vou dizer a eles que voc est usando um passaporte roubado - disse ele, querendo soar firme para ela, mas sem sucesso.
       - Voc no pode provar isso - disse ela, sorrindo para ele. Conforme-se, no vou a lugar nenhum.
       - Voc no pode ter o beb aqui - disse ele, horrorizado por ela ter sequer pensado nisso, mas nenhum lugar na Europa estava a salvo agora, exceto a Sua, 
de modo que era melhor que ela fosse para casa. 
       Mas s de olhar para ela, ele sabia que Victoria no iria. E uma parte dele no queria discutir com ela.
       - Vou ter o beb exatamente aqui - disse ela, parecendo muito feminina, muito bonita e um pouco mais magra depois de todo o trabalho pesado no hospital do 
campo, embora ultimamente seu apetite estivesse feroz.
       - No quero voc de p quinze horas por dia - disse ele determinadamente. - Vou falar com o coronel.
       - Voc no vai fazer nada, Edouard de Boneville. - Ela olhou furiosamente para ele. - Se voc fizer, vou dizer que voc me estuprou e voc vai para a corte 
marcial - disse ela e rolou novamente na cama com um olhar de satisfao.
       - Meu Deus, mulher, voc  um monstro! Tenho uma idia melhor. Voc gostaria de ser minha motorista?
       - Sua motorista? - Ela pareceu surpresa. - Que boa idia. Posso fazer isso at que eu no caiba mais atrs do volante. Eles vo me deixar fazer isso?
       - Se eu pedir ao coronel, sim. Isso ser bem melhor para voc agora, se eu puder suportar voc dirigindo.
       Ele sempre reclamava que ela dirigia muito rpido e ela dizia que ele era um covarde. Isso era a Frana. E eram tempos de guerra. Ele sugeriu que nenhuma 
dessas eram razes adequadas para o suicdio, mas pelo bem do beb estava querendo arriscar. E ento olhou para ela seriamente. Isso no era assunto para brincadeira. 
       - Voc est falando srio sobre isso, Victoria? Voc realmente quer ficar aqui? Ser muito duro para voc. 
       E ele sabia, pelo que ela dissera, que ela tinha medo do parto. Tivera uma m experincia e poderia ter outra. E Chlons-sur-Marne no era lugar para ter 
um beb, mesmo sem complicaes.
       - Quero ficar aqui com voc - disse ela suavemente. - No vou partir.
        - Ele olhou para ela e percebeu que a batalha fora perdida antes mesmo que ele lutasse. Ela ia ficar. E ento ele fez outra pergunta importante.
       - Como voc se sente sobre no estarmos casados? - perguntou muito srio e ela riu.
       - Ns estamos casados, chrie - disse ela, iluminada. - Apenas com outras pessoas.
       - Voc no tem moral - disse ele, beijando-a do fundo de sua alma e amando-a mais do que qualquer outro ser em toda a sua vida. - Mas tem muita coragem - 
acrescentou suavemente. E desta vez, quando fez amor com ela, sabia que no tinha de se preocupar com engravid-la.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
VINTE E NOVE
       
       
       Naquele ano o Natal em Croton foi mais calmo do que o usual, mas ainda assim surpreendentemente feliz. Geoff adorou tudo o que ganhou e Charles foi extremamente 
generoso com todos eles, bem como seu pai. Mas tambm era bvio que ele no estava bem. Tivera uma tosse horrvel durante meses e flertara com a pneumonia diversas 
vezes naquele ano. E preocupava Olvia notar que ele estava parecendo consideravelmente mais velho.
       Ela no estava certa se era o desaparecimento de sua irm que havia feito aquilo a ele. Seu pai apenas parecia estar perdendo as foras e o mdico disse que 
seu corao estava ficando fraco. Mas ainda assim passaram um feriado feliz com ele e voltaram para Nova York pouco depois do Ano Novo.
       Eles estavam em casa havia dois dias quando Bertie telefonou para Olvia e disse que achava que ela devia voltar. Seu pai ficara muito fraco de repente. Aparentemente 
ele pegara outra gripe forte depois que eles partiram e estava com febre alta. Estivera delirando a tarde toda e o mdico no tinha certeza se seu corao era forte 
o suficiente para sustent-lo. Ela queria mandar Donovan para busc-la, mas Charles insistiu que ele mesmo a levaria pela manh. Ele no gostava mais da idia dela 
ir a qualquer lugar sem ele. Estava grvida de mais de seis meses e estava enorme, ou pelo menos era o que achava, para uma mulher carregando um simples beb. 
       Mas o mdico estava absolutamente certo de que era s um.
                E era bem cedo na manh seguinte quando Olvia subitamente soube que o fim havia chegado. Ele estava arfando sem conseguir respirar direito e seus 
olhos pareciam arregalados enquanto implorava a ela para pegar sua irm e traz-la at ele. 
                - Victoria, traga sua irm para cima... eu tenho de v-la agora... - disse ele, agarrando sua mo com tanta fora que a machucou e por um momento 
ela no soube o que dizer. 
       Ento ela assentiu, saiu do quarto e voltou um instante mais tarde. 
       - Olvia,  voc? - perguntou ele e ela assentiu enquanto as lgrimas jorravam de seus olhos. Ela odiava engan-lo. 
       - Sou eu, papai... sou eu... estou em casa agora.   
       - Onde voc estava?                 
       - Longe - disse ela enquanto se sentava perto dele, segurando sua mo. Ele nem mesmo viu que ela estava grvida. - Precisava pensar um pouco, mas agora eu 
voltei e te amo muito - sussurrou ela, tomada por suas prprias emoes. - Voc tem de ficar bom agora - disse ela firmemente, mas ele sacudiu a cabea, lutando 
para ficar consciente.
       - Estou indo... chegou a hora... sua me me quer.   
       - Ns o queremos tambm - disse Olvia soluando, sentada perto dele.  
       E ento, numa voz fraca e angustiada, ele fez a ela a pergunta que o havia atormentado por oito meses.
       - Voc ficou zangada comigo por t-la feito se casar com ele?  
       - Claro que no, pai. Eu te amo - disse ela novamente e acariciou sua fronte. Ele estava muito quente, muito agitado e muito preocupado. 
       - Voc o ama, no ama? 
       Ela sorriu para ele ento e assentiu. Talvez fosse melhor para ele saber a verdade. Talvez no fim das contas aquilo o acalmasse.   
        - Voc pode me perdoar por t-la obrigado a se casar com ele?    
       - No h nada a perdoar. Estou feliz agora. Foi por isso que fui embora. Eu tenho tudo o que quero agora. 
       Ele pde ver em seus olhos que ela falava srio. Edward fechou os olhos por um instante ento e comeou a adormecer, mas abriu-os novamente e olhou para ela 
com um sorriso.
       - Estou satisfeito por voc estar feliz, Olvia. Sua me e eu estamos muito felizes tambm. Ns vamos sair juntos esta noite, para um concerto. 
       Ele estava delirando novamente. Adormeceu e acordou durante todo o dia, sem estar certo de quem ela era. s vezes pensava que era Olvia e, em outras, sua 
irm. E ao cair da noite, ela parecia quase to mal quanto ele.
       - No vou deixar voc ficar mais nem uma hora neste quarto, Victoria - disse Charles ferozmente num sussurro, quando a viu no corredor falando com Bertie.
       - Eu tenho de ficar. Ele precisa de mim - disse ela com igual convico, entrando no quarto novamente. 
       A febre baixara misteriosamente naquela noite e ela se sentou perto dele, segurando sua mo, convencida de que ele ficaria melhor pela manh. Ela cochilou 
apenas uma vez, pouco antes do amanhecer, sentada numa poltrona ao lado dele, e enquanto cochilava, pde ver o rosto de Victoria to claramente que pensou que estivesse 
perto dela e de sua me. Quando Olvia acordou novamente, colocou a mo na testa de seu pai, olhou para ele e viu que havia partido. Ele morrera em paz para se juntar 
 esposa, convencido de que havia dito adeus para suas duas filhas.
       Olvia estava chorando quando saiu do quarto e Bertie, vendo-a, colocou os braos em torno dela. As duas mulheres ficaram chorando por um longo tempo e ento 
Olvia voltou para Charles. Ele estava dormindo profundamente e ela se deitou perto dele e pensou em sua irm. Olvia queria que ela soubesse de alguma forma que 
seu pai havia morrido e imaginou se ela saberia. Olvia escreveria para ela naquele dia, mas sentia que Victoria no pudesse estar ali com eles. Ao menos ele pensara 
que ela estava. Olvia sabia que isso era alguma coisa. Fora o nico presente que ela pudera dar a ele no final.
       - Voc est bem? - Charles estava acordado e olhando para ela, que permanecia deitada ali, to plida e imvel, que ele ficou preocupado.
       - Meu paizinho morreu - disse ela suavemente. 
       Elas no o chamavam assim desde a infncia, mas ela se sentia como uma criana novamente, perdendo-o. Subitamente era como se ela tivesse perdido todos; Victoria 
fora embora e agora seu pai estava morto. Ainda que ela tivesse este homem, a quem amava tanto, seu filho e seu beb, tudo o que tinha agora eram presentes que pegara 
emprestados de sua irm. Mas Charles no sabia nada disso quando colocou seus braos em torno dela gentilmente e a abraou.
       Eram duas horas da manh quando Victoria acordou com um sentimento muito estranho. A princpio pensou que fosse a criana, mas quando colocou a mo na barriga 
e sentiu-a mover-se, soube que no era. Era algo mais. Ela fechou seus olhos e viu Olvia sentada numa cadeira, mortalmente sria. Ela no estava doente, no estava 
dizendo nada, estava apenas sentada ali. E ainda assim Victoria sabia que algo acontecera a ela.
       - Voc est bem? - perguntou Edouard a ela, virando-se para olh-la.
        Ela estava dirigindo para ele agora e Edouard estava sempre preocupado com o fato de que se sacudir por aquelas estradas esburacadas acabasse levando-a ao 
trabalho de parto e ela estava com apenas seis meses e meio de gravidez.
       - No sei - disse ela honestamente. - Algo est errado.
       - Com o beb? - Ele se sentou, parecendo preocupado, mas ela sacudiu a cabea.
       - Acho que o beb est bem... no sei o que... 
       Era como se Olvia estivesse sentada bem perto de sua cama, dizendo-lhe algo que ela no conseguia ouvir.
       - Volte a dormir - disse ele com um bocejo cansado. Ele tinha de se levantar em duas horas para cuidar de uma movimentao especial nas trincheiras. - Provavelmente 
foi algo que voc comeu, ou no comeu. 
       Eles nunca tinham o suficiente para comer atualmente e muitos deles estavam sempre famintos. Ele colocou um brao em torno dela e Victoria se deitou prximo 
a ele, mas no dormiu novamente naquela noite e permaneceu com o mesmo sentimento estranho durante dias.
       No incio de fevereiro a carta de Olvia chegou at ela na Frana e ento ela soube o que sentira naquela noite. Seu pai estava morto. Ela se sentia terrvel 
com aquilo e por no t-lo visto novamente antes que morresse, mas estava infinitamente aliviada e feliz por no ter sido sua irm.
       - Deve ser muito estranho - disse Edouard quando ela lhe explicou. Ele tinha um grande respeito pelo que elas partilhavam e nunca depreciava o que ela dizia. 
- No posso imaginar estar to perto de ningum, exceto voc - sorriu - ou dele - e apontou para sua barriga. 
       Mas a relao que as gmeas partilhavam estava muito alm dele. 
       No primeiro dia da primavera em Nova York, parecia que Olvia ia explodir enquanto descia as escadas para tomar o caf da manh. E Charles no pde resistir 
ao riso. Ela parecia adorvel, mas inacreditavelmente grande. Ambos se deleitavam com a gravidez e estavam excitados com o nascimento do beb, mas nas ltimas semanas 
ela parecia quase cmica e desistira completamente de sair. O mais longe que ela se aventurava agora era seu jardim. Sua barriga literalmente se pendurava em torno 
dela como uma estrutura grande, redonda e independente. E era to grande, dura e apertada que ela dificilmente sentia o beb se mover agora. Era bem diferente de 
um ms atrs, quando ele parecia pular para cima e para baixo noite e dia, "com patins e um chapu", como ela dizia. No havia dvida de que seria um beb grande. 
Charles estava um pouco preocupado com isso, mas no queria assust-la, particularmente depois das histrias sobre sua me.    
       - Acho que vocs esto sendo extremamente rudes - disse ela, sorrindo para ele e Geoff, que tambm estava dando risadas. 
       Ela havia comeado a ficar realmente engraada. Mas parecia se sentir bem, e o beb no parecia estar com pressa. Pelo que ela podia calcular, estava sendo 
aguardado para aquela semana, mas o mdico dizia que nunca se sabia ao certo. 
Ela saberia quando a hora chegasse e teria o beb em casa, em sua pequena casa no East River. Era o que ela queria. No havia razo para ir a um hospital. Ela dizia 
que aquilo era para pessoas doentes. E ter um beb decididamente no era uma doena.
       - O que voc vai fazer hoje? - perguntou Charles casualmente, enquanto ela servia a ele uma xcara de caf.
       Bertie viera de Croton naquela semana para ajud-la e estava no quarto de hspedes, mas Olvia insistia em preparar o caf da manh do marido. Era a nica 
coisa que ela ainda podia fazer sem ajuda. Mesmo para entrar na banheira era necessrio que Charles a ajudasse, e para tir-la de l quase se precisava de um guindaste. 
Mas Bertie viera para a cidade para que pudesse estar l quando Olvia tivesse o beb. Ela insistira naquilo. Com a morte de seu pai, Bertie no tinha virtualmente 
nada para fazer em Croton. Ela concordara em passar toda a primavera com eles e Olvia estava feliz por ter sua ajuda com o beb.
       - Pensei em sair para o jardim e depois voltar - disse Olvia com um sorriso. - Devo me sentar numa poltrona por um tempo e depois ir para a cama. 
       Deitar-se era perigoso, era como ter um mvel em cima dela. Ela no conseguia se levantar novamente, a menos que algum a ajudasse.
       - Voc quer que eu traga um livro? - perguntou ele.
       - Eu adoraria! - respondeu ela com prazer. O novo livro de poesias de H.D. Seagarden, havia acabado de sair, e ela estava morrendo de vontade de l-lo. - 
Eu amaria alguns rabanetes em conserva, se por acaso voc encontrar algum por a.
       - Garanto que vou procurar - disse ele, dando-lhe um beijo de despedida e um tapinha na barriga. - Cuide para que ele no saia enquanto eu estiver fora.
       - No tenha tanta certeza de que  um garoto - disse ela, sem querer que ele ficasse desapontado com uma "simples" garota, embora jurasse que era o que queria.
       - Se for uma garota desse tamanho, ns teremos um problema srio - disse ele rindo, enquanto corria escadas abaixo. 
       Tinha muitas coisas a fazer naquele dia e queria voltar para casa mais cedo. Ele gostava de ficar com ela, particularmente agora, quando estava to perto 
do parto. Sabia que ela estava um pouco mais nervosa do que admitia, ou pelo menos ele achava que estava. Mas, para surpresa da prpria Olvia, ela realmente no 
estava nem um pouco nervosa. Estava surpresa consigo mesma por sentir-se to calma. Tinha uma estranha convico de que o parto seria muito fcil. E disse isso a 
Bertie, que no respondeu nada.
       E assim que eles haviam sado, Bertie desceu e lavou a loua para ela. Olvia subiu para o que se tornara o quarto do beb e comeou a limpar, arrumar e selecionar. 
Bertie sorriu quando subiu novamente. Olvia parecia feliz e ocupada. Ela ficou ali a maior parte da tarde e depois saiu para o jardim. Mas assim que voltou a entrar, 
viu o quanto as janelas da sala de estar estavam sujas e comeou a limp-las e, apesar de todas as exortaes de Bertie, insistiu em faz-lo sozinha. Esfregou e 
lavou tudo e, quando Charles chegou em casa, estava arrumando a cozinha e falando sobre comear a fazer o jantar.
       - No sei o que h de errado com ela - reclamou Bertie, enquanto a cozinheira sorria para eles. - Ela limpou a casa inteira durante todo o dia, de alto a 
baixo.
       - Ela est se preparando - disse a cozinheira sabiamente, enquanto Bertie sacudia a cabea e Olvia, sorrindo, foi para a cesta de costura pegar meias para 
remendar. 
       Ela nunca se sentira melhor. E tinha mais energia do que tivera em semanas. Charles estava feliz de ver aquilo. Ela jantou com ele e Geoff e depois que Geoff 
foi para a cama eles jogaram cartas e Charles ganhou dela.
       - Voc trapaceou - acusou-o Olvia, rindo, enquanto ia  cozinha pegar um copo de leite.
       Quando estava l, ouviu um forte rudo de gua em seus ps e pensou que tinha derrubado o leite sem perceber, mas quando olhou para baixo viu gua por toda 
parte e foi preciso um instante para que ela se desse conta do que acontecera. Ela deixou de lado a garrafa de leite e procurou alguns panos para secar tudo, quando 
Charles entrou e viu o que ela estava fazendo.
       - O que aconteceu?... O que voc est fazendo?... Victoria! 
       Ela estava bastante acostumada ao nome agora e respondia a ele to facilmente quanto ao seu prprio, talvez at mais, j que h onze meses ningum mais a 
chamava de Olvia.
       - Voc vai parar... aqui... deixe-me ajud-la. 
       Ele limpou o cho para ela, que mal podia se curvar e ria de ambos. Charles no entendia o que ela tinha feito ou o que havia derramado e enquanto ficava 
ali de p, ela subitamente sentiu a primeira dor e agarrou seu brao. Era muito mais difcil do que ela havia esperado. 
       - O que h de errado? - perguntou ele, ainda no entendendo.
       - Era minha gua no cho... - Ela se sentou numa cadeira da cozinha e no estava mais sorrindo. -Acho que o beb est nascendo. 
       - Agora? - Ele parecia assustado, j que ningum dissera a ele que o beb era para este ms, e ela sorriu novamente.
       - Talvez no exatamente agora, mas em breve. D-me alguns minutos. 
       Mas ao dizer isso, ela franziu novamente as sobrancelhas. Sentiu outra dor e esta foi pior. Ningum dissera a ela que seria algo assim. Ela se perguntou se 
haveria alguma coisa errada. Tudo o que sabia a esse respeito era o que vira em sua irm, no cho do banheiro, h dois anos e meio. Ela no tinha uma me para dizer-lhe 
o que esperar e o mdico dissera que tudo correria bem e tinha certeza de que seria muito fcil. A Victoria de verdade teria sido bem mais realista. Mas de alguma 
forma Olvia jamais esperara que fosse to doloroso.
       - Vamos lev-la para cima - disse Charles calmamente e ajudou-a a se levantar da cadeira, mas foram necessrios quase dez minutos para faz-la subir as escadas 
e entrar no quarto. 
       Ele a sentou no banheiro e ajudou-a a se despir. Ela tinha dificuldades para se mover. Ele a deixou por alguns minutos para bater na porta de Bertie, disse 
a ela o que estava acontecendo e pediu que chamasse o mdico e Bertie rapidamente entrou em ao. Mas na hora em que Charles voltou para ela, Olvia estava arfando 
e entrando em pnico, e as dores eram horrveis.
       - No me deixe novamente - disse ela, parecendo desesperada e se agarrando a ele. 
       Assim que Bertie entrou, eles a ajudaram a ir para a cama e espalharam lenis e toalhas velhas em torno dela. Bertie tinha experincia nisso, mas Charles 
no. Susan dera  luz Geoffrey onze anos antes, com as mulheres da famlia em torno dela. Ele sara para se embriagar com seu cunhado e, quando voltara, tinha um 
beb. 
       Olvia parecia no ter inteno de deix-lo ir a lugar algum e, na hora em que o mdico chegou, ela estava agarrando seus braos a cada dor e lutando para 
no gritar muito alto com medo de que Geoffrey a ouvisse.
       - Isso  horrvel - informou ela ao mdico e ele e Bertie trocaram um sorriso, mas Charles parecia muito preocupado com ela. 
       - Quanto tempo vai demorar? - perguntou ele inocentemente. 
       Com Geoff parecera apenas uma hora ou duas, ou talvez ele apenas tivesse bebido muito, pois no conseguia se lembrar.
       - Provavelmente a noite toda - disse o mdico calmamente e Olvia explodiu em lgrimas assim que ouviu isso.
       - No posso. Quero voltar para Croton. 
       Ela estava chorando como uma criana e subitamente tudo em que podia pensar era em sua irm. Era como se ela estivesse bem ali novamente, mas estavam dividindo 
a mesma dor e nenhuma delas podia escapar. Era como o pior pesadelo que jamais tivera, exceto quando Victoria estava no Lusitania. Mas de certa forma isso era pior, 
porque Olvia sentia tanta dor que no podia pensar direito. Ela no podia se controlar; aps um certo tempo no podia nem mesmo parar de gritar e finalmente ela 
viu Bertie levar Charles para fora. Parecia que ele ia comear a chorar e Olvia implorou a ela que o trouxesse de volta, mas ela no o faria.
       - Voc vai apenas preocup-lo - disse ela, tranqilizando-a. Voc no quer que ele a veja agora... assim...
       - Quero sim - disse ela nervosamente. - Eu o quero agora... traga-o... - mas Bertie no o traria e Olvia apenas ficou deitada ali e chorou, enquanto as dores 
cresciam e pioravam cada vez mais e eram cada vez mais prximas uma da outra. 
       Ento ela no pde mais segurar e de uma grande distncia, em algum lugar, Bertie e o mdico estavam segurando suas pernas e dizendo a ela para empurrar o 
beb para fora, mas ela no conseguia. 
       - Eu quero Victoria - disse ela entre gemidos e subitamente Bertie olhou para ela. 
       Houve um momento de silncio e ento veio outra dor que levou Olvia para longe novamente e um longo tempo se passou at que ela pudesse escut-los novamente; 
era muito doloroso. 
       - Victoria - sussurrou ela o nome de sua irm novamente e  distncia ela pde ouvir sua irm chamando.
       - Tome cuidado com o que diz - sussurrou Bertie para ela suavemente. - Tome cuidado - disse ela novamente e apertou com fora a mo de Olvia, mas ela tinha 
ido muito longe para saber o que queria dizer enquanto ficava l deitada gritando e empurrando. 
       Amanhecia e nada acontecera ainda. Olvia no podia acreditar naquela dor e ainda no tinha um beb. At Bertie estava comeando a parecer cansada e Charles 
fizera caf para ela e o mdico. E ento Charles bateu suavemente e entrou no quarto novamente, perguntando como estava a esposa.
       - Terrvel - gemeu ela, respondendo por eles. - Oh Charles... - disse ela e comeou a soluar, e ele perguntou a si mesmo se afinal de contas seus temores 
anteriores no tinham fundamento. Talvez ela tivesse alguma m formao congnita como sua me, algo que a mataria antes que ela tivesse o beb.
       - Oh, meu bem - disse ele parecendo comovido e o mdico disse a ele que ficaria mais confortvel se esperasse embaixo, no salo.
        Ele estava comeando a se preocupar com ela, mas no demonstrou. E ento, antes que Charles pudesse dizer mais nada, as dores recomearam e eles disseram 
a ela para continuar empurrando. Charles ficou, sem ser notado por nenhum deles. Mas uma hora mais tarde a situao parecia genuinamente sem esperana.
       - Eu realmente gostaria que voc sasse - repetiu o mdico asperamente para Charles, em tom de repreenso. Mas Charles o repreendeu de volta, para surpresa 
de todos.
       - No vou sair. Ela  minha esposa e vou ficar bem aqui. 
       E apesar da dor, o humor de Olvia pareceu melhorar tendo-o perto dela. Ele ficou segurando sua mo e dizia a ela para empurrar quando os outros diziam, mas 
nada aconteceu. 
       E finalmente, depois de forar sua mo dentro dela, o mdico anunciou que o beb estava na posio errada.
       - Vou ter de vir-lo. 
       E Charles quase chorou quando ela gritou desta vez, mas vagarosamente, vagarosamente, o beb comeou a se mover. Mas era exatamente como Charles temera. O 
beb devia ser muito grande. Era fcil de se ver. Ele no sabia por que eles no a haviam obrigado a ir para o hospital, ou ao menos no tinham avisado a eles. Mas 
o mdico estivera to decidido a acalm-los todos esses meses, dizendo a ela que seria fcil.
       - No posso mais! - disse ela miseravelmente para Charles, entre dores, e ento ela vomitou e gritou mais. 
       Ele queria peg-la em seus braos e sair correndo dali. Sentia que jamais deveria ter feito amor com ela, e ento subitamente, enquanto ambos choravam, ela 
fez uma cara horrvel e empurrou novamente, e desta vez houve um pequeno gemido e, saindo da grande bola que havia sido sua barriga nos ltimos meses, estava o maior 
dos bebs. 
       Ela era pequena, doce e rosa; uma garotinha perfeitamente formada. O mdico a segurou, enquanto ambos olhavam para ela atnitos. 
       - Oh, ela  to bonita - disse Olvia, enquanto Bertie a segurava.
       - Agora no foi to ruim - disse o mdico e Olvia fez uma cara horrvel e olhou para Charles com um sorriso, mas o sorriso virou imediatamente dor e ele 
a olhou horrorizado.
       - O que est acontecendo? - perguntou ele, subitamente apavorado. Ela estava se contorcendo de dores novamente e j havia tido o beb.
       - Acontece s vezes - explicou o mdico. - E o ps parto s vezes pode ser at mais doloroso - disse ele em voz baixa, enquanto Olvia comeava a gritar novamente 
e Bertie a observava.
       - De novo no... por favor... - implorou Olvia - no mais... 
       Ela olhou para Charles novamente como se estivesse sendo levada para longe dele em mars de misericrdia e tudo o que ele pde pensar foi que no queria mais 
crianas; isso era horrvel!
       - No acho - comeou Bertie a dizer sabiamente, mas o mdico interrompeu-a.
       - Num minuto ela vai soltar a placenta - mas, em vez disso, ela subitamente comeou a sangrar muito e foi tomada pela dor. Sem que ningum dissesse a ela, 
comeou a empurrar, enquanto Charles a segurava.
       - Doutor, isso  normal? - perguntou Charles numa voz estrangulada, quando uma pequena cabea surgiu de repente onde a primeira havia estado, esta ainda um 
pouco maior e um pequeno rosto estava olhando para todos eles e esperando, enquanto Charles novamente olhava para baixo entre suas pernas em total assombro. 
       - Victoria - disse ele. Ela estava deitada na cama, os olhos fechados, agarrada a ele e arfando, enquanto ele sorria para ela. - Vamos, meu bem, empurre, 
estamos tendo outro beb. - Ele estava rindo e chorando ao mesmo tempo e Bertie tambm.
       - O qu? Oh, meu Deus... - disse ela e ento entendeu, empurrou mais forte e uma segunda garotinha saiu e, logo depois, uma nica placenta. 
       Elas eram idnticas, como ela e Victoria. Olvia olhou para o beb sem acreditar e ento para Charles e depois comeou a rir. Eram pouco mais de dez horas 
da manh. 
       - No acredito nisso! No novamente.
       De repente todos estavam sorrindo e at Olvia no se sentia to mal. O sangramento j havia quase parado e ela estava segurando os dois bebs nos braos, 
enquanto Bertie a enrolava em lenis e toalhas limpos. Ela estava um pouco mais chocada do que Charles, mas na verdade achava que ele era um ajudante bem melhor 
do que o mdico.
       - Eu te amo tanto - sussurrou Charles, enquanto se curvava sobre ela e ento, com seus dois bebs nos braos, ele os levou para ver Geoff, que tambm no 
pde acreditar no que via.
       Elas eram to perfeitas e to bonitas e havia duas delas. E no quarto o mdico estava explicando por que pensara que tinha escutado uma s batida de corao.
       Ele costurou Olvia e Bertie banhou seu corpo e seu rosto em gua fresca e perfumada. E quando o mdico saiu e elas ficaram sozinhas novamente, ela olhou 
para Olvia e sorriu.
       - O que voc fez, sua garota irresponsvel? - disse ela e Olvia soube exatamente o que ela queria dizer.
       Ela estava surpresa por Bertie ter ficado fora disso tanto tempo. J fazia quase um ano agora.
       - Ela me obrigou a faz-lo. - Bertie assentiu e sorriu.
       - O que, isso tambm?
       - Bem, no exatamente - sorriu ela, feliz, mesmo depois de tanta dor. Parecia uma coisa to pequena agora.
       - Onde est ela? - sussurrou Bertie suavemente.
       - Na Europa. - Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Charles entrou no quarto com Geoff, que queria v-la.
       - Elas so to fofas, tia... Victoria... - Ele quase escorregara e olhou para ela em pnico, mas estava sorrindo quando o beijou.
       - Elas parecem exatamente com voc quando era pequeno, seu pai me contou - disse Olvia gentilmente. 
       Geoff pareceu embaraado ento e deixou o quarto para sair e contar aos vizinhos. E finalmente Charles estava sozinho com ela novamente. Bertie pegara os 
bebs e os levara para o quarto mais prximo, para banh-los.
       - Sinto muito por t-la colocado nisso tudo - disse ele, parecendo orgulhoso, mas culpado.
       - Eu faria tudo de novo - ela disse honestamente. - No foi to ruim. 
       Ele olhou para ela em total espanto.
       - Como voc pode dizer isso? - disse ele suavemente, beijando-a e lembrando-se apenas do quanto fora ruim, mais do que ela. 
       - Valeu a pena - disse ela suavemente, beijando-o e pensando nas duas garotinhas que haviam nascido, exatamente como ela e sua irm.
       - No estou certo de que v sobreviver a todos os truques delas - disse Charles com franqueza, enquanto se sentava ao lado dela na cama, pensando no quanto 
fora confuso estar perto dela e de sua irm. - Seu pai disse que ele jamais pde diferenci-las.
       - Vou ensinar a voc - disse ela e beijou-o.
       Poucos minutos mais tarde, Bertie entrou com os dois bebs e, enquanto os colocava nos braos de sua me, no conseguia imaginar o que Olvia faria quando 
Victoria voltasse da Europa.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
TRINTA
       
       
       
       Em Chlons-sur-Marne, naquela noite, Victoria estava dormindo em paz, quando sentiu Edouard apunhal-la repetidamente com o que parecia uma faca quente, at 
que ela gritasse e ento, quando comeou a acordar do sonho horrvel, deu-se conta de que era Olvia quem estava sendo apunhalada e que ela estava gritando. Ela 
continuou gritando repetidamente e no parou mais, at que colocou as mos nos ouvidos. Mas ento sentiu as dores novamente em si mesma e ficou se retorcendo na 
cama, confusa e mergulhada em agonia, gritando por sua irm at que Edouard a acordou.
       - Eh... petite... arrte...  um pesadelo... ce n'est qu'un cauchemar, ma chrie. 
       Mas era to real que ela no podia parar de sonhar e enquanto se agarrava a ele, sem ar, deu-se conta de que sua cama estava molhada e as dores eram reais. 
Ela mal pde recuperar a respirao quando sentiu uma dor enorme, um peso que parecia pression-la atravessando seu corpo.
       - No sei o que est acontecendo... - sussurrou ela no escuro, enquanto ele acendia a luz, ainda confuso. E ento ele a viu. Ela estava deitada numa poa 
de gua e sangue e segurando a barriga, enquanto ele a olhava.
       - a vient maintenant?... Est chegando agora? 
       Quando ele estava meio adormecido, quase sempre falava com ela em francs, mas agora ela conseguia entender. Ela assentiu, parecendo aterrorizada, e ele saiu 
da cama rapidamente e agarrou suas calas.
       - Vou buscar o mdico.
       - No... no v... no me deixe... - implorou ela. 
       Estava sentindo muita dor e estava muito assustada. Ao contrrio de Olvia, Victoria tinha um medo mortal do parto e tudo o que queria agora era Edouard a 
seu lado.
       - Tenho que ir busc-lo, Victoria... No tenho a menor idia de como fazer um parto. Eu s vi cavalos nascerem.
       - Por favor, no v - disse ela, chorando e ento arfou horrivelmente ao sentir outra dor e agarrou a barriga. - Est vindo agora... eu sei que est... Edouard, 
no v... - Ela estava em pnico total, e seus olhos pareciam selvagens quando ele olhou para ela.
       - Por favor, querida, me deixe ir buscar algum para ajud-la... Chouinard - o melhor cirurgio no hospital de campo - vai voltar comigo e vou trazer uma 
das enfermeiras.
       - No os quero - arfou ela, agarrando-se a ele novamente. Seus dedos eram como garras. - Quero voc... - E ento, quando ela recuperou a respirao por um 
momento entre as dores: - Eu estava sonhando que Olvia estava tendo o beb. - Ele sorriu desta vez com a conveniente transferncia de seu sonho.
       - Esta  uma coisa que ela no pode fazer por voc, meu amor. Nem eu - disse ele gentilmente. - Gostaria de poder tirar toda a dor de voc - disse ele, enquanto 
se ajoelhava ao lado dela e a abraava. 
       Ela estava obviamente agoniada, mas ele sabia que poderia durar horas e estava determinado a ir buscar algum para ajud-la. Ele tentou colocar a camisa, 
mas ela no deixou.
       - Est vindo agora, Edouard... posso sentir... est vindo... - ela sentia uma dor e uma presso terrveis e ele ficou assustado quando viu todo aquele sangue 
em volta dela, mas num instante ela j estava gritando e por azar no havia ningum na casa com eles naquela noite. Os outros estavam todos trabalhando. E ele no 
podia usar seu rdio para chamar o mdico.
       - Estarei de volta logo - tentou ele dizer novamente, mas ela no o deixou sair. 
       Estava nervosa e assustada demais para isso. Tudo o que ele pde fazer foi sentar ali com ela e segur-la. E naquele exato momento, em Nova York, Olvia comeou 
a sentir dores novamente, apenas dores mdias desta vez. Ela comentou com Charles, e ele fingiu que ia desmaiar e disse "por favor, trigmeos no!". Mas quando Bertie 
entrou no quarto disse que sentir dores aps o parto era normal. Olvia deitou a cabea novamente contra os travesseiros e adormeceu. Mas s sonhou com a irm.
       - Edouard, por favor... 
       Era outro grito pattico e ela se sentou subitamente e se moveu para a beira da cama. Ele no tinha idia do que ela estava fazendo. 
       - Tenho que empurrar - disse ela, ofegando enquanto se agarrava a ele. 
       Ela no sabia o que fazer ou aonde ir, mas estava sendo guiada por uma fora que no podia parar agora.
       - Segure-se em mim - disse ele e ela agarrou suas mos, enquanto empurrava com toda a fora que podia, sentada ali, e ento caiu novamente na cama.
       Ela no sabia o que fazer para tir-lo dela, mas mesmo assim podia senti-lo chegando. Ele ento teve a idia de empurrar suas pernas e disse a ela para se 
deitar e empurrar com ele. E quando ela tentou, embora fizesse sons terrveis, se sentiu melhor. Ela o fez novamente e depois se deitou de novo, e da prxima vez 
em que ela empurrou, ele pde ver um pequeno tufo de cabelos louros aparecendo.
- Oh, meu Deus! - disse ele, totalmente assombrado. - Oh meu Deus!... Victoria, est chegando... continue empurrando. 
       Ela o fez novamente e novamente e novamente, e ele ficou segurando suas pernas, deixando-a se agarrar a ele, e numa questo de minutos havia uma pequena face 
entre suas pernas, gritando to vigorosamente quanto sua me. 
       - Victoria! - disse ele, quase gritando para ela, enquanto os dois sorriam e choravam e ela empurrava mais. Dois empurres mais tarde, seu filho saiu de Victoria 
e ficou deitado na cama, chorando. Edouard pegou-o o mais cuidadosamente que pde e segurou-o para que ele pudesse ver sua me.
       - Oh... olhe para ele... - Victoria chorava, incapaz de acreditar no que acontecera a eles e to rapidamente. Ele era to perfeito e parecia exatamente com 
seu pai. - Ele  to bonito... oh, eu te amo -disse ela e beijou Edouard. 
       Havia lgrimas rolando pelas faces dele. Eles haviam sido verdadeiramente abenoados. Neste lugar de angstia e morte, eles haviam sido visitados por um anjo.
       - Ele  a coisa mais bonita que eu jamais vi - disse ele em francs, chorando sem vergonha lgrimas de alegria - exceto por sua me. Je t'aime, Victoria, 
mais do que voc jamais saber. 
       Ele deitou o beb gentilmente no peito dela e foi buscar toalhas e gua para limp-los. Era a coisa mais extraordinria que ele jamais havia visto. E o pequeno 
garoto nascera em menos de uma hora desde o momento em que sua me acordara.
       - Como vamos cham-lo? - perguntou ele depois de ter cuidado de ambos. Ele estava provando ser um excelente mdico amador e uma tima parteira.
       - Voc fez tudo muito bem- disse ela, sorrindo e ento pareceu um pouco embaraada. - Desculpe por ter ficado to apavorada... fiquei to surpresa e veio 
to rpido - e fora to doloroso quanto rpido. 
       Ele era um beb muito grande, mas at ela tinha de admitir, fora muito mais fcil do que esperava. Ela tivera medo de um parto longo e agonizante, como o 
de sua me, que podia ter terminado em tragdia.  
       - Graas a Deus que no tivemos gmeos! - disse Victoria, parecendo aliviada.
       - Acho que eu gostaria disso - disse ele, parecendo um pai muito orgulhoso, enquanto acendia um cigarro e oferecia outro a ela, mas por uma nica vez ela 
no aceitou. 
       Estava se sentindo um pouco mexida ainda e muito enjoada. Mas o beb j estava mamando. E olhando para ela, Edouard lembrou-se novamente de que ela deveria 
ir para casa logo. Este no era lugar para um beb. E ento ele sorriu para ela novamente e retirou os longos cabelos negros de sua face, enquanto ela se deitava 
l nua, com seu filho, coberta apenas por um cobertor do exrcito. 
       - E o nome do futuro baro? - perguntou ele formalmente, e ela olhou do filho para o pai com uma expresso pensativa.
       - Que tal Olivier Edouard, por causa de minha irm e de voc e meu pai? Isso parece englobar tudo. O nico que fica fora disso  Charles - ela riu - e nestas 
circunstncias, no acho que ele v se importar.
       - Vamos mandar um aviso a ele ou voc vai escrever para o pobre homem um dia desses? 
       Eles haviam decidido finalmente que aquele seria o melhor meio de faz-lo. De outra forma Charles poderia no saber durante anos e Olvia ficaria amarrada 
para sempre, fazendo o papel da irm. Victoria estivera planejando escrever para Olvia e contar a ela. Estava certa de que seria um alvio para ela, embora Charles 
indubitavelmente fosse ficar muito zangado. Ela odiava deixar Olvia encarar a situao sozinha, mas simplesmente no podia se ver voltando para os Estados Unidos 
agora. Mas como sempre, quando quer que pensasse nela, Olvia apareceu com fora em sua mente naqueles dias e ela desejou mais que nunca poder mostrar o beb a ela. 
Daria qualquer coisa para colocar seus braos em torno dela e simplesmente abra-la. 
       Ela ficou na cama e chorou por dois dias, apesar de sua alegria pelo pequeno Olivier, mas pela primeira vez em dez meses Victoria estava mortalmente saudosa 
de casa. A soluo a que Edouard e Victoria finalmente chegaram foi deixar o beb com a castel, a condessa que Victoria conhecera meses antes, que agora era a amante 
do general. Mas sua casa estava a salvo, era bem longe das linhas do front e ela vivia ali sob a proteo dos aliados. Embora Edouard dissesse que ficaria mais feliz 
sabendo que Victoria e o beb estavam a salvo na Sua, ele estava querendo concordar em deix-los l, ao menos por poucos meses, enquanto ela estava amamentando. 
       Victoria ficou em casa com seu filho por muitas semanas, at que ficasse de p novamente, mas se sentiu surpreendentemente bem muito depressa. Muitas das 
enfermeiras vieram visit-la e Olivier se tornou o mascote do acampamento, mesmo para aqueles que no o conheciam. Os soldados mandavam presentes para ele e pequenos 
brinquedos entalhados. Didier tricotou para ele um pequeno par de meias e, s Deus sabia onde, um dos homens conseguiu para ele um ursinho empalhado, que algum 
havia ganhado da namorada. E enquanto ele ficava deitado no colo da me, com seu pai apaixonado olhando para eles, Olivier Edouard de Bonneville parecia um beb 
muito feliz. Para todos, ele era a flor da vida no meio do campo de morte e cinzas.
       Em junho, Victoria j voltara ao normal. Havia recuperado sua silhueta, para delcia de seu marido e estava dirigindo o jipe de Edouard novamente, agora amamentando 
o beb apenas  noite e pela manh. Eles o deixavam com a condessa quando saam e Victoria o pegava novamente no caminho para casa, ansiosa para v-lo e s vezes 
pingando leite enquanto esperava para amament-lo. 
       Mas ele tinha um temperamento muito bom e contentava-se com leite de cabra sempre que precisava, particularmente se eles se aventuravam at mais longe ou 
Edouard tivesse que ir a algum lugar durante a noite e levasse Victoria com ele. Para eles, era o arranjo perfeito. E dadas as necessidades da guerra, era maravilhoso 
que conseguissem passar por isso. Mas, para sorte de Edouard, o general gostava dele. 
       Recentemente Edouard havia feito incurses a rendez-vous com a Esquadrilha Americana, uma fora area com sete voluntrios americanos e levara Victoria com 
ele para conhec-los. Fora excitante para ela e eles estavam loucos por ver outro ianque. Dois deles eram de Nova York, de modo que tambm tinham isso em comum, 
mas a guerra j era um lao suficiente para todos. Estavam todos juntos naquilo.
       Em junho, enquanto Victoria estava dirigindo para Edouard, os Dawson estavam batizando seus bebs. Olvia insistira em cham-las de Elizabeth e Victoria por 
sua me e sua irm. O Victoria fora difcil de explicar para Charles, mas ele pensara que ela queria uma homnima. Mas o nome do meio de Elizabeth era Charlotte, 
por causa de seu pai. E o de Victoria era Susan.
       Geoff estava encantado com as duas e Bertie vivia ocupada, vestindo, alimentando, lavando e trocando. Nunca havia mos suficientes para ajud-la. Olvia havia 
tentado amament-las, mas elas haviam sido demais para ela, e depois da dificuldade que tivera no parto, o mdico achou que ela estava muito frgil para continuar 
a amamentar. Ento elas comearam com as mamadeiras, e agora todos podiam ajudar a aliment-las.
       Mas em junho Olvia estava se sentindo maravilhosa. Era como se nada houvesse jamais acontecido. E quando estavam na igreja de Saint Thomas, na vspera de 
seu segundo aniversrio de casamento, Olvia sentiu-se a mulher mais sortuda da vida, exceto pelo fato de que ela pegara tudo aquilo emprestado da irm. Ela no 
tinha idia do que fariam quando Victoria retornasse. Talvez devessem continuar com a farsa para sempre. Ela apenas esperava que Victoria no decidisse que estava 
loucamente apaixonada por Charles, mas nada em suas cartas indicava isso ou mencionava qualquer outra pessoa. Olvia tinha a impresso de que algo estava acontecendo, 
mas ela nunca compreendera o que era. Victoria praticamente se limitava a notcias de guerra, at onde os censores deixariam, mas pelo menos Olvia sabia que sua 
irm estava feliz.
       Em junho, durante a Batalha de Verdun, depois que o forte Vaux caiu, Edouard e Victoria estavam voltando para casa, aps um encontro ultra-secreto com os 
aliados em Anscourt. Todos os oficiais graduados haviam estado l, inclusive Churchill, representando seu novo batalho. Todos haviam ficado deprimidos pela maneira 
como estava indo a batalha, pois a carnificina parecia no ter fim. E o encontro havia sido ultra-secreto. Victoria tivera que esperar do lado de fora com os outros 
motoristas. 
       E ele disse muito pouco para ela no caminho de volta. Edouard parecia estar pensando e prestava muito pouca ateno  estrada, j familiar para ambos. Victoria 
a conhecia como a palma da mo; passara por ali centenas de vezes. E naquela noite estava com pressa para voltar para seu beb. Como sempre, seus seios estavam jorrando 
leite e ela queria voltar para o chteau rapidamente para peg-lo e amament-lo. O desconforto que sentia crescia a cada hora e a fez ficar um pouco menos cuidadosa.
       - O que foi aquilo? - Edouard olhou para algo no lado da estrada, quando j haviam passado da metade do caminho de volta e ela sorriu.
       Ele estava cansado e parecia tenso. A guerra no estava indo bem para os aliados. Ela desejava que os americanos entrassem nela, mas o presidente Wilson ainda 
estava resistindo. Se pelo menos eles pudessem vir e ver com seus prprios olhos o quanto os franceses e ingleses precisavam desesperadamente deles, as coisas talvez 
fossem diferentes. Ela estava pensando sobre isso quando bateram numa pequena protuberncia na estrada e desviaram, quase batendo numa rvore. Estavam ambos cansados 
e nervosos.
       Eles j estavam quase chegando a Chlons-sur-Marne e haviam acabado de passar por Epernay, quando Edouard disse que achava ter visto algo novamente. Ele queria 
ir mais devagar e ela queria ir mais rpido. Eles discutiram sobre isso um minuto e ele deu uma ordem a ela e no estava brincando.
       - V devagar, Victoria, eu quero ver isso.
       Ele estava certo de que podia ver movimento nos arbustos e queria avisar em Chteau Thierry se os alemes estivessem de alguma forma invadindo por trs, o 
que seria desastroso. Mas depois que pararam por um minuto, o que Victoria pensou ser suicdio, no viram mais nada e comearam a se mover. Ela havia apenas comeado 
a aumentar a velocidade quando um cachorro correu para a estrada na frente deles e ela desviou para evit-lo e quase bateu numa rvore. Enquanto estava se acalmando 
novamente, ouviu um estranho silvo e lembrou-se, sem razo particular, do Lusitania. O rudo era bem mais baixo e ela olhou para Edouard, todo o seu corpo tenso, 
e seus olhos ficaram subitamente arregalados quando ele gritou para ela.
       - Abaixe-se! Baisse-toi... - gritou ele e ambos voaram para o cho o mais baixo que puderam, enquanto ela continuava dirigindo. 
       Mas quando se voltou para olhar para Edouard, ele tinha uma expresso estranha nos olhos, e ela de repente viu que ele estava sangrando. Ela comeou a se 
dirigir para a beira da estrada e ele sacudiu a cabea freneticamente, dizendo a ela para no parar, mas outro cartucho atingiu-os um instante depois. Eles haviam 
sido atacados por franco-atiradores. 
       Ela dirigiu o mais rpido e para o mais longe que pde, estendendo a mo para ele, sem certeza do que fazer. Ele tinha seu rdio com ele, mas ainda estavam 
muito longe para us-lo. Ele estava comeando a cuspir sangue e ela pde ver que ele estava perdendo a conscincia. Ela estava dividida entre tentar lev-lo para 
o hospital do campo ou parar para cuidar dele ali. Mas no havia deciso a tomar agora. Ele se arremessou para a frente no cho e ela pde ver que ele estava morrendo. 
Ela no tinha escolha, a no ser encostar o carro.
       - Edouard - disse ela, empurrando-o para trs e deitando-o contra ela. 
       Ela vira faces como aquela mil vezes nos ltimos trinta meses, mas nunca a dele ou de algum que conhecesse. Isso no podia estar acontecendo, no a ele, 
no hoje, no agora. No era possvel... ela estava gritando seu nome e sacudindo-o para tentar traz-lo de volta  conscincia, mas podia ver que todo o lado de 
sua cabea fora arrancado e ele estava quase morto enquanto ela o segurava. Ela no podia acreditar que ele ainda estivesse respirando. 
       - Edouard! - gritou ela, meio chorando, meio soluando. - Me escute... me escute... 
       Ela estava gritando e imaginou se os franco-atiradores podiam ouvi-la. Para ser exata, eles ainda estavam longe o suficiente do campo e no eram um perigo 
real para o acampamento.
       - Edouard, por favor...
       Ele abriu os olhos e olhou para ela com um sorriso, apertando sua mo o mais forte que podia, o que era muito pouco.
       - ... je t'aime... sempre estarei... com voc...
       E ento ele olhou para ela novamente, seus olhos se abriram um pouco mais como se estivesse muito surpreso e ento subitamente ele estava com os olhos fixos 
e havia parado de respirar. Rapidamente estava tudo acabado.
       - Edouard - sussurrou ela no escuro, sozinha... - no... v... por favor... no me deixe... 
       E enquanto olhava para ele com horror e descrena, o sangue dele cobrindo-a, ela mal sentiu o projtil que entrara nas suas costas bem abaixo do pescoo, 
embora tivesse ouvido aquele que passara perto de seu capacete. Ela o deitou gentilmente no assento prximo a ela e, sentindo algo muito frio pingar de seu pescoo, 
pressionou o p no acelerador e voltou  estrada em alta velocidade. Ela tinha que lev-lo para o hospital para ver se podiam ajud-lo. Os mdicos fariam algo... 
eles o acordariam novamente... ele estava apenas dormindo, disse ela a si mesma.
       Ela estava em choque. Tudo o que sabia era que tinha de lev-lo de volta. Ele era seu capito, ela era sua motorista e ele era seu capito.. e... ela bateu 
numa rvore quando entrava no acampamento, quase atingindo duas enfermeiras a caminho do refeitrio. Elas gritaram para ela e uma delas disse algo rude e encarou-a.
       - Ele est ferido - disse Victoria, encarando-as inexpressivamente. E as enfermeiras olharam para ela muito estranhamente, enquanto seus rostos rodavam em 
torno dela. - Faam 
algo, ele est ferido! - gritou ela e as enfermeiras puderam ver, sem olhar duas vezes, que o capito de Bonneville estava morto. 
       Mas ento elas viram o sangue pingando de seu pescoo e na camisa e entenderam o que havia acontecido.
       - Voc tambm - disse uma delas gentilmente e entrou no caminho para segur-la, enquanto Victoria escorregava suavemente para dentro da escurido. 
       Elas a pegaram enquanto ela caa contra o volante e viram que suas costas estavam inteiramente cobertas de sangue. 
       - Pegue uma maca! - gritou uma delas para algum atrs de si, enquanto segurava gentilmente o queixo de Victoria em suas mos para sustent-la. - Servente! 
- chamou e dois homens vieram correndo. 
       Um deles reconheceu Victoria e sacudiu a cabea quando viu o capito.
       - O capito? - perguntou ele e a enfermeira confirmou com a cabea. 
       No havia esperana. 
       - Eles foram baleados... leve-a para a cirurgia. Veja se Chouinard est l... ou Dorsay... ou qualquer pessoa... 
       Se houvesse atingido a espinha, qualquer coisa podia acontecer. No mnimo a infeco poderia mat-la. Os serventes correram com ela para a cirurgia e depois 
voltaram mais vagarosamente para Edouard. Dois soldados carregaram seu corpo para o necrotrio, enquanto outro dirigia o caminho para longe e ia informar aos comandantes 
sobre o capito de Bonneville.
       No havia nada mais que pudessem fazer por ela, exceto operar para remover a bala. Ela jamais poderia andar novamente se sobrevivesse, o que no seria nada 
agradvel. O dano que a bala dos franco-atiradores fizera fora tremendo, j que ricocheteara dentro de seu corpo. E mais tarde, naquela noite, as enfermeiras e serventes 
com quem ela havia trabalhado estavam falando sobre ela e Edouard. A sargento Morrison foi procurar seus papis. Eles a conheciam como Olvia Henderson, americana, 
de Nova York, e Morrison h muito havia gravado o endereo de sua casa e seus parentes prximos. Era uma mulher chamada Victoria Dawson. Morrison escreveu ela mesma 
o telegrama e havia lgrimas em seus olhos quando o fez.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
TRINTA E UM
       
       
       
       O carrinho que Olvia tinha de usar para as gmeas era a coisa mais pesada e antiquada que ela j vira, mas Bertie insistira em traz-lo de Croton. Ela fizera 
Donovan traz-lo especialmente de carro. Era gigantesco e havia sido dela e de Victoria mas, apesar das queixas de sua me, as gmeas pareciam muito felizes nele. 
A casa se tornara pequena para eles durante a noite tambm. As gmeas estavam dividindo um quarto com Bertie e ela e Charles haviam falado mais de uma vez sobre 
mudarem-se para a casa de seu pai na baixa Quinta Avenida. At onde Charles sabia, era dela agora. Mas Olvia sabia que era de sua irm e no se sentia bem se mudando 
para l at que conversasse com Victoria quando ela voltasse da Europa. 
       A casa que ela herdara estava em Croton e era magnfica, mas muito pouco til. Ento, por enquanto, eles iam ficando onde estavam e vivendo em quartos bem 
apertados. Ela e Charles podiam ouvir os bebs chorarem a noite toda e Geoff estava acima de suas cabeas constantemente, normalmente com Chip ou uma das crianas 
dos vizinhos. Aquilo estava comeando a deixar Charles louco.
       E ultimamente Olvia estava tendo problemas para dormir e vivia muito cansada. Tudo parecia doer e ela esperava que no estivesse ficando doente. Enquanto 
Olvia lutava com o enorme carrinho de beb nos degraus da frente, ela estava comeando a pensar que Charles estava certo, e eles deviam se mudar. Ela explicaria 
a Victoria mais tarde.
       - Posso ajud-la? - falou um homem de uniforme e, enquanto ela agradecia e olhava para ele, deu-se conta de que ele estava segurando um telegrama com seu 
nome e subitamente sentiu seu corao parar. Ela havia tido uma sensao estranha durante dias e finalmente se convencera de que estava apenas nervosa por dormir 
pouco, tentando tomar conta de dois bebs.
       -  para mim? - perguntou ela roucamente.
       - Victoria Dawson? - perguntou ele agradavelmente e ela assentiu. 
       - Sim, sou eu. 
       Ele entregou o telegrama a ela, pegou sua assinatura e depois a ajudou a levar o carrinho para a casa, suas mos trmulas. Ela empurrou o carrinho para o 
hall da frente, os bebs ainda adormecidos nele, e rasgou o telegrama sem esperar mais nem um nico minuto. Sentiu seu corao apertado, como se um torno de ao 
houvesse sido colocado em torno dele. As palavras se embaaram no momento em que ela as leu. Era uma nota oficial de uma certa sargento Morrison na Frana, ligada 
s foras aliadas. 
       "Lamentamos informar que sua irm, Olvia Henderson, foi ferida na linha de guerra. Ponto. No pode ser transferida. Ponto. Gravemente doente. Ponto. Vamos 
avis-la dos prximos acontecimentos. Ponto." 
       Estava assinada pela sargento Penelope Morrison do Quarto Exrcito, responsvel pelos voluntrios. Victoria jamais a havia mencionado antes, mas aquilo no 
era importante agora. Ela fora ferida. 
       Olvia ficou chorando no hall, segurando o telegrama, incapaz de acreditar nele. E ela havia sentido aquilo. O mal-estar que sentira fora muito facilmente 
explicado pelo cansao com os bebs. Mas agora ela subitamente entendeu o que estivera sentindo. Victoria estava doente ou ferida.
       Olvia estava olhando em volta nervosamente, quando Bertie entrou no hall, saindo da cozinha e soube imediatamente que algo terrvel acontecera.
       - O que foi? - Ela correu at o carrinho, pensando que era um dos bebs.
       -  Victoria... ela est ferida...
       - Oh, meu Deus... o que voc vai dizer a Charles? - Ela usou o primeiro nome dele em sua ausncia, embora nunca o tivesse feito em sua presena.
       - No sei - disse Olvia nervosamente, enquanto ambas levavam os bebs adormecidos para cima.
       Deitaram-nas em seus beros sem acord-las, quando Geoffrey entrou e subiu as escadas correndo para fazer seu dever de casa. Mas Olvia no disse nada a ele. 
Ela tinha de contar a seu pai primeiro e no tinha idia de por onde comear, se contava a ele toda a verdade ou apenas parte dela. Mas o que quer que fosse, ela 
tinha de fazer algo.
       Ela iria v-la imediatamente e se ele se juntaria ou no a ela, dependia dele. Mas ela estava indo. Nada neste mundo a impediria de faz-lo.
       Ela estava esperando por ele na sala de estar quando ele chegou em casa no fim daquela tarde. Estava mortalmente plida e suas mos tremiam enquanto ela dobrava 
e redobrava o temido telegrama mas como Bertie, ele pensou que era um de seus bebs.
       - Victoria, o que foi?
       Ela tomou um pouco de ar e decidiu contar a ele apenas parte de tudo. Ela passara a tarde em agonia por causa desta deciso.
       -  minha irm.
       - Olvia? Onde ela est? O que aconteceu? - Ele no entendia o que sua esposa estava dizendo.
       - Ela est na Europa. E est ferida.
       Era realmente mais fcil do que ela pensara, agora que tinha comeado. Mas a verdade toda jamais seria. No haveria meio de colocar aquilo em pratos limpos 
e seu pior medo era que ele se divorciasse dela. Ele nem mesmo tinha de faz-lo. Tudo o que tinha de fazer era jog-la para fora. Ela nem mesmo estava certa de que, 
nestas circunstncias, ele teria de dar os bebs a ela, ou mesmo deix-la visit-los. Mas a questo agora no era sobre eles, no ainda. Era sobre sua irm.
       - Ela est na Europa? - Ele parecia totalmente perdido, enquanto se sentava e a encarava. - O que ela est fazendo l?
       - Ela estava dirigindo para as Foras Aliadas e foi ferida - disse Olvia, sentando-se em frente a ele e olhando-o com terror.
        Ele estava comeando a entender que havia alguma decepo ali e subitamente ele soube.
       - Voc sabia disso? - perguntou ele, procurando seus olhos, imaginando se ela mentira para ele e seu pai e, quando ele perguntou, ela assentiu. - Como ela 
pde fazer isso? Ela estava l o tempo todo?
       Olvia assentiu novamente, aterrorizada com o que mais ele iria imaginar, mas o resto era to vergonhoso que no havia meio dele adivinhar. Elas haviam ido 
muito longe nos ltimos trinta meses e ela o sabia. Imaginava se Victoria agora tambm sabia e se sentia por isso. Trinta meses era muito tempo para carregar uma 
decepo e trocar de vidas. Aquilo excedera demais seu trato. Mas ela tambm se excedera e sabia disso. 
       - Por que voc no disse nada, Victoria? 
       Subitamente o nome de sua irm soou em seus ouvidos como uma acusao, mas era muito tarde para mudar as coisas e ela respondeu sem se acovardar.
       - Ela no queria que ningum soubesse e queria desesperadamente fazer isso, Charles. Eu no pensei que fosse justo det-la.
       - Justo? Voc acha que foi justo da parte dela fugir de seu pai assim? Pelo amor de Deus, isso o matou!
       Os olhos de Olvia encheram-se de lgrimas quando ele disse isso. 
       - No foi s isso e ns no sabemos. O corao dele j estava fraco havia anos. - Ela tentou defender-se, mas ele pareceu zangado e nem um pouco impressionado.
       - Tenho certeza de que isso no o ajudou - disse ele severamente, apavorado com a decepo que sentia com a frivolidade de "Olvia".
       - Provavelmente no - disse a Olvia real fracamente, sentindo-se uma assassina, embora sua farsa tivesse convencido seu pai de que ele a vira em seu leito 
de morte. Mas aquilo era um conforto pequeno.
       - Eu poderia entender que voc fizesse alguma coisa louca como essa, nos velhos tempos, quando voc estava totalmente envolvida em poltica e idias radicais, 
mas Olvia... eu simplesmente no posso entender.
       - E se eu tivesse ido? - perguntou ela gentilmente, enquanto ele sorria com melancolia.
       - Eu a teria matado. Eu a teria trazido de volta pelos cabelos, trancando-a no sto. 
       Talvez ele devesse ter feito isso. Mas seria necessrio aquilo tudo para conseguir traz-la de volta. E ento ele olhou para ela mais seriamente. 
       - O que voc vai fazer agora? - perguntou, esperando que ela fosse ao consulado francs ou  Cruz Vermelha para ver o que podia ser feito para ajud-la. - 
Ela est muito machucada?
       - No sei. No estou certa. O telegrama diz "gravemente doente". - Ela olhou para ele com fora e desta vez disse a verdade. E ele no podia det-la. - Charles, 
eu estou indo para l.
       - Voc est o qu? - Ele estava ultrajado. - H uma guerra na Europa e voc tem trs crianas para cuidar.
       - Ela  minha irm - disse ela e para Olvia aquilo falava bem alto, mas ele estava lvido.
       - No, ela no ,  sua gmea, e eu sei o que isso significa. Significa que voc deixa tudo de lado por ela toda vez que voc tem uma dor de cabea e pensa 
que ela est mandando uma mensagem para voc. Bem, eu no vou concordar com isso. Ela pode ser sua gmea, mas eu estou proibindo voc de ir at ela, voc me escutou? 
Voc vai ficar bem aqui, no lugar ao qual voc pertence, e no vai correr meio mundo para resgatar uma mulher que renegou sua famlia inteira h um ano, para fugir 
sabe Deus de que para a Europa. Voc no vai - disse ele numa voz que ela jamais ouvira antes, gritando de p na sala de estar. 
       Mas ela olhou para ele com olhos que ele tambm jamais vira antes.
       - Nada que voc faa vai me deter, Charles. Estou embarcando num navio esta semana, no primeiro dia que puder e vou at ela, quer voc goste ou no. Minhas 
crianas vo ficar a salvo aqui. Eu vou ver minha irm.
       - Eu perdi uma esposa em alto-mar - gritou ele para ela, enquanto o resto dos empregados fingia no escut-los, mas era impossvel - e dane-se, Victoria, 
no vou perder outra! - Havia lgrimas nos olhos dele e em suas faces enquanto ele gritava com ela, lgrimas de raiva e terror.
       - Sinto muito, Charles - disse Olvia calmamente desta vez. - Eu vou v-la. E se voc quiser, gostaria que viesse comigo.
       - E se ns dois morrermos? E se ns dois formos torpedeados no caminho para l? Quem vai cuidar de nossas crianas? Ns temos trs delas para cuidar agora. 
Voc sequer pensou nisso?
       - Ento fique aqui - disse ela tristemente. - Eles tero voc. 
       Eles provavelmente no a teriam mais, assim que ele a jogasse porta fora e no a deixasse v-los. Era tudo o que ela podia imaginar agora, e, quando os abraou 
naquela noite, sofreu com o pensamento de jamais poder abra-los novamente, mas ela sabia que tinha que ir at Victoria. Cada pedao de seu ser e sua intuio dizia 
para ela ir. Ela colocou Geoff na cama aquela noite. Ele havia escutado a discusso e parecia muito preocupado.
       -  Victoria, no ? - sussurrou ele e ela assentiu. - Papai j sabe agora?
       - No - sussurrou ela - e voc no deve contar a ele. Eu tenho que v-la primeiro e ento ns vamos contar a ele juntas. Mas eu quero falar com ela.
       - Voc acha que ela vai ficar zangada por causa dos bebs? - perguntou ele ansiosamente e ela o beijou outra vez.
       - Claro que no, ela vai am-los! 
       Ela tentou soar mais calma do que se sentia. Por dentro, estava nervosa de terror por sua irm. 
       - Mas voc vai ficar conosco quando ela voltar? Voc pertence a esta casa agora - disse Geoff insistentemente e ela sorriu para ele. 
       Apenas esperava que Victoria voltasse, fosse para esta casa ou no, ningum sabia agora.
       -  por causa disso que eu tenho de ir  Europa, para falar com ela e me assegurar de que ela est bem e falar sobre todas essas coisas com ela.
       - Ela vai morrer? - Ele pareceu subitamente surpreso e um pouco assustado.
       - Claro que no! - disse ela, desejando acreditar nisso.
       Oh Deus... por favor, por favor, no a deixe morrer, disse para si mesma naquela noite repetidamente, enquanto se deitava na cama, prximo a Charles. Por 
um longo tempo ele no disse nada e ento rolou na cama e olhou para ela. Olvia no podia saber o que ele estava pensando.
       - Eu sempre soube que voc era teimosa, mesmo quando me casei com voc. Mas se voc insiste em ir, Victoria, eu vou com voc. - Ela estava abalada, mas aliviada. 
       Ir sem ele para a Europa em guerra seria aterrorizante e ela estava grata por ele se dispor a fazer isso.
       - Voc pode se ausentar do trabalho?
       - Vou ter de fazer isso.  uma emergncia. Vou dizer a eles que tenho uma cunhada louca e uma esposa impossvel e que tenho de ir  Europa para ajud-las. 
       Ele sorriu e Olvia o beijou, agradecida alm das palavras pelo que ele estava fazendo e j sentindo pelo que teria de contar a ele uma vez que chegassem 
l. Ela no ia dizer mais nada a ele at que visse sua irm. 
       - Mas deixe-me dizer a voc, se essas duas fedelhas no quarto ao lado algum dia fizerem o tipo de besteira que vocs fazem comigo, vou transform-las agora 
em duas crianas sem famlia, de sexos diferentes, ou ento em dois cachorrinhos.
       Ela riu, enquanto se agarrava a ele com medo naquela noite, e ele a abraou e a beijou.
       Olvia se preparou nervosamente para a viagem nos dois dias seguintes e no terceiro eles embarcaram no navio francs Espagne, com chegada prevista para dali 
a sete dias em Bordeaux. Era o nico navio partindo, a no ser o Carpathia, que havia estendido as velas na semana anterior e quatro anos antes resgatara Geoffrey 
do Titanic.
       Eles ficaram numa cabine externa pequena, no Deck B e, embora no fosse luxuosa, era confortvel, e eles cumpriram cuidadosamente os blackouts e passaram 
a maior parte do tempo na cabine. Tudo em que Olvia podia pensar ento era em sua irm gmea e Charles se esforava para tentar distra-la e elevar o moral.
       - No  exatamente como o Aquatania - disse ele uma noite, brincalho, lembrando-se de sua lua-de-mel. Ela sorriu e ele a surpreendeu com seu comentrio: 
- Que viagem miservel foi aquela!
       - Por qu? - perguntou ela surpresa e ele olhou para ela com muita estranheza.
       - Talvez eu tenha uma memria melhor do que a sua, mas posso dizer a voc agora que aquele primeiro ano quase me matou. Se as coisas no tivessem mudado h 
um ano, acho que eu teria me matado ou ento ido para um monastrio. Eu devia ter ido. 
       Ela sabia que ele estava se referindo ao celibato que sua irm prometera a ela, e aquilo a fez sentir-se culpada em relao a ela novamente. Elas tinham muitas 
explicaes para dar uma  outra. Apenas pensar naquilo a fez ficar quieta.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
TRINTA E DOIS
       
       
       
       Eles aportaram em Bordeaux dois dias antes de seu aniversrio de casamento, o que era suficientemente estranho, e o cnsul local deu a eles todos os avisos 
que pde sobre como chegar a Chlons-sur-Marne. Eles alugaram um carro que parecia incapaz de dar a volta no quarteiro e foram encontrar um representante da Cruz 
Vermelha em Troyes, para seguir o resto da viagem com eles. A viagem deveria levar 14 horas. 
       Normalmente teria sido menos, mas com as batalhas acontecendo em toda a sua volta, eles tinham de pegar uma rota mais tortuosa e j haviam sido avisados dos 
perigos em potencial. Eles haviam ganhado mscaras de gs, suprimentos mdicos bsicos e gua. Aquilo lembrou a ambos que estavam numa zona de guerra. Olvia experimentou 
a mscara de gs e no conseguiu imaginar como algum poderia respirar com ela, mas o guarda que a dera a ela assegurara que, se eles entrassem numa rea com gs 
de cloro, que os alemes estavam usando naquela semana, ela ficaria agradecida. 
       Ver aquilo fez Charles ficar aliviado por ter resolvido vir com ela. Ela jamais poderia ter feito isso sozinha, ou pelo menos ele achava que no. Ele no 
queria que ela fosse a lugar nenhum. E enquanto eles se dirigiam para o interior e viam a destruio da guerra, ele ficou ainda mais aliviado por ter tido o bom 
senso de acompanh-la.
       Eles encontraram a mulher da Cruz Vermelha em Loyes e ela os levou a Chlons-sur-Marne. Tiveram um pneu furado no meio do caminho e vrias vezes foram parados 
por soldados que os foravam a fazer meia-volta. Passava muito da meia-noite quando alcanaram o acampamento naquela noite e os trs estavam exaustos. Mas tudo o 
que Olvia queria, no importava que horas fossem, era ver sua irm. Charles tentou convenc-la a esperar at o dia seguinte, mas no havia nada que a detivesse 
e assim que saram do pequeno Renault, ela perguntou a um servente onde era o hospital e ele apontou a direo certa para ela. 
       Ela encontrou uma enfermeira saindo e perguntou se conhecia Olvia Henderson. Era como perguntar por si mesma, mas ela sabia quem estava procurando e viera 
de muito longe para encontr-la.
       Charles estava bem atrs dela e ouviu a jovem enfermeira dizer-lhe onde encontrar sua irm. E ento ele a seguiu vagarosamente para dentro da tenda, arfou 
com o cheiro horrvel e quase vomitou com as vises terrveis. Havia homens mutilados e feridos e vomitando verde por causa do gs de cloro. Aquilo tudo era familiar 
para Victoria; ela os vira durante um ano, mas nenhum dos dois jamais imaginara aquilo. Olvia comeou a se virar e ento um garoto que estava no cho estendeu a 
mo para ela, que gentilmente a pegou. Ele a tinha feito se lembrar de Geoff e se deu conta de que gostaria de que algum segurasse sua mo se isso algum dia acontecesse.
       - De onde voc ? - perguntou ele com um sotaque australiano. Ele havia estado na Batalha de Verdun e perdera uma perna, mas ia superar aquilo.
       - Sou de Nova York - sussurrou ela, sem desejar acordar ningum, mas ningum parecia estar dormindo. Tudo em torno deles estava se movimentando.
       - Sou de Sydney - sorriu ele para ela e saudou Charles, que o saudou de volta com lgrimas nos olhos. 
       Ento eles continuaram a caminhar para encontrar Victoria. Ela estava num catre no canto mais distante do aposento e tinha a cabea e o pescoo to envoltos 
em bandagens que Olvia a princpio nem mesmo a reconheceu ou se deu conta de que era uma mulher. E ento um instinto familiar a dirigiu diretamente para ela e subitamente 
estava olhando para ela, tocando-a e abraando-a. 
       Victoria estava muito fraca, mas sorriu e eles puderam ver que ela estava feliz por v-los.
       Mas ela s tinha olhos para Olvia e as duas mal falaram palavras inteiras ou frases completas. Era tudo sons e meias palavras e pequenos murmrios de excitao, 
enquanto Olvia colocava os braos em torno dela e a abraava. Aquele era o momento que ela esperava havia um ano. Havia muito para falarem uma  outra e muito pouco 
que pudessem falar ali. Mas estavam ambas inundadas por um redemoinho de sentimentos. Havia lgrimas escorrendo pelo rosto de Olvia enquanto Victoria segurava sua 
mo e sorria para Charles. 
       Ento ela falou numa voz fraca e tensa; ainda era difcil para ela falar. Ela estava com uma infeco na coluna vertebral e eles ainda temiam que ela fosse 
para seu crebro e a matasse. A sorte dela era que no fora muito grande. Se sobrevivesse, provavelmente iria andar novamente. Muitos outros no eram to sortudos. 
Esta era a crueldade de todas as guerras, e j havia destrudo milhes de pessoas.
       - Obrigada por ter vindo - sussurrou ela para Charles e ele estendeu a mo para toc-la, mas quando olhou para ela havia algo em seus olhos que o abalou.
       Era como se ela tivesse crescido muito ali; de certa forma, de uma maneira muito dura. 
Havia uma fragilidade nela que Olvia nunca tivera antes, pelo menos no que ele soubesse. Mas inevitavelmente ela havia amadurecido ali.
       - Estou feliz por termos encontrado voc - disse ele. E acrescentou: - Geoff mandou seu amor. Ns todos sentimos sua falta. Especialmente Victoria.
       Victoria olhou para a irm e, imperceptivelmente, Olvia assentiu. Ele ainda no sabia. Nem mesmo agora, quando ela estava ali morrendo. E ela queria perguntar 
a Olvia se elas iam contar a ele. Ela esperava que sim. Ela queria confessar tudo minuciosamente para ambos e pedir a Olvia para ir buscar seu beb se ela morresse. 
       Mas no houve tempo para pedir nada a eles naquela noite. Olvia ficou s um pouco e logo a enfermeira disse a eles para irem embora e foram levados para 
alojamentos separados. No havia acomodaes para casais ali. O que ela e Edouard haviam tido era raro e seus quartos j haviam sido dados a outro capito. As guas 
se fecharam sobre eles rapidamente. 
       Ele fora enterrado nas montanhas atrs do acampamento, com outros homens como ele. Ele havia sido diferente apenas para Victoria e para seu filho, mas no 
para os aliados ou os alemes. Victoria ainda estava se retorcendo de dor por t-lo perdido. Era tudo em que ela pensava em seus momentos de conscincia, nele e 
em Olvia. Mas pelo menos agora ela podia ver sua irm.
       Charles e Olvia se encontraram novamente no refeitrio no dia seguinte. Ambos haviam dormido muito mal e tudo o que Olvia queria agora era voltar a ver 
sua irm. Charles concordou em esperar do lado de fora para que elas pudessem ficar a ss por um tempo e conversou com alguns homens, sentindo-se culpado subitamente 
por seu pas no ter entrado na guerra. Eles estavam impressionados por ele ter vindo de to longe e cruzado o Atlntico para visitar a cunhada e ele ficou tocado 
ao se dar conta de que muitos deles a conheciam e pensavam muito nela. Todos disseram o quanto esperavam que ela sobrevivesse quilo. E quando Olvia sentou-se ao 
seu lado. Victoria estava sorrindo para ela, como se tivesse visto um pequeno pedao do paraso.
       - No posso acreditar que voc realmente est aqui. O que a fez vir?
       Ela sabia que provavelmente eles a haviam notificado, mas esperava que escrevessem uma carta que demoraria muito a chegar. Havia at mesmo se perguntado, 
mais de uma vez, se estaria morta quando a carta chegasse.
       - Recebi um telegrama de uma tal sargento Morrison. Preciso v-la mais tarde e agradecer a ela - disse Olvia gentilmente, inundada de sentimentos. Era to 
incrvel estar com a irm!
       - A boa e velha Penny Morrison. - Victoria sorriu e depois beijou os dedos de Olvia. - Oh, Deus, como senti sua falta, Ollie... tenho tanto para lhe contar 
- e era como se tivesse muito pouco tempo. 
       As enfermeiras disseram que ela estava melhor naquele dia, mas Victoria sentia uma dor de cabea horrvel. Ento olhou seriamente para sua irm gmea, impressionada 
por ela ter sido capaz de levar adiante aquela farsa por tanto tempo. 
       - No sei como voc conseguiu fazer isso.
       - Eu sempre fui melhor mentirosa do que voc - sorriu Olvia e Victoria tentou rir, mas doa muito; sentia como se sua cabea fosse cair se ela a movimentasse.
       - Esta  uma boa coisa para se alardear por a - disse Victoria, desejando poder rir, mas muito cansada para faz-lo. Elas duas haviam feito vinte e trs 
anos no ms anterior e, por razes diferentes, ambas se sentiam velhas. -Sinto muito por papai - disse ela ento, tentando tocar em todas as coisas importantes que 
haviam acontecido desde que ela os deixara. - Sinto muito por no estar l com ele.
       - Ele pensou que voc estivesse - sorriu Olvia amorosamente - e isso foi bom o suficiente. Ele morreu em paz. Eu estava com ele. 
       - Doce Ollie, voc est sempre a para todos... mesmo o pobre Charles, porque eu estava muito despedaada para ficar e ser a esposa dele.
       - Victoria, eu tenho algo para contar a voc - disse ela sem jeito. - As coisas no aconteceram do jeito que planejamos...
       Ela se perguntou se sua irm algum dia falaria com ela novamente, mas tinha de contar a ela. Fora para isso que viera. 
       - Ns tivemos gmeas trs meses atrs. - Ela cuspiu as palavras, enquanto Victoria a encarava com total assombro.
       - Gmeas? 
       Ela quase engasgou com a palavra e Olvia teve de lhe dar um gole de gua, mas ela assegurou  enfermeira que estava bem e rezou para que ningum viesse perturb-las. 
Victoria estava parecendo cansada, mas elas ainda estavam longe de ter terminado. 
       - Voc disse gmeas, no disse?
       - Sim, idnticas como ns; garotinhas... elas so lindas... - Ela sorriu com saudades, mas por enquanto Victoria no parecia ter vontade de mat-la. - Elizabeth 
e Victoria, por sua causa e de mame.
       - Essa parte eu entendo - sorriu Victoria para ela fracamente. - O que no entendi ainda  como voc as teve. - Ela estava sorrindo maldosamente para sua 
irm mais velha. - Devo acreditar que roubou meu marido? - Ela estava rindo na verdade, mas Olvia estava olhando para baixo, para suas mos, chorando, e no viu.
       - Victoria, por favor.. no... eu vou voltar para Croton quando voc voltar para casa... Apenas quero v-las quando puder... por favor... no...
       - Oh, cale-se! -Victoria estava sorrindo para ela, o melhor que podia apesar da dor, quando Olvia olhou para cima novamente. - Voc  uma garota m, no 
? Mas eu acho muito engraado. Olvia, eu no o amo. Eu nunca o amei. No o quero de volta. Ele  seu, se voc o quiser. 
       Ele era como uma boneca que elas haviam dividido. Agora Victoria o estava dando para ela e Olvia olhou para ela espantada. 
       - Foi por isso que eu no voltei no vero passado... eu no queria... eu no podia... - E ento ela sorriu novamente. - Quando realmente isso aconteceu? Quando... 
Ah... as coisas mudaram entre vocs, eu quero dizer?
       - Depois que descobri que voc havia sobrevivido ao naufrgio do Lusitania - disse ela docemente. 
       Estava to feliz por estar novamente com Victoria, era como um milagre estar com ela. Mesmo com as bandagens, ela ainda era a mesma que sempre fora; havia 
aquele lado ferino que Charles sentira na noite anterior e subitamente se lembrara.
       - Deve ter sido idia sua uma pequena celebrao? - Victoria riu, mesmo prxima  morte, ainda cheia de travessura.
       - Voc  nojenta! - sussurrou Olvia, tentando no sorrir para ela, mas sem conseguir. 
       Ela estava muito feliz por estar ali e muito aliviada por sua irm no estar furiosa com ela.
       - No, voc  nojenta! - continuou Victoria. - Eu dou a voc um relacionamento bom e casto com um homem que me odeia e no dormiria comigo nem se voc pagasse 
a ele e o que voc faz com ele? Voc o seduz. Voc  que  assim. Voc  a sedutora da famlia. Voc merece estar casada com ele. Pessoalmente, no posso pensar 
num destino pior, mas realmente vocs dois parecem muito felizes juntos. Ele  muito sortudo.
       - Eu tambm - sussurrou ela. 
       E enquanto Victoria olhava para Olvia seu corao encheu-se de amor e ela pensou o quanto tambm tivera sorte por um tempo, com Edouard e seu beb.
       - Ento o que fazemos agora? - perguntou Victoria a ela seriamente. - Ns temos que contar a ele.
       - Ele vai me odiar - disse Olvia parecendo plida, mas tambm ciente de que tinham de contar a ele.
       - Ele vai superar - assegurou Victoria a ela. - Ele  um homem decente. Ele vai ter um ataque por um tempo, mas o que ele vai fazer? Deixar uma mulher que 
ele ama, porque eu estou certa de que ele deve am-la, e dois bebs? No seja estpida! Falando nisso - ela pareceu acanhada com sua irm mais velha. - Tenho uma 
confisso a fazer.
       - Sim. - Olvia fingiu fazer o sinal-da-cruz sobre ela e ambas riram. - Depois de tudo o que fiz, espero que esta seja boa. 
       As duas ainda tinham o extraordinrio lao e um profundo entendimento entre si. Subitamente era como se no estivessem separadas por um ano, mas apenas por 
poucos minutos.
       - Eu tive um beb trs meses atrs tambm. No gmeos, graas a Deus, mas um lindo garotinho chamado Olivier - disse ela orgulhosamente, desejando ter uma 
fotografia para mostrar a Olvia, mas no tinha. - Talvez voc imagine em homenagem a quem eu dei esse nome a ele. 
       Por alguma estranha razo, embora Olvia soubesse que devia estar chocada, aquilo no a surpreendeu. Era quase como se ela soubesse antes que Victoria lhe 
contasse.
       - Ento foi por isso que voc no voltou no vero passado - disse Olvia pensativamente, mas Victoria sacudiu a cabea o mais suavemente possvel.
       - No, no foi. Eu simplesmente no quis. Acho que nem sabia ainda que estava grvida. O pai dele era um homem muito especial. 
       Ela ento contou a ela sobre Edouard, sobre tudo o que ele fora para ela, tudo o que ela pensava dele, o que haviam planejado e chorou enquanto falava sobre 
isso; ela nunca conhecera ningum como ele. Contou  irm tudo sobre ele e sobre como ele morrera. Ela sabia agora que a vida jamais seria a mesma sem ele. E Olvia 
sabia, enquanto a escutava, que sua irm encontrara o homem certo, aqui em Chlons-sur-Marne, com toda a agonia da guerra acontecendo em torno deles.
       - Onde est o beb agora? 
       Ela lhe contou que o deixara com a condessa no chal prximo ao chteau. Mas uma das enfermeiras havia vindo trazer uma mensagem, dois dias antes, dizendo 
que a condessa fora para a casa de sua irm porque havia mais franco-atiradores.
       - Quero que voc o leve para casa com voc. Eu o coloquei em meu passaporte. O seu, na verdade. Voc no vai ter nenhum problema para viajar com ele, por 
razes bvias, se Charles no se importar que voc viaje com seu velho passaporte.
       - Acho que haver muitas coisas para Charles pensar depois que falarmos com ele, mas algumas ele ter de suportar. 
       Ele no tinha de ficar casado com ela, j que no eram casados mesmo, mas no podia impedi-la de levar o beb de Victoria para casa, para a segurana. 
       - E voc? - perguntou ento, certa de que ela ficaria melhor agora que estavam juntas. - Quando voc vai para casa? 
       Com o homem que ela amava tendo morrido e depois de ter sido ferida, no havia razo em permanecer ali, mas Victoria apenas pareceu melanclica.
       - Talvez eu no tenha de ir, Ollie - disse ela tristemente e um calafrio percorreu sua espinha. 
       Sem Edouard, ela sentia como se no tivesse casa agora. Olvia ficaria com Charles e ela no podia ver-se morando na casa de seu pai em Nova York, que ela 
herdara e menos ainda em Henderson Manor. O nico lugar em que ela queria estar era com Edouard e ela disse isso a sua irm.
       - No diga coisas assim! - disse Olvia, parecendo assustada e ferida, mas era quase como se Victoria no quisesse viver sem Edouard agora, mesmo por seu 
beb.
       - Ele deixou seu chteau para Olivier e sua casa em Paris tambm. Assim que ele nasceu, Edouard entrou em contato com seus advogados e refez seu testamento. 
Ele queria ter certeza de que sua esposa no ficaria com tudo. Mas de acordo com a lei francesa, Olivier est protegido de qualquer forma. E ele tem o nome de Edouard. 
Quando voc chegar em casa, deve dar a ele seu prprio passaporte, em seu prprio nome. 
       Ela estava muito preocupada com o beb, mas Olvia estava profundamente preocupada com ela.
       - Por que voc no volta para casa conosco?
       - Veremos - ela disse vagamente, parecendo inquieta e Charles veio juntar-se a elas um pouco mais tarde. 
       Mas ento tudo j havia sido dito e Victoria estava ficando muito sonolenta. Ele a observou por alguns minutos novamente e ento saram. Charles achou que 
ela parecia pssima, mas no disse isso a Olvia. Em vez disso, foram ao refeitrio para tomar caf. E quando voltaram mais tarde, ela estava dormindo.
       Foi no fim daquela tarde que eles voltaram para v-la novamente. A enfermeira disse que ela estava com febre e eles no deviam ficar muito tempo, mas ela 
no disse nada sobre o que aquilo queria dizer ou sobre haver algum perigo grave. Victoria dissera que queria ver Charles naquela tarde. Ela queria contar a ele 
por si mesma. Achava que era justo assim e quando ele entrou e se aproximou, ela parecia muito plida, mas estranhamente em paz.
       - Charles, ns temos algo para contar a voc - disse ela suavemente. Olvia no podia imaginar ouvir aquilo, muito menos deix-la sozinha dizendo isso e seu 
corao estava batendo forte. Mas Victoria sempre fora mais corajosa do que ela. - Ns fizemos algo terrvel com voc um ano atrs. No  culpa dela - ela olhou 
para Olvia, mas no disse seu nome a princpio. - Eu quero que voc saiba que eu a forcei a fazer isso. Eu senti que tinha de fazer.
       Um estranho calafrio percorreu a espinha dele, enquanto ele olhava para ela. Havia algo assustadoramente familiar nela; aqueles olhos, a frieza neles, e ainda 
assim ele sentia uma estranha espcie de excitao por ela.
       - No quero ouvir isso agora - disse ele, com vontade de sair correndo da tenda como uma criana fugindo de uma punio, mas Victoria o segurou firmemente 
com seu olhar enquanto ficava l deitada.
       - Voc tem de ouvir, no haver outra hora - disse ela friamente. 
       Ela queria restabelecer tudo, pelo bem de todos. Agora era a hora. Ela sabia que tinha de fazer isso. 
       - No sou quem voc pensa que sou. No sou nem mesmo quem meu passaporte diz que sou, Charles.
       Ela olhou para ele longa e duramente e ele soube, enquanto ela ficava l deitada. Ele olhou para Olvia, boquiaberto, e ento de volta para sua esposa, a 
real, que estava deitada ferida na tenda do hospital em Chlons-sur-Marne, no a mulher com quem ele havia se deitado durante um ano e que dera  luz suas crianas.
       - Voc est me contando... voc est me dizendo... - Ele sabia, mas no podia ousar diz-lo.
       - Estou dizendo algo que voc j sabia e talvez no quisesse ouvir - disse ela, ainda forte, mesmo  porta da morte. 
       Mas ela o conhecia bem, apesar de seu desprezo por ele. Ela sentira que ele tivera uma intuio instintiva quando olhara para ela de que ela era a mulher 
com quem havia se casado, e no a mulher com quem ele viera de Nova York.
       Olvia sentiu lgrimas nos olhos enquanto ouvia sua irm gmea continuar, embora fosse to doloroso para todos os trs.
       - Estou dizendo a voc que odivamos um ao outro e voc sabe disso. Ns teramos nos destrudo se eu tivesse ficado. Foi um arranjo com o qual nenhum de ns 
dois poderia viver... ela o ama, voc sabe... Olvia foi boa para voc durante um ano. Eu no estive 1, mas posso ver nos olhos dela e nos seus... voc a ama tambm. 
Charles, voc nunca me amou e sabe disso. 
       Ela estava certa, mas aquilo apenas fazia suas palavras doerem mais. Se ela estivesse inteira, ele a teria esbofeteado, mas agora ele no podia. Podia apenas 
olhar para ela com horror, subitamente forado a encarar algo que jamais se permitira pensar. E, forado por ela a encarar isso agora, ele olhou para sua esposa 
de verdade, furioso.
       - Como voc ousa me falar isso agora!... como voc ousa!... vocs duas... - Ele estava encolerizado com elas, falando com a voz mais suave que ele podia, 
com centenas de homens em torno deles. -Vocs no so crianas brincando... essa troca de que vocs sempre tiveram tanto orgulho... voc era minha esposa, voc me 
devia algo, Victoria, mais do que isso... - Ele estava quase sem voz de tanto ultraje.
       - Eu devia a voc muito mais do que lhe dei. Tudo o que eu algum dia poderia dar a voc era sofrimento. E voc jamais se deixaria me amar. Voc tinha tanto 
medo... voc estava muito ferido pelo que havia perdido, mas talvez Olvia... talvez ela tenha dado a voc o que voc queria. Voc no tem medo dela, Charles. Se 
voc fosse honesto sobre isso, admitiria que a ama. Voc no me ama, voc me odeia. Pelo bem de Olvia, se nada mais, ela queria que ele visse aquilo.
       - Eu odeio vocs duas e no vou ficar aqui e deixar voc me dizer o que eu fiz ou no fiz, devia ou no devia ter feito, ou quem eu amo porque  conveniente 
para voc. No dou a mnima se voc est doente ou ferida ou Deus sabe o qu. Acho que vocs duas so doentes; vocs brincam com as pessoas como se fossem brinquedos! 
Bem, eu no sou um brinquedo. Vocs me ouviram? - disse ele, aumentando a voz finalmente, olhando para as duas, totalmente enraivecido e ento saiu intempestivamente 
da tenda o mais rpido que pde, lutando contra as lgrimas, incapaz de acreditar naquilo. 
       Olvia estava chorando suavemente e Victoria segurava sua mo o mais apertado que podia, o que no era muito.
       - Ele vai superar, Olvia... acredite em mim, ele no a odeia... - mas ela estava ficando agitada e a enfermeira veio pedir a Olvia que sasse. 
       Ela beijou gentilmente o rosto de sua irm e prometeu voltar mais tarde. Estavam todos muito comovidos para falar mais. Olvia procurou por Charles do lado 
de fora, mas no conseguiu encontr-lo em lugar algum, at que finalmente o achou medindo os passos do lado de fora do acampamento dos homens. 
       - No fale comigo - disse ele furiosamente quando ela se aproximou e levantou a mo como se para det-la. - Eu nem mesmo a conheo. Voc  uma estranha. Eu 
no conheo nenhum ser humano decente que pudesse fazer uma coisa dessas com algum. Nem por um dia, ou um ano, ou trinta meses, certamente no para ter dois bebs. 
 obsceno, voc  imoral, vocs duas! Vocs so doentes! Vocs deveriam se casar uma com a outra. - Ele estava to enfurecido que estava tremendo.
       - Sinto muito... no sei mais o que dizer... eu o fiz por ela a princpio... e por voc e Geoff. Eu simplesmente no queria que ela os deixasse.  verdade. 
       Ela estava soluando e quase perdendo o controle enquanto falava. No podia suportar 
a idia de perd-lo, mas sabia que agora tinha de pagar o preo de sua mentira.
       - No acredito em voc - disse ele friamente. - No quero ouvir nada mais de voc ou de sua irm.
       - E depois eu fiz por mim - disse ela tristemente. - Papai estava certo. - Ela decidiu jogar todas as suas fichas. No tinha nada a perder agora. - Eu sempre 
o amei, desde o incio, e quando ele pediu a voc que se casasse com ela, eu fiquei sem nada, exceto passar a vida inteira com ele. Era minha nica chance de estar 
com voc, de ser sua - as lgrimas estavam escorrendo por seu rosto enquanto ela olhava para ele, mas Charles no olhou para ela. - Charles, eu te amo - disse ela, 
totalmente agoniada, mas ele a encarou com fria.
       - No me diga isso. Voc fez de mim um tolo. Voc me seduziu, mentiu para mim, me enganou. Mas voc no  nada para mim - disse ele cruelmente. - Tudo o que 
voc fez, teve e conseguiu era uma mentira. Ns nem mesmo somos casados. Voc no significa nada para mim - disse ele, enquanto ela sentia seu corao se partir 
em mil pedaos.
       - Nossas crianas no so uma mentira - disse ela gentilmente, suplicando silenciosamente para ele perdo-la, mesmo se levasse a vida toda.
       - No - disse ele, com lgrimas sufocando-o - mas graas a voc, so bastardas.
       - Ele se afastou dela e entrou na barraca dos homens, onde ela no podia segui-lo. 
       E ela voltou para se sentar perto da irm. Victoria estava adormecida e uma enfermeira colocou os dedos nos lbios, pedindo a Olvia para no acord-la. Ela 
estava exausta e a febre havia subido.
       Olvia no viu Charles novamente naquele dia. Ela no sabia onde ele havia ido, mas ele no voltou mais para a tenda do hospital e ela perguntou a si mesma 
se ele estaria planejando partir sem ela. Se o fizesse, ela teria de lidar com isso. Ela estava planejando ficar at que pudesse levar Victoria para casa com o beb. 
       Olvia dormiu numa cadeira a seu lado toda a noite, tentando ignorar o rudo dos homens que estavam sofrendo e morrendo. Sua irm acordou uma ou duas vezes 
e sempre que 
Olvia andava em volta para se esticar, as pessoas falavam com ela, pensando que fosse Victoria. Era particularmente enervante j que a chamavam por seu nome, pois 
Victoria ficara conhecida como Olvia ali, menos para Edouard.
       Charles finalmente voltou a aparecer ao lado da cama de Victoria na manh seguinte. Ela estava acordada e Olvia havia acabado de sair para tomar um caf.
       - Foi uma performance e tanto ontem - disse ela para ele parecendo cansada, mas ainda lcida o suficiente para brigar com ele. 
       E ele sorriu para elas, pensando que algumas coisas no mudam. Ele podia perceber agora o que ela havia dito, que eles nunca poderiam ter se casado. Ele tinha 
pensado muito durante a noite.
       - Voc me pegou de surpresa. Foi uma revelao e tanto - disse ele e ela estreitou os olhos para ele. No acreditava nele.
       - No acho, Charles, no realmente. Voc est me dizendo que nunca soube, nunca nem mesmo suspeitou que ela era totalmente diferente de mim? Olhe para ns: 
ela  gentil e suave e querida e daria sua vida por voc, mesmo agora. Voc e eu mataramos um ao outro, se tivssemos uma chance. Ns somos como franceses e alemes. 
       Ambos sorriram. Era verdade e eles o sabiam.
       - No me diga que voc nunca soube, nunca imaginou, nunca pensou nisso. Voc deve ter pensado, pelo menos uma vez... talvez duas... ou mais... mas voc preferiu 
no saber.
       - Voc pode estar certa -admitiu ele, o que a surpreendeu. - Talvez eu no quisesse saber. Era to fcil e to confortvel, e to bom. Eu queria muito que 
as coisas funcionassem entre ns e talvez Olvia tenha sido a resposta.
       - No se esquea disso agora. No a destrua s porque est com raiva. - Ela foi muito firme com ele. No queria que ele magoasse sua irm.
       - Voc  espantosa, vocs duas so - disse ele com um suspiro, admirando-a de certa forma. Ela era to forte, to desejosa de fazer qualquer coisa pela irm, 
bem como Olvia por ela. - No estou certo de que algum dia v entender esse relacionamento.  como se fossem duas almas e uma pessoa. Ou talvez o contrrio - ele 
sorriu. 
       -Acho que estranhos jamais entenderiam isso.
       - Voc pode estar certo. Eu a sinto em meu corao s vezes. Eu sei quando ela precisa de mim. 
       Como ela sabia agora. Olvia estava num estado terrvel por causa das coisas que Charles dissera a ela na manh anterior.
       - Ela diz a mesma coisa - disse ele calmamente. 
       E ento ele se lembrou de algo e tudo ficou claro. Foi logo depois que Olvia havia supostamente partido para a Califrnia. 
       - Voc estava no Lusitania, por acaso? - Ele perguntou com um estranho olhar e ela assentiu.
       - No tenho muita sorte com viagens ocenicas - disse ela melancolicamente e ele sorriu.
       - Ela ficou sonhando que estava se afogando. Tive que chamar um mdico para ela.
       - Demorou trs dias para que eu conseguisse mandar a ela um telegrama; as coisas estavam confusas em Queenstown. Eu nunca poderia dizer a voc o que foi tudo 
aquilo. Comparado quilo - ela lembrou da mulher dando  luz na gua ao lado dela, antes de morrer - isto aqui no  nada. Foram as crianas que fizeram tudo ser 
to horrvel. 
       Ela fechou os olhos para bloquear aquelas lembranas e ele tocou sua mo. Ele podia sentir que ela estava apagando.
       - E agora? O que voc quer que eu faa? 
       Ele fora at ali para fazer as pazes com ela. Para ele, apesar de seu choque inicial, a guerra com ela tinha acabado.
       - Eu tenho um filho. Quero que Ollie o leve para casa com ela - disse ela claramente, seus olhos cheios de lgrimas.
       Ele pareceu surpreso e ela sorriu atravs das lgrimas para o homem que uma vez fora seu marido. 
       - Da mesma forma que aconteceu com voc e Ollie. Gostaria de ver suas garotinhas - disse ela tristemente.
       - Voc vai v-las - disse ele, perdoando-a por tudo o que ela havia feito, embora no estivesse certo do por que, mas no parecia importar mais. 
       Estava acabado. Ele fora at l para dizer isso a ela, que no importava. E se ela quisesse, ele se divorciaria dela. 
       - Voc vai ver as garotas quando voltar para casa - disse ele, querendo que ela acreditasse nele, mas ela sacudiu a cabea com um olhar que dizia que ela 
sabia mais.
       - No, Charles, eu no vou... eu sei... - Ela no parecia assustada, apenas triste.
       - No seja boba!  por isso que estamos aqui. Para lev-la para casa... e seu beb tambm. - A vida nunca era simples. - Onde est o pai dele? - perguntou 
Charles gentilmente, imaginando se ele algum dia a conhecera.
       - Ele morreu... foi quando eu fui ferida.
       - Bem, ento melhore para que eu possa levar voc para casa e me divorciar de voc. - Ele sorriu e se curvou para beij-la, e ela olhou para ele estranhamente.
       - Sabe... da minha prpria maneira louca, acho que amei voc. Apenas no era certo para ns dois... mas eu quis de verdade no incio.
       - Eu tambm - disse ele melancolicamente. - No acho que eu j tivesse me restabelecido de Susan.
       - V buscar sua esposa... ou sua cunhada... ou o que quer que ela seja... - Ela tentou sorrir, mas doa muito e ela estava ficando confusa.
       - Adeus, sua garota maluca... vejo voc mais tarde - disse ele e deixou-a ento, com um sentimento muito estranho. 
       Ele no sabia o que era, mas estava comeando a se sentir como Olvia, com todas as suas premonies. Ele voltou para o refeitrio a fim de procur-la, mas 
no conseguiu encontr-la. E ela tambm no estava no acampamento das mulheres. Ele sentiu falta dela a tarde toda e se deu conta, enquanto andava por ali, de que 
era seu aniversrio de casamento naquele dia. O segundo. A questo era com que mulher? Ele teve de sorrir com o absurdo daquilo tudo e quando voltou para ver como 
estava Victoria, viu Olvia adormecida numa cadeira perto dela. Victoria tambm estava dormindo e as duas estavam de mos dadas enquanto dormiam e quase pareciam 
duas crianas.
       - Como ela est? - perguntou ele  enfermeira e ela apenas deu de ombros e sacudiu a cabea.
        A infeco estava se alastrando vagarosamente para cima. Era difcil de acreditar. Ela s vezes era to racional, to ousada e tambm to mal-humorada e, 
em outras, to doce. Olvia havia visto todos os lados dela enquanto ficava sentada ali. Charles desapareceu sem acordar nenhuma das duas e  meia-noite Olvia chamou 
a enfermeira. Ela mesma estava sentindo dores no peito e pde ver que Victoria estava tendo problemas para respirar.
       - Ela no consegue respirar - explicou Olvia, mas sua irm gmea parecia dormir profundamente.
       - Consegue, sim - insistiu a enfermeira. - Ela est bem. 
       To bem quanto podia estar naquelas circunstncias, mas Olvia sabia mais que a enfermeira. Colocou um pano mido em sua testa e sustentou-a um pouco mais 
no alto e quando Victoria acordou novamente, ela sorriu para sua irm.
       - Est tudo bem, Ollie... no faa isso... Edouard est esperando.
        - No! - disse Olvia furiosamente, de sbito apavorada com o olhar em seu rosto. Ela estava indo embora, e ningum fazia nada para impedir. - No... voc 
no pode fazer isso, sua danadinha. Voc no pode desistir. - Olvia estava chorando enquanto a abraava.
       - Estou to cansada - disse ela, sonolenta. - Deixe-me ir, Ollie.
       - No deixo! - Ela sentiu como se estivesse lutando contra o prprio demnio.
       - Est bem, est bem... eu serei boazinha... v dormir... - disse ela para sua irm mais velha. 
       E Olvia segurou-a por um longo tempo, observando-a e ento finalmente Victoria caiu num sono calmo e Olvia se sentiu mais confortvel em relao a ela. 
Victoria abriu seus olhos, olhou-a mais uma vez e sorriu para ela e Olvia se abaixou e beijou-a. Victoria beijou-a de volta e sussurrou algo. Olvia escutou-a dizer 
que a amava.
       - Eu tambm te amo. 
       Ela deitou a cabea no travesseiro com ela e dormiu um pouco, sonhando que eram crianas. Elas estavam brincando num campo em Croton, prximo ao tmulo de 
sua me e seu pai as estava observando e sorrindo. Todos pareciam muito felizes.
       E pela manh, quando acordou, Olvia olhou para Victoria, e ela havia morrido. Havia um pequeno e doce sorriso em seus lbios e ela segurou a mo da irm. 
Mas no houve nenhum movimento nela. Olvia havia tentado de tudo, mas Victoria fora brincar com os outros.
       Quando Olvia saiu do hospital naquele dia, estava cambaleando. Era o dia 21 de junho de 1916 e sua irm gmea estava morta, metade de sua vida, metade de 
sua alma, metade de seu ser. Ela no podia imaginar como seria ficar sem ela. Embora tivessem ficado separadas no ltimo ano, Olvia sempre soube que ela estava 
l em algum lugar e que a veria. Agora ela jamais a veria novamente. Ela tinha ido embora. Estava acabado. Terminado. Ela havia perdido Charles, teria que desistir 
de suas crianas e agora perdera sua irm gmea. Ela no podia imaginar um destino pior do que aquele e queria gritar para Victoria lev-la com ela. E ento, como 
se pudesse ouvir a voz da irm em sua cabea, Olvia lembrou de sua promessa de levar o beb para casa.
       Ela entrou numa das tendas dos oficiais e perguntou se era possvel conseguir um motorista para lev-la ao chteau. Ela explicou o que queria e um rapazinho 
francs sorriu para ela e se ofereceu para lev-la. Ele conhecera Edouard e Olvia, como a chamava, embora ainda no soubesse que ela estava morta. E Olvia no 
conseguia contar a ele. Ele disse que era apenas um pequeno caminho de carro e ela pensou em contar a Charles, mas sabia que no podia contar mais nada a ele. Ela 
perdera esse direito. Ele havia dito que ela no significava nada para ele agora; ela no era nada para ele. E ele ainda no sabia, mas acabara de ficar vivo.
         

























TRINTA E TRS



       Olvia j estava a caminho do chteau quando Charles voltou para o hospital para ver Victoria. Quando chegou, a enfermeira sacudiu a cabea e apontou para 
a cama vazia e ele ficou l boquiaberto. Ele nem mesmo se sentiu triste por ela. Sabia que ela queria se libertar, sentira aquilo, mas tudo o que queria agora era 
encontrar Olvia e consol-la. A despeito de como se sentia com a traio dela, ele mal podia comear a imaginar o sofrimento dela naquela manh. Era impensvel 
e ele sabia que tinha de encontr-la rapidamente.
       - Voc viu minha esposa... minha... h... sua irm? - perguntou ele  enfermeira.
       Ainda estava tudo confuso, mas ela sacudiu a cabea e disse que ela partira logo depois que sua irm morrera, por volta de sete horas. Ele procurou por ela 
no refeitrio, mas no conseguiu encontr-la em lugar nenhum. A essa hora, Olvia j estivera no chteau e ficara sabendo onde estava a castel. Estava em Toul, 
que ficava a duas horas de viagem e Marcel, o garoto que a levara at l, concordara em lev-la.
       Ela disse muito pouco a ele na viagem. Ele olhou para ela uma ou duas vezes e viu que estava chorando suavemente. Ele lhe ofereceu um cigarro ela sacudiu 
a cabea e finalmente olhou para ele. Ele era to jovem, mal teria dezoito anos. Falaram um pouco sobre a guerra e ento finalmente chegaram a Toul. 
       Olvia encontrou a condessa na pequena casa para qual haviam sido mandados e ento, enquanto a condessa apresentava suas condolncias, ela mostrou o beb 
a Olvia. Ele era bonito, rechonchudo, louro e feliz. Havia algo de Victoria nele, mais em termos de sentimento do que de aparncia. Na verdade, suas prprias crianas 
se pareciam mais com sua irm do que ele, mas Olivier era adorvel e arrulhou de felicidade quando ela o segurou. Era quase como se soubesse que ela havia vindo 
busc-lo e ele a fez sentir-se solitria, no apenas por Victoria, mas por suas prprias crianas.
       A condessa ficou triste por dizer adeus a ele, mas estava satisfeita por ele estar indo para casa, para ficar em segurana com sua tia e ento pediu a Marcel 
para ser cuidadoso. As linhas de batalha estavam se desviando h semanas e havia franco-atiradores diariamente nas montanhas, como Olvia sabia muito bem. Ela segurou 
o beb em seu regao no caminho de volta e ele dormiu a maior parte do tempo. 
       Mas na metade do caminho de volta, Marcel viu algo de que no gostou  sua esquerda e desviou enquanto as balas por pouco no os atingiam.
       - Merde! - disse ele sem hesitar. - Abaixe-se - disse ele a ela, que se encolheu no cho do carro abraando o beb.
       Os atiradores atiraram nele novamente e ele saiu em disparada, mas ouviu barulho de tiros novamente e sentiu as balas sobre a cabea. Levou o carro para uma 
velha estrada no campo, para dentro de uma fazenda velha e deserta, escondendo-o no estbulo. Ele apontou para o mezanino e correram para l, deitando-se ali enquanto 
ela segurava o beb. No era isso o que tinham planejado, pensou Olvia consigo mesma, tentando avaliar a situao. As coisas no pareciam bem, com ela sentada no 
feno ao lado de um garoto francs de dezoito anos com sua arma desembainhada e o beb de sua irm morta.
       Ningum foi atrs deles e eles ficaram l sentados o dia todo, incapazes de ir a lugar algum, enquanto pequenas tropas de alemes se moviam em torno deles. 
Elas nunca chegaram muito perto do estbulo, mas este ficava num campo aberto e no havia cobertura para que sassem dali. No havia meio de irem a lugar algum e 
no tinham comida ou gua para eles e o beb.
       - O que vamos fazer? - perguntou ela nervosamente. 
       O beb estava comeando a chorar e ela no era nem um pouco to corajosa quanto sua irm. Ela s fora at l para busc-la. Jamais esperara fazer nada como 
isso, mas por Victoria e sua criana, ela estava desejando ser um pouco herica.
       Ns teremos de tentar novamente depois do cair da noite - disse Marcel com uma expresso preocupada. 
       No havia mais nada que pudessem fazer. Naquela noite, eles podiam ouvir bombardeio pesado perto deles e o silvo de morteiros. Ela apenas rezou para que no 
houvesse um ataque de gs, pois nem mesmo trouxera sua mscara. Com o choque de deixar Victoria no hospital, quando ela morrera, Olvia a perdera em algum lugar.
       - Ns precisamos aliment-lo - disse Olvia referindo-se ao beb.
       O pequeno Olivier no comia h horas e estava gritando. Ele queria sua me, ou algum que conhecesse, ou pelo menos algum jantar. Mas pelo menos em um aspecto 
Olvia levava vantagem. Ele olhava para ela e achava que a conhecia. Mas, familiar ou no, ela no tinha nada a dar para ele. Ela parara de amamentar meses atrs 
e nem pensou em tentar.
       Anoitecia quando eles finalmente saram do mezanino e Marcel sugeriu que ela ficasse ali e esperasse. Ele voltaria ao acampamento a p atravs dos arbustos. 
Ele queria buscar ajuda, mas no queria que ela se arriscasse indo com ele. Ele insistiu que no levaria mais de duas horas e ento mandaria ajuda. Soava razovel, 
mas de qualquer maneira era aterrorizante. Ela sabia que, se os alemes o capturassem, podiam voltar para procur-la e atirar nela. Ou ento ela e Olivier nunca 
seriam encontrados e simplesmente ficariam ali e morreriam de fome. Mas, mesmo se a matassem, ela esperava que pelo menos os alemes poupassem o beb. 
       Mas Olvia no tinha outra chance e, vinte horas depois que haviam deixado o acampamento, Marcel deixou-a no estbulo e ela observou enquanto ele corria a 
toda velocidade para um local seguro. Ele estava quase nas rvores no fim do campo quando ela os viu acertarem-no na cabea e nas costas. Ela o viu cair deitado 
com o rosto para baixo na margem do campo. No havia esperana de que estivesse vivo. Ele ficou l completamente sem movimento e os atiradores nem mesmo se preocuparam 
em ver como ele estava. 
       Eles sabiam que estava morto, assim como Olvia, e se moveram para outros pastos, deixando Marcel morto num campo em algum lugar da Frana e Olvia presa 
numa casa de fazenda com o beb faminto de sua irm. As coisas no deviam ter sido assim e ela no tinha idia do que fazer agora. A nica coisa que podia fazer 
era esperar e ver se qualquer pessoa viria, os aliados de preferncia, ou fazendeiros, ou ento entrar no carro e dirigir atravs do inferno. Mas ela dirigira apenas 
uma ou duas vezes antes e no estava certa de que poderia sequer dar partida no carro, muito menos dirigi-lo.
       - Ento, o que fazemos agora? - perguntou ela a Olivier, que finalmente chorara at adormecer em seus braos, mesmo sem jantar. 
       Mas ele estava acordado novamente s seis da manh. Ele estava desesperado por comida ou bebida e Olvia tambm chorou ao ouvir seu choro zangado. Ela no 
tinha nada a dar para ele e sentia como se estivesse falhando com sua irm. Ele no via comida h dezoito horas, nem ela, e tinha medo de que ele ficasse desidratado 
se no lhe desse algum leite ou gua rapidamente. Ela pensou em andar de volta para o acampamento com ele em seus braos, ou at mesmo dizer aos alemes que era 
americana se eles a parassem, mas ela tinha medo de que eles primeiro atirassem e depois perguntassem. 
       No fim, ela no fez absolutamente nada; apenas ficou sentada ali, rezando para que o beb adormecesse novamente. E finalmente, desesperada, ela levantou sua 
blusa e o amamentou. 
       Ela no tinha leite, mas pelo menos parecia oferecer a ele algum pequeno conforto e ela no tinha mais que se preocupar se os atiradores passantes poderiam 
escut-lo. Por fim, s quatro da tarde, ela ouviu dois caminhes passarem e, quando olhou para fora da janela estreita no estbulo, pde ver que eram aliados. Ela 
deixou escapar um grito e acenou com a mo atravs dos vidros quebrados e eles pararam e voltaram, enquanto ela descia rapidamente a escada, segurando o beb. Ficou 
surpresa ao ver que a sargento Morrison estava num caminho com um motorista e Charles estava sendo levado em outro. Quando ela e Marcel no retornaram, com a insistncia 
de Charles, eles haviam mandado um comboio para busc-la.
       - Graas a Deus! - disse ela, olhando para todos eles ao mesmo tempo, profundamente aliviada por eles a terem encontrado.
       Ela tivera certeza de que eles jamais a encontrariam e que ela e Olivier morreriam. Ela havia acabado de perder as esperanas quando eles a encontraram. Mas 
Charles no disse uma palavra a ela enquanto ficava sentado no caminho, olhando para ela. E para Olvia ele ainda parecia extremamente zangado.
       - Voc podia ter sido morta - disse ele friamente, sua voz e suas mos tremendo. 
       Toda essa experincia ultrapassara o pior de qualquer coisa que ele pudesse ter imaginado. Suas revelaes para ele, a morte de Victoria, a guerra em si, 
os garotos feridos e Olvia perto de ser morta agora, presa numa fazenda, tentando salvar o beb de sua irm. Era demais para seu estmago e ele mal podia falar 
enquanto a olhava.
       - Sinto muito - disse ela calmamente, tentando resistir  fora de seu dio.
       Mas muito estranhamente aquilo a fazia soar como sua irm. Ele nem mesmo teve a chance de dizer a ela o quanto sentia por tudo aquilo antes que a sargento 
Morrison a empurrasse rapidamente para dentro do caminho com o beb. E eles voltaram para o campo o mais rapidamente possvel antes do anoitecer. Olvia contou 
a eles sobre Marcel, mas eles haviam mandado homens para aquela rea na noite anterior e j o sabiam. Eles iam voltar com uma unidade mais tarde, para buscar seu 
corpo e os de outros cinco. Era horrvel.
       - Sinto tanto - disse ela  sargento Morrison sobre Marcel, sobre a guerra, sobre Victoria, sobre a expresso nos olhos de Charles quando ele olhava para 
ela agora. 
       Ela sabia que ele jamais a perdoaria. E, assim que voltaram, ela foi para o refeitrio para alimentar a criana e ele foi para o escritrio tentar arranjar 
passagens num navio saindo de Bordeaux. Eles enterrariam Victoria pela manh e Olvia sentia-se quase paralisada. Era coisa demais para absorver agora.
       O enterro, da maneira que foi feito, foi pequeno e estranho. Um padre entoou umas poucas palavras por ela e uma dzia de outros. Eles a enterraram numa caixa 
plana de pinho, sem nome ou marca em sua sepultura. Ela era apenas uma pequena cruz branca numa montanha da Frana. Olvia s esperava que eles a tivessem colocado 
em algum lugar perto de Edouard. Mas ela estava to chocada que mal podia chorar. Estava muito confusa para sentir qualquer coisa enquanto permanecia de p. Ela 
sentiu como se estivessem enterrando parte dela, seu corao, sua alma, sua mente. Olvia sentia que estava perdendo partes suas sem se importar absolutamente, enquanto 
os olhava baixarem sua irm para dentro da terra e segurava seu beb adormecido. Ele havia comido e bebido com fartura novamente, mas, para confort-lo, Olvia continuara 
a amament-lo.
       Charles observou seu rosto ao lado do tmulo, horrorizado com o que ela devia estar sentindo, mas por orgulho ela no o deixou ficar perto dela. Eles ficaram 
ali como dois estranhos, observando o corpo de Victoria ser baixado para dentro da terra to longe de casa e Olvia colocou uma pequena flor branca na sepultura 
e chorou enquanto se afastava, segurando o beb. Ela mal podia respirar, era to terrvel. Era como se a tivessem enterrado e talvez tivessem mesmo. Ela perdera 
tudo o que amava na ltima semana, at suas crianas. 
       Mas a perda de sua irm gmea era muito mais que aquilo; era algo fsico que machucava tanto que ela pensou que ficaria louca com a dor que sentia. Era quase 
insuportvel.
       Eles andaram vagarosamente de volta para o centro do acampamento chorando e sem falar, ambos tentando absorver que Victoria havia acabado de ser enterrada. 
E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Olvia desapareceu dentro da barraca das mulheres e no saiu de l at a manh seguinte. Charles perguntou por ela 
muitas vezes, mas as pessoas a quem ele perguntava estavam ocupadas, cansadas e no pareciam conhec-la. Houvera um recente fluxo de voluntrios e as mulheres no 
conheciam Olvia ou sua irm.
       As enfermeiras na barraca das mulheres pegaram o beb quando ela entrou e Olvia se deitou no catre e chorou o dia inteiro. No havia ningum com quem ela 
quisesse falar ou a quem quisesse ver, nem mesmo Charles, que ela sabia que ainda estava muito zangado com ela. Tudo em que ela podia pensar era nas coisas que ele 
dissera a ela depois que as duas haviam lhe contado a verdade e na maneira como a olhara quando foi encontr-la na casa da fazenda.
       Eles partiram para Bordeaux novamente na manh seguinte s seis horas e, antes que partissem, Olvia agradeceu novamente  sargento Morrison e a todas as 
enfermeiras. Didier veio at ela com lgrimas nos olhos e beijou o beb despedindo-se, dizendo que jamais o esqueceria ou sua me. Havia um punhado de gente dando 
adeus quando eles partiram e Olvia no sabia quem era a maior parte deles, mas a triste verdade era que no importava mais.
       Eles chegaram a Bordeaux no fim daquela tarde e esperaram no lobby de um pequeno hotel para embarcar no navio  meia-noite. Eles mal tinham qualquer bagagem 
com eles e Olvia comprou apenas poucas coisas para o beb. Tudo o que ela queria agora era lev-lo para casa a salvo. Amamentando-o e amando-o no lugar de sua irm, 
comeara a surgir um forte lao entre eles. E pouco a pouco, mesmo trs meses aps o nascimento de seus bebs, enquanto ela o amamentava, seu leite comeou a chegar. 
       Mas mais que tudo, sobrinho ou filho, ela sentia como se ele fosse o ltimo presente de sua irm. E ele era ainda mais precioso para ela por aquela razo.
       - O que voc vai fazer com ele? - perguntou Charles calmamente, enquanto esperavam no hotel para embarcar novamente no Espagne. 
       Eles haviam vindo de Nova York apenas duas semanas atrs, mas parecia uma eternidade.
       - Vou lev-lo para Croton comigo - disse ela calmamente e Charles olhou-a.
       -  para 1 que voc vai? - perguntou ele polidamente e ela assentiu.
       - Suponho que sim - respondeu ela e ele no disse nada depois daquilo at que embarcassem.
       Eles tinham duas cabines na viagem de volta. Ele as pedira, presumindo que ela preferiria assim. As convenincias tinham de ser observadas agora, como o Sr. 
Charles Dawson, a srta. Olvia Henderson e beb. As coisas eram um pouco diferentes no caminho de volta. E Charles literalmente no a viu enquanto estavam a bordo. 
Ele ainda estava lambendo suas feridas, pensando em Victoria e na sujeira que elas haviam feito antes e mantendo-se  distncia. E sentindo tudo aquilo, Olvia no 
saiu de sua cabine ou se o fez, ele no viu.
       Ele passou a maior parte do tempo sozinho, pensando na ltima vez em que vira Victoria e nas coisas que ela dissera. Ela estava certa sobre tudo. E ele sentiu 
como se eles tivessem feito as pazes entre si e pensou muito nas coisas que ela dissera sobre sua irm. Ele podia apenas imaginar o tamanho da desgraa que tinha 
sido para Olvia perd-la, rasgando carne de carne, alma de alma, as peles de seus coraes separadas, ou talvez apenas um corao partido. Ele no podia nem mesmo 
imaginar como Olvia ia viver sem ela. Nem podia imaginar que elas haviam sido loucas o suficiente para trocar de lugar e fazer Olvia viver com ele, como homem 
e mulher, por um ano inteiro, e no contar a ele. Ele pensou no que Victoria dissera ento, que ele devia ter sabido e no quisera. Ele imaginou se havia alguma 
verdade naquilo e pensou nas vezes em que ele quase suspeitara e ento expulsara os pensamentos de sua mente porque era mais fcil no t-los.
       Ele se deu conta tambm de que Victoria devia ter prometido a Olvia uma relao adorvel, sem exigncias fsicas e ento tudo havia mudado... mas tudo mudara 
porque... ela havia sido to gentil... e to doce... e ele a quisera to intensamente. E, casado ou no, ele tivera com ela algo que jamais tivera com nenhuma mulher. 
Lembrou tambm da noite em que as gmeas haviam nascido. Estranhamente, deu-se conta, como tambm haviam feito Victoria e Olvia, que, se ignorasse a diferena de 
fuso horrio entre os dois lugares, seus bebs haviam nascido com poucas horas de diferena um dos outros. Era tudo to estranho, to incrvel e to difcil de saber 
onde uma comeava e outra terminava, onde estava a mentira ou a verdade, ou simplesmente a inteno discreta. Era difcil saber o que tinha sido amor ou desejo, 
e ela estava certa sobre aquilo tambm; ele tivera medo de am-la e no a deixara am-lo. Mas com Olvia fora tudo to diferente. Ele vivera um ano com cada uma 
delas, parecia to insano e agora estava claro para ele quem era sua esposa e a mulher que ele amava, e quem no era.
       Era seu terceiro dia no mar, no meio do caminho da Frana para Nova York, quando ele finalmente no pde mais agentar e bateu na porta da cabine dela. Era 
uma cabine menor que a dele, mas ela insistira naquilo e dissera que o reembolsaria assim que voltassem para casa, o que ele achou insultante. Ele no esperava nem 
queria ser reembolsado por sua passagem.
       Olvia abriu dois dedos da porta e parecia horrvel. Magra, plida e cansada, e era bvio que ela estivera chorando.
       - Posso entrar? - perguntou ele polidamente. Ela hesitou e ento abriu a porta um pouco mais.
       - O beb est dormindo - disse ela, como se para desencoraj-lo e ele sorriu.
       - Vou tentar manter minha voz baixa. Venho querendo falar com voc h dias. Desde antes de sua irm morrer, na verdade. Mas no pude chegar perto de voc. 
Eu a vi na manh anterior... ns tivemos uma boa conversa.
       - Ela me disse. Ela disse que voc no estava mais zangado com ela.
       - E no estava. Acho que ela estava certa sobre muitas coisas. S que fui muito estpido para saber disso. Ela foi mais esperta e corajosa do que eu. Eu teria 
esperado at que o navio naufragasse, como aconteceu. Ela conseguiu sair. Eu devia ter feito isso tambm.
       - Nem sempre  fcil- disse Olvia suavemente, sabendo bem disso agora. 
       Mas em seu caso no havia nenhum lugar de onde sair. Eles no eram casados. Era tudo desiluso.
       - Eu queria pedir desculpas a voc - disse Olvia ento, formalmente. - Voc estava certo sobre o que disse tambm. Ns no tnhamos o direito de fazer isso 
com voc. Foi errado... no sei o que nos fez pensar que era tudo certo, que tnhamos esse direito... apenas pensei... no sei, pareceu-me apenas uma chance de ter 
uma vida com voc, o que era realmente uma loucura.
       - No realmente. 
       Ele sorriu para ela, ainda um pouco abalado com o que elas haviam feito. Mas de certa forma ele podia ver suas razes, embora ainda o assustassem um pouco.
        - Realmente no havia outra maneira de termos ficado juntos. E vocs duas estavam certas. Ns ramos bons juntos.
       - ramos? - perguntou ela tristemente.
       - Somos - disse ele suavemente. - Ns somos muito bons juntos, Olvia. Seria errado desistir disso agora. No era o que ela queria - disse ele muito gentilmente, 
com medo at de chegar perto dela, que parecia extremamente arruinada e assustada.
       - E o que voc quer? - perguntou-lhe Olvia, lembrando-se das coisas que ele dissera e de seu olhar de dio, tanto do lado de fora do refeitrio quanto na 
fazenda, onde ele a olhara como se quisesse mat-la.
       Ela nunca o vira to zangado. O que ela no sabia era que ele jamais ficara to apavorado. Naquele momento, ele estava certo de que ela havia sido assassinada 
pelos alemes, com ou sem o beb. E tudo o que ele queria fazer era traz-la de volta da morte e sacudi-la.
       - Eu quero voc - disse Charles suavemente - da forma como ficamos no ltimo ano, como poderamos ter ficado desde o incio, se eu tivesse dito a seu pai 
para ir plantar batatas com sua filha louca e selvagem, com todo o respeito devido a ela, e se eu tivesse sido corajoso o suficiente para ir atrs de voc em primeiro 
lugar. Eu sabia que podia me apaixonar por voc, e ela estava certa, eu tinha medo de voc, e dela tambm. Estava com um medo to danado de amar voc que corri direto 
para os braos dela, porque ela era selvagem, excitante e segura e eu sabia que no havia chance na terra de eu um dia am-la.
       - Voc foi quase to louco quanto ns. - Olvia sorriu para ele, enquanto o beb se movimentava no bero atrs dela. - Essa  realmente uma razo estpida 
para se casar.
       - Ento talvez ns mereamos um ao outro - sorriu ele timidamente e ento ela tentou explicar algo que o fez sorrir mais abertamente.
       - Voc sabe que eu nunca tive a inteno de... Victoria disse... - Ele sabia exatamente o que ela queria dizer, e ela estava corando fortemente enquanto o 
dizia.
       - No acredito numa palavra disso, voc sempre teve a inteno de me seduzir... eu sei que teve... - argumentou ele e pegou-a nos braos, desejando que ela 
o seduzisse novamente, mas ele no estava muito certo do que ela faria agora.
       Ele fora incrivelmente cruel e ela tinha todo o direito de no perdo-lo. E ento ele pensou em algo mais e fez a ela outra pergunta. 
       - Geoff sabia, ou suspeitava? - Ele sempre a conheceu to bem e podia diferenci-las quando ningum mais podia.
       - Eu o enganei por um tempo - disse ela. -Acho que ele suspeitava um pouco, mas eu marquei pontos sendo m com vocs de vez em quando para que no suspeitassem. 
Mas quando cortei minha mo em Croton, em junho passado, ele viu a sarda antes que eu pudesse impedi-lo.
       - E ele sabia esse tempo todo? - Ela assentiu, como que pedindo desculpas.
       - Impressionante!
       Ele procurou sua mo ento e olhou para ela. A sarda estava em sua mo direita, mas lgrimas encheram seus olhos quando ela a viu. No importava mais. Ela 
tinha morrido, no haveria mais brincadeiras ou risos ou decepes. Ela se afastou dele e baixou a cabea, sofrendo. 
       - Eu sinto tanto a falta dela - sussurrou.
       - Eu tambm - disse ele suavemente. - Sinto falta de saber que ela  algum especial em sua vida, que ela estava sempre ali por voc e de ver voc feliz - 
disse ele tristemente. - Sinto falta do seu sorriso... e de amar voc ... e de estar com voc... sinto muito por todas as coisas terrveis que disse... sinto muito 
por ter levado tudo to mal a princpio. - Ento ele chorou como ela. - Sinto muito por voc t-la perdido. 
       Ela assentiu e ficou chorando em seus braos por um longo tempo enquanto ele a abraava e ento finalmente ela olhou para o homem que quase fora seu marido.
       - Eu o amava, Charles... eu realmente sinto muito.
       - E agora? Voc ainda poderia me amar?
       Ela sorriu para ele; era uma pergunta tola. Ela sempre o amaria. 
       - Claro que poderia! Eu ainda o amo. Voc no pode mudar isso. 
       - Ento voc vai se casar comigo? - perguntou ele solenemente, falando srio.
       - No seria um pouco embaraoso para voc, ou um pouco estranho, no mnimo? E certamente escandaloso se algum soubesse por que voc est fazendo isso?
       - No estou nem um pouco embaraado. Acho que  mais embaraoso estar cercado de crianas, nenhuma delas legal, ou muito poucas pelo menos. Eu estava pensando 
que o capito poderia nos casar aqui, no navio, antes mesmo de chegarmos em casa. 
       Ele sorriu e ela sorriu de volta. Ela amava a idia de casar-se no caminho de casa e depois ficar com ele. E tudo seria legal no fim das contas. Ento ele 
se ajoelhou, segurou sua mo na dele e pediu-a em casamento e ela riu. 
       - Bem, voc aceita? - perguntou ele formalmente.
       - Aceito.
       - Obrigado - disse ele e ficou de p e a beijou. - Vou falar com o capito. 
       E quando ele disse isso, o beb comeou a gritar e Olvia olhou para ele com um sorriso e depois para seu futuro marido.
       - Voc sabe que, com Olivier, ser como ter trigmeos.
       - Talvez ele coloque um pouco de equilbrio em suas vidas - disse ele diretamente para ela, que pareceu envergonhada, mas ele a beijou novamente e saiu da 
cabine para fazer os arranjos, enquanto ela pegava o beb para amament-lo.
       Eles se casaram no dia seguinte  tarde, na cabine do capito, e ela usou o nico vestido decente que tinha, um verde, e carregou as nicas flores que o florista 
do navio tinha, cravos brancos. Eram tempos de guerra. Charles beijou a noiva quando o capito os declarou marido e mulher, e no dia seguinte, quando se aproximavam 
de Nova York, passaram um rdio para Geoff e Bertie dizendo que estavam a caminho de Nova York, com previso de chegada na sexta-feira. E assinaram o radiograma 
Papai e Ollie. 
       Eles estavam de p no deck, no parapeito do navio, enquanto o Espagne atracava vagarosamente e a salvo no porto de Nova York e Bertie estava na doca com Geoff 
e os dois bebs. Cada um carregava um e, enquanto Geoff acenava para eles, pareceu confuso ao ver a criana nos braos de seu pai, e Olvia soube que teriam de explicar 
tudo a ele, o melhor que pudessem e guardar o resto at que fosse mais velho. Mas ela o viu olhando para ela quando o navio aportou e segurou a mo de Charles. Ele 
estava tentando ver qual delas ela era, quem tinha voltado para casa, e ento ela o viu assentir, dizer algo a Bertie e acenar freneticamente para ela. Ele a reconhecera. 
Ela voltara para casa e para ele novamente. Ele no perdera sua amada Ollie. 
       Fora Olvia quem perdera a pessoa mais querida de sua vida desta vez, a irm que fora sua parceira, sua confidente, sua amiga, sua cmplice em todas as travessuras. 
Ela no podia imaginar estar sem ela agora, sem ela para discutir ou rir. Seria um mundo diferente para Olvia e ela sabia que sempre sentiria uma parte dela perdida, 
mas ao mesmo tempo ela soube que Victoria estaria sempre ali, em sua cabea, seu corao e sua alma, pois no podia esquec-la. Para ela, Victoria fora a pessoa 
que ela mais amara, at Charles e suas crianas. 
       
       Ela era o outro lado de sua vida, de seu corao... o outro lado do espelho.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       





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